2. MESLEKİ KİMLİK
2.5. Mesleki Kimlik Tanımı
A principal característica que diferencia pessoas de orientação sexual heterossexual das de orientação sexual homossexual é o sexo biológico dos(as) parceiros(as). Assim, no caso do casal homossexual, no pensamento binarizado, remete-se rapidamente à relação sexual como sinalizador da diferença. Portanto, a atividade ou a passividade no ato sexual acaba sendo com freqüência questionada.
Quantas vezes um casal homossexual escuta um comentário malicioso e/ou alienado: “Quem é o macho da relação?”, questão que geralmente vem como sinônimo de “Quem ‘come’ (penetra) quem?”, especialmente se os que compõem o casal não assumem o estereótipo masculino(a)-feminino(a), entendido como ativo(a)-passivo(a). Navarro-Swain (2004, s.p.), no caso das mulheres, também problematiza:
[...] se espera que uma lesbiana ‘masculinizada’ seja atraída por uma mulher ‘feminina’, reproduzindo a bi-polaridade do desejo. Como apontam Innes e Lloyd69, muitas análises caem nesta armadilha, não reconhecendo que ‘butch
pode ser um significante que tem muito pouco a ver com femme ou mesmo com qualquer sexualidade’.
A feminilidade, entendida como passividade, é então vista como diretamente relacionada (gosta, deseja, se “completa”) à atividade (e vice-versa), sendo esta atribuída à figura do homem, aquele que possui um membro viril (biológico), legitimador da atividade, neste caso, sexual. Quando a relação homoerótica é entre duas mulheres, fica subtendido no imaginário machista que falta alguma coisa, ou seja, a atividade, a partir do significante pênis. Uma música do pop-roqueiro Raul Seixas, muito ouvida pelas garotas lésbicas em Assis, cantada como um hino ingenuamente, indica claramente esse imaginário social:
Subi no muro do quintal
E vi uma transa que não é normal E ninguém vai acreditar
Eu vi duas mulher
botando aranha prá brigar [tendo uma relação sexual] [...] Vem cá mulher deixa de manha
69 INNESS, Sherrie; LLOYD, Michele. G.I.Jones in Barbie Land: recontextualizing butch in twentieth-century
lesbian culture. In: BEEMYN, Brett and ELIASON, Mickey (Ed). Queer Studies, a lesbian, gay, bissexual
Minha cobra [pênis] quer comer [penetrar] sua aranha [vagina] [...] Cumé que pode duas aranha se esfregando
Eu tô sabendo, alguma coisa tá faltando [...] Deve ter uma boa explicação
O que é que essas aranha tão fazendo ali no chão Uma em cima, outra embaixo
A cobra perguntando onde é que eu me encaixo? [...] Soltei a cobra e ela foi direto
Foi pro meio das aranha Prá mostrar como é que é certo Cobra com aranha é que dá pé
Aranha com aranha sempre deu jacaré.70
Questiono, a partir disso, o que seria então a atividade e a passividade nas lesbianidades – as relações que mais se afastam dos ideários heteronormativos. Tal como discorrido no estigma o que lésbicas fazem não é “sexo de verdade”, para o discurso hegemônico das sociedades machistas e heterocêntricas, a passividade e a atividade são consideradas a partir da penetração do pênis em uma vagina ou em um ânus – o que também abrange os gays nas figuras bicha-bofe71. A partir desse entendimento, não sendo o ato sexual
entre mulheres pautado apenas na penetração – e de que o prazer sexual não precisa necessariamente ser genitalizado –, a que as mulheres lésbicas se referem quando falam de atividade e passividade?
No dicionário Aurélio, os conceitos ativo e passivo são termos que não mencionam sequer algum equivalente sexual, muito menos a penetração – sendo essa incluída em tais termos pelo senso comum “peniscentrado”:
Ativo: adj. 1. Que exerce ação; que age, funciona, trabalha, se move, 2. Apto a agir, funcionar com rapidez, prontidão, 3. Que se caracteriza principalmente pela ação, pelo movimento, pela diligência; vivo, ágil, enérgico, rápido (em oposição a lento, lerdo), 4. Que tem participação ou influência; participante, atuante, 5. Muito forte; intenso, vivo.
Passivo: adj. 1. Que sofre ou recebe uma ação ou impressão, 2. Que não atua; inerte; indiferente, apático. (FERREIRA, 2000)
Está claro que a atividade é socialmente considerada uma qualidade masculina, porém a masculinidade compõe-se de atributos humanos, não apenas de domínio dos homens. Sem muita fixidez, as entrevistadas pontuaram diversas formas de entender tais conceitos. Por exemplo, Marcela entende atividade como sinônimo de masculinidade, e passividade como igual à feminilidade, mas, ao abarcar o ato sexual, desconstrói seu argumento:
70 SEIXAS, Raul. Rock das Aranhas. In: ____. Abre-te Sésamo. São Paulo: SONYBMG, 1980. 71 Bicha correspondendo ao gay feminino, e bofe ao gay masculino.
