Para fins desse trabalho, interessa-nos questionar a pretensa universalidade de alguns estigmas e estereótipos sobre as lesbianidades, mostrando como estes, a partir de sua naturalização, foram incorporados nos discursos proferidos pelas pessoas. Como as lesbianidades podem ser vivenciadas apenas por aquelas pessoas que constroem sua subjetividade como mulheres, é importante pontuar como estas são vistas socialmente, ou seja, quais as imagens e as formações discursivas sobre elas. Para tanto, a partir da leitura de Paiva (1990), podemos relacionar três imagens do feminino, com base em histórias religiosas católicas, influentes no contexto estudado, componentes de opiniões acerca das sexualidades, que circundam amplamente o imaginário das sociedades ocidentais atuais.
3.1 Marias
A primeira imagem, que corresponderia a Maria, a virgem, apresenta a mulher vista como mãe, cuidadora, e não pecadora, já que não precisou ter relações sexuais para ter seu filho Jesus – prazer sexual entendido então como pecado. Enquanto, nas sociedades cristãs, espera-se da mulher um papel de mãe, é-lhe negada a sexualidade e o prazer sexual. Nos discursos médicos, filosóficos e políticos a partir do final do século XVIII, houve a exaltação do amor materno, em resposta à elevada mortalidade infantil então existente. Utilizava-se dessa imagem religiosa para apregoar a maternidade como natural, desejável e como a maior possibilidade de satisfação de vida de uma mulher. Tal visão é mantida; muitas mulheres abdicam de suas vidas profissionais e, muitas vezes, até de suas vidas sexuais, para exercerem o papel de mãe, impregnadas por este ideal (BADINTER, 1986).
Segundo Castañeda (2006, p. 171), as mulheres são confinadas a esse serviço da maternagem devido ao machismo operante na maioria das sociedades. Desde a infância, as mulheres são ensinadas a serem mães e donas-de-casa por meio de treinamentos intensivos com bonecas e miniaturas de casinhas, cozinhas, panelinhas etc. A autora pontua, ainda, a questão do “monopólio da maternidade” exigido pelas mulheres:
Numa sociedade machista, a maternidade é a única função que confere uma certa respeitabilidade à mulher; enaltece-a aos olhos dos homens, algo que nem a inteligência, nem as conquistas profissionais são capazes de fazer. Isso dá às mulheres um elemento de poder diante dos homens; parece lógico que o defendam com apego. (CASTAÑEDA, 2006, p. 174)
3.2 Evas
A segunda imagem corresponde a Eva, mulher criada por Deus a partir da costela de Adão, por isso devendo ser submissa a este, para ser sua auxiliar e companheira. Diferente de Maria, Eva era uma pecadora, pois, tentada pela Serpente (o demônio, o mal), provou do “fruto proibido” – analiticamente, isso pode ser interpretado enquanto a curiosidade pelo conhecimento ou, mesmo, como o ato sexual – e foi expulsa do paraíso com o fado de ser subjugada pelo homem.
Aqui, se projeta o papel da mulher novamente sem direito ao prazer e com o dever de suprir o desejo sexual do homem, estando num patamar inferior a ele na vida pública e privada, restrita a cuidar da felicidade do lar e dos filhos.
