C. KONYA EKONOMİSİ
II. MAKROEKONOMİK GÖSTERGELER
3. DIŞ TİCARET
“Eu sou tão bom ator que finjo que sou cantor e compositor e todo mundo acredita.” (SEIXAS, Raul apud PASSOS, 1993, p. 47).
Raul Seixas, enquanto artista, personificou uma figura questionadora, com declarado viés anárquico, dedicada a questionar a ordem estabelecida das situações cotidianas na cultura brasileira, com característica dose de humor.
Em sua arte performática, criou uma série de personagens para ilustrar suas produções, figuras proféticas, como o sábio ancião de Há dez Mil Anos Atrás, o mago de A Pedra do Gênesis e o profeta de As Profecias. Também personificou a imagem do roqueiro enérgico em músicas como Rockixe, Eu Sou Egoísta e No Fundo do Quintal da Escola, e nos LPs Uah- Bap-Luh-Bap-Lah-Béin-Bum! e A Panela do Diabo.
Também foi autor de personificações singelas, como em Maluco Beleza, Réquiem para Uma Flor e Água Viva, e de figuras românticas, como os sujeitos apaixonados de Ângela, Mais I Love You, Mata Virgem e Tu és o MDC da Minha Vida. Há, ainda, o malandro do samba Aos Trancos e Barrancos e, por fim, o que se pretendia incômodo: o contestador de Mosca na Sopa e de As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor.
Em entrevista ao jornal O Globo em 1983, ele fala sobre a postura de guru que assumiu e sobre as verdades individuais:
− É... era essa coisa mesmo, eu não fazia shows propriamente. Eu fazia discurso... sei lá... pregações... queria dizer coisas às pessoas, mas ao mesmo tempo eu discutia aquilo, discutia o fato de... por que eu ali em cima do palco, se a verdade está em cada um?... aquelas pessoas todas deviam estar no palco, era isso que eu queria dizer, mas não sabia como... (PASSOS, 1993, p. 30).
Seus personagens, portadores de questionamentos de fundo crítico e anárquico e também de novas propostas, ganharam a simpatia do público por sua abordagem humorística
24 Nome artístico de João Rubinato (1912-1982), cantor, compositor e poeta popular brasileiro, conhecido por
sucessos musicais como Saudosa Maloca, Trem das Onze, As Mariposas e Samba do Arnesto. Sua expressiva narrativa em linguagem popular como poeta da cidade de São Paulo e suas andanças pelo boêmio bairro do Bixiga o identificaram com a classe de migrantes italianos residentes no Brasil na década de 1950, mas, sobretudo, o levaram ao posto de um dos principais representantes da cultura popular brasileira.
em linguagem popular, a exemplo do cowboy de Cowboy Fora da Lei, do carimbador de O Carimbador Maluco, conhecida como Plunct, Plact, Zuum ou do “maluco” de Maluco Beleza.
Em 1977, ele brinca, em seu diário, com sua vontade de interpretar vários personagens:
Eu na realidade sou um ator que não quero parar e só interpretar um personagem; eu quero interpretar o garotinho sem barba da novela das sete, o mocinho da novela das oito, o viado do filme pornô, o intelectual- esquizofrênico Raul Seixas (o cantor), e de repente meu campo ficou restrito a somente interpretar um personagem. Eu queria ser um dos personagens de Hitchcock, de Fellini, de Nelson Rodrigues, da História da Humanidade tipo Nero, Calígula, Jesus, Crowley. De repente Ângela Ro-Ro, um Chico Anysio... Attention, Raul, para não se alienar sendo apenas um compositor carismático que é Raul Seixas. Este é um personagem que eu já esgotei. Vide a dica de Metamorfose Ambulante (que eu compus com quatorze anos ou menos) dizendo: “Se hoje eu sou estrela, amanhã já se apagou. Se hoje eu te odeio, amanhã...” (SEIXAS, Raul apud SEIXAS, Kika; SOUZA, 1993, p. 38).
