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B. Vadesinden Sonra Ödeme Yapılması Durumu: Borçlu

1. Genel Açıklamalar

A utilização de jornais como fonte histórica requer uma análise detalhada do seu lugar de inserção no campo social, o que faz da imprensa, ao mesmo tempo, fonte e objeto de pesquisa. Conforme afirma Lynn Hunt, “os documentos que descrevem ações simbólicas do passado não são textos inocentes e transparentes; foram escritos por autores com diferentes intenções e estratégias para lê-los”.369

As particularidades da utilização da imprensa como fonte estão relacionadas a sua periodicidade, que se constitui em verdadeiro arquivo do cotidiano e a disposição da informação, que permite inserir a informação dentro de uma contextualização, devendo ser abordada como uma das representações possíveis do real e não como a possibilidade exclusiva de algo que se queira pesquisar.370

Durante a República Velha a imprensa estava vinculada às ideologias dos partidos políticos e aos interesses dos grupos coronelistas locais, servindo de veículo de divulgação das políticas partidárias, servindo para evidenciar as disputas internas existentes entre as facções coronelistas regionais. Neste período histórico, a imprensa exercia um papel essencial ao atuar como braço impresso das lutas políticas e ao vincular sua opinião sobre fatos que ocorrem, relacionados e tratados de acordo com os interesses de quem emite a opinião.

Caracterizada pelos pronunciamentos marcados pelo debate acirrado, pela polêmica, pelo humor, pela sátira, e pela crítica ferina; esta imprensa opinativa interpretava, julgava e concluía os fatos, objetivando confrontar aqueles aos quais se dirigia. Sua função é significativa ao atuar como veículo propagador das diversas correntes de opinião, conforme os interesses dos grupos políticos e econômicos. Afirma Chartier, “as lutas de representações têm tanta importância como as lutas econômicas para compreender os mecanismos pelos

369

HUNT, Lynn. A Nova História Cultural. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 18.

370 Conferir: ESPIG, Márcia Janete. O uso da fonte jornalística no trabalho historiográfico: o caso do

Contestado. In: Revista Estudos Ibero-Americanos. Porto Alegre: PUCRS, v. XXIV, n. 2, dezembro de 1998, p.

quais um grupo impõe, ou tenta impor, a sua concepção do mundo social, os valores que são os seus, e o seu domínio”.371

Pesquisas com jornais devem levar em consideração as representações, isto é, as distintas maneiras através das quais os grupos sociais, partindo de suas diferenças sociais e culturais, percebem e compreendem a sociedade e sua própria História.372 Conforme Capelato:

A imprensa constitui um instrumento de manipulação de interesses e intervenção na vida social. Partindo desse pressuposto, o historiador procura estudá-lo como agente da história e captar o movimento vivo das ideias e personagens que circulam pelas páginas dos jornais. A categoria abstrata imprensa se desmistifica quando se faz emergir a figura de seus produtores como sujeitos dotados de consciência determinada na prática social. A análise desse documento exige que o historiador estabeleça um constante diálogo com as múltiplas personagens que atuam na imprensa de uma época. Desse diálogo resulta uma história mais viva, mais humana e mais rica, bem diferente da história preconizada pela corrente tradicional de cunho positivista. (...) Um documento – o jornal, no caso – não pode ser estudado isoladamente, mas em relação com outras fontes que ampliem sua compreensão. Além disso é preciso considerar suas significações explícitas e implícitas (não manifestas). Cabe, pois, trabalhar dentro e fora dele. A imprensa, ao invés de espelho da realidade, passou a ser concebida como espaço de representação do real, ou melhor, de momentos particulares da realidade. Sua existência é fruto de determinadas práticas sociais de uma época. A produção desse documento pressupõe um ato de poder no qual estão implícitas relações a serem desvendadas. A imprensa age no presente e também no futuro, pois seus produtores engendram imagens da sociedade que serão reproduzidas em outras épocas.373 Os textos da imprensa são compreendidos como uma representação que permite observar a sociedade do período analisado e as ações interiorizadas. Aquilo que está por “trás” do jornal contribui para a sua realização, intervindo no seu programa, sendo que nos jornais “a apresentação de notícias não é uma mera repetição de ocorrências e registros, mas antes uma causa direta dos acontecimentos, onde as informações não são dadas ao azar”, pois “todo jornal organiza os acontecimentos e informações segundo seu próprio filtro”.374

A escolha de um órgão de imprensa como objeto de estudo justifica-se por servir como um “instrumento de manipulação de interesses e de intervenção na vida social”.375 Conforme

371 CHARTIER, Roger. A História Cultural - entre práticas e representações. São Paulo: Difel, 1990, p. 17. 372

Conferir: CHARTIER, Roger. O mundo como representação. In: Revista Estudos Avançados. São Paulo: USP, n. 11, v. 5, maio/1991, p. 173-191.

