C. KONYA EKONOMİSİ
II. MAKROEKONOMİK GÖSTERGELER
4. TİCARİ HAYAT
O amor compreende uma abordagem bastante ampla na obra de Raul Seixas. Debruçado sobre o tema, deu vasão à sua veia poética com inclinações românticas, mas também expressou o desejo ardente e a comicidade do envolvimento amoroso.
Aparece inocente nas primeiras músicas, como Vera Verinha e Menina de Amaralina, feita para sua primeira esposa, ainda sob inspiração dos Beatles, e revela sua pureza em Mata Virgem35:
Você é um pé de planta/ Que só dá no interior/ No interior da mata/ Coração do meu amor [...] Qual flor de uma estação/ Botão fechado eu sou/ Se amadurecendo/ Pra se abrir pro meu amor [...] Úmida de orvalho/ Que o sol não enxugou/ Você é mata
33
Letra em Passos e Buda (s.d., p. 190-191).
34 Letra em Passos e Buda (s.d., p. 234). 35
virgem/ Pela qual ninguém passou/ É capinzal noturno/ Escuro e denso protetor/ De um lago leve e morno/ Teu oásis seu amor.
O disco Krig-Ha, Bandolo!, lançado pela Philips em 1973, considerado pela crítica seu melhor álbum, abriga três canções sobre o tema: A Hora do Trem Passar36, As Minas do Rei
Salomão e Cachorro Urubu.
A primeira traz o amor romântico em meio aos desencontros:
[...] Onde eu passo agora não consigo te encontrar/ Ou você já esteve aqui ou nunca vai estar/ Tudo já passou, o trem passou, o barco vai/ Isso é tão estranho que eu nem sei como explicar/ Diga, meu amor, pois eu preciso escolher/ Apagar as luzes, ficar perto de você/ Vou aproveitar a solidão do amanhecer/ Pra ver tudo aquilo que eu tenho que saber.
As Minas do Rei Salomão37, em parceria com Paulo Coelho, também aborda o tema: “Entra e vem correndo para mim/ Meu princípio já chegou ao fim/ E o que me resta agora é o seu amor...”. Cachorro Urubu38, que conta com a mesma parceria, remete ao diálogo com o movimento jovem da contracultura:
Todo jornal que eu leio/ Me diz que a gente já era/ Que já não é mais primavera/ Ô baby, a gente ainda nem começou/ Baby, o que houve na trança/ Vai mudar nossa dança/ Sempre a mesma batalha/ Por um cigarro de palha/ navio de cruzar deserto. Em ritmo alegre, Coisas do Coração39, composta com Kika Seixas e Cláudio Roberto
e lançada em 1983, no álbum Raul Seixas, expressa a reciprocidade do sentimento compartilhado entre duas pessoas:
[...] Eu vou poder pegar em sua mão/ Falar de coisas que eu não disse ainda não/ Coisas do coração!/ Coisas do coração!/ Quando a gente se tornar rima perfeita/ E assim virarmos de repente uma palavra só/ Igual a um nó que nunca se desfaz/ Famintos um do outro como canibais/ Paixão e nada mais!/ Paixão e nada mais!/ Somos a resposta exata do que a gente perguntou/ Entregues num abraço que sufoca o próprio amor/ Cada um de nós é o resultado da união/ De duas mãos coladas numa mesma oração!
Sua série sobre o tema traz as letras românticas, como Ângela, composta com Cláudio Roberto para as esposas de ambos, cujos nomes coincidiam, e Tu és o MDC da Minha Vida, em parceria com Paulo Coelho, chegando até o sentimento abnegado de Mas I Love You40:
36 Letra em Passos e Buda (s.d., p. 232-233). 37
Letra em Passos e Buda (s.d., p. 146).
38
Letra em Passos e Buda (s.d., p. 152-153).
39
Letra em Passos e Buda (s.d., p. 265).
40
O que é que cê quer/ Que eu largo isso aqui/ É só me pedir/ Eu largo o que sou/ Vou ser zelador de um prédio qualquer [...] Mas diga o que cê quer/ Se acaso não quiser/ Feliz eu serei seu nada/ Mas um nada de amor.
Diferente dos demais estilos trabalhados pelo cantor, Tu és o MDC da Minha Vida41 representa o estudante apaixonado, que sofre ao relembrar as minúcias de um amor vivido; para ele, a exposição de seu sentimento entre os colegas beira as raias da breguice, mas, após sofrer uma alucinação, conduz a narrativa ao desfecho quando decide anunciar seu amor publicamente. Elogiada pelo jornalista Pedro Bial no filme Raul: O Início, o Fim e O Meio, por sua força poética, a música, longa e marcadamente narrada, é motivo de grande apreço entre os fãs. Entoada vigorosamente nos encontros em homenagem ao artista, continua pouco lembrada pelo público em geral.
