C. KONYA EKONOMİSİ
II. MAKROEKONOMİK GÖSTERGELER
2. SANAYİ
A linguagem popular figura na obra de Raul Seixas como um de seus traços mais importantes, aquilo que lhe possibilita estabelecer uma conexão direta com o grande público.
Ela será a ponte que levará sua mensagem filosófica para o seio da cultura popular de forma rápida e inteligível. O uso dessa linguagem fez dele um grande tradutor dessa cultura, sintetizando conteúdos complexos em textos simples e abordando temas cotidianos de maneira humorística. Seu trabalho apresenta algumas características que se dão como reflexo de sua concepção de mundo, como seu apurado senso crítico somado à comicidade e à sátira, que marcam seu modo de tecer críticas com humor. Mostra sua aversão às imposições do sistema; o uso da linguagem popular; a preferência por cantar em primeira pessoa do singular; a utilização de eclética variedade de ritmos numa só canção; o largo uso de metáforas; a aproximação verbal com grandes personagens da história, como Jesus, Freud, Isaac Newton, Nero, Júlio César, Lampião, Al Capone. E, por fim, faz a abordagem conjunta de temas filosóficos e personagens históricos com fatos cotidianos, num constante processo de desierarquização, trazendo quaisquer assuntos para o mesmo plano, usando linguagem simples.
Confere abordagem popular aos grandes homens da história e seus feitos, em músicas como: Todo Mundo Explica, na qual Zigmund Freud aparece como personagem popularizado: “Papai mordeu a cabeça de doutor Dom. Sugismundo/ Porque sem querer cantou de galo/ Que
cada cabeça era um mundo/ Gismundo”. Em Como Vovó já Dizia15, menciona a lei da gravidade observada por Isaac Newton: “José Newton já dizia: se subiu tem que descer”. E, por fim, em Conversa pra Boi Dormir16, trata são João Batista e o fundamento do batismo na religião cristã com notável simplicidade: “Jota batista batizou Jesus/ De água e sal e o sinal da cruz/ Com a profecia que já tava esquecida para que seu povo encontrasse a luz”.
Em Al Capone17, ele dá um recado de alerta, em tom de amizade, ao figurão norte- americano, ao ex-imperador de Roma, Julio César, ao cangaceiro brasileiro Lampião, ao guitarrista Jimmi Hendrix, como se todos coexistissem no mesmo tempo histórico:
Hei Al Capone vê se te imenda/ Já sabem do teu furo nego/ No imposto de renda/ Hei Julio César vê se não vai ao senado/ Já sabem do teu plano/ Para controlar o Estado/ Hei Lampião dá no pé desapareça/ Pois eles vão à feira exibir tua cabeça/ Hei Jimmi Hendrix abandone o palco agora faça como fez Sinatra/ Compre um carro e vá embora.
Após citar São João Batista e o batismo, Conversa pra Boi Dormir continua:
Faz muito tempo que o Brasil não ganha/ Isso é conversa para boi dormir/ Confio em Deus porque ele é brasileiro/ Pra trazer o progresso que eu não vejo aqui/ Num tenho saco para ouvir artista/ Comendo alpiste na mesma estação/ Cantando regra com o rei na barriga/ E só de preguiça eu não mudo o botão.
A ausência de uma ordem de importância hierárquica e a disposição de diversos elementos no mesmo plano, uns ao lado dos outros, são algumas características da mestiçagem em seu trabalho.
Em Gente18, realiza uma análise do comportamento humano comum, em linguagem simples:
Gente é tão louca/ E no entanto tem sempre razão/ Quando consegue um dedo/ Já não serve mais, quer a mão/ E o problema é tão fácil de perceber/ É que gente/ Gente nasceu pra querer/ Gente tá sempre querendo/ Chegar lá no alto/ Pra no fim descobrir/ Já cansado que tudo é tão chato/ Mas o engano é bem fácil de se entender/ É que gente/ Gente nasceu pra querer/ Em casa, na rua, na praia, na escola ou no bar, ah!/ É gente fingindo, escondendo seu medo de amar.