373 CAPELATO, Maria Helena. Imprensa e História do Brasil. São Paulo: Contexto/Edusp, 1988, p. 21-25. 374

ZICMAN, Renée Barata. História através da Imprensa – algumas considerações metodológicas. In: Revista

Projeto História. São Paulo: PUCSP, n. 4, junho/1985, p. 89-102.

375 LUCA, Tânia Regina de. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla Bassanezi (org.).

Tânia Regina de Luca, “a imprensa periódica seleciona, ordena, estrutura e narra, de uma determinada forma, aquilo que se elegeu como digno de chegar até o público”.376

Os redatores dos periódicos procuravam ser os construtores e organizadores de uma verdade, acreditando na manifestação do poder através da palavra e nos efeitos da mesma, criando sua verdade a partir das visões de mundo de seu grupo. Ao levar ao leitor a discussão de seus princípios, divulgando, defendendo ou criticando certas ideias, cada jornal desenvolveu sua própria construção discursiva sobre as mesmas.377

O discurso emitido pela imprensa, por si só, não é histórico, e, “pelo contrário, trata- se, antes, de relacionar texto e contexto”, buscando-se “os nexos entre as ideias contidas nos discursos, as formas pelas quais elas se exprimem e o conjunto de determinações extratextuais que presidem a produção, a circulação e o consumo dos discursos”.378

Ocorriam acirradas lutas através dos jornais, evidenciadas pelo tom forte do vocabulário e pelas expressões agressivas ou laudatórias, assim como o desenvolvimento da concepção “de que o papel dos jornais é essencialmente opinativo” ao visar “veicular organizadamente a doutrina e a opinião dos partidos na sociedade civil”, sendo os jornalistas “responsáveis pela tarefa de transmitir de forma criteriosa a doutrina dos partidos e dirigir a opinião pública”, já que “os editoriais constituíram-se em tribuna política onde, muitas vezes, buscava se universalizar o particular e particularizar o universal”.379

Distinguida pela clara tomada de posição frente aos eventos de sua época, a imprensa político-partidária380 proporciona observar as alianças, os desmandos, as rivalidades pessoais,

os modos de reagir próprio a um grupo político específico, enfim, demarcam a trajetória desta agremiação e da vida cotidiana de uma determinada comunidade em um período particular.

376 LUCA, Tânia Regina de. Op cit., p. 139.

377 Sobre a atuação dos órgãos de imprensa como espaço de divulgação e disputa de concepções políticas e

partidárias, consultar: ALVES, Francisco das Neves. O discurso político-partidário sul-rio-grandense sob o

prisma da imprensa rio-grandina (1868-1895). Porto Alegre: Tese de Doutorado em História/PUCRS, 1998.

378

CARDOSO, Ciro Flamarion & VAINFAS, Ronaldo. História e análise de textos. In: CARDOSO, Ciro Flamarion & VAINFAS, Ronaldo (orgs.). Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997. p. 378.

379

FELIX, Loiva Otero. Imprensa, revolução e discurso: a construção de categorias. In: RAMBO, Arthur Blásio & FÉLIX, Loiva Otero (orgs.). A Revolução Federalista e os Teuto-Brasileiros. São Leopoldo: Ed. UNISINOS, 1995, p. 183.