Seus personagens e suas atitudes moldaram o modo como sua imagem era veiculada pela mídia, não apenas tal como se davam os fatos, mas com a característica manipulação do direcionamento feita pelos meios de comunicação. Houve um processo de mitificação dessa imagem, que acabou por reduzir a percepção pública de sua complexidade. Enquanto a imprensa privilegiava apenas sua ousadia performática, e a imagem do roqueiro debochado ganhava projeção, o compositor, estudioso, ligado à família, mergulhado num processo criativo intenso e enfrentando problemas de saúde, permanecia na obscuridade.
Sua postura criativa e anárquica ajudou a torná-lo uma figura lendária. Em entrevista feita pelo jornal da imprensa alternativa O Pasquim, em novembro de 1973, narra uma história fantasiosa sobre o início de sua amizade com Paulo Coelho:
O Pasquim – E o Paulo Coelho, teu parceiro?
Raul Seixas – Eu conheci o Paulo na Barra da Tijuca, num dia que eu tava lá. Às cinco horas da tarde eu tava lá meditando.
Paulo também tava meditando, mas eu não o conhecia. Foi o dia que nós vimos o disco voador.
O Pasquim – Você pode falar nisso, já que tá na moda, todo mundo vendo
disco voador de novo. Como é que foi isso?
Raul Seixas – Foi depois do FIC, em que eu cantei o Let Me Sing. O Pasquim – Ano passado.
Raul Seixas – Cinco horas da tarde. Então eu vi. Enorme, rapaz, um negócio muito bonito. Inclusive os jornais levaram a coisa pro lado sensacionalista: O CARA QUE VIU DISCO VOADOR. “O profeta do apocalipse”, eu dei muita risada com isso. Mas não foi nada, foi um disco voador muito bonito. O Pasquim – Dá pra descrever o disco?
Raul Seixas – Dá sim. Foi... era meio assim... prateado. Mas não dava pra ver nitidamente o prateado porque tinha uma aura alaranjada, bem forte, em volta.
Mas enorme, entre onde eu estava e o horizonte. Ele tava lá parado, enorme. O Paulo veio correndo, eu não conhecia ele, mas ele disse: “Cê tá vendo o que eu tô vendo?” A gente aí sentou, o disco sumiu num ziguezague incrível. O Pasquim – Durou quanto tempo mais ou menos?
Raul Seixas – Uns dez minutos. O Pasquim – Fazendo manobras?
Raul Seixas – Não. Parado, estático. O Paulo chegou e nós começamos a conversar, sentados. Foi como se a gente tivesse feito uma viagem no próprio disco. E vendo a problemática toda do planeta.
O Pasquim – A que você atribui essa aparição?
Raul Seixas – Não é aparição. Tava lá, real, palpável. Bonito. O Pasquim – Não seria resultado da meditação?
Raul Seixas – Não, que nada.
O Pasquim – Qual foi o efeito que esse disco causou em você?
Raul Seixas – Ouro de Tolo, que pintou aí. Essa música.(PASSOS, 1993, p. 89-90).
Seu trabalho não se apresenta, de forma linear, na direção da construção de um tipo único de personagem ou de conduta artística, ele não se dedicou à consolidação de uma determinada imagem que representasse a si ou a sua obra, mas, ao contrário, conferiu a si e a seus personagens o direito de transitar entre diversos estilos.
Interpretando Raul Seixas ou quaisquer de seus personagens, utilizou-se da performance como recurso intensificador da comicidade e da criticidade em seu trabalho. Em 1980, ele lançou o LP Abre-te Sésamo no Programa Discoteca do Chacrinha, que contava com massiva audiência popular. Apresentou sua sátira política musical embalada pela hilária performance de seu personagem: um sultão de óculos escuros cercado de odaliscas. Criticou o quadro político e social do país, com notável comicidade, utilizando uma linguagem corporal e verbal bastante popular.
Figura 2 - Raul vestido de sultão com Chacrinha (Abelardo Barbosa) - 1980
Fonte: Revista Contigo 2004. Ed. 5. Fotógrafo: Marcos Rosa. Disponível em: <http://pipocamoderna.com.br>. Acesso em: 2 fev. 2012.
