1.
“AS IDÉIAS EM SEU CONTEXTO: A GÊNESE DOS IDEAIS DE LIBERDADE
E DEMOCRACIA EM SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA E ASSIS CHATEAUBRIAND NAS DÉCADAS DE 1920-1930”
“a linguagem vai além dos signos”. Maurice Merleau-Ponty
No presente capítulo discutiremos o contexto histórico e intelectual em que o
ideário nacionalista de Assis Chateaubriand e Sérgio Buarque de Holanda se formou e
se fixou. Entendemos, nesse momento, importante compreendermos as relações entre as
idéias de Liberdade e Democracia, assim como a democracia-liberal, e o universo de
pensamentos e de ações do qual ambos os intelectuais fizeram parte e dialogaram em
seus escritos.
Nessa direção, Quentin Skinner salientou que a fim de percebermos a produção
intelectual como resposta a questões específicas, precisamos saber algo da sociedade
onde viveram os autores estudados, em nosso caso: Assis Chateaubriand e Sérgio
Buarque de Holanda. Afinal, não podemos olhá-los como sujeitos a parte das estruturas
mentais de sua sociedade, como se analisassem os eventos de fora, como se fossem
meramente re-constituidores do passado ou observadores de seu tempo.
Na tese, em seu todo, temos como ponto de partida pensar os intelectuais
dialogando e se referindo aos problemas de sua sociedade, tempo e cultura, como
sujeitos ativos frente aos eventos, que em suas atividades, fossem jornalísticas, literárias
afirmou Michel de Certeau,
ainda que isso seja uma redundância é necessário lembrar que uma leitura do passado, por mais controlada que seja pela análise dos documentos, é sempre dirigida por uma leitura do presente. Com efeito, tanto uma quanto a outra se organizaram em função de problemáticas impostas por uma situação”(2000:34).
Seja no campo do imediato do qual a imprensa é a rainha ou da análise histórica
e sociológica, como nos afirmou Certeau em sua análise, toda a atividade intelectual, de
alguma forma, é dirigida por inquietações e insatisfações relativas ao presente.
Em concordância com essa afirmação, Jean-François Sirinelli afirmou que o
historiador ou pensador, seja de qualquer especialidade, “bebe em seu presente e, longe
de pensar que 'é de nenhum tempo e de país nenhum', ele sabe que está ligado por
múltiplas fibras a seu tempo e à comunidade à qual pertence” (1999:78). A
comunidade referida por Sirinelli, quando refletimos em relação a Chateaubriand e
Sérgio Buarque não é a sociedade brasileira como um todo, mas fundamentalmente seu
campo de relações e amizades, suas leituras e escritos, antecessores da produção
jornalística, contemporâneos ou não.
Sendo assim, nesse capítulo, almejamos situar os artigos14 e editoriais15
14 É um texto, normalmente escrito por um especialista e não por um jornalista, de opinião sobre assuntos
determinados. Os escritos de Sérgio Buarque, que como um correspondente internacional tinha a função de observar o contexto sócio-político da Europa e comenta-lo a partir de sua constante comparação com as realidades brasileiras, se enquadra mna definição de artigo. Ver mais: RABAÇA, Carlos; BARBOSA, Gustavo Guimarães. Dicionário de Comunicação, Rio de Janeiro: Campus, 2002.
15 O editorial é um gênero de texto no qual o autor exprime o parecer do jornal acerca de determinado assunto. É
por excelência um texto dissertativo, com finalidade de propagar o ideário da empresa. Apresenta idéias que evidenciam o ponto de vista escolhido pelo jornal a respeito da matéria em questão. No caso de Assis Chateaubriand, seus editoriais visavam propagar seu ideário nacionalista que tinha como base a reforma política da nação. Ver mais: RABAÇA, Carlos; BARBOSA, Gustavo Guimarães. Dicionário de Comunicação, Rio de Janeiro: Campus, 2002.
jornalísticos de Sérgio Buarque de Holanda e Assis Chateaubriand, produzidos entre
1929-1932, em seus contextos de ação e de idéias, que não são propriamente os de
produção imediata, mas o “local” no qual deitaram as raízes teóricas e doutrinárias de
suas propostas de renovação política para o Brasil, da mesma forma que substanciou
seus questionamentos sobre a realidade e projetos de mudanças futuras.
