C. KONYA EKONOMİSİ
III. ULAŞIM
Esta foi a banda de maior inspiração para Raul. Contemporâneo dos rapazes, ele estava no auge de sua paixão pela revolução comportamental do rock, quando ouviu Beatles pela primeira vez. A partir de então, passou a uma nova percepção sobre as possibilidades comunicacionais do ritmo. Ele tomou conhecimento de que poderia alcançar o sucesso criando suas próprias composições:
Foram os Beatles que me deram a porrada. Foi quando eles chegaram e passaram a cantar as próprias coisas deles que eu vi, poxa, esses caras estão cantando realmente a vida deles, estão dizendo o que há pelo mundo, o que pensam. Então eu posso fazer a mesma coisa, dizer exatamente o que penso em minhas músicas. Foi quando eu comecei a compor, juntando tudo no meu caderninho. E tinha outra coisa: do ponto de vista musical, foram os Beatles que me abriram a cabeça, muito mais que o rock. Eu me lembro de quando ouvi I Want to Hold your Hand, eu disse, olha aí, olha aí, o baixo eletrônico na frente! Antes eu nunca tinha ouvido o baixo. Agora era facílimo, a gente ouvia os acordes. Vi 11 vezes A Hard Day’s Night, de Lester. Com eles eu vi que o rock podia ser usado como um veículo. E eu nunca tinha sacado isso antes. Eu usava o rock como revolta, uma revolta irracional. Mas os Beatles canalizaram a coisa, eles mostraram o outro lado de tudo. Me disseram: Vai, entre na máquina, entre na ratoeira, vá lá e faça, curta. (SEIXAS, Raul apud PASSOS, 1993, p. 20, grifo nosso).
A banda, composta por quatro jovens ingleses: Paul McCartney, John Lennon, Ringo Starr e George Harrison, nascidos em Liverpool durante o turbulento período da Segunda Guerra Mundial, originou-se de sua formação anterior, chamada Quarrymen. Os Quarrymen, que tinham Paul, George, Stuart Sutcliffe e Lennon (como líder), começaram fazendo shows em clubes de Liverpool, além da temporada de quatro meses em Hamburgo, Alemanha. Posteriormente, com o falecimento de Stu, Ringo passou a integrar o grupo.
De acordo com Friedlander (2002), Brian Epstein, proprietário de uma grande loja de discos, teve seu interesse pela banda despertado quando um cliente procurou pelo disco My Bonnie, não disponível em sua loja. Em 1961, ele passou a ser empresário da banda, e, no ano seguinte, eles assinaram contrato com a gravadora Electric and Musical Industries Ltd (EMI). No final de 1963, eles haviam lançado I Want to Hold Your Hand, seu quinto disco single, e o segundo álbum, With The Beatles, e estavam interessados pelos Estados Unidos. De acordo com Friedlander (2002), a gravadora EMI, subsidiada pela Capitol, preparou seu lançamento nos EUA, destinando cinquenta mil dólares para promovê-los. Como tática, foram distribuídos seus álbuns, uma entrevista e um roteiro aos principais DJs76 dos EUA.
76
Espalhados pelas cidades de Chicago, Nova Iorque e Los Angeles, havia cinco milhões de cartazes com a frase “Os Beatles estão chegando”.
Quando o disco com I Want to Hold Your Hand e I Saw Her Standing There foi lançado nos EUA, em 26 de dezembro de 1963, entrou nas paradas de sucesso na semana seguinte, alcançando rapidamente o primeiro lugar, e o grupo fez shows em Washington e Nova Iorque. Os norte-americanos os chamaram de Fab Four; vestidos com terninhos e de cabelos compridos, levavam o público jovem a um estado de histeria coletiva.
Em sete de fevereiro de 1964, foram recebidos por dez mil fãs descontrolados e duzentos jornalistas no aeroporto de Nova Iorque, marcando o início da Beatlemania que acometeria o mundo. Dois dias depois, sua participação no programa televisivo Ed Sullivan Show foi assistida por setenta e três milhões de telespectadores. Na semana seguinte, sua participação no mesmo programa superou esse número.
De acordo com Friedlander (2002), o formato regular dos shows contava com a duração de trinta e cinco minutos, nos quais eram cantadas doze canções, abrindo com Lennon cantando Twist and Shout e fechando com Paul fazendo Long Tall Sally. George e Ringo cantavam uma música cada, e as demais eram divididas pelos dois primeiros. Eles fizeram shows de imenso sucesso por toda a América do Norte e Europa. Em seu show no Shea Stadium de Nova Iorque, em 1965, venderam cinquenta e cinco mil ingressos. No ano seguinte, em Tóquio, seu show precisou de três mil seguranças para manter nove mil pessoas em ordem.
O momento histórico norte-americano foi favorável para o lançamento dos Beatles; eles apareceram quando o país estava fragilizado pela morte do presidente John Kennedy, e a imprensa procurava por um assunto alegre. Seu senso de humor foi imprescindível para o rápido sucesso, eles eram carismáticos e estavam fazendo coisas que ninguém fazia.
