O sistema coronelista de poder definir-se-ia por relações de poder manifestadas de diferentes formas e situações nos diversos contextos históricos regionais da trajetória política brasileira. Contudo, foi utilizado verticalmente pelo Estado em formação, por meio da cooptação de lideranças locais conforme a conjuntura específica de cada localidade ou região.
O sistema coronelista se sustentou na medida em que o poder público (compreendido no governo estadual e federal) compartilhou com o poder privado (representado pelo coronel) interesses, o compromisso coronelista, que mantém a posição privilegiada de ambos no jogo político. Na análise deste sistema político complexo, antes de procurar formular conceitos que, muitas vezes, não correspondem à prática vislumbrada no trabalho com fontes empíricas, deve-se ter consciência de que conceituações generalizantes não poderão dar sustentação ao sistema e às suas peculiaridades regionais.
Por este motivo, são praticamente intermináveis as discussões em torno de seu conceito, pois raramente os autores levam em consideração as distintas conjunturas regionais sobre as quais recai a determinação do sistema, extremamente complexo e específico à evolução política brasileira e de cada região do país em particular.
A origem do coronelismo advém da criação da Guarda Nacional pelo governo do padre Diogo Antônio Feijó, em 18 de agosto de 1831 (extinta em 1918), com o intuito de manter a ordem institucional no vasto território da nação que se formava, além de procurar conter as perturbações políticas e sociais decorrentes da abdicação de D. Pedro I. Faziam parte da corporação os adultos entre 21 e 60 anos que tivessem renda superior a 200 mil-réis, nas quatro maiores cidades, e de mais de 100 mil-réis no restante do país. Os oficiais eram nomeados pelo ministro da Justiça, sob recomendação dos presidentes de província.203
203 Sobre as origens do coronelismo conferir a explicativa nota de Basílio de Magalhães, em: LEAL, Victor
Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. 3. ed. São Paulo: Alfa- Omega, 1976, p. 19-21.
Possuía como maior objetivo coibir movimentos de contestação à ordem estabelecida, assim como pressionar os grupos sociais, conforme os interesses dos senhores de terras. Neste contexto, eram os donos dos poderes locais que ocupavam os principais postos e, com o passar do tempo, a patente de coronel deixou de ser exclusivamente uma designação militar para indicar também o poder político dos líderes locais.
Tal medida serviu para estreitar os laços entre o poder estatal e o poder privado, com a cooptação do grande senhor de terras e escravos, base da organização social brasileira, que agiam praticamente sem o controle do Estado. A Guarda Nacional era constituída de elementos que nas localidades menores e mesmo nas maiores do país, passaram a ter o título de Coronel, Major, Capitão, Tenente e até mesmo Alferes para, em caso de riscos, manter a segurança e o equilíbrio social, perturbado por qualquer desordem.
A Guarda Nacional, também chamada “Milícia Cidadã”, foi organizada em todo o Império, mas era formada a partir dos municípios, de modo que, através da sua criação, o governo imperial reconheceu a primazia do poder político e econômico dos poderes locais, legitimando esses grupos, que se colocavam como defensores da ordem pública.
A divisão dos poderes locais na República Velha tem origem no Império, já que disputas entre facções municipais ocorriam desde o início do processo de criação da Guarda Nacional, pois cada grupo visava organizar e controlar a Guarda Nacional no município, que passaria a ser instrumento destas facções locais. Nas palavras de João Gualberto:
Durante o Império, a Guarda Nacional estruturou o poder local, ampliando o poder dos latifundiários, (…) nos processos eleitorais seus oficiais eram eleitos para os cargos mais importantes (…). Uma vez consolidados como núcleo central do poder o coronel iria ainda mais longe. Ele se transformaria na própria representação do poder, e não mais no intermediário da corte ou do imperador. Isto se daria com o fim do Império e a proclamação da República.204
Tendo sido criada com o objetivo de sustentar o governo central, sua organização por municípios possibilitava o fortalecimento das forças políticas locais em detrimento do poder central.205Para ilustrar como se apresentava o poder do coronel, tanto para seus subordinados,
se reproduz a seguir um fragmento que retrata o modelo considerado clássico do sistema
204 VASCONCELLOS, João Gualberto Moreira. A Invenção do Coronel: Ensaio sobre as raízes do imaginário
político brasileiro. Vitória: UFES, 1995, p. 50.