Portanto, algumas questões buscamos responder nesse capítulo: Como dois
sujeitos de origens e trajetórias diferentes se aproximaram, não apenas
profissionalmente, mas principalmente constituíram ideários político-nacionalistas tão
próximos? Teriam sido os ideais de Liberdade e Democracia tratados exclusivamente
nos escritos desses dois intelectuais, ou outros pensadores de seus círculos de contato
também tiveram esses temas como preocupação em seus escritos? E ainda, os temas
tratados em seus artigos jornalísticos entre 1929 e 1932 se encerraram nesse contexto,
ou apareceram em seus textos anteriores, da mesma forma que posteriores? Por fim, as
preocupações com a política brasileira, manifestas nesses artigos de alguma forma
inspiraram seus livros, Terra deshumana e Raízes do Brasil?
Essas questões dirigiram esse capítulo, no qual objetivamos estabelecer um
diálogo entre as produções literárias e políticas que marcaram as primeiras três décadas
do século XX, de forma a clarearmos nosso debate, sobre os ideais de Liberdade e
Democracia em Assis Chateaubriand e Sérgio Buarque de Holanda. Ao mesmo tempo
se formou a discussão sobre a liberal-democracia em fins de 1929. Dessa forma,
ambicionamos demonstrar como os escritos de ambos os intelectuais se relacionam a
um quadro mais amplo do ideário nacionalista brasileiro, o qual não se fecha nos anos
de 1929 e 1932 – período ao qual centramos nossa discussão por considerarmos o
momento ápice da formulação do pensamento político de Chateaubriand e Sérgio
Buarque –, mas, se alarga entre os anos de 1900-1930 de acordo com suas produções e
relações.
1.1 O nacionalismo brasileiro e sua proposta de renovação: da literatura à política
Nesse trabalho chamamos de nacionalismo brasileiro os diversos movimentos
literários, artísticos e políticos que de alguma forma buscaram se renovar sob outros
cânones, originalmente voltados para a cultura e as realidades nacionais. Tais
movimentos podem nos ser exemplificados pelo: modernismo, encabeçado na literatura
por Mário de Andrade e Oswald de Andrade; nas artes por Tarsila do Amaral e Anita
Malfati; ainda na literatura pela campanha “O petróleo é nosso” de Monteiro Lobato; na
política pela democracia autoritária de Oliveira Vianna; pelo tenentismo marcado pela
Coluna Prestes,16 liderada por Luís Carlos Prestes, e até pelo integralismo de Plínio
16 Em 1923, no Rio Grande do Sul, por causa da vitória eleitoral fraudulenta de Borges de Medeiros a oposição
se levantou em armas com o apoio de diversos chefes militares que esperavam a intervenção federal. Os militares não haviam esquecido ainda o caso das cartas falsas e assim, rapidamente os ânimos entre os militares revoltosos se exaltaram novamente. Eclodiu então em 5 de julho de 1924, em São Paulo, mais uma rebelião para depor o Presidente da República Arthur Bernardes. Diversas unidades militares aderiram a rebelião e os revoltosos Gaúchos levantaram-se, sob o comando do Capitão Luís Carlos Prestes, e reiniciaram o levante armado. Posteriormente, em dezembro de 1924, o grupo militar rio-grandense liderado por Prestes uniu-se aos paulistas em Foz de Iguaçu, pois, esta cidade era propícia para a fuga ao exílio, por estabelecer
Salgado; nas interpretações sócio-históricas pelas leituras do Iberismo colonial de
Sérgio Buarque de Holanda, primeiramente analisado por autores como Oliveira Vianna
conforme discutimos no terceiro capítulo dessa tese, e na imprensa pela liberal-
democracia, desenvolvimentista17 de Assis Chateaubriand, conceito que analisaremos
em nosso segundo capítulo.
O universo ideológico que aproxima esses movimentos e seus pensadores possui
em seu cerne a luta pelo desenvolvimento de uma cultura originalmente brasileira, de
integração do Estado e sociedade, do estímulo e conhecimento das realidades da nação
e principalmente o reconhecimento dos problemas nacionais, do abismo entre o povo,
sua elite e governo.