Tu és o grande amor da minha vida/ Pois você é minha querida/ E por você eu sinto calor/ Aquele teu chaveiro escrito love/ Ainda hoje me comove/ Me causando imensa dor/ Eu me lembro/ Do dia em que você entrou num bode/ Quebrou minha vitrola e minha coleção de Pink Floyd/ Eu sei que eu não vou ficar aqui sozinho/ Pois eu sei que existe um careta, um careta em meu caminho/ Ah! Nada me interessa nesse instante/ Nem o Flávio Cavalcanti/ Que ao teu lado eu curtia na TV/ Nesta sala hoje eu peço arrego/ Não tenho paz nem tenho sossego/ Hoje eu vivo somente a sofrer/ E até o filme que eu vejo em cartaz/ Conta nossa história e por isso eu sofro muito mais/ Eu sei que dia a dia aumenta o meu desejo/ E não tem Pepsi-Cola que sacie/ A delícia dos teus beijos/ Ah! Quando eu me declarava, você ria/ E no auge da minha agonia/ Eu lhe citava Shakespeare/ Não posso sentir cheiro de lasanha/ Me lembro logo das Casas da Banha/ Onde íamos nos divertir/ Eh! Hoje o meu Sansui - Garrard - Gradiente/ Só toca mesmo embalo quente/ Pra lembrar do teu calor/ Então, eu vou ter com a moçada lá no Pier/ Mas pra eles é careta/ Se alguém, se alguém fala de amor/ Na faculdade de Agronomia/ Numa aula de energia/ Bem em frente ao professor/ Eu tive um chilique desgraçado/ Eu vi você surgindo ao meu lado/ No caderno do colega Nestor/ Por isso, é por isso que de agora em diante/ Pelos cinco mil auto-falantes/ Eu vou mandar berrar
o dia inteiro/ Que você é/ O meu Máximo/ Denominador/ Comum.
Inspirado no misticismo de Crowley, Raul compôs dois de seus maiores sucessos sobre o tema, A Maçã, Medo da Chuva e, em inglês, Love is Magick. A primeira refere-se ao ritual de libertação das amarras do ciúme proposto por Crowley; a segunda questiona o fato de estar compromissado com uma só pessoa, dialogando com contestações de Max Stirner, e a terceira fala do amor na magia de Crowley, grafada com “K” no final da palavra, para diferenciar das demais.
41
O álbum Raul Seixas, gravado em 1983 pelo estúdio Eldorado, trouxe o animado xote Quero Mais42, composto por Raul Seixas, Kika Seixas e Cláudio Roberto e interpretado por Raul e Wanderléa, com suspiros e gemidos acompanhando o ritmo:
Ai! Ai! Ai!/ Eu quero é muito mais/ Eu quero mais, muito mais dessa brincadeira/ Se enrolando na esteira/ Coisa boa de brincar/ Eu sou que nem um vira-lata vagabundo/
Que o maior prazer do mundo é ter você pra farejar...
A eroticidade de Pagando Brabo43 encontra sua expressão não apenas na letra mas também no ritmo dinâmico produzido em estúdio, com destacados efeitos sonoros acompanhando o enredo:
Eu quero é ver você mexer às quatro e meia da manhã/ Com a cara linda de dormir/ Se espreguiçando no divã [...] Eu e tu fazendo yoga no chuveiro [...] Eu quero é ver você pedir/ Querendo mais quando acabar/ Eu quero é ver você sentir/ Vontade de me
machucar.
Para finalizar o ciclo da temática amorosa em seu trabalho, citaremos suas canções de maior comicidade sobre o tema: A primeira é Fazendo o que o Diabo Gosta44:
Casamos num motel/ Bem longe do altar [...] Não fui o seu primeiro/ Você já tinha estrada/ Dois filhos, um travesseiro e a empregada/ Um anjo embriagado/ Num disco voador/ Jurou que o nosso amor era pecado/ Mas a história mostra que a gente agrada Deus/ Fazendo o que o diabo gosta.
E, por fim, sua narrativa cômica sobre o relacionamento entre uma garota de programa e um namorado que apela para ela deixar a profissão. Entitulada Babilina45, a música é sua versão para Be Bop a Lena, de Gene Vincent:
Babilina, Babilina/ saia do bordel [...] Eu quero exclusividade do teu amor/ Cutis cubidu-bilina por favor!/ Eu tava seco a muito tempo quando eu lhe conheci/ Provei do seu chamego e nunca mais me esqueci/ A noite cê trabalha diz que é pra me sustentar [...] Quando cê chega com a bolsa entupida de tutu/ Imagino quanta gente se deu bem no meu baú/ Você me garante que não sente nada não/ E que só comigo você tem satisfação [...] She is my girl, and I Love her so/ I sad Cutis-cubidu-bilina go girl go! (Ela é minha garota, e eu a amo/ Eu disse Cutis-cubidu-bilina vai garota vai!).
Temos, assim: desde o amor sublime ao desejo ardente e a comicidade, dentro da concepção barroca que viemos estabelecendo no trabalho.
42
Letra em Passos e Buda (s.d., p. 268-269).
43
Letra em Passos e Buda (s.d., p. 235-236).
44
Letra em Passos e Buda (s.d., p. 309).
45