C. KONYA EKONOMİSİ
II. MAKROEKONOMİK GÖSTERGELER
1. TARIM
“Sou escritor por excelência, ator por desejo e compositor por raiva.” (SEIXAS, Raul apud SEIXAS, Kika; SOUZA, 1993, p. 21).
A missão que Raul Seixas assumiu como objetivo de carreira foi proporcionar a libertação do indivíduo de todas as amarras psicossociais, alertando-o para seu potencial de ação.
Ao manter sua proposta insistente de que cada um acreditasse em si, pretendia despertar reações individuais que levassem à realização pessoal, condição na qual o indivíduo estaria livre da obrigatoriedade do cumprimento de quaisquer normas sociais e hierárquicas. Para tanto, propôs que cada qual avaliasse seus ideais de realização, em lugar de empreender esforços para manter a posição social e o satisfatório funcionamento do sistema. As escolhas de cada indivíduo seriam guiadas por seus desejos e aptidões, não mediadas por pressões sociais, políticas, religiosas, familiares e educacionais, de ordem física ou psicológica. “Para Marcuse, portanto, a libertação começa quando desfazemos o nó da dominação social.” (ROSZAK, 1972, p. 125).
O desejo de perpetuar suas ideias o acompanhou desde a infância, e ele se habituou a anotar seus pensamentos e poemas e guardá-los num baú, que manteve pela vida toda. Seu conteúdo está publicado nos livros: As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor, O Baú do Raul, Raul Rock Seixas e O Baú do Raul Revirado, sendo apenas o primeiro lançado por ele, em 1983, enquanto que os demais contaram com edição póstuma.
Em 1983, ao lançar seu livro As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor, Raul falou da importância do baú em sua vida:
Há 37 anos que esse velho baú me acompanha aonde quer que eu vá. É enorme e pesado. Tenho minha vida toda escrita e jogada nesse baú. Desde garoto eu tinha essa idéia fixa de deixar escrito tudo o que eu vivenciava. Escrevendo e guardando, eu sentia que estava marcando as minhas pegadas pela vida. Achando que já tinha chegado o momento de utilizar o que fiz, transformei tudo o que tinha no baú em um livro. Nada poderia ser esquecido. (SEIXAS, Raul apud SOUZA, 1993, p. 11).
O sistema será visto por ele como algo passível de envolvimento perigoso, que exige constante cautela. Em suas anotações particulares, Raul fala de seu trabalho libertário contra as armadilhas do sistema:
A arapuca está armada e o alpiste é tentador.
Eu sou pacifista, trabalho pela paz para um mundo melhor.
Trabalho contra os caretas do mundo, contra o torpor, a imprecação, contra a arapuca que nos foi armada e durante séculos vivemos conformados, presos
nela comendo o alpiste que nos dão. E o pior é que os que prepararam a arapuca também caíram nela, comem do mesmo alpiste e não sabem disso. Trabalho para sair da arapuca com todos os que estão querendo ser pássaros livres outra vez.
Os que estão cegos ficarão soterrados dentro dela quando ela desabar. Sou um pacifista, a mando de forças exteriores.
Pensando que estão por cima, os imbecis vivem dentro do mesmo esquema: a neurose, a preocupação criminosa e doentia de manter-nos a todos dentro da armadilha. Mas é preciso sair dela de qualquer maneira, é a única salvação ou seremos eternos pássaros tristes, presos numa arapuca com alpiste racionado. Porque às árvores nós pertencemos. Eu quero ver o mundo do cume calmo de uma montanha!!! (SEIXAS, Raul apud ESSINGER; SEIXAS, Kika, 2005, p. 84, grifo do autor).
Sua visão do sistema como arapuca da qual devemos nos libertar está impressa em muitas de suas produções, por vezes de forma mais contundente em suas anotações caseiras do que nas músicas.
Em entrevista ao jornal Canja em 1980, Raul fala de como teve de adaptar-se ao sistema e procurar seu calcanhar de Aquiles para alfinetá-lo. Fala, ainda, de sua chateação com as pessoas que não agem na direção de modificá-lo, e de seu senso de missão:
– Houve uma época da “Sociedade Alternativa”, da música Gita – “eu sou a luz das estrelas, eu sou...” – em que você foi considerado por alguns uma espécie de sábio, um profeta. Embora você tenha dado “alguns passos”, o seu lado de profeta ainda persiste em seu trabalho. Ou não?
– Talvez a gente até seja. Todos nós somos profetas em potencial. É só ter um momento. Agora eu acho o momento. Eu não estou me impondo nada. Eu não estou impondo coisa nenhuma. Estou apenas propondo.
– Antes você estava propondo ou tentando impor “o caminho da salvação”?
