B. Vadesinden Sonra Ödeme Yapılması Durumu: Borçlu
2. Temerrüdün Sonuçları
Neste capítulo serão trabalhadas as fontes coletadas, tomando por base a identificação das facções do coronelismo regional e a ocorrência de períodos de agitação nas relações de poder entre o borgismo e determinadas lideranças regionais, especialmente no momento de emancipação das colônias até o conturbado contexto da eleição estadual de 1907.
Ou seja, se prestará maior atenção ao período que correspondeu à instalação e consolidação do PRR no poder estadual, em uma fase de ajustes e acertos permeada por duas crises após a revolução federalista: uma ocasionada pela morte de Júlio de Castilhos e a outra decorrente da disputa eleitoral envolvendo Carlos Barbosa e Fernando Abbott.
Este período de institucionalização do projeto republicano (1889-1895) foi seguido por um breve espaço de hegemonia castilhista (1895-1903) mas, após a morte de Castilhos, decorre um momento de crise política em nível estadual (1903-1907), que se reflete na RCI. Importantes lideranças partidárias, como Fernando Abbott, Cassiano do Nascimento e Pinheiro Machado, passaram a questionar a pretensão de comando unipessoal de Borges de Medeiros sobre o partido e sobre o poder executivo estadual, que se pretendia herdeiro do carisma e da liderança inconteste de Júlio de Castilhos.570
Além de invocar uma continuidade com o castilhismo segundo os propósitos borgistas, o que desencadeará a cisão do PRR em 1906 e 1907, passa a ser construído o mito de que “a unidade partidária e a legitimidade de mando conferida a Borges de Medeiros passam diretamente pela menção ao nome e à grandeza de Castilhos”.571
Neste momento dá-se a construção do mito historiográfico de inexistência de coronelismo naquela região, como se sua população não possuísse voz ativa de contestação ao
570 Sobre a construção mítica de Júlio de Castilhos conferir: FÉLIX, Loiva Otero. A Fabricação do Carisma: A
Construção Mítico-Heroica na Memória Republicana Gaúcha. In: FÉLIX, Loiva Otero e ELMIR, Cláudio
Pereira (orgs.). Mitos e Heróis: Construção de Imaginários. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1998, p. 141-160; ALBECHE, Daysi Lange. Imagens do Gaúcho: História e Mitificação. Porto Alegre: PUCRS, 1996.
571
QUEIRÓZ, César Augusto Bubolz. A Questão Social no Rio Grande do Sul: Positivismo, Borgismo e a
incorporação do proletariado à sociedade moderna. In: Revista Mundos do Trabalho - Publicação Eletrônica
Semestral do GT “Mundos do Trabalho” - ANPUH. v. 1, n. 1, janeiro-junho de 2009, p. 107. Disponível em: http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/mundosdotrabalho/article/viewFile/6188/9169. Acesso: 14/08/2010.
modelo político dominante no Rio Grande do Sul. Em um período de afirmação do controle de Borges de Medeiros sobre a região e o estado, as colônias passam a serem referidas como fortalezas eleitorais do oficialismo borgista, o que serviu para ocultar os conflitos locais e os interesses divergentes.
Contudo, a presença de acirradas relações de poder coronelistas não confirma a passividade política na RCI, pois a problematização do processo histórico evidencia o questionamento da unidade interna do PRR, desmitificando o seu discurso como não correspondente à sua prática política, o que se refletiu na produção historiográfica.
A existência de conflitos coronelistas na RCI, contribui para um processo de desconstrução de alguns mitos políticos ainda arraigados na historiografia.572 As reclamações
dos grupos de pressão regionais e locais, pautavam-se invariavelmente por demandas de ordem econômica, em detrimento de questões de âmbito político ou ideológico.
Convém pontuar que nem todos os imigrantes e seus descendentes posicionaram-se politicamente a favor dos castilhistas/borgistas ao longo da República Velha, ou sequer possuíram um posicionamento ideológico uniforme, pois como refere Thales de Azevedo: “Ainda que pareça haver entre os colonos maior inclinação a favor dos castilhistas, a zona italiana não é unânime”.573
Os colonos, à medida do possível, procuravam manter-se afastados das disputas políticas regionais, o que nem sempre foi possível, pois encontravam-se inseridos naquele conturbado contexto de início da República. Conforme observado nas fontes históricas, o engajamento foi uma constante, como bem informam os versinhos citados por Mário Gardelin, que fazem referência ao período da revolução federalista na RCI: “Maragato e pica-pau/São uma tropa de ladrão!/Maragato rouba arma!/Pica-pau munição”.574
Isso não significa afirmar que imigrantes italianos e descendentes não tenham participado do conflito, nem que a RCI tenha se mantido permanentemente em paz e ordeira, conforme a proposta do PRR. Existem evidências da existência, inclusive, de um batalhão
572 Ainda no período imperial ocorrem na RCI do Rio Grande do Sul vários conflitos entre os próprios imigrantes
e destes em relação aos diretores das colônias e às forças policiais, como se pode observar em: LUCHESE, Terciane Ângela. Relações de Poder: autoridades regionais e imigrantes italianos nas colônias de Conde D’Eu,
Princesa Isabel, Caxias e Alfredo Chaves: 1875-1889. Porto Alegre: Dissertação de Mestrado em
História/PUCRS, 2001, p. 125-154.
