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EĞİTİM

Belgede KONYA EKONOMİ RAPORU (sayfa 33-38)

C. KONYA EKONOMİSİ

I. DEMOGRAFİK YAPI VE SOSYAL KALKINMA

3. EĞİTİM

Apresento um breve panorama sobre as relações culturais latino-americanas que cercam Raul Seixas e sua obra, fora do qual nem ele nem sua produção podem ser devidamente compreendidos.

O Continente Latino Americano conta com a capacidade inata de seus povos de lidar com o afluxo cultural proveniente de todas as partes do mundo, de modo a incluir o que é diferente. De acordo com Amálio Pinheiro (em aula)10, a respeito da América-Latina:

Nós somos sociedades que nasceram de fragmentos de todas as partes do mundo. Estas sociedades lidam, de partida, com o fragmento. Trabalham o dinamismo cultural e estético na sociedade. [...] É uma sociedade da tradução dos fragmentos com troca e incorporação do outro que se dá em situação de conflito, mas a tendência é a incorporação do outro.

Desde a chegada dos primeiros navegantes espanhóis e portugueses, seus habitantes naturais, os índios, tiveram de enfrentar o choque cultural do convívio com visitantes que traziam consigo os valores do “velho mundo”.

Vindos de um continente regido por sólidas instituições sustentadas pelo capital financeiro, e experientes nas disputas por poder, os europeus tinham um épico histórico de batalhas, com grandes vitórias e devastadoras derrotas. Habitavam um mundo de fortes contrastantes entre luxo e miséria, dominadores e dominados.

Quando esses europeus vieram para a América, a Europa Ocidental já havia chegado ao Renascimento, contando com o refinamento nas artes, na pintura, no desenho, na arquitetura, na escultura, na música, nas danças, no teatro, e, com o empenho eclesiástico, no processo civilizatório. De acordo com Amálio Pinheiro (em aula)11:

Quando o Renascimento já tinha vingado na Europa, na América Latina tinha o nomadismo da voz. Por sermos uma sociedade nômade, a voz e a voz popular tiveram esse movimento muito forte, isso alimentou a poesia. [...] A voz tem uma movência e carrega um erotismo impossível de se deter. [...] A América Latina sempre foi a civilização da voz e da imagem.

A Igreja exercia esforços educacionais no sentido ético e moral, sobretudo nas escolas medievais, onde os clérigos ensinavam a disciplina, a boa conduta e a submissão a Deus, comportamento que implicava o domínio dos gestos corporais e orais.

10 PINHEIRO, Amálio, em aula na PUC de São Paulo, em: 14 abr. 2010, na disciplina Ambientes midiáticos e

mosaicos culturais: das oposições aos mosaicos mestiços.

11 PINHEIRO, Amálio, em aula na PUC de São Paulo, em: 16 jun. 2010, na disciplina Ambientes midiáticos e

A voz deveria livrar-se da expressividade performática e da variação tonal, encaixando-se num tom mediano e constante, desprovido de qualquer peculiaridade. Indissociável do corpo que pensa, fala e gesticula, não deveria deixar-se contaminar pelo caráter gestual e erótico do corpo e das coisas terrenas, elevando-se para o alto e para Deus.

Zumthor fala a respeito da eroticidade da voz:

Paradoxo da voz. Ela constitui um acontecimento do mundo sonoro, do mesmo modo que todo movimento corporal o é do mundo visual e táctil. Entretanto, ela escapa, de algum modo, da plena captação sensorial: no mundo da matéria, apresenta uma espécie de misteriosa incongruência. Por isso ela informa sobre a pessoa, por meio do corpo que a produziu: mais do que por seu olhar, pela expressão de seu rosto, uma pessoa é “traída por sua voz”. Melhor do que o olhar, a face, a voz se sexualiza, constitui (mais do que transmite) uma mensagem erótica.(ZUMTHOR, 1997, p. 14-15).

O Renascimento contou com o aprimoramento da qualidade dos produtos, das ciências e das artes. A Europa comprava produtos refinados, como os tapetes e especiarias do Oriente, e vendia suas melhores produções, contando com os saberes e a riqueza cultural obtidos pelos anos de diversas dominações imperiais. Vivenciava um processo cultural onde o esmero pela sublimação da variedade mundana convivia com a pluralidade abundante da cultura popular.

Os europeus que primeiro chegaram ao continente americano vinham da Península Ibérica, que havia sido ocupada por árabes de 711 a 1492, trazendo consigo a experiência de misturas culturais entre árabes, espanhóis e portugueses. Estas misturas se davam nas relações humanas, nos valores sociais, na religiosidade dos cristãos, muçulmanos e moçárabes, na culinária, nas danças, nas festas, nas artes e nos ofícios dessa região, que menos poderia representar os ideais de pureza e unidade almejados pelos sistemas de legitimação da Europa Ocidental naquele momento.