380

Sobre as origens e características de esta vertente jornalística conferir: REVERBEL, Carlos. Tendências do

jornalismo gaúcho. In: Fundamentos da Cultura Rio-Grandense – Segunda Série – v. 2. Porto Alegre: Faculdade

de Filosofia: Universidade do Rio Grande do Sul, 1957, p. 101-124; RÜDIGER, Francisco. Tendências do

O discurso jornalístico obedece (...) às regras históricas e é o resultado de uma posição sócio-histórica, na qual os enunciadores se revelam substituíveis e o conteúdo apresentado está visceralmente ligado ao seu tempo. Dito de outra forma, os discursos construídos pelos jornais estão balizados pelo contexto em que foram criados.381

A função dos jornais polemistas, em especial os oposicionistas, deve ser pensada como uma representação construída sobre o real, cabendo mencionar o caráter dialético da imprensa como reflexo e construção de uma realidade, de modo que a “imprensa polemista vive destes embates, mas seu público é sectário sempre”.382Conforme Manuel Petrik:

O termo polêmica banalizou-se, difundiu-se nas manchetes jornalísticas e extrapolou seu significado original. A ancestralidade do assunto nos remete aos gregos, que têm nos filósofos pré-socráticos os primeiros observadores, ainda que não de forma tão explícita. O termo polêmica origina-se do grego polemos, luta, embate conflito. Carrega, portanto, sempre consigo um dilema, algo a ser respondido.383

A imprensa partidária, caracterizada pelo proselitismo ideológico, não se ausentava da agressividade da linguagem, discutindo princípios políticos ao mesmo tempo em que atacava ferozmente seus adversários. Conforme Rüdiger:

o jornalismo político-partidário desenvolveu a concepção de que o papel dos jornais é essencialmente opinativo, visa veicular organizadamente a doutrina e a opinião dos partidos na sociedade civil. Os jornalistas são os responsáveis pela tarefa de transmitir de forma criteriosa a doutrina dos partidos e dirigir a opinião pública.384 Os polemistas marcavam seus textos pelo embate e pela virulência no tratamento das temáticas, como forma de agregar um público receptor de apreciadores, ao mesmo tempo em que reuniam opositores, as vítimas de sua linguagem crítica, naquele grupo a ser combatido nas páginas de seu jornal. Nesse sentido, cita Manuel Petrik:

A crítica cáustica, uma aparente expressão da negatividade, do ceticismo da perda nas esperanças, na verdade se realça como uma aposta no positivo, na solução para o que aflige, mas tende ao imutável por acomodação da sociedade. A polêmica, em si, estimula a reflexão. Por defender pontos de vista de forma inusitada, o polemista desafia as verdades incontestáveis, abala o credo comum, e remete a exegese. São figuras que por isso instigam a leitura de periódicos e favorecem não só o desenvolvimento do raciocínio crítico como as formas de contato entre as pessoas.385

381 MAINGUENEAU, Dominique. Novas Tendências em Análise do Discurso. Campinas: UNICAMP, 1993,

p.14.

382 WAINBERG, Jacques; CAMPOS, Jorge; BEHS, Edelberto. Polemista, o personagem esquecido do

jornalismo. In: INTERCOM – Revista Brasileira de Comunicação. São Paulo, v. XXV, n. 1, 2002, p. 50.

383

PETRIK, Manuel. O duelo verbal: um estudo sobre o polemista no jornalismo. Porto Alegre: Dissertação de Mestrado em Comunicação Social/PUCRS, 2006, p. 12.

384 RÜDIGER, Francisco. Op cit., p. 25-26. 385

Ainda atualmente, segundo Manuel Petrik, a figura do polemista tornou-se tão importante para a imprensa que “excluir o polemista do âmbito do jornalismo é esforço explicável apenas como forma de confortar a rejeição e o mal estar que provocam – inclusive, e principalmente, entre os demais jornalistas”.386Nelson Werneck Sodré, sobre esta

característica da imprensa, afirma:

A preocupação fundamental dos jornais, nessa época, é o fato político. Note-se: não é a política, mas o fato político. Ora, o fato político ocorre, então, em área restrita, a área ocupada pelos políticos, por aqueles que estão ligados ao problema do poder. Assim, nessa dimensão reduzida, as questões são pessoais, giram em torno de atos, pensamentos ou decisões de indivíduos, os indivíduos que protagonizam o fato político. Daí o caráter pessoal que assumem as campanhas; a necessidade de endeusar ou de destruir o indivíduo. Tudo se personaliza e se individualiza. Daí a virulência da linguagem da imprensa política, ou o seu servilismo, como antípoda. Não se trata de condenar a orientação, ou a decisão, ou os princípios - a política, em suma - desta ou daquela personalidade; trata-se de destruir a pessoa, o indivíduo.387 A polêmica existente na imprensa indicava a ausência de consenso e a presença do conflito em um campo social. A polêmica servia para entreter o público leitor e, simultaneamente, cooptá-lo, com o objetivo de abalar aqueles que se intitulavam detentores da verdade oficial, “revelando” circunstâncias que já seriam do conhecimento de todos.

