Este foi o primeiro discurso estigmatizado que surgiu efetivamente na entrevista com Eduarda. Quando perguntei a ela o que ela escutava as pessoas falarem sobre mulheres lésbicas, ela riu, parecendo debochar da compreensão heterocentrista do ato sexual, e disse: “Que é impossível duas mulheres treparem”. As argumentações que ela ouvia foram devido à inexistência de um pênis. Conforme os seus pais diziam: “‘o certo é homem e mulher, o homem encaixa na mulher, cabou!’” (Eduarda, 18 anos). Lembrando que o termo aqui utilizado “encaixar” remete exatamente ao corpo, ao sexo biológico e à penetração de um pênis em uma vagina.
Ela disse que até compreende que algumas pessoas não acreditem que entre duas mulheres ocorra uma “verdadeira” relação sexual, o que se dá devido ao conservadorismo do ato sexual convencional entre um homem e uma mulher. Na crença pudica de que o corpo nu não deve ser observado e, portanto, na relação sexual este deve ser exposto minimamente, sendo melhor, para cumprir essa regra, a tradicional posição “papai-mamãe”. Ou seja, o ideal vitoriano de puritanismo: o sexo reprodutivo e não hedonista e, obviamente, com o homem comandando a relação, o que significa, por cima:
Tem muita gente que é muito conservadora, e que é muito, não consegue imaginar eu acho, não se permite imaginar outras coisas que não sejam o sexo convencional homem com mulher, e ainda, só desse jeito, só de uma posição e acabou! Uma coisa bem mecânica, bem... Então pra eles eu acho que deve ser difícil imaginar até dois homens, imagine duas mulheres.
(Eduarda, 18 anos)
Eduarda conclui que, se na relação heterossexual, muitas vezes não se busca formas diversas de prazer, entre homens ou entre mulheres isso se torna inimaginável, especialmente entre duas mulheres, onde não existe a presença de um pênis.
Marina não chegou a presenciar o discurso exato de que lésbicas não fazem sexo, mas algo muito semelhante. Já escutou mulheres que se dizem heterossexuais justificarem: “‘se for pra ficar com uma mulher, eu vou ficar em casa me masturbando’” (Marina, 23 anos), o que significa resumir o sexo entre mulheres a uma masturbação conjunta, outrora vista como “o símbolo terrível da sexualidade fracassada” (GIDDENS, 1993, p. 25).
Tal discurso apresenta uma concepção de relação sexual equivalente à relação sexual heterossexual e, em especial, um desconhecimento das possibilidades de alcance de prazer dos corpos das mulheres, além da masturbação conjunta. Marina brinca com o enunciado da
garota: “Se você arrumar uma mulher melhor do que você, você pode se enganar, hein? Pode ser que você não seja tão boa assim!” (Marina, 23 anos).
Apresento, ainda, outras explicações, ouvidas pelas entrevistadas, que foram utilizadas para justificar que o que mulheres fazem não é considerado “sexo de verdade”. Por exemplo: “Porque não tem o que pôr aonde, então, não dá!” (Eduarda, 18 anos); “Eu já cheguei a ouvir assim: ‘Nossa, mas o que que vocês fazem na cama?’” (Janaína, 47 anos). Esses discursos refletem: 1) desconhecimento das possibilidades de prazer que um corpo (feminino ou não) pode alcançar; 2) inconformismo diante do fato de que o pênis possa ser dispensável – como relatou Marina sobre os rapazes que tentavam convencê-la de que a mulher necessita de uma penetração peniana para sentir-se satisfeita sexualmente:
‘É, duvido que você vai agüentar... vai chegar uma hora que você vai precisar de uma... [faz o gesto insinuando um pênis], um pau’. Sabe? Esse tipo de comentário. ‘Vocês precisam de mim, então, como estão vocês duas, se for um homem é lucro’, sabe? E eu saio fora numa dessa [risos], saio correndo! E levo minha namorada junto! [risos]. (Marina, 23 anos)
Para o discurso falocêntrico, o pênis é indispensável e a “verdadeira” relação sexual pauta-se na penetração desse membro, na vagina ou no ânus. Sobre isso, as leis brasileiras do Código Penal são ainda mais radicais e heterocentradas quando não consideram como estupro a penetração forçada entre homens (no caso, pelo sexo anal) ou entre mulheres (seja com as mãos ou qualquer objeto penetrante). Esses atos ficam registrados apenas como atentados violentos ao pudor, uma contravenção penal que se baseia na tese de ações que ofendam o pudor público. O estupro só é considerado nas relações sexuais em que haja a penetração de um pênis em uma vagina, de forma forçada por meio de violência ou ameaça.