573
AZEVEDO, Thales de. Italianos e Gaúchos: os anos pioneiros da colonização italiana no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: A Nação/IEL, 1975, p. 250.
574 GARDELIN, Mário. A região colonial italiana no Rio Grande do Sul. In: Revista Véritas. Porto Alegre,
“brasílico-italiano” lutando ao lado dos federalistas, que seria constituído por cerca de cinquenta homens oriundos da colônia Alfredo Chaves.575
Alguns grupos sociais faziam esforços para “manterem-se afastados do conflito o que, por outro lado, os levava a terem uma participação indireta na revolução”, sendo que estes mesmos grupos, “representados principalmente pelos habitantes das áreas coloniais, em muitos casos tiveram que se organizar para resistir a ação, tanto de maragatos como de chimangos”, ou mesmo engajando-se nas tropas federalistas, devido ao pretenso descaso por parte do governo castilhista.576 Este engajamento em uma das facções em conflito pode ser
observado no depoimento de Helena Amatéa, descendente de imigrantes italianos:
Em 1890, Silveira Martins e Júlio de Castilhos arrumaram com que litigiar por causa da República, porque um queria de um jeito e outro de outra maneira, e, para resolver tal questão puseram-se em Revolução. Ajuntaram gente, os que quisessem se alistar nos seus clubes, nos seus partidos, depois andavam pelas cidades esses tipos brutos e onde chegavam, faziam fogo e mortos. (…) Alistavam-se também italianos. Havia aqui castilhistas e muitos chefes de família se haviam ligado à revolução. Nos federalistas a mesma coisa (…). Participavam livremente, porque haviam sido prejudicados em alguma coisa, então por vingança ligavam-se a um ou outro partido.577
Em comunicado do intendente de Bento Gonçalves, coronel Antônio Joaquim Marques de Carvalho Júnior, ao Presidente do Estado, mais uma vez se evidencia a participação de imigrantes e descendentes no conflito. Refere-se ao assassinato do imigrante Giovanni Fanini, nas proximidades da sede da ex-colônia Conde d'Eu, em fevereiro de 1894, “por quatro ou cinco revolucionários capitaneados por um célebre Tenente Lorenzoni”, que, segundo consta, “em companhia de outros camaradas na maioria de origem italiana, cometeu o infame assassinato”.578
Em nenhuma hipótese se afirma que nas áreas de colonização os conflitos decorrentes da revolução federalista refletiam tão somente problemáticas externas àquele contexto, mas,
575 GUIMARÃES, Antônio Ferreira Prestes. A revolução federalista em Cima da Serra: 1892-1895. Porto
Alegre: Martins Livreiro, 1987, p. 46.
576 SILVA, Márcio Antônio Both da. Notas sobre a Revolução Federalista: o Norte do Rio Grande do Sul entre
1893 e 1895. In: Usos do Passado - XII Encontro Regional de História. Rio de Janeiro: ANPUHRJ, 2006, p. 5.
577 Citado por: BATISTEL, Arlindo Itacir & COSTA, Rovílio. Assim vivem os italianos: vida, história, cantos,
comida e estórias. Porto Alegre: EST; Caxias do Sul: EDUCS, 1982, p. 334.
578
Citado por: FÉLIX, Loiva Otero; KLEBER, Haike Roselena; SCHMIDT, Benito Bisso. Relações de poder
local X poder estadual nas áreas de colonização alemã e italiana do Rio Grande do Sul na Primeira República.
Porto Alegre: Relatório Final de Pesquisa/CNPq, março de 1992, p. 54. Na mesma página, os autores citam recorte de A Federação, de 17 de maio de 1894: “A região colonial, núcleo de trabalho, paz e ordem,
transformada em núcleo de rapinagens e crimes de miseranda e infame maragatagem, volverá em breve aos seus dias felizes de progresso e atividade industrial, restabelecidos pela coragem, bravura e patriotismo dos cidadãos que estão restabelecendo a duradoura paz naquela região”.