A polêmica, por isso, é sempre um show de esgrima no qual o inimigo é visível. Para conseguir mobilizar seus efeitos de cólera e paixão, tal controvérsia é pública sempre e não titubeia em aprisionar no alvo o opositor. O opositor é inimigo mesmo, cabe ressaltar. A disputa é pessoal, raivosa. A luta disfarça-se de retórica da razão, mas é cabra mandada do coração. O opositor é citado à exaustão. Não cabe neste tipo de confronto disfarces em profusão. Ao contrário: a troca de farpas é frontal, sempre. Nestas condições, provocações são feitas de parte a parte. Todas elas são aceitas e bem-vindas. É da natureza da performance o dedo acusador e a fala rotuladora. É mais fácil assim: revela-se ao público o que se espera mesmo de galos de rinha – bico afiado e coragem teatral. Ou seja, observando-se os insultos fica-se a pensar que tais personagens não medem as consequências de suas aparições. O rompante é verdadeira avalanche simbólica. Passa como um estrondo, atordoante. Deixa marcas, feridas. Pretende-se arrasador. O opositor não lhe foge à mira: é tratado de forma rude, caricatural. Neste ringue, todos são impiedosos.388

Os jornalistas/propagandistas se autointitulavam como “intérpretes e formadores da opinião pública”,389 como encarnação mais completa do homem público, seguindo o

postulado da época que afirmava ser a imprensa “a vista da nação, enquanto instrumento que

386 PETRIK, Manuel. Op cit., p. 116.

387 SODRÉ, Nelson Werneck. A História da Imprensa no Brasil. 4 ed. Rio de Janeiro: Mauad, 1999, p. 277. 388

WAINBERG, Jacques; CAMPOS, Jorge; BEHS, Edelberto. Polemista, o personagem esquecido do

jornalismo. In: INTERCOM – Revista Brasileira de Comunicação. São Paulo, v. XXV, n. 1, 2002, p. 52-53.

389 CAPELATO, Maria Helena. O controle da opinião e os limites da liberdade: imprensa paulista (1920-1945).

possibilita ver a verdade”.390 Tratava-se na realidade de um meio na luta pelo poder,

constituindo-se como “fruto de uma ideologia e um instrumento de ideologização”, ao oferecer às distintas tendências político-ideológicas um espaço para manipular interesses e interferir na vida social.391

No âmbito rio-grandense, constata-se nos jornais pesquisados sua vinculação ao PRR ou a oposição à sua orientação política. Os órgãos de imprensa borgistas atuaram como instrumento de divulgação ideológica, em maior ou menor intensidade conforme o contexto, sendo comum em momentos de instabilidade partidária surgirem jornais com a função de combater oposições localizadas. Assim menciona Gunter Axt:

Uma facção nascia do clima de disputa entre dois ou mais coronéis por vantagens hauridas do sistema político. (...) Para que uma facção crescesse em importância e tamanho, tornava-se fundamental, a partir de um certo momento, o apoio das altas estrelas do partido e, especialmente, do governo. Dentre os primeiros passos de uma facção para se consolidar estavam a fundação de um clube republicano, batizado sempre com o nome de algum repúblico de escol, (...), e a cotização dos correligionários para fundação de um jornal, o qual seria utilizado como veículo de propaganda da facção e de combate aos adversários.392

Mesmo que determinado partido ou facção política não tivesse em seu poder um órgão de imprensa, isso não seria empecilho ao oficialismo em propagar sua versão dos fatos na opinião pública. O próprio presidente da República Campos Sales (1898-1902) confessou publicamente que subsidiava jornais com verbas públicas extraordinárias, o que comprova os laços de dependência da imprensa, mesmo que dita como independente, com as redes clientelistas em que se inseriam.393

Segundo Nélson Sodré, Campos Sales não tinha “nenhum escrúpulo em comprar a opinião da imprensa e de confessar nuamente essa conduta. Ela lhe parece honesta, justa e necessária. Essa compra da opinião da imprensa pelo governo torna-se rotina”.394 O ex-

presidente justifica suas ações, afirmando que o governo não possuía “órgão de vasta

390 BARBOSA, Rui. A imprensa e o dever da verdade. Rio de Janeiro: Simões Editor, 1957, p.18.

391 Cf. ALVES, Francisco das Neves. Imprensa, história e política: uma proposta metodológica ao debate sobre

o tema no contexto brasileiro do século XIX. In: Revista Comunicação e Política – vol.VI, n.1, jan.-abr./1999.

