C. KONYA EKONOMİSİ
II. MAKROEKONOMİK GÖSTERGELER
12. HİBE VE DESTEKLER
A metáfora foi fartamente utilizada na obra de Raul, tanto como recurso de camuflagem ideológica ante o crivo dos censores como por seu poder intuitivo de transmissão conceitual. Esse recurso de linguagem conta com o potencial de associação mental do ouvinte, possibilitando duas ou mais interpretações. Permite o jogo de linguagem, que pode enfatizar tanto a comicidade como a tragicidade, ou, ainda, camuflar a ironia.
Uma linguagem na qual predominam, no vocabulário e nos gestos, as expressões ambíguas, ambivalentes, que não apenas acumulam e dão vazão ao proibido, mas também, ao operar como paródia, como degradação- regeneração, “contribuíam para a criação de uma atmosfera de liberdade”. (MARTÍN-BARBERO, 2001, p. 106)
A metáfora também confere certa atemporalidade ao assunto abordado, fato que se evidencia atualmente na obra do cantor, quando, mais de vinte anos após sua partida, muitas de suas letras parecem atuais.
Seu apreço pela linguagem figurada foi fomentado por suas leituras de obras místicas e filosóficas e de livros sagrados, a exemplo da Bíblia, do Bhagavad Gita e do Tao Te Ching. Como nos grandes livros da humanidade, a metáfora esteve em sua obra como facilitadora do processo cognitivo, servindo como veículo para levar conceitos complexos ao povo.
Em entrevista ao jornal O Pasquim, ele fala a respeito de seu uso da linguagem simbólica para abrir as portas para as verdades individuais, e da abrangência de sua obra:
Raul Seixas - Vamos citar o Apocalipse bíblico. Foi escrito numa época incrível, você tinha que falar numa linguagem simbólica, uma linguagem mágica. Mas é uma coisa que se adapta a qualquer época [...] É quase a mesma linguagem que nós estamos usando pra tentar dizer, tentar chegar a um objetivo. Não é o objetivo de uma verdade absoluta. Porque ninguém aqui quer chegar a uma verdade absoluta e impô-la. Apenas se quer abrir as portas. Pras verdades individuais. [...]
O Pasquim - Você faz isso pra se entender ou para que os outros te
entendam?
Raul Seixas - Pra que os outros me entendam. Pra que eu penetre todas as estruturas, em todas as “classes”, em todas as faixas. Todo mundo tá cantando A Mosca na Sopa. (SEIXAS, Kika; SOUZA, 1993, p. 94-95).
Visando a contornar a questão da censura, o processo criativo exigia do artista liberar- se de todas as pressões e, ao mesmo tempo, considerá-las, num exercício mental possibilitado pelos recursos de linguagem e pela confiança na capacidade associativa dos receptores. “Eu utilizo o que sei de música. Admito que não sou um bom músico; minha música é intuitiva.” (SEIXAS, Raul apud SEIXAS, Kika, 1996, p. 64).
• A Maçã60, cujo tema é liberdade sexual, e onde a referência ao sexo oposto é feita,
não por acaso, pelo “fruto do pecado” com o qual a serpente tentou Eva no paraíso, na cosmogonia cristã: “Porque quem gosta de maçã irá gostar de todas, porque todas são iguais”.
• Sapato 3661, onde a figura do pai opressor representa a autoridade do governo
brasileiro na época em que a música foi lançada, 1978:
Eu calço é 37/ Meu pai me dá 36/ Dói, mas no dia seguinte/ Eu aperto meu pé outra vez/ Por que cargas d’água você acha que/ Tem o direito/ De apertar tudo aquilo/ Que eu/ Sinto em meu peito/ Você só vai ter o respeito que quer/ Na realidade/ No dia em que você souber respeitar a minha vontade/ Meu pai/ Meu pai/ Pai já estou indo me embora/ Quero partir sem brigar/ Pois eu já escolhi meu sapato/ Que não vai mais me apertar.
• Metrô Linha 743, onde a canibalização da cabeça representa o castigo ao ser
pensante.
• Na melancólica Réquiem para uma Flor, na qual os girassóis que se mostram
representam os homens que se expõem pelos direitos dos demais, enquanto as enormes montanhas que se calam são a maior parte das pessoas: “Fruto do mundo/ Somos os homens/ Pequenos girassóis/ Os que mostram a cara/ E enorme as montanhas/ Que não dizem nada”. A ênfase da mensagem está no final, em castelhano: “Incapaces los hombres/ Que hablam de todo/ Y sufrem callados”.