Até mesmo nas teorias cotidianas sobre a virgindade, só se considera que alguém “a perdeu” se ocorrer uma penetração que implique o rompimento de hímen. Uma das entrevistadas, por exemplo, considera que tem relações sexuais, mas brinca que é virgem “[Então você não chegou nem a ficar com um menino?] Não. Sou virgem até hoje. Do jeito que eu nasci” (Marcela, 42 anos). Da mesma forma, outra relatou:
Foi tudo muito diferente do que eu sentia quando tava com ele assim, num contato físico. Muito embora eu não tenha tido relação sexual com ele. Eu queria ter só depois do casamento. A gente chegou a brincar muito, mas a intimidade assim por completo não. Nem com outro homem. Sempre namorei muito, sempre tive vários namorados, mas nunca tive uma relação por completo. Até porque eu sempre tive, assim, um certo receio. E com ela, se ela falasse de começar e ir até o final, eu não teria tido receio nenhum,
nem uma resistência, nada, porque era uma coisa que tava muito, muito boa mesmo. (Janaína, 47 anos)
Com os homens, Janaína disse não ter tido uma “relação por completo”, mas “chegou a brincar muito”, ou seja, teve algum tipo de experiência sexual. E com a moça com quem teve uma experiência lésbica, ela comentou sobre “ir até o fim”. Pode-se supor que a relação “por completo” ou “ir até o fim” seja a relação com um orgasmo como desfecho ou, corroborando com a primazia do pênis, que Janaína considere que, com homens, seja apenas completo com a penetração, já que, para eles, geralmente é assim considerado o “sexo de verdade”. Marcela é bastante específica em relação a isso:
Eles acham assim: que pra ter relação sexual, a mulher tem que ser penetrada. Ficar lá fazendo, fazendo, e depois sai toda estourada, toda machucada, igual eu já ouvi muitas mulheres reclamar. E a mulher não sente prazer no fundo da vagina, isso tem que saber. Qualquer um que assiste negócio de sexo na televisão... esses dias mesmo tava falando... a mulher sente prazer, um tanto assim, um máximo na vagina dela [mostra um espaço de aproximadamente três centímetros entre os dedos polegar e indicador]. Onde ela sente prazer é no clitóris. Não tem nada a ver, não é lá dentro! Então! E os homens falam que tem que pôr pra dentro e cabou. Meu irmão mesmo fala isso, fala todo dia isso. Pegou uma e isso, fez assim, bombou e bombou, e não sei o quê. Eu falo: ‘Rapaz do céu! Na hora que ela pegar uma mulher, adeus você!’ [risos]. Aí já era. (Marcela, 42 anos) Castañeda (2006, p. 212) embasa a teoria de Marcela dizendo que na “mulher, o órgão de prazer sexual não é a vagina, cujas terminações nervosas situam-se apenas no terço inicial do canal; é o clitóris, que pode ou não receber estimulação suficiente durante o coito”. Não é à toa que “a partir do feminismo [o clitóris] surge como órgão por excelência do prazer, um símbolo de emancipação para as mulheres” (GOMES, 2003, p. 280). Gimeno Reinoso (2005, p. 258) afirma que atualmente há tendência em ridicularizar a polêmica de trinta anos atrás de questionar se o orgasmo das mulheres era vaginal ou clitoriano, mas que, na realidade, “do que se estava falando era, nada mais, e nada menos que da possibilidade de que as mulheres experimentaram orgasmos, coisa não tão corrente então (tampouco agora, ainda que o problema tenha voltado a ser invisível)”.53 A autora apresenta, ainda, estimativas do México,
um país latino americano, assim como o Brasil e, por isso, talvez não muito diferente. De acordo com o Instituto Mexicano de Sexologia, “40% das mulheres em regiões urbanas e 80% em regiões rurais” nunca tiveram um orgasmo.
53 Minha versão do original em espanhol: “de lo que se estaba hablando era, nada más y nada menos, que de la
posibilidad de que las mujeres experimentaran orgasmos, cosa no tan corriente por entonces (no tan corriente tampoco ahora, aunque el problema ha vuelto a ser invisible)” (GIMENO REINOSO, 2005, p. 258).
Marina ressaltou que o prazer entre mulheres é “o mesmo prazer que um homem sente com uma mulher, mulher com homem. Às vezes até mais. Tem mulher com mulher que sente mais prazer com uma mulher que uma mulher que tá casada com um cara há tantos anos” (Marina, 23 anos). A partir dessa fala, podemos aludir que as relações sexuais nas quais os(as) envolvidos(as) não se prendem ao ato sexual enquanto penetração (como as entrevistadas têm apresentado ser as relações entre mulheres) tendem a proporcionar mais satisfação sexual comparativamente àquelas que se prendem à função penetrativa (como parece ser a exigência do homem heterossexual para um “sexo de verdade”).
Ou seja, com maior participação e exploração do prazer com todas (ou mais) possibilidades que um corpo pode sentir, a satisfação sexual se torna melhor. Isto posto, parece que devido à genitalização do sexo, a mulher pode acabar sendo “prejudicada” por não participar eroticamente com outras zonas erógenas do corpo nas relações onde a penetração é vista como suprema no ato sexual. Como sugere Pérez (200?), ignorando o viés histórico das referências utilizadas por ela, nas relações lésbicas parece que as mulheres podem usufruir mais do prazer sexual que nas heterossexuais, por não se prenderem ao sexo enquanto penetração:
Apesar das inquietudes sobre o orgasmo, à diferença dos dados de Kinsey (1953), que apresentava que uma em cada quatro mulheres não chegava ao orgasmo [o que significa 25%], autoras como Califia (1993)54 afirmam que
de 286 lésbicas, apenas 2% nunca haviam tido um orgasmo. (PÉREZ, 200?. p. 9)55
Gimeno Reinoso (2005) ainda aponta que, em relação aos dados sobre satisfação sexual nos estudos de Kinsey, nos anos 1940 (quando a moral vitoriana era ainda mais forte sobre as sexualidades das mulheres), a mulher heterossexual apresentava altas cifras de insatisfação. Nesse mesmo estudo, ele afirmou claramente que as lésbicas eram mulheres mais satisfeitas, sendo que as mulheres que haviam praticado sexo lésbico alguma vez eram muito mais capazes de desfrutar do prazer sexual que as demais. “O estudo revelava também uma geral e grande frustração das mulheres heterossexuais a respeito da sexualidade” (GIMENO REINOSO, 2005, p. 184).56
54 CALIFIA, Pat. El don de Safo: el libro de la sexualidad lesbiana. Madrid: Talasa Ediciones, 1993.
55 Minha versão do original em espanhol: “A pesar de las inquietudes en torno al orgasmo, a diferencia de los
datos de Kinsey (1953), que refería que una de cada cuatro mujeres no llegaban al orgasmo [o que significa 25%], autoras como Califia (1993) afirman que de 286 lesbianas, sólo el 2% nunca habían tenido un orgasmo” (PÉREZ, 2007. p. 9).
56 Minha versão do original em espanhol: “El estudio revelaba también una general y muy extendida frustración
Gomes (2003, p. 289-290) afirma que, no sistema machista, é impossível pôr em xeque a onipotência do pênis. Fazendo isto, acaba-se por entrar num “território de loucura [o qual] só é permitido a quem trouxer consigo o cajado das incertezas, um ‘outro’ falo, inscrito no registro da feminilidade e não na ordem simbólica masculina dominante”, que é o que ocorre ao se transitar pelas lesbianidades.
Assim, o erotismo entre mulheres é, muitas vezes, considerado qualquer coisa que não um “sexo de verdade”, seja masturbação conjunta, sexo oral conjunto, preliminares infinitas etc. Essa forma de conceber o ato sexual faz pensar que, quando um homem e uma mulher, ou dois homens têm uma relação sexual, esta só está ocorrendo quando o pênis está penetra(n)do. Autoras como Wittig já se posicionaram a respeito da genitalização e da economia reprodutiva do sexo:
Em The Lesbian Body [O Corpo Lésbico], como em outros escritos, Wittig parece discordar contudo de uma sexualidade genitalmente organizada per
se e evocar uma economia alternativa dos prazeres, a qual contestaria a construção da subjetividade feminina, marcada pela função reprodutiva que supostamente distingue as mulheres. Aqui a proliferação de prazeres fora da economia reprodutiva sugere uma forma especificamente feminina de difusão erótica, compreendida como contra-estratégia em relação à construção reprodutiva da genitalidade. Num certo sentido, para Wittig, O
Corpo Lésbico pode ser entendido como uma ‘invertida’ dos Três Ensaios
Sobre a Teoria da Sexualidade, de Freud, em que ele defende a superioridade da sexualidade genital em termos de desenvolvimento, sobre a sexualidade infantil, mais restrita e difusa. (BUTLER, 2003a, p. 50-51)
Tal como Wittig pontuou, Eduarda e Marina acreditam em uma erogeinização de todo o corpo, e que a relação sexual não inicia no genital (na penetração): “se você tá perto da pessoa que gosta, e a pessoa pegar na sua perna e você já sentir um negócio, assim, já começa aí, não precisa, assim, ter mão, ou tem gente que usa outras coisas, independe assim. É o prazer” (Marina, 23 anos). Cada pessoa e casal têm suas preferências: “Eu acho que cada pessoa é muito diferente uma da outra, então cada uma tem lugares diferentes, tem formas diferentes de ter prazer... Então é um universo muito inexplorado, ainda [risos]. Eu acho que o corpo inteiro faz sexo!” (Eduarda, 18 anos). Ou seja, ainda é vivenciado um prazer não- genitalizado, o que Jamis (1987) apresenta em sua biografia sobre a pintora mexicana bissexual Frida Kahlo:
Certo dia um homem me disse que eu fazia amor com uma lésbica. Morri de rir. Perguntei-lhe se era um elogio. Ele respondeu que sim. Então eu disse que a meu ver uma mulher goza com todo o corpo, e que esse era o
privilégio do amor entre mulheres. Um conhecimento mais profundo do corpo da outra, sua semelhante, um prazer mais total. (JAMIS, 1987, p. 223) A relação sexual vista como possível apenas quando se concentra nos genitais (e focada na primazia do falo-pênis), limita a capacidade do sujeito experimentar em seu corpo outras formas de prazer e satisfação erógena. Em sua pesquisa sobre as sexualidades femininas, Kinsey revelou que o desejo sexual das mulheres é em geral mais fluido comparativamente aos homens, podendo apresentar importantes variações ao longo da vida (GIMENO REINOSO, 2005).
De acordo com Foucault, os discursos sobre o sexo e a sexualidade tendem a se multiplicar dentro de uma mesma “verdade” na tentativa de decifrar o sexo como um segredo universal, com base nos discursos formulados no interior do dispositivo da sexualidade e na construção das estruturas do biopoder. Ele propõe mostrar como as normas são inventadas e construídas e como o ser humano pode, ao invés de repetir “verdades” já ditas, reificando as normativas, ‘fabricar outras formas de prazer, de relações de coexistência, de laços, de amores, de intensidades’ (Foucault, 1979, p. 235), um movimento que vem se esboçando mais atualmente dentro de uma escolha ética, isto é, de escolhas possíveis que ampliem as diversidades de existências.
Conforme diz Castañeda (2006, p. 212), “A centralidade do pênis desnatura uma vasta gama de práticas e preferências sexuais, e faz do homem o único agente do sexo: o herói da história, de quem tudo depende”. Assim, rompendo com discursos, identidades e processos de subjetivação referenciados pelo falo-pênis, o prazer lesbiano representa “um outro referencial, uma espécie de não-identidade que traz a possibilidade de inventar e criar sua própria sexualidade, uma via de singularização” (GOMES, 2003, p. 276).