Ignorando tais processos históricos, as nações indígenas viviam nuas nas Américas, culturalmente regidas pelas crenças em sua interação com as forças da natureza, e voltadas às produções pelo bem comum. Ao se depararem com a visita inesperada dos invasores, incluíram-nos em suas vidas, com seus hábitos e objetos e um potencial de transmissão de doenças inimaginável, num impressionante intercâmbio cultural entre dois mundos até então entre si desconhecidos.

A capacidade desses índios de incluir o diferente lhes era inata, e, não sem lutas, povos mestiços dos relacionamentos entre índias e europeus nasceram daí. Mais tarde, com a vinda dos negros, esses povos formaram quadros socioculturais e genéticos mais complexos, que se intensificaram com a posterior vinda de imigrantes italianos, japoneses, alemães, holandeses, árabes e do mundo todo, num afluxo multicultural que até hoje não se fez cessar.

O processo de mestiçagem trabalha a incorporação prazerosa do “outro”, pela assimilação e inserção daquilo que parece estranho na teia cultural, criando mosaicos móveis, em constante movimento de troca, em vaivém. Dispensando a lógica binária oposicionista, em lugar de se opor, as coisas convivem umas ao lado das outras, em estado permanente de transformação e incorporação. Os processos se dão de modo não linear e não ortogonal, aproximando-se da diversidade natural do continente e contrariando a ordem hierárquica, opositiva e linear a que tendem os sistemas de poder. Amálio Pinheiro fala da queda dos binarismos:

A aceleração dos contágios entre séries culturais (poéticas, arquitetônicas, paisagísticas, mobiliárias, culinárias, etc.) e mediáticas (rádio, jornal, televisão, cinema) redesenhou e redistribuiu em vaivém formas (linhas, traços, grafias, vozes) porosas, não ortogonais, não proporcionais e assimétricas, aquém e além da razão dual, habilitadas às traduções interfronteiriças. Caem por terra os binarismos entre centro e periferia, matriz e variante, espírito e matéria, visto que o centro não se coloca mais em totalizações unitárias, mas nos encadeamentos (sintaxe) do bordado ou mosaico.(PINHEIRO, 2009, p. 10).

A América Latina tende ao barroco, pela capacidade de lidar com a confluência de elementos vindos de várias partes, num trabalho constante de inclusão, ressignificação e criação, que se dá por acúmulo incorporante. “O espaço barroco: o da superabundância e do desperdício [...] a linguagem barroca compraz-se no suplemento, na desmesura e na perda parcial do seu objeto, ou melhor: na busca frustrada por definição, do objeto parcial.” (SARDUY, 1974, p. 94).

Segundo Viveiros de Castro (2002), os índios latino-americanos tinham por hábito travar intenso intercâmbio cultural e afetivo com os inimigos que capturavam, incluindo a concessão de festas, presentes e o amor das índias, que se estendiam num convívio amigável por anos, até por fim os exterminarem.

Serge Gruzinski (2001) relata o rico intercâmbio cultural entre índios e jesuítas, desde o início das missões jesuíticas, e os modos como foram assimilando as culturas uns dos outros. Destaca a impressionante facilidade de aprendizado dos índios com relação à língua oral e escrita, e às artes e ofícios europeus, como a pintura, o entalhe, a arquitetura, replicando obras com um grau de perfeição que não permitia aos europeus discernir quais eram os originais.

A assimilação dos valores aparece em suas criações artísticas mestiças, em que as suas figuras temáticas e religiosas tradicionais são retratadas interagindo naturalmente com os personagens religiosos e culturais que os estrangeiros lhes ensinavam.

A América Latina é, de partida, mestiça; enquanto a ciência moderna esmerou-se por domar a enorme variação da natureza, este é o lugar onde essa variação está em abundância, tanto na fauna, na flora e nas formações geológicas como no transcorrer da vida cotidiana.

O trecho a seguir, de LAPLANTINE e NOUSS, observa que, a partir das línguas únicas e da religião católica, trazidas pelos povos europeus que primeiro migraram para a América Latina, no século XVI, esta inventou formas originais de civilização: maneiras de ver o mundo, de falar, amar e relacionar-se em que a pluralidade se dá como valor constitutivo.

Éstas son sociedades que se reconstituyeron a partir de una lengua única en sus dos modalidades, española y portuguesa, de una religión única cuyo centro sigue estando en Italia, valores únicos importados de Madrid y Lisboa, luego de Londres y París, por último de Nueva York. Desde hace cinco siglos se encuentran resueltamente descentradas respecto del Occidente, expropiadas, espoliadas y saqueadas económicamente. Su americanidad propia fue negada tanto por los europeos como por los otros americanos, aliados a las oligarquías locales. Todo actuó para que las diversidades de esos países elaborados en la confluencia de varias culturas se vean reducidas a la unidad. En pocas palabras, se trató de producir y reproducir réplicas de lo idéntico bajo tutela. Pero esta heterogeneidad fundamental de las Américas ecuatoriales, tropicales y australes, permanentemente amenazada de ser confiscada por los modelos homogeneizantes procedentes de Nueva York, Londres y París, está más viva que nunca. Lo que estas Américas – que por tanto no son sólo “latinas” – inventaron son formas de civilización (en particular la mexicana y la brasileña) plenamente originales. Son estilos de vida, maneras de ser, de ver el mundo, de relacionarse con los otros, de hablar, de amar, de odiar en las cuales la pluralidad es afirmada no como fragilidad provisional sino como valor constitutivo. (LAPLANTINE; NOUSS, 2007, p. 90)

“Há na América Latina essa tendência à barroquização das narrativas, onde os elementos da natureza invadem a cultura” (PINHEIRO, em aula)12. Apresenta a variação e a desordem, o aproveitamento de quaisquer elementos, e a criatividade, onde a natureza é indissociável da cultura. “Não se trata apenas de acúmulo externo de informação enciclopédica, mas de interconexão interna e movediça dos materiais e linguagens.” (PINHEIRO, 2009, p. 11).

Enquanto a mestiçagem conta com a incorporação constante de novos elementos e transformação cultural fluida, Raul Seixas realizava a tradução artística desses mosaicos culturais, trabalhando com o jogo tradutório entre suas criações e os elementos da cultura, seguindo a tendência própria da arte de integrar elementos dispersos em textos únicos. Uma definição de Sarduy, em seu livro Barroco, faz-nos lembrar Raul procurando respostas, insone, detalhista, observador, genial, inquieto:

12 PINHEIRO, Amálio, em aula na PUC de São Paulo, em: 9 jun. 2010, na disciplina Ambientes midiáticos e

A viagem do homem barroco é entre a luz e a sombra. O seu quotidiano é um deserto de desassossego dominado pela desmedida importância de todos os pormenores, uma ponte para a transcendência. A dúvida, a inquietação, a emotividade extrema geram os grandes visionários do tempo barroco. (SARDUY, 1974, p. 15).

Barroco para Sarduy não é um conceito atado a um tempo histórico, mas um conjunto de características. “[...] No centro da estética barroca está o desequilíbrio, a paixão. O homem “perdeu o pé”, anda à deriva num oceano de incertezas, sem bússola e sem norte.” (SARDUY, 1974, p. 15). O barroco é sobrecarga e desmesura, quer o excesso e o residual.

As músicas de Raul trazem o questionamento, a carnavalização, a subversão da ordem, o riso, o deboche, o caráter anárquico como negação da ordem estabelecida e das hierarquias de poder. “O barroco será a extravagância e o artifício, a perversão de qualquer ordem fundada, equilibrada: moral.” (SARDUY, 1974, p. 51).

Sua figura artística complexa conseguia representar, a um só tempo, a cultura popular brasileira, com seus elementos baianos, sertanejos, urbanos, bregas, místicos, sacroprofanos, e a rebeldia roqueira vinda da América do Norte, com seus movimentos corporais de quadris e ombros, trejeitos e vestes.

Esse contexto filosófico imagético estendia-se para a proximidade com outras culturas e nacionalidades. Sua figura profética estabelecia conexões com o misticismo de São João da Cruz e do místico inglês Aleister Crowley, com os livros sagrados do Oriente, como o hindu Bhagavad Gita e o chinês Tao Te Ching. Também com a astrologia, como a indumentária de sábio ancião que ilustrava a capa do disco Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás com música-tema de mesmo nome, ou a figura de mago que ilustrava a capa do disco a Pedra do Gênesis.

O manto de mago que ilustra sua biografia Raul Seixas Uma Antologia é uma peça lendária da exposição de seus pertences. Sua imagem como artista era a própria tradução mestiça de elementos diversos incorporados em transformação. Seu caráter criativo performático atípico manteve-o fora das classificações musicais da época, como a Jovem Guarda, a Bossa Nova, a MPB, a Tropicália, o estilo brega ou de música baiana, embora dialogasse com várias delas. Quando na dificuldade em classificá-lo, os entrevistadores perguntavam-lhe como chamava o que fazia, e ele prontamente respondia: “Raulseixismo”.

Seu perfil geográfico latino-americano é, portanto, um fator potencializador de suas mestiçagens.

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