Em sua participação no programa do Chacrinha, da TV Bandeirantes, em 1981, aparece vestido de branco, usando uma peruca de longos cabelos louros, comicamente contrastando com sua barba e óculos escuros, cantando Aluga-se, sátira em que propõe alugar o Brasil para sanar a dívida externa.
Tanto neste caso como em outros momentos de sua carreira, a comicidade de sua performance e do figurino constituíram o pano de fundo para a crítica política ou social que estava apresentando. Em sua obra, diversos assuntos aparecem encaixados uns nos outros como num trabalho de marchetaria.
Como habitualmente apresentava seu viés anárquico carregado da comicidade característica, o público passou a esperar dele o inesperado, a quebra do decoro que determinada situação exigia. Raul comenta sua atitude performática, subversiva ao jogo de ibope da mídia, em entrevista ao Jornal da Música, em 1976:
Quente mesmo foi o concurso de miss transmitido pela TV Tupi. Eu fui fazer o show do concurso e me deram uma roupa igual às do Mick Jagger. Como eu não sou Mick Jagger, vesti um pijama e entrei no palco escovando os dentes. A galera da geral vibrou, mas eu acabei preso durante cinco dias em Brasília. (PASSOS, 1993, p. 113).
Ao apresentar-se no Clube do Bolinha, em 1987, ele derruba o microfone, depois deita no chão e coloca as pernas para cima, enquanto canta Cowboy Fora da Lei, numa atitude brincalhona bastante à vontade.
Em sua variação de indumentária, apresentou-se, em 1973, no programa do Silvio Santos vestido com sua grande capa preta de mago com desenhos da chave da Sociedade Alternativa e longas botas brancas. No videoclipe de O Carimbador Maluco, tema do musical infantil Plunct Plact Zuum promovido pela rede Globo em 1983, ele interpreta o personagem do carimbador que aparece voando diante de uma nave espacial pilotada por crianças, usando óculos, capa e chapéu com hélice giratória. No de Cowboy Fora da Lei, lançado pela mesma emissora em 1987, faz o papel de cowboy de filme norte-americano, figurando com violão e um cavalo, no cenário de um saloon.
No videoclipe de Há Dez Mil Anos Atrás, ele figura vestido de preto, “flutuando” em pé, na frente da projeção de imagens das grandes cenas da humanidade. Dança, faz caretas e, então, passa a bater palmas, pular, dançar e girar com uma espontaneidade notória.
Em sua performance mestiça, Raul trabalhou a espontaneidade do repente do norte e nordeste do Brasil e a atitude desafiadora do rock. Constantemente reinventava suas músicas e seu próprio personagem. “No show não me divirto tanto, erro a letra, sou o rei de inventar letras na hora. Não me preocupo com as marcações; deixo a força toda para o recado.” (SEIXAS, Raul apud SEIXAS, Kika, 1996, p. 22). Essa característica do repente em sua obra inclui a questão da memória, tanto das letras que ele esquece, e por isso as reinventa, quanto de novos recados que lhe apraz passar no momento em que está diante de determinada plateia. Logo, se dá pelo esquecimento, mas também pela renovação das ideias. De acordo com Pires Ferreira em seu livro sobre a memória:
Poderíamos mesmo dizer que o esquecimento seria responsável pela continuidade, pela memória e até pela lembrança. Segundo Lévi Strauss é o esquecimento que vem quebrar uma certa continuidade na ordem mental, sendo responsável pela criação de uma outra ordem. Coloca aí algo que é fundamental: a noção de quebra, de hiato para futuras e renovadas retomadas e reconstruções, algo como a morte provisória que se faria seguir da ressurreição. Pois como nos lembra Paul Zumthor, nos mitos antigos, o esquecimento quer dizer, ao mesmo tempo, morte e retorno à vida [...] Lapso, hiato, fratura, ressurgimento têm a ver com a interrupção de um projeto, tanto de vida e de ação como de narrar. Formam uma espécie de morte momentânea, ritualizada, que daria lugar ao fluxo da vida. Tratando-se de sistemas de comunicação e de passagens rituais, seria inevitável recorrer também às dimensões psicológicas da comunicação, e, neste sentido, muitas pistas para o entendimento da questão nos chegam a partir de Freud, quando ao analisar aquilo que denomina atos falhos distingue os equívocos por esquecimento no oral (Versprechen), no escrito (Verschreiben) e na escuta (Verhoren). Fala-nos do olvido como coisa passageira e pede que se observe não só o sentido como os efeitos do lapso, prenunciando, portanto, os estudos de recepção. Com isto, nos remete a problemas do curso narrativo, trazendo algo que nos interessa muito de perto, pois supera-se a instância sociológica/antropológica e aponta-se para mecanismos da própria composição poética. Por exemplo, o efeito que os poetas sabem tirar do ato
falho e do esquecimento, enquanto motor do efeito narrativo. (FERREIRA, 1991, p. 15-16).
