2. MESLEKİ KİMLİK
2.1. Kimlik Tanımı
Mesmo não assumindo uma masculinidade cotidianamente, Marina acredita que pode haver vários motivos para uma pessoa utilizar-se da masculinidade, um deles é para proteger- se contra a lesbofobia e ter maior aceitação social:
[...] tem pessoas que são. E têm transformistas, ou pessoas que têm, às vezes, algum problema, não sei, de relacionamento com a família, e tal, e que quer se passar por homem... Faz de tudo para a pessoa não achar que é mulher. Talvez, acho que pra não ter o preconceito... assim: ‘Antes ela achar que eu sou um homem que ela achar que eu sou uma mulher que quer ser homem’. Eu não acho que tem necessidade! Mas eu acho que às vezes pode ser por isso. Eu conheço lésbicas de você chamar, ter um nome de menino, um apelido de menino e que não gosta de você chamar pelo nome feminino da pessoa, e que tem um jeitão assim, sabe? (Marina, 23 anos)
Contudo, se por um lado, passar-se por homem pode ser mais aceito, por outro, caso se torne conhecida a identidade sexual da mulher, a lesbofobia pode ser mais alentada. Eduarda relatou sobre: “tratarem muito mal as lésbicas mais masculinas que é uma audácia,
um absurdo, uma ousadia elas quererem parecer homem. Onde já se viu!”. Assim, sem o conhecimento de que ali é uma mulher, desvia-se da não-aceitação social, contudo, ficando isso claro, cai sobre ela a inconformidade de uma mulher assumir o “lugar do homem”, ou de não se adequar à sua “condição de mulher”. Como confirmam Perrin e Chetcuti (2002, s.p.), o fato de uma mulher apresentar-se masculina “pode, em contrapartida, desencadear uma violência ‘heterosexista’”, por agredir os padrões normativos, tornando-se alvo dessa violência. Eduarda ainda coloca que quando as lésbicas são femininas e os gays masculinos, tal composição é vista como “menos ruim”, já que correspondem, em relação às suas identidades sexuais, aos padrões heteronormativos.
Marina, que geralmente é mais feminina, fala que mesmo sendo assumida, dificilmente recebe alguma manifestação de lesbofobia. Também disse que a única coisa que teme é ser vítima de ofensas ao se posicionar de forma mais masculina. Esses discursos sugerem que o incômodo se dá principalmente quando há visibilidade e enunciação das fugas ao modelo hegemônico. Assim, ao demonstrar sua masculinidade, “a violência que pode se exercer então está presente para lembrar a posição de dominada [dessas mulheres], que elas não devem deixar” (PERRIN; CHETCUTI, 2002, s.p.).
Ainda em relação à masculinidade como estratégia de proteção, Portinari (1989) coloca que Simone de Beauvoir, mesmo tendo sido uma precursora dos estudos feministas, em relação às lesbianidades mostrava-se presa aos rígidos padrões de gênero:
Distinguem-se amiúde – depois de Jones e Hesnard – dois tipos de lésbicas: umas ‘masculinas’, que ‘querem imitar o homem’, e outras ‘femininas’, que ‘têm medo do homem’. É verdade que se podem considerar, grosso modo, duas tendências na inversão; certas mulheres recusam a passividade, enquanto outras escolhem braços femininos para a eles se entregarem passivamente. (Beauvoir, 1980, p. 147 apud PORTINARI, 1989, p. 51)
Eduarda disse que quando ela sai vestida de forma mais feminina, os homens paqueram e investem eroticamente nela; tal situação acontece menos quando ela apresenta-se mais masculina. Contudo, este estilo adotado não é para ela uma forma intencional de afastamento, ou seja, não é um “medo do homem”, como a citação apresentou, mas apenas uma conseqüência; opinião com a qual Marina, mais feminina, também concorda.
Quando uma mulher não assume um papel e uma imagem correspondentes aos padrões sociais de feminilidade, que invoca o prazer dito do homem (decotes, saias, cabelos compridos, delicadeza, maquiagem), ela pode se tornar desinteressante para eles, o que pode
até ser, na opinião de Eduarda e Marina, o objetivo de algumas mulheres lésbicas, mas que, pessoalmente, não é o delas.
Entretanto, em relação a isso, Fernanda não acredita que a masculinidade a proteja das investidas sexuais dos homens, uma vez que ela mesma, que usa freqüentemente vestimentas masculinas, é paquerada por homens. Contudo, ela vê isso como um teste de sua sexualidade: “tem uns que dão em cima sabendo que eu sou. Não sei se pra ver se... fazer um teste”. Ela disse que as pessoas geralmente falam que ela anda “como homem”, possivelmente por ela não assumir a feminilidade imposta socialmente: “Amigos que trabalham comigo falam assim: ‘Anda que nem mulher!’. Então, eu não sei. Eu não sei o meu andar. Como que eu vou andar? Rebolando, será que é desse jeito que eles querem que eu ande?”. Pode-se ver, nessa fala, a exigência para que ela seja feminina, isto é, mostrar-se disponível aos homens e “rebolar” sugere claramente isso, um código de sedução. Assim, percebe-se a feminilidade como “signo de disponibilidade aos homens, aquilo que os homens esperam das mulheres, e, portanto, como a própria feminilidade heterossexual” (PERRIN; CHETCUTI, 2002, s.p.). Como diz Gimeno Reinoso (2005, p. 298),
Podemos ver na pornografia, na publicidade, na cultura de massas, como usar nossos corpos: como devem ser os gestos, como devem ser as vozes, os movimentos, as posturas, os olhares… Não se nos ensina como gozar mais com nossos corpos, nem como sentir-nos melhor conosco mesmas, ou ser mais livres; ensinam-nos a nos comportar segundo as fantasias que os homens têm fetichizado.60
Marcela, tanto em um relato da fase adulta quanto em um sobre quando era jovem, também afirmou que nem sempre a masculinidade é um código de proteção às investidas dos homens: “[Você acha que afasta?] Eu acho que não, chama mais ainda. [risos] Nossa, já levei tanta cantada sendo assim. Muitas e muitas. Então, não afasta não. Pelo contrário, acho que eles até gosta mais”.