Interessante nesse contexto é que ainda poderíamos evidenciar os movimentos
romântico, barroco e outros que marcaram a literatura brasileira ainda no século XIX,
também como expressões de uma ansiedade nacionalista, no entanto, nos fixaremos
mais atentamente entre o modernismo e o tenentismo, acima referidos, por comporem o
campo de relações político-sociais tanto de Sérgio Buarque, quanto de Chateaubriand.
fronteira entre três países, Brasil, Paraguai e Argentina. No entanto, Prestes e seu grupo optaram pela continuidade da luta armada, criando assim a Coluna Prestes. Prestes acreditava que era preciso “... organizar uma coluna que fosse dotada de capacidade de deslocamento rápido e que percorresse o interior do país, entrando por Mato Grosso e rumando para São Paulo quando adesões significativas ou novas condições o permitissem”. Os homens que participaram da Coluna ao lado de seu líder Luís Carlos Prestes, partindo do Rio Grande do Sul, fizeram das fronteiras, com Uruguai e Argentina, muitas vezes sua liberdade. Ver mais: MATOS, Júlia Silveira. A inversão da imagem da Coluna Prestes na imprensa: de revoltosos para heróis. In: CLEMENTE, Elvo Ir. Integração. Porto Alegre. EDIPUCRS, 2003.
17 Chamamos a liberal-democracia de Chateaubriand de desenvolvimentista, pelo seu caráter de estímulo, apoio
e afirmação da necessidade de desenvolvimento de uma indústria nacional, fundamentada na produção de bens a partir de matérias-primas brasileiras. O exemplo desse posicionamento pode ser encontrado em sua campanha à Tarde Brasileira, em 1929-30, feira de produtos industrializados nacionais que substituiriam os importados, como a seda, o linho e outros.
Quando nos referimos a personagens tão diferentes quanto os citados,
precisamos ter em mente que talvez o maior ponto de contato entre eles tenha sido
exatamente a ausência de uma vivência mais profícua no meio universitário e
principalmente por seus ecletismos intelectuais. Justamente por não possuírem
formação em suas áreas de atuação, jornalismo, história, literatura e outros, tiveram
suas formações marcadas pelas mais diversas leituras e influências, muitos buscaram no
exterior os instrumentos para ler e pensar o Brasil.
Diferentemente da América espanhola, conforme discorreu Sérgio Buarque de
Holanda (1973), no Brasil foi tardia a criação de Universidades, principalmente na área
de História (HOLANDA, 1973: 64). Os primeiros cursos Universitários trazidos para o
país foram, Direito, Medicina e Agronomia. De acordo com Francisco Barbosa:
Eram poucas as opções para os filhos de boas famílias que terminavam o curso de preparatórios e ingressavam nas faculdades. Tinham que ser bacharéis, médicos ou engenheiros, estes, em número bem menor, dado o caráter mais ‘técnico’ dessas escolas. (...) As elites culturais, políticas e administrativas, constituídas em sua maior parte por bacharéis e doutores marcavam o estilo de nossa cultura, cujas tradições se condensavam, como em núcleos de resistência às idéias inovadoras, no patriciado rural e na burguesia urbana (BARBOSA, 1988:33).
Desta forma, em 25 de janeiro de 1935, ano da criação da Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras na Universidade de São Paulo, quando professores
franceses chegaram para ministrar suas aulas no curso de História recém criado, de
acordo com Claude Lévi-Strauss, encontraram um grupo de alunos que “sabiam quase
Os alunos tinham colossal apetite de saber. E, aliás, em certo sentido, sabiam mais que nós, pois como autodidatas haviam lido tudo, devorado tudo, mas em obras de segunda e terceira mão. Nossa função era menos ensinar-lhes coisas que ignorassem que ensinar-lhes uma disciplina intelectual (BARBOSA, 1999:132).
Este apetite de saber, como se referiu Barbosa nessa citação, marcou
enfaticamente o perfil da intelectualidade brasileira no florescer do século XX. Sem
tradição universitária, os pensadores brasileiros não se desenvolveram sob a hegemonia
teórica de nenhuma escola de pensamento, ao contrário, serviram-se de todas,
positivismo, historicismo, marxismo, enfim, tudo que aos seus olhos auxiliasse na
produção de uma história e artes nacionais; parece que a única, específica e grande
influência era a Europa como um todo (CF. D'ALLÉSSIO, 1994).