Não apenas a linguagem popular como sua pronúncia aparecem em músicas como Lua Cheia, Não Fosse o Cabral, Quando Acabar o Maluco Sou Eu, Capim-Guiné e O Negócio É.
Lua Cheia19 traz palavras como “veve”, em lugar de vive; “óios”, representando olhos, e “ajudeia”, em lugar de judia, do verbo judiar: “Oh lua cheia véve piscando os seus óios para
15
Letra disponível em: <http://letras.terra.com.br/raul-seixas>. Acesso em: 11 fev. 2012.
16
Letra em Passos e Buda (s.d., p. 253-254).
17
Letra em Passos e Buda (s.d., p. 146).
18
mim/ Oh lua cheia cê me ajudeia desde o dia em que eu nasci”. Em Não Fosse o Cabral20: “Por fora é só filó, dentro é um molambo só e o Cristo já num guenta mais” e “falta de cultura pra cuspir na estrutura... Ai meu Deus”. Quando Acabar o Maluco Sou Eu21 traz a pronúncia corriqueira da palavra “título”: “Seu Zé preocupado anda numa de horror/ Falta um carimbo no seu tito de eleitor”.
Em Capim-Guiné22, composição feita com Wilson Aragão, ele interpreta o personagem sitiante do sertão nordestino, com a pronúncia característica dessa região:
Dona raposa só véve na mardade/ Me faça a caridade se vire e dê no pé/ Sagui trepado no pé da goiabeira/ Sariguê na macaxeira, tem inté tamanduá/ Minhas galinha já num fica mais parada/ E o galo de madrugada tem medo de cantá/ Num planto capim-guiné pra boi abana o rabo/ Eu to virado no diabo, eu to retado cum vocês/ Tá vendo tudo e fica aí parado cum cara de viado que viu o caxinguelê.
Há a brincadeira com a sonoridade: “Pardal foi pra cidade/ Piruá minha sagué (Gué, Gué Gué)”. No final, essa brincadeira se intensifica com a entonação propositalmente cômica de sua voz imitando a pronúncia sertaneja nordestina: “E fica aí parado, cum cara de viado, homi, que viu o caxinguelê/ Acuma, acuma é?/ Dondoje ele chega meu nêgo/ Oxente, é Piritiba, uma saudade retada”.
Em O Negócio É23, há uma convergência de elementos populares, como o jargão “O negócio é”, usado como título e refrão, que expressa o modo de raciocínio comum na cultura popular brasileira de que, quando a situação não é o que se esperava, o negócio é se lidar com o que se tem. A música tem o baião como ritmo e faz uso da linguagem corrente, com algumas pronúncias tal como se dão nos meios mais populares:
O negócio é/ Chupar o caroço da fruta do cacau/ O negócio é/ Subir no coqueiro e do alto ver o mar/ O negócio é/ Fazer prantação pra depois puder culher/ O negócio é/ Criar uma vaca e ter leite pra beber/ O negócio é/ Saber que o mar não tá pra peixe e sair pra pescar/ O negócio é/ Dormir sem medo do outro dia que já vai chegar/ Que pra passar a noite na cocheira tem que ter/ O mesmo cheiro do cavalo pra não incomodar/ Mas o negócio é/ Tomar uma cana pro frio não pegar/ O negócio é/ Fazer um teiado pras águas não moiá/ O negócio é/ Fubá no almoço e farinha no jantar/ O negócio é/ Tocar na sanfona pra nêga rebolar.
19
Letra em Passos e Buda (s.d., p. 269-270).
20
Letra em Passos e Buda (s.d., p. 267-268).
21
Letra em Passos e Buda (s.d., p. 290).
22
Letra em Passos e Buda (s.d., p. 273-274).
23
Assim como na música de grandes poetas populares, como Adoniran Barbosa24, a tradução da fala coloquial esteve na obra de Raul de modo expressivo, travando com esse público uma empatia profunda e duradoura. Grande parte de suas composições falam do povo, mas todas a este se dirigem.