• Abre-te Sésamo, onde o título é voltado para a abertura política brasileira que se
deu em 1979, ano anterior ao lançamento do disco. A sátira faz referência a alguns políticos como “Alibabá e os 40 ladrões” e enfatiza o aborrecimento que eles causam: “Já não querem nada com a pátria amada/ E cada dia mais enchendo os meus botões”. Continua satirizando a instabilidade da situação política: “E vamos nós de novo/ Vamos na gangorra/ No meio da zorra desse vai e vem”.
• Não Fosse o Cabral62, que também foi censurada, satiriza a situação do país,
impostos altos e o descaso para com a opinião pública e a miséria: “Tudo aqui me falta, a taxa é muito alta/ Dane-se quem não gostar/ Miséria é supérfluo/ O resto é que ta certo/ Assobia que é pra disfarçar”. E continua, tecendo uma crítica à falta
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Letra em Passos e Buda (s.d., p. 184).
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Letra em Passos e Buda (s.d., p. 223).
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de preparo popular para refutar a estrutura: “Falta de cultura pra cuspir na estrutura/ E que culpa tem Cabral?”.
• A sertaneja Capim-Guiné63, já citada na análise sobre sua linguagem popular, fala
sobre um sítio e suas plantações, e traz um refrão crítico à falta de atitude quanto à semente libertária que Raul plantou: “Num planto capim-guiné/ Pra boi abaná rabo/ Tô virado no diabo, eu tô retado cum você/ Tá vendo tudo e fica aí parado/ Cum cara de veado que viu caxinguelê”. Enfatizando que “plantou” tudo sozinho e acabou abrindo espaço para outros que vieram depois: “Com muita raça/ Fiz tudo aqui sozinho/ Nem um pé de passarinho/ Veio a terra semeá/ Agora veja cumpadi a safadeza/ Cumeçô a marvadeza/ todo bicho/ Vem pra cá”.
• Mosca na Sopa é um recado de que teria vindo para incomodar e que não
adiantaria a mosca ser dedetizada, porque viria outra em seu lugar.
• A primeira versão de Como Vovó já Dizia, de 1973, que foi censurada, traz
referência às comunicações entre os jovens de esquerda política na época: “Quem não tem papel/ Dá o recado pelo muro”; crítica ao momento político: “Quem não tem presente se conforma com o futuro”; e referências às manifestações de insatisfação: “Uma vez a gente aceita/ Duas tem que reclamar”. E, assim como em Mosca na Sopa, Raul dá o recado de que vai incomodar: “Vim de longe, de outra terra/ Pra morder teu calcanhar”.
• Um jogo de linguagem figurada e entonação vocal de sincera recusa conferem
comicidade a Não Quero Mais Andar na Contra-Mão64, sua autobiográfica recusa às drogas, em 1988:
Hoje uma amiga da Colômbia voltou/ Riu de mim porque eu não entendi/ No que ela sacou aquele fumo ho ho/ Dizendo que tão bom eu nunca vi/ Eu disse não não não não/ Eu já parei de fumar/ Cansei de acordar pelo chão/ Muito obrigado/ Eu já estou calejado/ Não quero mais andar na contra-mão/ Da Bolívia uma outra amiga chegou/ Riu de mim porque eu não entendi/ Quis me empurrar um saco daquele pó/ Dizendo que tão puro eu nunca vi/ Eu disse não não não não/ Eu já parei de (som de fungar de nariz)/ Cansei de acordar pelo chão/ Muito obrigado/ Eu já estou calejado/ Não quero mais andar na contra-mão/ Titia que morava na Argentina voltou/ Riu de mim porque eu não entendi/ Me trouxe uma caixa de perfume, ehê/ Daquele que não tem mais por aqui/ Eu disse não não não não/ Não brinco mais carnaval/ Cansei de desmaiar no salão/ Muito obrigado/ Eu já andei perfumado/ Não quero mais andar na contra-mão.
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Letra em Passos e Buda (s.d., p. 273-274).
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Para o humorista e apresentador de televisão Jô Soares: “A principal importância de Raul Seixas é que a música dele transcende o rock pelo seu lado de crítica e irreverência, inclusive durante os anos da ditadura, quando ele usava muito bem os recursos do humor e da metáfora para falar da situação vigente.” (CAROS AMIGOS, n. 4, 1999, p. 20).