– Eu estive sempre propondo, as firmas de disco é que entraram numa. Que eu era profeta, que tinha de impor. Queriam faturar em cima disto, em cima do apocalipse. Na época as fábricas me forçaram, gostaram da idéia, né? Eu tive de aprender com o sistema, a me adaptar a ele ardilosamente, a procurar os calcanhares de Aquiles. E procurar sem imposições. Como estou agora mais idoso. E muito mais filho da puta, com agulhas fininhas a entrar no Zé Carlos da Silva de Aquiles. É que sou chato, bicho. Eu sou o plim-plim do pentelho do pentelho do pentelho. Eu sou muito chato. Mas eu fico zangado com os meus amigos, com pessoas como você, gente bonita, todo mundo aí. Tanta gente bonita deixando o rio passar. [...] Acho que existem pessoas com embrião. Existem escolhidos que têm que botar o calcanhar não... isso que a gente põe na polícia...
– Impressão digital. – Isso, impressão digital. A gente tem de pôr nossa impressão digital no mundo. Tem o dever. Você tem uma missão pra cumprir aqui, você não está aqui por nada, acho que todos têm esse direito, o dever de marcar a presença, a passagem. Esses que têm o embrião. Porque o povo sempre foi o povo, sempre foi liderado. Eu estou cooperando devagarzinho, quero botar minha impressãozinha, quero sair na História, ser lembrado. Porque tem gente que morre e gente que não morre. Estou fazendo minha pequena participação aqui, de passagem por este lugar. (PASSOS, 1993, p. 121-122).
A relevância do trecho apresentado está em mostrar dois fatores motivacionais desse artista: a percepção de seu trabalho como missão e a intenção de perpetuá-lo, nas palavras dele: “Sair na História, ser lembrado”, que o levaram à produção insone e ao armazenamento dos frutos de seu labor.
Seu trabalho é movido por suas inquietações filosóficas e por sua aposta no potencial humano. Artista contestador, provido de forte senso crítico, queria ter sido escritor, mas descobriu na música um meio mais eficaz de comunicação. “A música e a literatura se misturaram; poderia ter sido escritor, mas canalizei para o rock. Troquei a filosofia pela música porque um microfone é mais importante do que qualquer outra coisa.” (SEIXAS, Raul apud SEIXAS, Kika, 1996, p. 59).
A respeito de sua função, em 1983, Raul escreveu em anotação particular:
Eu sou simples, acanhado, educado, incapaz de ferir alguém com este propósito. Sou primeiramente o cara que só quer ver tudo e todo mundo feliz. A mim não importa pensar que estou triste, pois sei que sou feliz. Por ser feliz é que eu agüento, numa boa, a infelicidade do próximo. Podem vir a mim; aqui está o seu abrigo, eu jamais me negarei a receber e ajudar quem quer que seja, de qualquer nível ou raça. Minha função é essa. (SEIXAS, Raul apud SEIXAS, Kika; SOUZA, 1993, p. 48).
Em A Poética do Mito, Mielietinski fala da opinião de Carl Jung sobre o que é ser artista:
Segundo seu ponto de vista, o artista projeta seu destino pessoal ao nível do destino da humanidade, ajudando outras pessoas a libertarem as suas forças interiores e evitarem muitos perigos. Isto ocorre pelo fato de o artista ter relações diretas intensivas com o inconsciente e ser capaz de expressá-las graças não só à riqueza e a originalidade da imaginação mas também a uma força plástica. (MIELIETINSKI, 1987, p. 67).
Raul foi primeiramente um questionador, filósofo, estudioso, investigador das relações humanas e da condição do ser no universo, que utilizou a música como veículo para a transmissão da mensagem. De acordo com depoimento seu em videodocumentáriodo acervo do fã-clube Raul Rock Club:
Antes da música existe uma coisa muito mais importante. A música pra mim é só o canal onde eu posso liberar as coisas que eu tô dizendo, as coisas que eu penso, as coisas que vocês pensam também. A música é apenas um veículo, cara, é um veículo. Eu tô com o microfone na mão, isso é uma coisa importante, é uma arma tão poderosa como a bomba atômica, pô!
Embora tenha trabalhado com afinco os ritmos e arrajos musicais, o valor comunicativo de sua produção coloca a letra sobre a melodia. Num país de tradição oral, ele utilizou a força da mensagem como elemento-chave para o trabalho de conscientização social
que desenvolveu: “É só falando para milhões de pessoas que eu vou deixar minha marca, minha impressão digital no planeta.” (SEIXAS, Raul apud SEIXAS, Kika, 1996, p. 54).
Assumiu o papel social de tradutor de uma cultura tradicional para a linguagem popular acessível a todos. “Traduzo nossa cultura, nossa história, de uma forma que todo mundo possa ouvir, compreender.” (SEIXAS, Raul apud SEIXAS, Kika, 1996, p. 54). Atuando como socializador da cultura livresca a que teve acesso, disseminou conhecimentos complexos, simplificando-os para o entendimento comum. “Eu uso a música para passar minhas ideias, para colocar adiante o que aprendi com a filosofia.” (SEIXAS, Raul apud SEIXAS, Kika, 1996, p. 59).