[...] eu trato assim, passiva e ativa. No meu caso eu sou ativa. Passiva é a minininha que se veste de mini-saia e tal, esses negócio. Menina mais feminina, passiva. Eu já vi muito relacionamento de duas passiva, duas ativa. Entendeu? Eu acho que aquele pessoal que fala é, quando bate, aquele... quando você quer, você deseja [A química?] A química, isso! Quando a química é mais forte não importa se é duas ativa e duas passiva. [Então pra você a passiva é a mais feminina e a ativa a mais masculina.] Isso. [...] [Essa questão da atividade e passividade corresponde à masculinidade e à feminilidade?] Eu acho! [Mas existem mulheres femininas ativas?] Tem! Muitas. E mulheres masculinas que são passivas.
(Marcela, 42 anos)
Fernanda e Marina, esta última ainda sem muita certeza, explicam a atividade e passividade a partir da genitalização:
[O que é ser ativa?] Fazer na pessoa. [Qualquer coisa?] Na minha cabeça ativo é quem faz e passivo é quem recebe, não é? [Passivo seria então quem recebe toques, chupadas, beijos, lambidas etc.?] É, e etc. [Em qualquer lugar?] É, só no ato mesmo, por a mão lá. Eu acho que às vezes rola outra coisa de quem é passivo deixar. [Só então na vagina, na região genital?] É.
(Marina, 23 anos)
Bom... ativa e passiva, sei lá... o que eu ouço dizer? O que eu ouço, né? Porque não é pra mim. É quem faz, né, quem penetra é ativo. Quem aceita é passivo. Mas tem várias formas de você ter uma relação, sentir sem ter penetração. Por isso que eu falo que na pergunta anterior, cada um faz pra agradar o outro. (Fernanda, 25 anos)
Janaína desqualifica a primazia genital/penetrante:
Eu diria que o ativo, ele é aquele que mais dá do que recebe, mas no dar ele também recebe. Porque quando você faz o carinho, existe todo um prazer em você dar aquele carinho. Aí você tá tendo uma atitude de ativo. E quando, ao mesmo tempo, você recebe aquele carinho, você recebe o carinho do parceiro, da parceira, não importa, aquela pessoa tá tendo uma atitude de passivo, e existe um momento onde os dois trocam juntos os carinhos, aí já é um equilíbrio, não existe nem ativo nem passivo. Aí já existe um equilíbrio entre as duas pessoas na cama. [E pra existir atividade é necessário haver penetração?] Não, não. Na minha opinião não, não precisa. (Janaína, 47 anos)
E Eduarda finaliza desconstruindo os sentidos hegemônicos da atividade-passividade, tentando explicar que a ativa seria, arbitrariamente, aquela que, no momento de uma relação sexual, está dando prazer, e a passiva, a que está recebendo; entretanto, quem dá prazer também sente prazer. Para ela as coisas se misturam sem linearidade, podendo um
comportamento sobressair em uma ou outra, de acordo com momentos e acontecimentos diferentes. Da mesma forma, a atividade e a passividade também são revezadas entre as parceiras:
Eu acho que ativa seria a que no momento está dando prazer, digamos assim, e passiva é a que está sentido, eu não sei, recebendo prazer. Mas é complicado delimitar essas coisas, né? Eu falei agora, mas não ficou com muito sentido o que eu falei. Porque... eu acho que as coisas se misturam tanto... isso de ativa e passiva. Porque as duas estão ali, eu acho que as duas estão sentindo prazer ao mesmo tempo. Então é muito complicado isso de uma dar e a outra receber prazer. É, é complicado [pausa] [risos]. Porque eu posso estar dando prazer para outra menina e sentir muito prazer em fazer isso, então, olha! Eu acho que não existe esse negócio de ativa e passiva! É verdade! Eu acho que as coisas se misturam. Eu acho que todo mundo é ativo e passivo. [...] eu acho que a maioria das pessoas é as duas coisas, e simultaneamente! (Eduarda, 18 anos)
As entrevistadas relataram as características do que é ser ativa ou passiva em múltiplas possibilidades em uma relação sexual: a primeira é aquela que “dá prazer”, “faz”, “dá carinho”, “toca”, “penetra”; e a segunda, aquela que “sente prazer”, “recebe”, “é tocada”, “deixa”, “aceita”. Além disso, penetração não é considerada necessária para dizer dessas classificações.