205 Sobre as origens da Guarda Nacional: FARIA, Maria Auxiliadora. A Guarda Nacional em Minas (1831-1873).
Curitiba: Dissertação de Mestrado em História/UFPR, 1977; RODRIGUES, Antônio; FALCON, Francisco; NEVES, Margarida. A Guarda Nacional no Rio de Janeiro (1831-1918). Rio de Janeiro: PUCRJ, 1981. Especificamente para o caso do Rio Grande do Sul, conferir: RIBEIRO, José Iran. Quando o serviço nos chama:
Milicianos e Guardas Nacionais gaúchos (1835-1845). Porto Alegre: Dissertação de Mestrado em
político coronelista. Trata-se de um perfil do coronel José Bezerra de Araújo Galvão, do município de Currais Novos, no estado do Rio Grande do Norte:
O seu nome soava como uma nota de clarim, vibrando nas quebradas das serras e dos vales, como defensor da honra alheia, dos limites da propriedade privada, da moça ofendida, do pobre que apelava para a sua proteção, inimigo da prepotência, defensor dos hábitos e dos costumes de seu povo, transformados por uma sedimentação de vários séculos em norma de vida ou código de lei. No seu município predominou por muito tempo o regime do Estado sou eu. O município era ele. A lei era ele. O juiz, o delegado, o padre, era ele. Tudo isso, é lógico, dentro do decoro, da prudência, da polidez, da cordura que o seu nome de homem superior, inteligente, experimentado, abrangia, sem dizer que estava mandando. (…) Os seus
homens de confiança eram guardiões de segurança da cidade, do município, da
redondeza. Vem daí, em grande parte, o seu prestígio, a sua força moral, perante o povo bom, honesto e simples do sertão. (…) As famílias viviam unidas confraternizadas na dor, no sofrimento, na alegria, em torno do seu chefe.206
O coronelismo, como sistema político, predominou durante a República Velha (1889- 1930), mas suas principais características, o mandonismo e o clientelismo, foram gestadas em um período anterior e, ainda hoje, manifestam-se de variados modos. O senso comum ainda identifica alguns estilos políticos em nível municipal, estadual ou federal como coronelísticos, mesmo que sem a permanência do sistema existente durante a República Velha.207
Suas características podem ser resumidas na concentração de poder de um ou alguns poucos personagens, em um espaço restrito. Baseava-se, a princípio, no poderio econômico (mas não exclusivamente)208 e no prestígio político particular, seguido pela união familiar ou
de parentela e, por fim, completada pela sua relação com os aliados ou dependentes; mesmo que essas relações de poder não tenham sido irreversíveis ao longo do tempo. Era um sistema 206 CARONE, Edgard. Coronelismo: definição histórica e bibliográfica. In: Revista de Administração de
Empresas. Rio de Janeiro: 11 (3), jul. /set. 1971, p. 87 (grifos do autor).
207 Um grupo de pesquisadores desenvolve, atualmente, análises sobre a expressão “coronelismo eletrônico”,
tratando-se a complexa relação existente entre as esferas da política e da comunicação, como do acesso da política sobre a comunicação, baseada no controle exercido sobre a propriedade de meios de comunicação, bem como da concessão desses veículos à figuras políticas atreladas ao governo. A expressão coronelismo eletrônico inclui a relação de clientelismo político entre os detentores do Poder Público e os proprietários de canais de televisão e redes de rádios e jornais, o que configura uma subserviência do setor público em relação aos interesses particulares. Detalhes mais apurados sobre essa interessante temática podem ser vistos em: CAPPARELLI, Sérgio; SANTOS, Suzy dos. Coronéis eletrônicos, voto e censura prospectiva. In: Cultura Vozes. Petrópolis, v. 96, n. 4, 2002, p. 14-24; COSTA, Sylvio e BRENER, Jayme. Coronelismo eletrônico: o governo
Fernando Henrique e o novo capítulo de uma velha história. In: Comunicação & Política, vol. IV, n. 2,
maio/agosto, p. 29-53; SANTOS, Suzy; CAPPARELLI, Sérgio. Coronelismo, radiodifusão e voto: a nova face
de um velho conceito. In: BRITTOS, Valério Cruz; BOLAÑO, César Ricardo Siqueira (Orgs.) . Rede Globo: 40 anos de poder e hegemonia. São Paulo: Paulus, 2005, v.1, p. 77-101. STADNIK, Célia. A hipótese do fenômeno do “Coronelismo Eletrônico” e as ligações dos parlamentares federais e governadores com meios de comunicação de massa no Brasil. Porto Alegre: Monografia de conclusão do curso de
Jornalismo/FAMECOS/PUCRS, 1991.
208 No Rio Grande do Sul republicano, nem sempre oficiais da Guarda Nacional foram comerciantes ou grandes
proprietários, sendo o exemplo mais latente disso o caso de Adão Latorre, negro e pobre, mas que ocupou, nas forças oposicionistas, o posto de tenente-coronel em 1893 e coronel em 1923.
de poder autoritário, baseado em relações de poder complexas e de redes de compromissos entre as instância estatal (estadual ou federal) e os coronéis ao nível local, de forma que:
O governo estadual garante, para baixo, o poder do coronel sobre seus dependentes e seus rivais, sobretudo cedendo-lhe o controle dos cargos públicos, desde o delegado de polícia até a professora primária. O coronel hipoteca seu apoio ao governo, sobretudo na forma de votos. Para cima, os governadores dão seu apoio ao presidente da República em troca de reconhecimento por parte deste de seu domínio no estado.209
A partir do coronelismo se constituiu, na figura do coronel, um duradouro imaginário simbólico brasileiro. O autoritário mundo dos coronéis marcou profundamente a trajetória política e social do país, contribuindo para a constituição das mais variadas formas culturais e/ou literárias, nas quais essas relações de poder foram minuciosamente descritas.210
Como todo discurso é ideologicamente marcado pela seleção, tanto pelo historiador quanto pelo ficcionista, os fatos históricos também podem ser analisados tendo em vista as representações daqueles acontecimentos encontradas na literatura. Para ilustrar o caso rio- grandense, vale observar no fragmento a seguir, do escritor Roque Callage (datado de 1923), a dramaticidade do recrutamento de “voluntários” para as populações coloniais:
Em Jaguari. Tarde tristonha de hibérnia desenvolta. Fina garoa impertinente cai, incessante, desde as primeiras horas da manhã, quando o chuvisqueiro era ainda uma vaga neblina. Mês de julho. O frio é intenso. Pela frincha das portas, pelas frestas dos casebres e dos ranchos o minuano, cortante, assobia num desespero de louco. A vila, habitada por colonos de nacionalidades diversas, sobrepujando porém o forte braço germânico, está numa doce quietude pacífica, num silêncio de colmeia em repouso. Na sua única e longa rua, a morrer em ligeiras curvas até o alto da serra por onde segue a estrada da colônia Ernesto Alves, poucos caminhantes afrontam, àquela hora, a intempérie do dia.
Súbito, na direção da Matriz, além da ponte, ouve-se um convulsivo lamento das mulheres misturado ao choro incessante de crianças. Ao olhar do primeiro curioso, o quadro se destaca então numa crueza selvagem de tintas: um grupo de homens – oito agricultores humildes – de cabeça baixa, pernas algemadas, marcham à frente de uma escolta à cavalo da Brigada Militar. Como voluntários, mas voluntários a maneador, vão verificar praça no Corpo Provisório da mesma milícia... Foram apanhados de surpresa, exatamente quando se entregavam ao rude trabalho da roça,
209
CARVALHO, José Murilo de. Mandonismo, coronelismo, clientelismo: uma discussão conceitual. In: Pontos
e Bordados: escritos de história e política. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999, p. 132.
210 Para tal basta conferir as obras de Jorge Amado onde, invariavelmente, os coronéis nordestinos se fazem
presentes nas suas mais diversas facetas; além de Graciliano Ramos, José Cândido de Carvalho, Euclides da Cunha e Guimarães Rosa dentre outros. Para o caso do Rio Grande do Sul, conferir: PINTO, Aureliano de Figueiredo. Memórias do Coronel Falcão. Porto Alegre: Movimento, 1986, 3.ed.; VERÍSSIMO, Érico. Incidente
em Antares. Porto Alegre: Globo, 1971 e BAUMGARTEN, Carlos Alexandre & MOREIRA, Maria Eunice
(orgs.). Literatura e guerra civil de 1893. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1993; JUVENAL, Amaro (Ramiro Barcelos). Antônio Chimango: poemeto campestre. 25. ed. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1998; SEVERO, José Antônio. Os senhores da guerra. 2. ed. Porto Alegre: L&PM, 2000.
na “linha” mais próspera da colônia. Não houve rogos, não houve súplicas que tocassem ao ânimo insensível e frio dos seus recrutadores.
- Nada de lamúrias. Tinham que ir ou por bem ou por mal, pra defender a legalidade...
E assim como estavam no trabalho, assim vieram, tocando estrada, demanda à vila, seminus, escoltados, manietados como criminosos. Atrás deles, uma a uma, de criancinhas ao colo, seguiam mulheres e filhos numa procissão de Calvário, exprimindo no seu choro convulso e nos seus lamentos longos, a dor infinita dos lares desfeitos.211
Para que se tenha uma ideia precisa do que tenha sido o coronelismo, em suas mais variadas facetas, dependendo das especificidades onde ocorreu, deve-se diferenciá-lo em relação ao mandonismo e ao clientelismo. Tendo em vista a ambiguidade do emprego destes conceitos, bastante próximos entre si, torna bastante claro o princípio de que:
A multiplicidade de níveis de coronéis é, assim, o primeiro aspecto essencial, a originalidade da estrutura política do Brasil, na Primeira República, traço que se prende diretamente à estrutura sócio-econômica tradicional do país; (…) O coronelismo se integra, pois, como um aspecto específico e datado dentro do conjunto formado pelos chefes que compõem o mandonismo local brasileiro – datado porque, embora aparecendo a apelação de “coronel” desde a segunda metade do Império, é na Primeira República que o coronelismo atinge sua plena expansão e a plenitude de suas características. O coronelismo é, então, a forma assumida pelo mandonismo local a partir da Proclamação da República: o mandonismo local teve várias formas desde a Colônia, e assim se apresenta como o conceito mais amplo com relação aos tipos de poder político-econômico que historicamente marcaram o Brasil.212
O mandonismo, tipo de hostilidade “que se manifesta na perseguição aos adversários”,213 seria uma característica da política tradicional brasileira. Existe desde o
período colonial, sobrevivendo ainda em regiões isoladas, onde a população depende quase que exclusivamente dos recursos e da proteção de um líder local, refletindo-se numa relação de poder com caráter pessoal, pois o “o mandonismo não é um sistema, é uma característica da política tradicional”. O coronelismo como um “momento particular do mandonismo”214 e,
assim como o clientelismo, caracterizam as práticas coronelistas. Geralmente ocorre indefinição sobre os conceitos de coronelismo e mandonismo, bem como entre confundir-se o coronelismo com o conceito de clientelismo, que deve ser compreendido como:
211
Texto extraído de: Roque Callage (1886-1931): Uma Época do Rio Grande: Antologia. Porto Alegre: Callage & Filhos e Relatório Serviços de Marketing, 1997/98, p. 53-54.
212 QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. O mandonismo local na vida política brasileira. São Paulo: Alfa-Omega,
1976, p. 172.
213 LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. 3. ed. Rio
de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1997, p. 61.
214
um tipo de relação entre atores políticos que envolve concessão de benefícios públicos, na forma de empregos, vantagens fiscais, isenções, em troca de apoio político, sobretudo na forma de voto. (…) Clientelismo seria um atributo variável de grandes sistemas políticos. Tais sistemas podem conter maior ou menor dose de clientelismo nas relações entre atores políticos.215
As práticas clientelistas tornam-se evidentes quando observadas a partir de uma análise aprofundada em nível local ou regional, através dos reflexos que as relações de clientela desencadeiam em uma perspectiva mais ampla, inferindo “características gerais do sistema político a partir da generalização de estudos de caso”.216
Pelo fato do coronelismo possuir nitidamente relações de tipo clientelista, não significa afirmar que estas relações são exclusivas do sistema político coronelista. O clientelismo consiste numa forma de fazer política muito mais ampla do que aquele, variando e se adaptando de acordo com o desenvolvimento do processo histórico.
O clientelismo, por sua forma de apresentar-se, não se vinculando “a nenhum tipo específico de organização social, sendo encontrado em sociedades não apenas com diferentes regimes políticos, mas também com diferentes níveis de desenvolvimento econômico”217,
perpassa toda a história política e social brasileira, desde o período colonial até os dias atuais.
O clientelismo não é uma prática exclusiva do coronelismo, do mesmo modo que este não é caracterizado apenas por relações de clientelistas. Relações que envolvam a concessão de benefícios públicos, benefícios fiscais, o nepotismo, isenções de impostos, em troca de apoio político e votos, ainda estão presentes na sociedade. Segundo Murilo de Carvalho:
Os autores que veem coronelismo no meio urbano e em fases recentes da história do país estão falando simplesmente de clientelismo. As relações clientelísticas, nesse caso, dispensam a presença do coronel, pois ela se dá entre o governo, ou políticos, e setores pobres da população. Deputados trocam votos por empregos e serviços públicos que conseguem graças à sua capacidade de influir sobre o Poder Executivo. Nesse sentido, é possível mesmo dizer que o clientelismo se ampliou com o fim do “coronelismo” e que ele aumentou com o decréscimo do mandonismo. À medida que os chefes políticos locais perdem a capacidade de controlar os votos da população, eles deixam de ser parceiros interessantes para o governo, que passa a tratar com os eleitores, transferindo para estes a relação clientelista.218
215
CARVALHO, José Murilo de. Op cit., p. 134.
216 AVELINO FILHO, George. Clientelismo e política no Brasil: revisitando velhos problemas. In: Novos
Estudos CEBRAP. São Paulo, n. 38, março/1994, p. 226.
217
MARTINS FILHO, Amilcar. Clientelismo e representação em Minas Gerais durante a Primeira República:
uma crítica a Paul Cammack. In: Dados – Revista de Ciências Sociais. Rio de Janeiro, vol. 27, n. 2, 1984, p.
181-182.
218
A relação existente entre os conceitos de clientelismo, coronelismo e mandonismo não pode levar ao erro de tê-los como sinônimos, pois se desenvolveram em situações políticas, econômicas e sociais específicas. No caso rio-grandense, o crescimento da burocracia nas mãos do PRR possibilitou que o empreguismo fosse uma das características mais sensíveis do coronelismo no estado. Isso fez com que a política de clientela se desenvolvesse também no ambiente urbano, onde a organização de algumas categorias profissionais importantes em determinada região, motivou que esse processo de concessão de favores se acentuasse.
As práticas clientelistas podem ser vistas não apenas da perspectiva de quem manda, mas também do ângulo de quem obedece, pede, agradece ou busca, a partir de quem quer que detenha poder, algum favor de ordem material ou pessoal, de modo que o coronel era identificado como “um chefe político, de reconhecido poder econômico, que conseguira apoio e prestígio junto ao governo estadual, na razão direta de sua competência em garantir eleições situacionistas”.219
Estes três conceitos, muito próximos entre si, porém não sinônimos, exemplificam que cada um deles teve ou tem sua particularidade e seu momento de maior abrangência e atuação no âmbito político nacional. A trajetória deles foi muito bem traçada por Murilo de Carvalho:
O coronelismo retrata-se como uma curva tipo sino: surge, atinge o apogeu e cai num período relativamente curto. O mandonismo segue uma curva sempre descendente. O clientelismo apresenta uma curva ascendente com oscilações e uma virada para baixo nos últimos anos.220
As discussões em torno do conceito de coronelismo e de conceituações aparentemente congêneres (mandonismo e clientelismo), provocaram a justa indagação de Murilo de Carvalho, ao questionar “se toda essa discussão conceitual não é inútil disputa acadêmica”.221
A impossibilidade de uniformizar um conceito de coronelismo, que abrangesse os distintos processos históricos regionais, sobre os quais recaem as bases deste sistema político, fez com