De acordo com Lotman (1996), do ponto de vista da Semiótica, a cultura é uma inteligência coletiva e uma memória coletiva e, nesse sentido, o espaço da cultura pode ser definido como o espaço de certa memória comum. Para o autor, a cultura em sua totalidade representa um dispositivo pensante, um gerador de informação.
Cabe ao artista o papel de tradutor de textos culturais coletivos para os textos artísticos, ao criar algo novo a partir do que conhece, para que seja assimilado pela cultura. O esforço criativo, portanto, ao mesmo tempo em que transcende ao senso comum para propor uma inovação, também se alimenta dele e para ele retorna.
Quero minha música num movimento novo, criativo, não mais uma contestação de classe média, com calças Lee ou tachinhas nas blusas. Sou o único no Brasil que faz iê-iê-iê realista, pós-romântico. É uma nova visão das coisas. Quero minha música vendável, consumível, pra ser entendida por todo mundo. (SEIXAS, Raul apud SEIXAS, Kika, 1996, p. 59)
Acreditando resolutamente no potencial humano, desenvolveu uma obra libertária de cunho social, cuja aposta estava não no povo como massa, mas na ação individual e no seu potencial de autorrealização. Nesse sentido, a expressão “levantar a cabeça” aparece várias vezes em seu trabalho, como no trecho: “Que Gita ecoe no coração dos homens e os faça levantar novamente a cabeça.” (SEIXAS, Raul apud ESSINGER; SEIXAS, Kika, 2005, p. 91).
Na música Murungando13, que integra o LP O Rebu, trilha sonora da novela de mesmo nome apresentada pela Rede Globo em 1974:
Levanta a cabeça mamãe/ Levanta a cabeça papai/ Levanta a cabeça Hipão/ E tira seus olhos do chão/ O chão é lugar de pisar/ Levanta a cabeça vovó/ Levanta a cabeça povão/ Levanta a cabeça vovô/ Pra turma do amor e da paz/ Levanta a cabeça rapaz/
Não tenho outra coisa a dizer/ Que eu sou mais eu que você.
13
A permanência da apatia popular, mesmo diante de seu trabalho, era motivo de desprazer, mas também um estímulo para que continuasse tentando despertar uma reação. Em anotação particular datada de 1984, ele escreve a esse respeito:
Eu sinto o acomodamento e o intolerável desprazer de mostrar meu ponto de vista e ninguém mover uma palha, sem nem sequer pensar no assunto. Dedico minha vida, minhas noites inteiras, cada segundo, cada momento, a jamais permitir que minha cabeça pare de pensar. Eu vivo cada segundo ligado aos meus pensamentos; na rua, no táxi, anotando tudo em maços de cigarros ou nas mãos para que em casa eu possa passar para o papel e trabalhar para a utilidade dos que sentem. (SEIXAS, Raul apud SEIXAS, Kika; SOUZA, 1993, p. 55, grifo nosso).
Em seu diário, Raul fala da intenção de plantar a semente libertária que trará paz e, novamente observando a apatia popular, convida a levantar e agir:
Antes eu não sabia o que era, mas tinha certeza que não era aquilo.Hoje eu sei que é possível o Mundo Novo, porque estou sentindo que a semente libertária já foi plantada, sem imposição; o próprio processo histórico, o próprio sofrimento humano, as condições, a falsa ética, as mentiras convencionais, dogmas enganadores, guerras, desgraças e opressões, a própria arbitrariedade da sociedade foram pouco a pouco denunciando o caminho do universalismo, da paz e da harmonia. É tão fácil encontrar a paz. Os que são pela paz são a maioria! O problema é que ficam sentados esperando alguém resolver o problema. Os loucos que fazem a guerra são poucos e a eles se confere o poder!! Vamos levantar e acabar com isso agora? Eu estou pronto, e você? (SEIXAS, Raul apud ESSINGER; SEIXAS, Kika, 2005, p. 85).
Figura 1 - Foto de Raul Seixas
Em Geração da Luz14, rock que ele compõe como um legado para a geração vindoura, deixa clara sua aposta na mesma, e acredita que a semente libertária que ajudou a plantar germinou:
Eu já ultrapassei as barreiras do som/ Fiz o que pude às vezes fora do tom/ Mas a semente que eu ajudei a plantar já nasceu/ Eu vou embora apostando em vocês/ Meu testamento deixou minha lucidez/ Vocês vão ter um mundo bem melhor que o meu [...] Vocês serão o oposto dessa estupidez/ Aventurando tentar outra vez/ A geração da luz é a esperança no ar!!.