Comprovando sua eficácia tática, Raul compôs mais de duzentas músicas, e apenas onze estiveram retidas pelo departamento de censura. Entre elas: Rock das Aranha, Fazendo o que o Diabo Gosta, Quero Mais e Babilina, por censura moral, e a redentora Não Quero Mais Andar Na Contra-Mão, onde se dizia cansado e não mais usuário de drogas quaisquer, além de Check Up, Não Fosse o Cabral, Como Vovó já Dizia e Murungando.
Em 1974, a música Murungando, que faz parte da trilha sonora da novela O Rebu, com álbum homônimo lançado pela gravadora Som Livre, foi vetada por incitar a reação das pessoas no sentido de recobrar a dignidade, utilizando o jargão popular:
Levanta a cabeça mamãe/ Levanta a cabeça papai/ Levanta a cabeça Hipão/ E tira seus olhos do chão/ O chão é lugar de pisar/ Levanta a cabeça vovó/ Levanta a cabeça povão/ Levanta a cabeça vovô/ Pra turma do amor e da paz/ Levanta a cabeça rapaz/ Não tenho outra coisa a dizer/ Que eu sou mais eu que você.
Em Check-Up65, teve de disfarçar os nomes dos remédios que tomava:
Tive que camuflar o nome de alguns barbitúricos, Valium, Diempax e Triptanol, para colocar a música Check Up entre as faixas do disco A Pedra do Gênesis. Outra das músicas que freqüentaram as gavetas da censura foi a libertária Fazendo o que o Diabo Gosta: “A história mostra que a gente agrada a Deus fazendo o que o diabo gosta”. (SEIXAS, Raul apud SEIXAS, Kika, 1996, p. 35, grifo da autora).
Em 1983, Raul escreveu em seu diário uma perspicaz crítica à necessidade de substituição das palavras em suas músicas:
Três músicas minhas foram vetadas, proibidas. A primeira eu canto com Wanderléa; é um forró cheio de humor, chamado Quero Mais. Vetada porque não se pode querer nada sem ordem. Nem mesmo o chamego da voz da Wandeca. A outra é uma versão de um rock’n’roll antigo, Bop-a-lu-la; essa eu entendi menos ainda! A terceira é Não Fosse o Cabral, uma gostosa sátira a lá Jô Soares na qual ponho em dúvida a influência do tal português nos dias de hoje. Chego quase à conclusão de que Cabral não gostava de música. Estou numa escola onde ensina-se a andar pra trás. De segunda a sábado, obrigatoriamente esse curso. O curso no qual eu não me matriculei. Estou andando pra trás até direitinho, depois dos anos pra frente desde que nasci. Está na praça, já chegou o Dicionário do Censor. De A a Z tem todas as palavras que um dicionário tem. A diferença está na cruzinha preta, logo após a palavra, significando que não pode. As que pode, o compositor deve conferir se não tem a cruz. A distribuição é feita para todos os compositores do país. Antes de colocar no papel um grande achado poético, consulte se
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existe uma palavra que não pode entre as outras da frase. Se não puder tente substituir por um sinônimo, embora o que você queria expressar era aquela primeira. O dicionário do censor é sério, e não é verdade o que dizem as más línguas: “O censor acaba sendo o seu parceiro na obra”? Método subliminar de indução parcerística por correspondência? Por exemplo: Você, compositor, cria um verso que diz “Eu canto para o meu povo, porque do povo é a minha voz, se eu pertenço ao povo, somente do povo será a minha canção”. Não se entusiasme, calma, lembre-se: o dicionário Vai lá no P. Lá está a palavra povo com duas cruzes negras. Portanto você há de aceitar que povo não pode. Tente um som próximo; que tal ovo? Ovo pode.
Seu dever é decorar os pode e não pode. Assim você não dispersa! Não sei por que a palavra dentadura tem três cruzes!!!
Agora todo cuidado é pouco pra quem tem miolo. Tem canibal excêntrico que dá banquetes de cabeças, entendeu? Miolos de gente que pensa são os mais caros do menu.
Absurdo!!
“O cantar tem sentido, sentimento e razão”.
De todas as artes vigentes no Brasil, por que somente a música foi eleita como maldita? Medo de um eventual processo subliminar? Quem ouve discos ouve porque quer, ao contrário da TV.
Em 1983, com promessas de abertura, eu pergunto em nome da música: – Seu medo é do meu sucesso? (SEIXAS, Raul apud SEIXAS, Kika; SOUZA, 1993, p. 71-72, grifo dos autores).
Nesse trecho, aparece a menção aos “canibais de cabeça” que ameaçam aqueles que pensam, como em Metrô Linha 743, composta no mesmo ano.
Em muitos países que atravessaram períodos de censura, as pressões contrárias ao livre direito de expressão funcionaram para as artes como força catalisadora. Lutando contra elas, os artistas refinaram seus processos criativos, condensando os valores que melhor funcionassem no processo libertário em obras que atingiram grandes níveis qualitativos.
3 SEGUNDO CAPÍTULO - MEMÓRIA MUSICAL
Raul teve, na infância, o despertar precoce para os saberes das letras. Aos onze anos, já havia lido boa parte da vasta biblioteca de seu pai. Também gostava de desenhar gibis e de contar histórias sobre o universo para seu irmão e, para tanto, criou o seu próprio personagem: o Melô, um cientista maluco que viajava no espaço com Deus e o diabo e com grandes figuras. Raul não só narrava as histórias para o irmão como vendia a ele seus quadrinhos.
Quando eu era guri, lá na Bahia, música pra mim era uma coisa secundária. O que me preocupava mesmo eram os problemas da vida e da morte, o problema do homem, de onde vim, pra onde vou, o que é que estou fazendo aqui. O que eu queria mesmo era ser escritor. Desde pequeno eu fazia e vendia livros pro meu irmão menor, 4 anos mais moço que eu. Eram uns gibis incríveis, pintados com lápis grossos. Tinha um personagem que aparecia em todas as histórias, um cientista louco. O nome dele era Melô, que na língua da gente queria dizer amalucado. Era uma parte de mim, o cara imaginativo, buscando as respostas, o eu fantástico, viajando fora da lógica em uma maquinazinha em que só cabia um só passageiro... Melô-eu. O Melô viajava para lugares louquíssimos, como Nada, Tudo, Vírgula, Xis, a Ao Cubo, Massas Dimensionais, Oceanos de Cores, e depois de tudo tinha a terra de Deus. Uma vez eu levei meu irmão lá, numa viagem imaginária, sentado na cama, tudo ali dentro do quarto... a gente passava o tempo todo trancado... mas Deus, também tinha necessidade de conhecer Deus, saber quem o tinha feito... Meu irmão ficava horas ouvindo, eu inventava mil personagens de cada vez, a cada momento mudava de voz, me vestia, botava óculos, uma loucura. (SEIXAS, Raul apud PASSOS, 1993, p. 12-13).
Neste trecho, ele afirma que seu personagem Melô era uma parte dele, o cara imaginativo buscando respostas; portanto, podemos observar que, desde a primeira infância, afloravam a curiosidade e a criatividade que motivaram sua carreira.
A curiosidade pelas questões universais e o entusiasmo em mostrar o que descobria constituíram a força motriz de seu trabalho: músicas, letras, poemas, organização de discos, temas de shows e criação de personagens.
A biblioteca do pai era a porta para seu mundo imaginário, e o pai era a grande figura que lhe mostraria o quanto era vasto e curioso o universo dos livros.
Mamãe vivia nos chás, era senhora de sociedade. Era ela quem mandava em casa, uma personalidade fortíssima. Meu pai teve uma influência muito grande sobre mim. Ele era engenheiro. Sempre foi um cara muito lido, tinha muitos livros e lia para mim desde que eu era pequeno. Me impressionei com Don Quixote de La Mancha, O Tesouro da Juventude, O livro dos
Porquês. Muitos livros de astronomia sobre o universo, que me fascinavam. Meu pai sempre gostou de mistérios, de coisas estranhas, e me meteu nesse mundo estranho, de tudo que é inexplicável na face da Terra, debaixo do mar, no céu... (SEIXAS, Raul apud PASSOS, 1993, p. 14).
Sem dar atenção à escola, foi reprovado várias vezes, metade delas por causa do rock, conforme ele afirma: “Eu era um fracasso na escola, a escola não me dizia nada do que eu queria saber. Tudo que eu aprendia era nos livros, em casa ou na rua. Repeti cinco vezes a segunda série do ginásio.” (SEIXAS, Raul apud PASSOS, 1993, p. 15).
3.1 A Descoberta do Rock
O Brasil conheceu o rock em 1955, quando o filme Sementes da Violência (Blackboard Jungle), do diretor Richard Brooks, estreou no cinema, tendo ao fundo Rock Around the Clock, de Bill Haley. Rapidamente filmes norte-americanos sobre o tema ganharam os cinemas, trazendo seu universo temático, imagético e comportamental a conhecimento do grande público. Em novembro daquele ano, a cantora de samba-canção Nora Ney foi a primeira a cantar o ritmo no país, ao emprestar a voz a Rock Around the Clock, com disco de sucesso lançado pela gravadora Continental.
Em 1957, Miguel Gustavo faz o primeiro rock de composição original em portugês, Rock and Roll em Copacabana, que foi cantado por Cauby Peixoto. No mesmo ano, Betinho gravou o sucesso Enrolando o Rock, que foi tema do filme Absolutamente Certo, de Anselmo Duarte. Agostinho dos Santos gravou Até Logo, Jacaré, sua versão para o rock norte- americano See You Latter, Alligater, e Carlos Gonzaga gravou Meu Fingimento inspirada em The Great Pretender, dos Platters.
Raul conheceu o rock em 1957, quando sua família mudou-se para uma casa próxima ao Consulado Americano em Salvador. Ao tomar seu primeiro contato com o ritmo, tornou-se um rocker, passou a vestir-se, dançar, andar e cantar como os cantores do ritmo, e também aprendeu inglês.
Nunca liguei muito pras letras das músicas. Apesar de ter sido com os discos de rock’n’roll que eu aprendi inglês, meu primeiro inglês, o dos caipiras (hillbilies) e dos negros cheios de sotaque. Era o ritmo tribal que me amarrava mesmo, gostoso, empolgava, eu sentia aquela coisa assim obscena, aquela coisa de tribo em volta da fogueira... era o contrário de tudo o que se passava no mundo ali da família. (SEIXAS, Raul apud PASSOS, 1993, p. 15).
Nessa época, um grupo de norte-americanos foi trabalhar para a Petrobrás em Salvador, por conta da descoberta de petróleo na região, mudando-se com suas famílias para a cidade. Assim surgiu a amizade entre seus filhos e alguns garotos baianos, entre os quais se encontrava Raul. No Consulado Americano e na loja de discos Cantinho da Música, eles tinham acesso ao que era lançado nos Estados Unidos sobre o universo rocker: revistas, notícias, LPs. Raul frequentava a loja, em lugar da escola. Segundo ele: “Passava o dia todo
com a farda do colégio, encostado no balcão da loja Cantinho da Música, que hoje nem existe mais em Salvador. As vendedoras já me conheciam, eu ficava o dia todo ouvindo os discos novos de rock.” (SEIXAS, Raul apud PASSOS, 1993, p. 15).
Figura 8 - Foto de Raul com sua banda (sentado abaixo)
Fonte: Revista Contigo, 5. ed., 2004.
Em seu diário, em 13 de setembro de 1987, ele lembraria como conheceu o blues e o rock em Salvador:
Naquela época a Bahia estava infestada de americanos que trabalhavam para a Petrobrás. Em 54 surge nos Estados Unidos Elvis e o Rock’n’Roll caipira, além do blues dos negros do sul. Os filhos dos gringos me apresentavam esse novo fenômeno através de discos e revistas. Quando a gente se encontrava na rua o papo era: “E aí, tudo bem, tem disco novo?”. Aprendi
blues e rock antes destas músicas terem chegado ao Brasil. Além disso aprendi Inglês fluentemente. Troquei minha lambreta por dois velhos pares de violão e um contrabaixo de pau. Baixo acústico. Perdi a segunda série do ginásio por cinco anos para comparecer aos programas de rádio e ao Elvis
Rock Club, onde se bebia e dublava os artistas americanos; e eu era o único que cantava e tocava ao vivo. (SEIXAS, Raul apud SEIXAS, Kika; SOUZA, 1993, p. 18-19).
Em entrevista concedida ao jornalista Pedro Bial em 198366, a qual integra o acervo do Raul Rock Club, Raul relembra as latinhas de discos de 45 rotações e o caráter empírico de suas primeiras experiências musicais.
Bial - E você sempre teve um contato muito grande com a cultura norte- americana, quer dizer, através do rock’n’roll, desde criança.
Raul - É, devido: eu morava perto do Consulado Americano, certo? É... lá na Bahia. Então, eles traziam naquelas latinhas, bicho, umas latinhas que