Tal sexismo tem percorrido os séculos de diferentes formas: na Antigüidade as mulheres, tal como as crianças e os escravos, não tinham o status de cidadãs de direitos; na Idade Média, foram consideradas demoníacas, com ligações íntimas com o mal e passíveis de corromper os homens (seres iluminados, pois foram feitos à “imagem e semelhança de Deus”); na Idade Moderna, foram vistas como seres irracionais de essência inferior, de baixo calor vital e como homens não desenvolvidos (LAQUEUR, 2001). Tal prerrogativa tinha, inclusive, amparo filosófico:
A rigidez dos deveres relativos dos dois sexos não é e nem pode ser a mesma. Quando a mulher se queixa a respeito da injusta desigualdade que o homem impõe, não tem razão; essa desigualdade não é uma instituição humana ou, pelo menos, obra do preconceito, e sim da razão; cabe a quem a natureza encarregou do cuidado com os filhos a responsabilidade disso perante o outro. (Rousseau, 197945 apud
EGGERT, 2003, p. 3)
De acordo com Beauvoir (1948, p. 140), “Rousseau, que aqui se faz o intérprete da burguesia, destina a mulher ao marido e à maternidade. [...] a Revolução burguesa mostrou-se respeitosa das instituições e dos valores burgueses; foi feita quase exclusivamente pelos homens”. De acordo com a autora, em 1789, Olympe de Gouges, cidadã francesa, propôs uma “Declaração de Direitos da Mulher”, simétrica à dos “Direitos do Homem”, na qual pedia que todos os privilégios masculinos fossem abolidos. Ela publicou a declaração em 1791 e foi guilhotinada dois anos depois. Assim, a partir da Revolução Francesa, com a entrada na contemporaneidade, as mulheres ainda eram vistas como não detentoras dos mesmos direitos
45 ROUSSEAU, Jean Jaques. Emílio ou da educação. Tradução de Sérgio Millet. São Paulo/Rio de Janeiro:
dos homens, devendo restringir-se ao “seu papel de mulher”, na esfera privada de “mãe e cuidadora dos homens”.
Mais atualmente, com a sua entrada no mercado de trabalho e a conquista de certa independência financeira, as mulheres passaram a reivindicar direitos civis, sexuais46 e
reprodutivos47, e a lutar contra desigualdades sexistas, entretanto ainda vistas enquanto objeto
sexual a serviço do macho (LESSA, 2007).
Os direitos sexuais foram debatidos na Conferência das Nações Unidas sobre População e Desenvolvimento, no Cairo, em 1994, sendo a sexualidade desassociada apenas da lógica da reprodução, violência sexual e planejamento familiar, passando a ser considerada também pela perspectiva do bem estar e do prazer. Em 1995, na IV Conferência Mundial sobre a Mulher, em Pequim, foi consolidada a relação entre direito e sexualidade, porém, sem incluir o tema da discriminação com base na orientação sexual. E finalmente, em 2007, no Brasil, foi realizada a II Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, na qual o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (PNPM), elaborado em 2004 na primeira conferência, foi reformulado, expressando as necessidades e as demandas das mulheres brasileiras e da sociedade civil, no que diz respeito à elaboração e à implementação de políticas públicas com o enfoque de gênero, geração, raça/etnia e orientação sexual. “Nessa Conferência a atuação das mulheres lésbicas e bissexuais foi mais incisiva, suas demandas estavam em todos os grupos de trabalho e tiveram resultados positivos na plenária final”.48
3.3 Liliths
É a partir dessas “subversões femininas” que se apresenta a terceira e última imagem religiosa, a de Lilith, miticamente conhecida como a primeira mulher de Adão:
46 “Os direitos sexuais dizem respeito ao exercício da sexualidade de todas as pessoas. Essa vivência expressa
como cada pessoa forma sua identidade sexual, identificando-se ou não com os padrões masculinos e femininos estabelecidos socialmente, como vive sua sexualidade e quem é o objeto de seu desejo sexual, podendo ser alguém do mesmo sexo ou do sexo oposto. Quando falamos de direitos sexuais estamos afirmando que o exercício da sexualidade de cada pessoa deve ser respeitado por todas as outras pessoas e instituições sociais e religiosas e deve ser protegido pelo Estado. Uma prática individual só se converte em direito, quando o Estado torna obrigatório o respeito a essa prática”. (REDE LATINOAMERICANA, 2005, p. 10).
47 “Os direitos reprodutivos dizem respeito à autonomia para o exercício da própria capacidade reprodutiva.
Estão relacionados à decisão de quantos filhos/as se quer ou não ter, à escolha do momento da reprodução e da forma como esta se dará. [...] O movimento feminista vem afirmando que nem o Estado, nem a Igreja têm o direito de controlar o corpo das mulheres, elas devem decidir se e quando querem ter seus/as filhos/as”. (REDE LATINOAMERICANA, 2005, p. 11).
48 PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Direitos Humanos e Políticas
Públicas: o caminho para garantir a cidadania de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais. (Texto-Base da I Conferência Nacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais), 2008.
A cultura judaico-babilônica [...] considerou duas figuras femininas, no mito adâmico da criação: Lilith e Eva. Aquela, como o primeiro homem, construída de lama e a ele dada como companheira, à semelhança de todos os outros animais. Criada em igualdade de condições, caracteriza-se como um ser livre, forte, belo e independente e se revolta quando Adão tenta submetê-la, abandonando-o. Banida nos textos judaicos, por não corresponder ao ideal feminino patriarcal, é satanizada e substituída por Eva. [...] Forjada a partir de uma costela de Adão, Eva não tem o mesmo estatuto de Lilith, ao contrário, levada à desobediência, não por um ato livre de vontade, mas por ter sido instigada, não foi execrada, mas condenada e com ela suas descendentes, a expiar o pecado maior da insubordinação. (GUILARDI-LUCENA, 2003, p. 18)
De acordo com Guilardi-Lucena (2003), diferente de Eva, Lilith foi criada por Deus como foi criado o homem. Em Gênesis, 1:26-28, está escrito: “Deus criou o homem à sua imagem, criou-os à imagem de Deus, criou-os macho e fêmea”; em 1:28, “Deus os abençoou e lhes disse: “Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra, e tende-a sujeita a vós”. O plural mostra que foram criados dois seres, um homem e uma mulher, sendo esta a Lilith, igual e abençoada. A autora diz que Lilith não aceitava a dominação de seu companheiro, revoltou-se com a subjugação em um momento em que tinham uma relação sexual, pedindo para se posicionar em cima de Adão, pedido por ele recusado. Demonstrava todo tipo de “pecado”: revolucionária, libertária, à procura do prazer, ousada, infratora de regras etc. Por fim, Lilith foge e o homem se sente sozinho. É nesse momento que Deus cria Eva a partir da costela de Adão – para ficar no lugar da mulher original, em menor condições de igualdade com Adão e, por isso, mais comportada e obediente. Eva seria futuramente tentada por Lilith, na imagem da Serpente, a “pecar” provando do “fruto proibido”. Ao final, sempre as mulheres são corrompidas pelo “mal”.
Podem-se relacionar à imagem de Lilith todos os protestos, “desvios”, revoltas e reivindicações realizadas pelas mulheres no decorrer de todos os séculos de opressão pelos homens, sendo os mais recentes as lutas feministas pela igualdade de direitos civis e políticos, por direitos sexuais e reprodutivos e contra as violências de gênero e à dominação masculina (WELZER-LANG, 2001).
A partir dessas três figuras, pode-se construir o que é imaginariamente esperado de uma mulher na sociedade contemporânea: ser mãe, não ter contato com a sexualidade e com o prazer a menos que para reproduzir-se ou para satisfazer o parceiro e, por fim, manter-se submissa ao homem, servindo-lhe como objeto, cuidando dele, de sua prole e de sua casa. A partir disto, o imaginário social constrói a significação da lésbica como uma mulher que não
terá filhos (a menos que faça inseminação artificial ou “use” um homem para tal), ou seja, não cumpre com a sua função de reprodutiva; que tem relações sexuais por prazer (já que na relação sexual lésbica não há o objetivo da reprodução); que não se subjuga ao homem (pelo menos nos relacionamentos afetivo-sexuais); e que, por vezes, até ameaça o “lugar do homem”, pois, imaginariamente, “toma” destes as mulheres. Não é por menos que muitos homens comentam ser “um desperdício” o fato de uma mulher ser lésbica.
Essa imagem da lésbica, contrária ao modelo ideal de mulher, construída a partir contextos históricos variados, atravessa cada um dos indivíduos da sociedade, que lidam de formas particulares com tal significação. A lésbica encaixa-se, então, na figura de Lilith, sendo vista como quebradora das regras, libertária e demonizada pela sociedade como um todo, já que não cumpre com seus papéis normativos de mulher-feminina-objeto/esposa-mãe.
A partir (da fuga) desses modelos ideais de mulher, foram construídos estigmas e estereótipos a respeito das lesbianidades, pautados nas assimetrias entre os gêneros, na superioridade do macho sobre a fêmea e na primazia do falo (entendido como pênis), para desqualificar essa forma de vivência, invisibilizá-la, apagá-la da história ou fazê-la tornar-se compatível com o viriarcado.
IV. O que lésbicas fazem na cama não é “sexo de verdade”