O contexto no qual tais movimentos, como o modernismo e o tenentismo, se
desenvolveram e floresceram vinha sofrendo fortes transformações sociais, políticas e
econômicas desde a Proclamação da República. A falência da Monarquia em
detrimento de uma nova forma de governo de tipo republicano foi algo que abalou as
estruturas intelectuais do país.
A monarquia brasileira representada na figura do intelectual e monarca Dom
Pedro II foi retirada do poder. Novamente, era preciso uma reafirmação da identidade
nacional. A princípio tinha-se a identidade brasileira depositada na figura do Imperador,
com a Proclamação da República isto se perdera. O movimento modernista se
Segundo Pedro Calmon:
Seria absurdo pretender que a confusão que se generalizara, com a crise das instituições, no seu tríplice aspecto, político, econômico, social, poupasse o terreno pacífico dos estilos: e os artistas continuassem a fantasiar a vida como os antecessores, do romantismo. Tinham de ser polêmicos, naturalistas, céticos: exatamente nessa dispersão de tendências está a fecundidade do período, o renascimento da literatura brasileira notado em 1896 por Rubem Dario (Los Raros). Não há forças concêntricas, senão linhas divergentes; uma luta simbólica de utopias, cujo denominador comum é, finalmente, a adivinhação dialética de um Brasil primordial, digno de ser interpretado pelos egressos do Parnaso, parisienses de convicção, que faziam da Livraria Garnier (escreveu Ferrero) o estatutário da cultura universal. Disse Olavo Bilac, em 1907, que a sua geração acabou com o isolamento desdenhoso dos homens de letras, para que sentissem o “problema social”, ou simplesmente a vida. Referia-se à boêmia, que jovialmente os unira em patrulha, contra tudo, o Estado, a sociedade, a tradição; aos seus dias de mocidade, quando os poetas formavam república à parte, na República policial da ditadura; e à perdição de tantos deles, crestados no seu incêndio interior, inúteis e luminosos... (CALMON, 1963:2386-2387).
As transformações sofridas no Brasil e no Mundo, conforme a citação, com as
Guerras do século XIX e posteriormente em 1914, com a Primeira Grande Guerra,
atingiram de forma profunda as mais fundamentais esferas da vida em sociedade: a
política e a economia. A reformulação da literatura, das artes, da história brasileira e do
pensamento político, deu-se a luz de várias correntes teórico-interpretativas, e esta
parece ser a grande especificidade da produção intelectual deste país. Por isso a
Literatura18 nacional segundo Antônio Cândido foi construída sob, “inevitável
dependência” em relação aos códigos europeus.
... a língua, os estilos, os esquemas ideológicos. Eles teriam dado, a partir das academias do século XVIII, a forma culta, transnacional, a que se teriam subordinado os conteúdos da paisagem e da sociedade colonial. A história
18 Como literatura entende-se toda a produção intelectual do período. Isto porque a história e a literatura
brasileira teria sido uma história de integrações, mais ou menos felizes, da nossa realidade aos padrões europeus (MOTA, 1994:XV).
Contra este estigma, os intelectuais modernistas rebelaram-se, o que culminou
com a eclosão da Semana da Arte Moderna, em 1922. Uniram-se em torno de um
objetivo comum, uma identidade nacional na literatura e na história, em seus estilos e
pensamentos. A jovem intelectualidade que florescia no início dos anos 20 clamava por
originalidade, por algo brasileiro, por um referencial nacional, davam basta ao
estrangeirismo.
Aqueles anos entre 1920-1924 foram marcados não apenas por eventos nas artes
e na literatura, como a Semana da Arte Moderna, mas também na política pelo
Tenentismo e pela Coluna prestes, como já citado. Assim, enquanto Sérgio Buarque de
Holanda se engajava no movimento modernista, como representante da Revista,
intitulada Klaxon, através da qual os autores almejavam proclamar e renovar as bases
da cultura e do pensamento brasileiro, Assis Chateaubriand entusiasmava-se com a luta
dos tenentes e colocava seu jornal em campanha pela exaltação da figura dos
representantes da Coluna.
Os líderes do movimento tenentista declaradamente lutavam por maior
participação no Governo, voto secreto e o fim das oligarquias. Sua bandeira foi muito
explorada pelos opositores do Governo de Arthur Bernardes. Segundo Boris Fausto “os
anos vinte, tornou-se, para todas as camadas intermediárias e populares da sociedade,
1977: 409). Sua luta e oposição ao governo instaurado representavam a possibilidade de
extermínio do sistema personalista e oligárquico dominante no Brasil, conforme
discorreu Boris Fausto.
