C. KONYA EKONOMİSİ
VI. KTO-KARATAY ÜNİVERSİTESİ
Depois da fase jovem rebelde, emocional e artisticamente ligada aos ídolos do rock, aflora seu repertório de infância. Antes do rock norte-americano, Raul ouvia música latina, Emilinha Borba e baião. Quando criança, gostava da orquestra cubana Lecuona Cuban Boys. Em 1957, aos 12 anos, escreveu em seu diário: “O disco que eu mais gostei na vida mais de que rock’n’roll mais que sambas mais que mambo foi ‘Cubanacan’.” (SEIXAS, Raul, 1983, p.14).
Música, até o rock me pegar, era uma coisa bem secundária. Não que eu não gostasse. Mas era uma coisa bem intuitiva e eu só cantava o que me entrava no ouvido, não me preocupava em saber, procurar a letra para aprender, nunca fui fã. Apenas cantava. Lá em casa se ouvia muito Luiz Gonzaga,
Chofer de Praça, Que Mentira Que Lorota Boa, a fase áurea de Luiz Gonzaga. Tinha também um tio meu que ouvia todo tipo de música. Eu gostava muito de música cubana, mexicana, guarânias, boleros como Cubanacan com os Lecuona Cuban Boys, Espinita (Raul cantarola), divertido: “Sabes que me estás matando/ que estás acabando/ con mi corazón”, essas coisas. Eu cantarolava tudo o que ouvia no rádio. O que era sucesso eu cantava: Emilinha, carnaval, as músicas intuitivas que todo mundo cantava. (SEIXAS, Raul apud PASSOS, 1993, p. 13)
Se o rock era a música que Raul ouvia nas ruas, no consulado, na loja de discos e com os amigos, o baião era a música que ele ouvia em casa desde pequeno, estava ligado ao lar
materno. Não por acaso, a composição que o projetou como artista foi a mestiça de rock e baião Let Me Sing, Let Me Sing.
O baião é um ritmo musical tipicamente nordestino, cujo grande expoente foi Luiz Gonzaga. De acordo com Dreyfus:
O termo “baião”, sinônimo de rojão, já existia, designando na linguagem dos repentistas nordestinos o pequeno trecho musical tocado pela viola, que permite ao violeiro testar a afinação do instrumento e esperar a inspiração, assim como introduz o verso do cantador ou pontua o final de cada estrofe. No repente ou no desafio, cuja forma de cantar é recitativa e monocórdia, o “baião” é a única seqüência rítmica e melódica. (DREYFUS, 1996, p. 110- 112).
Nascido em 13 de dezembro de 1912, na pequena cidade de Exu, em Pernambuco, Luiz Gonzaga do Nascimento teve a música sempre presente em sua infância sofrida. Seu pai, Januário, trabalhava tocando fole à noite e consertando instrumentos musicais num quartinho da casa, durante o dia, enquanto Santana, sua mãe, trabalhava na roça, cuidava da casa e dos filhos e cantava na igreja. Dos nove filhos do casal, cinco se tornariam sanfoneiros profissionais quando adultos.
Na região pobre, onde o trabalho se dava na roça sob o sol, a música era a fonte de alegria que embalava festas, batizados, casamentos e procissões, os forrós de fim de semana, os bumba meu boi, as festas dos santos, os músicos das praças e feiras, os repentistas e os vaqueiros cantando e tangendo a boiada.
Gonzaga gostava de sanfona desde menino; nas brincadeiras com os irmãos e primos, ele era o tocador. Mais tarde, ajudava seu pai a consertar instrumentos e tocava com ele nos bailes; aos quatorze anos, ajudava a família com o ganho de seu fole.
Ainda não contava dezoito anos quando saiu de casa para Fortaleza. Em 1930, ao completá-los, alistou-se no exército, viveu a revolução de 30 e perseguiu seu herói de infância Lampião, que posteriormente inspirou sua indumentária artística. Quase nove anos após alistar-se, deixou a farda, por conta da lei que não permitia a permanência de um soldado por dez anos no Exército.
Em março de 1939, Luiz foi ao Rio de Janeiro esperar o navio que o levaria de volta a Exu. Durante os dias de espera, soube que poderia tocar no Mangue, na Cidade Nova (lugar mais agitado da cidade). Passou a tocar sanfona numa esquina e, caindo no apreço popular, acabou não voltando para sua terra.
Silva, Carlos Gardel77 e Augusto Calheiros. Começou a frequentar os programas de calouros de Ary Barroso e Renato Murse, apresentando valsas, tangos e blues.
Quando estudantes da república78 do Ceará pediram para ouvir algo bem nordestino, ele disse não se lembrar mais, exceto de algumas canções bem do pé de serra, e os meninos responderam que era isso o que queriam. A partir dessa dica, ele encontraria o seu rumo como artista de sucesso. Tocou Pé de Serra e Vira e Mexe, empolgando o público da Cidade Nova. Percebendo a aceitação pública da música nordestina, voltou ao programa de Ary Barroso e tocou Vira e Mexe, ganhando não só a nota máxima como o prêmio de cento e cinquenta mil réis. Logo, então, conheceu Zé do Norte, que o chamou para trabalhar no programa de rádio Hora Sertaneja.
Em 1941, após dois anos no Rio, foi à gravadora Victor fazer seu primeiro disco. Gravando, em um dia, dois discos de 78 rotações e, logo em seguida, mais dois. Nessa época, deixou de tocar com Xavier e foi substituir Antenógenes Silva no programa A Alma do Sertão, da Rádio Clube, tendo trabalhado também na Rádio Tamoio.
Ele refez a letra de Vira e Mexe, com Miguel Lima, e batizou-a de Xamego. Suas músicas eram cantadas por vários intérpretes, mas ele mesmo queria cantá-las. Com o incentivo de Lima, pressionou os executivos da gravadora, vencendo seus apontamentos sobre sua inadequação vocal, e, em 11 de abril de 1945, entrou na Victor para gravar seu 25° disco, o primeiro como cantor.
Trabalhando com Miguel Lima, Luiz procurava um novo parceiro, com quem pudesse fazer algo bem típico; então, encontrou Humberto Teixeira. A segunda parceria deles, Baião, marcaria a entrada de Gonzaga na história da MPB. Inaugurando um novo ritmo, ele havia intencionalmente aprimorado o ritmo existente. A canção foi lançada em outubro de 1946 e interpretada pelo grupo Quatro Ases e um Coringa, com Gonzaga na sanfona, alcançando sucesso imediato.
O baião surgiu num momento propício ao sucesso. A música nordestina, que havia contado com artistas como João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense no começo do século, estava sem representantes de peso na década de 1940, e o samba estava transformando-se em samba-canção. O sucesso de Asa Branca fez de Gonzaga um dos maiores astros da música brasileira.
77 Carlos Gardel (1890-1935), nascido em Tolouse, França, mudou-se para a Argentina com dois anos, onde foi
o cantor mais famoso de tango, autor de sucessos como: El Día que Me Quieras, Mi Buenos Aires Querido, Milonga Sentimental e Yira Yira. Dedicou-se também à carreira de ator em filmes como Luces de Buenos Aires, Esperame, El Tango em Broadway e El día que Me Quieras.
Ele trabalhava músicas do folclore nordestino e criava para elas outras letras, ou retrabalhava as originais, como fez com Asa Branca em parceria com Teixeira.
Em 1947, ele decidiu adotar um visual nordestino, escolhendo a indumentária de Lampião. Pediu à sua mãe que encomendasse um chapéu de cangaceiro, e não mais se apresentou sem ele, apenas o substituiu por outros com mais apetrechos.
Em 1949, o baião estava em moda e ganhava as manchetes dos jornais, e Luiz Gonzaga havia se tornado “o rei do baião”, com admiradores em todas as classes sociais. Com as secas do Nordeste, muitos nordestinos migraram para São Paulo, que passou a ser a capital do ritmo. Gonzaga travou parceria com Zé Dantas, depois que Teixeira entrou para a política em 1952, e também compôs com Hervê Cordovil, que fez A Vida do Viajante em homenagem às suas andanças.
Viajante convicto, ele atravessava o Brasil em longas turnês, ficando longe de casa por períodos que chegavam a oito meses, até o fim da vida, tanto em turnês bem pagas, como de caminhão, ou de carro velho, sem contrato ou previsão de parada. Querido pelo povo, fazia propagandas, campanhas políticas e participações nas rádios. Quando sua carreira atravessou um período difícil, apresentava-se em circos, quartéis, coretos e praças públicas.
O momento histórico brasileiro da década de 1950 e do início da seguinte representou o declínio de uma série de valores socioculturais estabelecidos e, com ele, o fim de sua carreira. Em 1956, com Juscelino Kubitscheck na presidência, houve uma renovação de valores culturais e econômicos, com o surgimento de novidades como: o Cinema Novo, a Bossa Nova, a Jovem Guarda, os aparelhos de televisão, o rock chegando ao país e o audacioso programa de governo de crescer cinquenta anos em cinco. Tais inovações atingiam as classes média e alta, mas não tinham impacto sobre o gosto popular; Gonzaga sofreu o esquecimento da mídia e das classes mais abastadas, mas não do povo.
Passando a apresentar-se em cidades do interior e do Nordeste, onde contava com um público fiel, costumava sair em excursão e parar, aleatoriamente, em alguma cidade, onde anunciava o show em que se apresentaria à noite, lotando com cinco a dez mil pessoas as praças e os circos. Embora ganhasse pouco e por vezes trabalhasse de graça, contava com patrocínio dos comércios locais. Não tinha empresário, e os shows eram agendados por telefone com sua funcionária doméstica.
Em 1963, lançou duas canções de protesto; a primeira, Pronde Tu Vai Baião, de João do Vale e Sebastião Rodrigues, expressa seu desgosto pelo esquecimento do baião; e a segunda, A Morte do Vaqueiro, em coautoria com Nelson Barbalho, protesta pela morte de seu primo Raimundo Jacó. No ano seguinte, lança A Triste Partida, em coautoria com o
repentista Patativa do Assaré79, sobre a escravidão e privação em que vive o nortista, tanto em sua terra como no Sul — outra canção de protesto, assim como Vozes da Seca e Asa Branca.
Em 1966, ditou sua autobiografia a Sinval Sá, intitulada: O Sanfoneiro do Riacho da Brígida, Vida e Andanças de Luiz Gonzaga (Edições Fortaleza), e vendeu-a com a ajuda de sua esposa e de seus músicos. A demanda exigiu quatro edições consecutivas.
Em sua ação popular, trabalhou pela melhora das condições de vida de seus familiares e amigos, do povoado do Araripe, onde foi criado, do distrito de Miguel Pereira e de Exu, onde nasceu. Investiu em melhorias no Nordeste e, numa seca, fez açudes para o povo. Lutando pelas “causas perdidas”, foi um dos primeiros artistas brasileiros a abordarem temas como: ecologia, problemas raciais, sociais e econômicos em canções de protesto.
Descobridor de novos talentos, Gonzaga apoiava e financiava artistas pobres que o imitavam, lançando-os em rádios e palcos, trazendo-os do Nordeste para o Rio e São Paulo.
Nos anos 1960, contou com a admiração da juventude que surgiu no cenário musical após o apogeu da bossa nova. Em 1965, Geraldo Vandré gravou Asa Branca, em seu LP Hora de Lutar. Emocionado com a homenagem, em 1968, Gonzaga gravou Pra Não Dizer que Não Falei das Flores. Nessa época, chegava ao Brasil o LP de Caetano Veloso gravado em seu exílio em Londres, com todas as músicas em inglês, exceto Asa Branca. “O hino dos flagelados nordestinos se tornava o hino dos exilados brasileiros, vítimas da ditadura.” (DREYFUS, 1996, p. 249). Gonzaga chorou ao ouvi-lo: “Foi uma das maiores emoções que eu tive na vida.” (DREYFUS, 1996, p. 249).
Ele se integrou à juventude que o admirava e, a convite da gravadora RCA80, fez o LP O Canto Jovem de Luiz Gonzaga, no qual só interpretava a nova geração: Caetano, Gil, Antonio Carlos, Jocafi, Capinan, Edu Lobo, Dori Caymmi, Geraldo Vandré, e seu filho Gonzaguinha. “[...] E eu fiquei apoiado pelos jovens. Foram eles que me deram crédito. Eles tinham universidade. Juca Chaves falou muito de mim. Por causa deles me tornei respeitado.” (DREYFUS, 1996, p. 252).
Na década de 1970, ele havia recobrado seu posto de sucesso, com direito a homenagens: em 1971, recebeu da TV Tupi o título de “Imortal da Música Brasileira”; em 1973, o governador de São Paulo entregou-lhe o título de “Cidadão Paulista”; em 1977, entrou para a versão brasileira da Enciclopédia Universal Britânica; e muitos artistas
79 Patativa do Assaré, nome artístico de Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002), nascido no Ceará, foi um dos
principais expoentes da música nordestina. Foi cantor, compositor, repentista, poeta popular e autor de diversos livros de poesias, como Inspiração Nordetina: Cantos do Patativa, Cante lá que Eu canto Cá, Espinho e Fulô, embora jamais tenha deixado de ser agricultor. Seu trabalho se caracterizou por expressiva oralidade e uso de sua memória ao recitar seus poemas.
regravaram Asa Branca. Em 1972, apresentou o show Luiz Gonzaga Volta pra Curtir, produzido por Capinan, no teatro Tereza Raquel. Ele estava conquistando o público estudantil e deu entrevistas a duas mídias revolucionárias: o jornal O Pasquim e a revista O Bondinho.
Ainda nos anos 1970, década das discotecas e dos bailes funks, surgiu o forró. O termo, que é uma abreviação de forrobodó, tinha no Nordeste o sentido de festa, arrasta-pé ou baile, e acabou nomeando o novo ritmo, no qual Dominguinhos e sua esposa Anastácia foram destaque. Para Gonzaga, foi Dominguinhos, seu discípulo e parceiro, quem urbanizou o forró e o levou a todas as classes sociais. Nos anos 1980, Gonzaga passou a tocar somente forró.
Segundo Luiz Gonzaga, citado por Dreyfus:
O forró partiu mesmo do sanfoneiro. Do baile de ponta de rua, baile de cachaça. Já na década de 50, com Zé Dantas, nós fizemos o primeiro forró que era o “Forró do Mane Vito”, explorando a valentia do cabra-macho. Depois o forró ficou aí marcando tempo, até que fiz o “Forró no Escuro” e outros forrozinhos. (DREYFUS, 1996, p. 275).
Em 1982, Gonzaga apresentou-se no Bobino, lotado, em Paris, com Nazaré Pereira. Na primeira metade da década de 1980, recebeu o Prêmio Shell, o Nipper de Ouro (homenagem da gravadora RCA) e dois discos de ouro. Em 1986, apresentou-se novamente em Paris. No mesmo ano, seu LP Forró de Cabo a Rabo rendeu-lhe dois discos de ouro e um de platina. Em 1987, gravou um LP com Fagner e, no ano seguinte, a RCA lançou a compilação de sua obra, numa caixa com cinco LPs, intitulada 50 Anos de Chão.
Em dois de agosto de 1989, Gonzaga faleceu no Recife, onde estava hospitalizado, apenas dezenove dias antes de Raul Seixas.