Em entrevista a Walterson Sardenberg da revista Amiga, em 1982, Raul fala a respeito de sua timidez e sensibilidade, dos palcos e de jogar as próprias verdades para o público:
− O meu signo é de câncer e, como bom canceriano, eu gosto mais é do trabalho de laboratório, como um cientista. Isso de gravar discos, transar estúdios. Mas no palco acho que pinta o meu signo ascendente, que é leão [...] Na verdade não sei o que dá em mim quando eu piso no palco. Não sei se entra alguma entidade em mim, você entende? Porque eu sou mesmo um cara muito tímido e com a sensibilidade à flor da pele . Aquele negócio de canceriano, de arrepios, de coração. Agora no palco é hora de vomitar. E com certeza. Com aquela segurança de que você nasceu para grudar sua impressão digital no planeta. Eu quero estar no dicionário, porque tem gente que morre e gente que não morre... cê ta entendendo?
− Isso é ego.
−Esse assunto é meio complexo. Eu acho que não nasci à toa. Mas meu ego e meu coração são hoje aliados. Os dois trabalham juntos, paralelamente. Então, o que eu jogo para as pessoas é uma verdade minha, sem querer impor, violar nada. Eu digo de coração o que penso e não poderia ser de outra forma. Mas não tenho a ganância do poder [...] Dentro da humildade, bicho, é tudo melhor. Os grandes rios, o Volga, o Nilo, só existem porque existem os pequenos. Os pequenos rios fazem os grandes rios. (PASSOS, 1993, p. 135-136).
Nos palcos, antes de cantar Abre-te Sésamo, sátira à anistia política, ele gritava dezenas de vezes, com seriedade: “Abre-te”, com a plateia em uníssono, movimentando o braço como um maquinista, como se quisesse abrir o fechamento político com a força daquele gesto. “A transmissão de boca a ouvido opera o texto, mas é o todo da performance que constitui o locus emocional em que o texto vocalizado se torna arte e donde procede e se mantém a totalidade das energias que constituem a obra viva.” (ZUMTHOR, 1993, p. 222).
Em seus shows apresentava diversos assuntos, de modo que o pergaminho do livro de Crowley, o rock dos “anos dourados” e suas próprias músicas funcionavam em conjunto. Ele personificava o rocker norte-americano dos anos 1950, interpretando em média duas canções dos pioneiros do rock, acompanhadas dos movimentos de quadris de Elvis Presley. Ajoelhava-se no chão, levantava, fazia poses à lá James Dean, apresentava suas próprias músicas e, ao final, cantava Sociedade Alternativa, desenrolando um grande pergaminho e recitando A Lei para a plateia encantada com a figura lendária. Zumthor fala da complexidade da performance:
A performance é a ação complexa pela qual uma mensagem poética é simultaneamente, aqui e agora, transmitida e percebida. Locutor, destinatário e circunstâncias (quer o texto, por outra via, com a ajuda de meios lingüísticos, as represente ou não) se encontram concretamente confrontados, indiscutíveis. Na performance se redefinem os dois eixos da
comunicação social: o que junta o locutor ao autor; e aquele em que se unem a situação e a tradição. (ZUMTHOR, 1997, p. 33).