Portanto, apesar de não se concentrarem na propaganda política e sim na ação,
sua imagem foi amplamente divulgada e seus ideais defendidos nas páginas do OJ,
órgão que fora adquirido por Chateaubriand em 1924, já após a ascensão do movimento
tenentista e durante a trajetória de Prestes.
Logo o jornalista se posicionou ao lado da causa dos tenentes e ideais. Estes
temas tornaram-se comuns nos seus editoriais. Conforme veremos nos capítulos que se
seguem a esse, a defesa do voto secreto, como base para a democracia e o fim das
oligarquias, como instrumento de cerceamento das práticas personalistas e autoritárias,
constituíram temáticas recorrentes no pensamento chateaubriano no decorrer das
décadas de 1920 e 1930 e mais, acima de anseios tornaram-se pontos basilares de seu
pensamento político.
Em 1925, Assis Chateaubriand, opositor do governo de Arthur Bernardes, em
defesa declarada da “causa” tenentista, enviou seu primo Rafael Correa de Oliveira para
seguir a Coluna Prestes. “... pela primeira vez o público lê na grande imprensa algo
que até então só aparecia em panfletos políticos: entrevistas em que os chefes rebeldes
descrevem suas refregas contra as forças regulares do governo federal” (MORAIS,
investiu na imagem romântica e aventuresca da Coluna liderada por Luís Carlos
Prestes, sempre exaltando os feitos do Capitão Gaúcho, “... sabendo que a divulgação
dos movimentos da Coluna era mais uma maneira de azucrinar o presidente da
República (...)”(MORAIS, 1994:150).
Se o intuito era ou não atrapalhar o governo Bernardes, como afirmou Morais,
não sabemos, mas seu apoio foi declarado ao tenentismo, conforme imprimiu nas
páginas do OJ. No ano de 1927, seu jornal foi protagonista de mais uma campanha, as
quais eram a marca registrada da direção chateaubriana, em favor dos revolucionários
da Coluna Prestes. O apoio conferido aos representantes do movimento foi registrado,
em 1927, no agradecimento de Luís Carlos Prestes em carta ao OJ pela remessa de “de
mais uma importância a favor dos exilados e a sua posição pela anistia” (CARNEIRO,
1999:99). Entretanto, como veremos em nossa análise do pensamento chateaubriano, a
defesa das liberdades democráticas e sua insistência pela reforma política da nação
foram constantemente o eixo central de sua ação e produção intelectual, ao mesmo
tempo em que responsável pela aproximação com a causa tenentista. Também, a
16/06/1927, Juarez Távora publicou artigo no OJ intitulado “Pela Verdade da
Representação” e pediu uma “mudança estrutural do país” (CARNEIRO, 1999:99).
Sendo assim, mais do que um meio de atingir seu “arqui-inimigo”, o apoio conferido à
Coluna Prestes, diante da similaridade dos ideais defendidos, pode ser visto por nós
OJ de Assis Chateaubriand, já era um veículo de imprensa de grande sucesso em
1925, contava com uma venda de 40 mil exemplares dia e “... certamente começava a
cair no gosto da população” (MORAIS, 1994:151). Desde outubro de 1924, quando
assumiu definitivamente a direção do OJ, Chateaubriand empreendeu reformulações
estruturais e no editorial “Pela reação conservadora”, delineou os direcionamentos que
daria ao veículo:
Um grupo de homens de boa vontade, animados pelo desejo ardente de prestar serviço ao país (...) escolheu adrede este jornal para órgão e instrumento de ação que lhe ditam os seus sentimentos patrióticos (...) No entender desse grupo, atento à tradição conservadora do jornal, a situação social e política da nação brasileira exige uma ação mais enérgica e decidida, “um coup de barre” mais vigoroso para a direita, um combatente mais renhido contra os males e vícios que atacam o organismo nacional (Coletânea, 02/10/1924: 21).
Nessa declaração dos ideais do grupo que dirigiria o OJ vemos o cerne de toda a
crítica chateaubriana, analisada no terceiro capítulo dessa tese, o combate aos “vícios”
da política brasileira. Afirmou que, aos olhos daqueles que assumiam a direção deste