Apesar de eu andar com roupa deles na escola, eles ainda me paqueravam, parecia uma coisa. Tinha um que aos meus 15 anos, ele ia todo dia na porta da minha casa falar pra minha mãe que gostava de mim, que eu não podia ser aquilo. Era um horror, era só briga. (Marcela, 42 anos)
60 Minha versão do original em espanhol: “Podemos ver en la pornografía, en la publicidad, en la cultura de
masas, cómo usar nuestros cuerpos: cómo deben ser los gestos, cómo deben ser las voces, los movimientos, las posturas, as miradas… No se nos enseña cómo gozar más con nuestros cuerpos, ni cómo sentirnos mejor con nosotras mismas, o ser más libres; se nos enseña a comportarnos según las fantasías que los hombres han fetichizado” (GIMENO REINOSO, 2005, p. 298).
E Janaína finaliza com a mesma opinião, lembrando que, independente da performatividade de gênero exercida, e especialmente se a mulher for bela, ela ainda é vista como objeto de investimento, independente da orientação sexual homossexual:
[E você acha que a masculinidade afasta os homens?] Alguns afastam, mas é... a maioria, não. A maioria, não principalmente se a mulher for bonita. Os homens vão, aí que eles vão: ‘Mas por que que não gosta de homem? Nossa, eu não acredito que não gosta de homem. Mas o que que tem contra homem?’. Aí é que ela vai ser mais assediada. (Janaína, 47 anos)
Portinari (1989) fala sobre a ilegitimidade da homossexualidade em uma sociedade heteronormativa, e sobre uma sutil diferença entre a visão sobre a homossexualidade em homens e mulheres. Para os gays, quando sua homossexualidade é comentada, sabida ou assumida, é mais difícil duvidar de sua legitimidade, comparativamente às mulheres, que, ao contrário, quando se assumem, falam ou se sabe sobre sua homossexualidade, geralmente esta é vista como duvidosa.
[...] para um homem sobre o qual paire a mais leve suspeita de homossexualidade, o que fica difícil é provar se ainda lhe resta alguma parcela de heterossexualidade. Já na mulher, é a homossexualidade que é posta em dúvida: como é possível semelhante fenômeno? A expectativa que paira sobre a cabeça da mulher dita homossexual é sempre a de que ela acabe se revelando como uma fraude: uma heterossexual falhada, uma homossexual de ‘araque’, inautêntica. (PORTINARI, 1989, p. 73)
Gimeno Reinoso (2005) ainda faz um longo relato mostrando como as relações entre mulheres vieram sendo invisibilizadas e postas em dúvida no decorrer da história ocidental.
[…] quando buscamos exemplos de práticas de homossexualidade masculina na história, sabemos o que buscar e sabemos também que, seja qual for o nome que lhe damos, tais práticas e sentimentos foram fonte de prazer e sofrimento, proporcionaram felicidade, amor e plenitude, e também perseguição, dor e morte. O sexo lésbico, os comportamentos, ou as subjetividades que agora poderiam ser consideradas como lésbicas, têm sido excluídos da história ou cuidadosamente ocultados. Da existência lésbica apenas existem rastros. De fato, quase ninguém seria capaz de nomear a uma lesbiana antes do século XX, exceto talvez Safo. [...] Por que nos exigem provar para nós [as lésbicas] aquilo para o que bastam indícios no caso dos homens? (GIMENO REINOSO, 2005, p. 35-40)61
61 Minha versão do original em espanhol: “cuando buscamos ejemplos de prácticas de homosexualidad
masculina en la historia sabemos qué buscar y sabemos también que, le demos el nombre que le demos, dichas prácticas y sentimientos han sido fuente de placer y de sufrimiento, han proporcionado felicidad, amor y plenitud, y también persecución, dolor y muerte. El sexo lésbico, o los comportamientos, o las subjetividades que ahora podrían ser consideradas como lésbicas, han sido excluidos de la historia o
Para a autora, a heterossexualidade nos homens não se define pelo desejo às mulheres, mas pelo horror homofóbico de ser objeto de desejo de um homem ou desejar um homem (GIMENO REINOSO, 2005). Não é à toa que um dos insultos mais utilizados entre homens é “veado”. Em sua opinião, geralmente os homens, a partir de certa idade (na saída de infância e entrada na adolescência), lutam para afastarem-se uns dos outros fisicamente (sendo os únicos contatos os violentos), não demonstram afeto entre si e repudiam qualquer tipo de feminilidade.
É a orientação sexual dos homens que é descrita como fixa e imutável, porque a heterossexualidade deles sempre foi almejada fixa e imutável, não há nenhuma mudança de discurso. Quando, pelo contrário, se faz um discurso sobre a identidade sexual das mulheres, este é sempre duvidoso e deixa tantos flancos soltos que ao modelo se observa claramente a armação. (GIMENO REINOSO, 2005, p. 210)62
Marina contou que, quando ela não estava namorando, havia sempre uma descrença sobre a legitimidade de sua orientação sexual: “quando não tinha nada assim, concreto pra ficar, uma namorada, tinha uma cobrança: ‘Então, cadê, se você é lésbica?’ [Como se pra você ser lésbica você tivesse que estar com uma mulher? Não podia ser lésbica sozinha?] É isso! Eles não falavam, mas eu sentia isso. Até por isso que eu arrumava umas namoradinha e tal”.