Após conquistar a América, retornaram à Inglaterra para estrelar A Hard Day´s Night, do diretor Richard Lester, filme que mostra a vida da banda, tendo eles próprios como personagens, reforçando sua boa imagem como um grupo unido. Após o filme, foi lançado, com o mesmo nome, o primeiro álbum da banda a conter apenas músicas originais, com treze músicas de Lennon e McCartney.
Seu sucesso mundial foi inédito, viviam em excursões, sendo assediados por repórteres e fãs, jamais conseguindo privacidade. Lamentavelmente, em 10 de abril de 1970, os jornais publicaram a separação definitiva da banda.
Musicalmente, os Beatles expandiram as fronteiras do rock and roll, acrescentando piano, flauta, fuzz, cítara e cordas em algumas gravações. Também inovaram nas
experimentações sonoras: a introdução do álbum Revolver tem sons de arranhado e de tosse; na música Rain, foi utilizado o efeito de uma fita tocando de trás para a frente; e, em She Said She Said e Good Day Sunshine, há alterações dos tempos rítmicos do rock e mudanças de acordes. “As inovações musicais eram surpreendentes. Os Beatles usaram a tecnologia de estúdio de gravação como se fosse um outro instrumento.” (FRIEDLANDER, 2002, p. 135).
Sua música inovadora também trazia elementos da música medieval irlandesa, segundo o depoimento do ator Kenneth Haigh no DVD de comentários do filme A Hard Days Night:
Sou Irlandês e cresci em Yorkshire e percebo algo bem básico, folk do norte na música deles. É sério. É algo que toca fundo. É a mesma coisa que ouvem em Kentucky, na Virgínia ocidental. Algo folk, irlandês, embora seja em ritmo de rock. Há algo básico, do coração, que é eterno. Muitos outros grupos usam truques. Eles não, só tocavam o que gostavam de tocar.
Alf Bicknell, ex-motorista dos Beatles. fala a respeito da música medieval Greens Leaves, em The Beatles Diary, seu documentário sobre a banda:
Vou levar vocês ao “Cow Palace” em 1965. Um lugar muito grande. Os Beatles fariam dois shows nesse dia, o que era raro. Eu estava chegando no
motor home, um grande trailer que tínhamos. Quando estava chegando à porta, ouvi essa música doce que era “Greens Leaves” que todos conhecem. Ao abrir a porta intrigado, olhei à minha esquerda e George estava lá sentado tocando “Greens Leaves” e havia uma moça cantando ao lado dele, Joan Baez.
Suas experiências psicodélicas trouxeram novas entonações às composições e contribuíram para escolhas temáticas mais despreocupadas. Para Friedlander (2002), o processo de novas experimentações teve início em agosto de 1964, quando conheceram a maconha, e Bob Dylan deu-lhes dicas para utilizarem a expansão da mente no processo criativo. Suas músicas passaram a apresentar maior apelo psicológico, como o grito deprimido de Help, e um conteúdo filosófico maior: Hide Your Love Away e Norwegian Wood traziam referências abstratas, Nowere Man apresentava críticas sociais, e The World entoava mensagens de amor.
A inserção do conteúdo crítico-filosófico no rock and roll modificou seus caminhos, conferindo-lhe maior poder social.
Segundo Friedlander (2002), a percepção sensorial dos Beatles teve uma expansão mais profunda quando conheceram o LSD-25, em 1965, o que inspirou o álbum Revolver, com foco nos domínios psíquicos, contendo a música Taxman, que tinha um tom de crítica política à sociedade. O disco recebeu elogios da crítica por ser um trabalho musical de visão interior e exterior.
A obra literária infantil de Lewis Carroll Alice no País das Maravilhas serviu de inspiração para I Am The Walrus, de Lennon.
Lennon era, dos Beatles, o mais crítico e empenhado em expandir a consciência. Tomorrow Never Knows foi uma amostra de seus interesses filosóficos, misturando ritmos sincopados com uma mensagem inspirada no Livro Tibetano dos Mortos. Nela, utiliza uma base religiosa e filosófica como tema para uma música com inovações sonoras, da mesma maneira que Raul Seixas o faz ao trabalhar a filosofia religiosa do Bhagavad Gita com uma melodia inovadora em Gita. De modo que esses livros sagrados são lançados para a cultura de massa, sendo inseridos em outros países num contexto cultural de entretenimento.
Mais de quarenta anos depois, ao tocar pela primeira vez com Os Panteras, a primeira banda de Raul, na Virada Cultural paulista em 2009, o cantor Marcelo Nova, seu último parceiro, lembrou: “Lá na Bahia eu ia ver Os Panteras tocar, eu ficava na frente do palco, no gargarejo, como vocês estão agora, eu tinha uns quatorze anos e esses caras, uns vinte e poucos, esses caras eram demais! Os Panteras foram os meus Beatles!”.