Rio de Janeiro: CEBELA (Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos), p. 245-257.

392 AXT, Gunter. O Judiciário e a Dinâmica do Sistema Coronelista de Poder no Rio Grande do Sul. In: Revista

Justiça & História. Porto Alegre: Memorial do Judiciário do Rio Grande do Sul/Tribunal de Justiça do Estado do

Rio Grande do Sul, v. 4, n. 8, 2004, p. 27.

393 CAMPOS SALES, Manuel Ferraz de. Da propaganda à presidência. Brasília: UnB, 1983, p 178. CORTE

REAL, Victor Kraide. Propaganda política e a verba secreta destinada à imprensa no final do século XIX. In:

Nucom: Núcleo de Comunicação. Limeira: Instituto Superior de Ciências Aplicadas, ano 4, n. 12, out./dez. 2007.

Disponível em: http://www.iscafaculdades.com.br/nucom/PDF/ed12_artigo_victor.pdf (acesso em 28/05/2010).

394

circulação, em que pudesse apoiar a sua política, descortinar os seus intuitos, preparar a opinião e defender os seus atos. (...) Nestas condições, só restava recorrer às colunas das gazetas industriais abertas à concorrência”.395 Campos Sales declara abertamente sobre a

utilização da verba secreta do governo:

Os adversários do meu governo fizeram constar que as despesas com a imprensa montavam a uma soma avultadíssima que calculavam em seis a oito mil contos. No Banco da República encontra-se a Conta Corrente do movimento do Tesouro, onde eram escrituradas estas despesas, que não excedem a Rs. 1.000:000$000. (...) A soma acima indicada foi a única que no meu governo apliquei fora das autorizações explícitas do Congresso. Se isso constitui um crime, eu o confesso, sem declinar de mim a responsabilidade inteira. Não há, é certo, um ato meu direto, nenhum documento subscrito por mim: mas, tudo foi feito sob as minhas vistas e com a minha imediata superintendência.396

As representações da imprensa são fundamentais para a análise do contexto histórico em que estas foram construídas, uma vez que explicitarão uma imagem simbólica do coronelismo regional, como também possibilitam a observação do contexto sócio-histórico estruturado no qual essa representação foi construída. Afirma Francisco das Neves Alves:

Em se tratando de pesquisas abordando a história política, o papel da imprensa avulta em importância, tendo em vista o caráter em geral lacônico que caracteriza muitos dos documentos oficiais no que tange às disputas e aos confrontos de natureza político-partidária. Nos jornais, ao contrário, esses conflitos encontram seu espaço de propagação, chegando o jornalismo a servir como elo de ligação ou agente de combate entre diferentes tendências político-ideológicas.397

A construção das representações do mundo social, como relatos que revelam anseios e problemáticas historicizadas, “embora aspirem à universalidade de um diagnóstico fundado na razão, são sempre determinadas pelos interesses de grupo que as forjam”.398Conforme

Chartier, sobre o conceito de representação:

é do crédito concedido (ou recusado) à imagem que uma comunidade produz de si mesma, portanto de seu ‘ser percebido’, que depende a afirmação (ou a negação) de seu ser social. O porquê da importância da noção de representação, que permite articular três registros da realidade: por um lado, as representações coletivas que incorporam nos indivíduos as divisões do mundo social e organizam esquemas de percepção a partir dos quais eles classificam, julgam e agem; por outro lado, as formas de exibição e de estilização da identidade que pretendem ver reconhecida;

395

CAMPOSerraz de. Op cit., p 174.

396 CAMPOS SALES, Manuel Ferraz de. Op cit., p 179.

397 ALVES, Francisco das Neves. O discurso político-partidário sul-rio-grandense sob o prisma da imprensa

rio-grandina (1868-1895). Porto Alegre: Tese de Doutorado em História/PUCRS, 1998, p. 9.

398 CHARTIER, Roger. A História Cultural - entre práticas e representações. São Paulo: Difel, 1990, p. 17.

Conferir também: CHARTIER, Roger. O mundo como representação. In: Revista Estudos Avançados. São Paulo: