C. KONYA EKONOMİSİ
II. MAKROEKONOMİK GÖSTERGELER
5. İSTİHDAM
Ouro de Tolo foi sua crítica social de maior sucesso, lançada quando Raul ainda era um artista desconhecido para o grande público. Surpreendeu pela autenticidade e simplicidade de seu contexto narrativo. Em 1973, Raul saiu às ruas do centro do Rio de Janeiro, com seu violão, cantando Ouro de Tolo, fazendo seu lançamento em meio ao povo. “Não adianta dizer as coisas para grupos pequenos, fechados. Minha música entra em todas as estruturas.” (SEIXAS, Raul apud SEIXAS, Kika, 1996, p. 59).
Figura 5 - Foto de Raul cantando Ouro de Tolo na Av. Rio Branco, Rio de Janeiro - 1973
Fonte: <http://www.revistadehistoria.com.br>. Acesso em: 10 jan. 2012
A música autobiográfica narra a trajetória de um sujeito inconformado que, embora tenha conseguido bom emprego e sucesso após passar fome na “cidade maravilhosa”, sente-se entediado e com coisas grandes para conquistar – referência ao seu penoso percurso rumo ao sucesso entre os anos de 1967 e 1969. A respeito desta fase, ele escreveu em seu diário, em 1981:
Hoje vivi intensamente os dias de Raulzito e seus Panteras no Rio, passando fome com um disco debaixo do braço. Gravava por sede de cantar, indo sempre a pé do Leblon até a avenida Rio Branco. Tinha um “buteco” que eu comia mais barato; quando comia!! Perdi a conta das vezes que olhei vitrine de padaria. Os programadores de rádio cuspindo no meu disco. Com fome olhando as vitrines de doce. Hoje eu me lembrei disso. Estou arrasado. (SEIXAS, Raul apud SEIXAS, Kika; SOUZA, 1993, p. 45).
Traduzindo os sentimentos que os brasileiros estavam experimentando com a estabilidade do “milagre econômico” proposto pelo governo, seguidos da desconfiança de que havia algo rumo à realização pessoal a ser buscado, a melodia despretensiosa é acompanhada com voz narrada em linguagem popular, que começa com “Eu devia estar contente”, e o público prontamente se identificou.
Em muitas de suas composições, o processo de identificação é facilitado pela escolha da flexão verbal: quem fala em primeira pessoa do singular automaticamente fala de si. Em entrevista à revista Pop, concedida a Carlos Caramez em 1975, Raul fala sobre a importância do uso do verbo “ser” e do pronome “eu” para a tomada de consciência do respeito a si e aos demais:
Raul Seixas - A verdade é prenúncio de um momento, o caos é prenúncio de um momento. Quando eu digo que sou a luz das estrelas, não estou falando de mim. O pedreiro lá da frente de casa, que está construindo um edifício, canta essa música como se fosse ele. Isso porque nós somos o verbo ser. Sendo o que você tem a vontade de ser, não existe mais nada. Nós somos, e está acabado. Tudo é. Então, o eu é fortíssimo. Você tem que ter primeiro a consciência do eu para poder respeitar terceiros e então fazer o que você quer, que é tudo da lei, da sua lei. (PASSOS, 1993, p. 107).
Em seu diário, encontra-se um poema com o final relacionado a Ouro de Tolo: Sala de espera [...] O jornal Sangrento Oleoso, Untado Vende-se no açougue Sangue de fato Fato de sangue nas paredes do Hotel do Sossego
Nas cercas embandeiradas que separam quintais Nas cabeças ornamentadas de penicos de metais No peito entupido
o estilhaço de aço bagaço
De gente junta
Trincheiras abertas em bocas fechadas A Bolha toma vulto
Arrolha a rolha O gargalo Pressão Prisão Sobe não pára Dispara o elevador eterno às nuvens... o caos
...e no cume calmo no meu olho que vê assenta a sombra sonora dum disco voador. (SEIXAS, Raul, 1983, p. 47-48).
Em um trecho da entrevista ao jornal O Pasquim, em novembro de 1973, Raul fala a respeito da aceitação de seu trabalho entre as diversas classes sociais e a exemplifica citando Ouro de Tolo:
O Pasquim - Basicamente que público você acha que atinge?
Raul Seixas - Todas as classes sociais. Isso é que é bom. Sabe por quê? Eles assimilaram Ouro de Tolo dentro de níveis diferentes, mas no fundo era a mesma coisa. O intelectual recebia de uma maneira. O operário, de outra. Lá em casa tá acontecendo uma coisa muito engraçada. Atrás do edifício estão construindo um outro edifício enorme, então os operários cantam o dia inteiro Ouro de Tolo, com versos que eles adaptam para a realidade deles. Eles transformam os versos, dizem: “Eu devia estar feliz porque eu ganho vinte cruzeiros por dia e o engenheiro desgraçado aí...” Eu ouço o dia inteiro eles cantando isso aí. E as cartas que eu recebi da revista POP, que fez uma transação aí, negócio de diga o que você acha da música “Ouro de Tolo”. Veio do Brasil inteiro. Fantásticas aquelas cartas, eu guardo um monte. Eu li essas cartas todas. Todo mundo entendeu, dentro de uma conotação própria, dentro de um nível diferente. Porque existem vários níveis. Eu achei fantástico isso. Quer dizer tá funcionando. (PASSOS, 1993, p. 103, grifo do autor).
A melodia simples em estilo folk, em que se sobressai o violão acompanhado da narração, lembrava, para alguns, as canções de Bob Dylan. A esse respeito, Raul falou:
O Pasquim - Você falou sobre Caetano e Gil, falou sobre John Lennon. E a
sua influência do Bob Dylan?
Raul Seixas - Isso é engraçado, todo mundo fala sobre esse negócio do Bob Dylan. Eu gosto de Dylan, mas não foi uma coisa tão marcante. Não me marcou muito não.
O Pasquim - Ouro de Tolo, e também essa música que você fez com letra
em inglês. Aí tem uma influência?
Raul Seixas - A letra de Ouro de Tolo saiu antes que a música. Veio a letra primeiro. Eu só podia dizer aquela monstruosidade de letra quase só falando. Então calhou. Aquela coisa de Dylan, falada, calhou. (PASSOS, 1993, p. 102).
Ouro de Tolo projetou-o como artista de sucesso nacional, e o compacto lançado pela Polyfar precisou ser prensado duas vezes na mesma semana, pelo excesso de vendas. Posteriormente, Raul gravou-a também em castelhano e em inglês, com o título Fool’s Gold.
Ouro de Tolo50 (Raul Seixas)
Eu devia estar contente/ Porque eu tenho um emprego/ Sou o dito cidadão respeitável/ E ganho quatro mil cruzeiros por mês/ Eu devia agradecer ao senhor por ter tido
sucesso na vida como artista/ Eu devia estar feliz porque/ Consegui comprar um Corcel 73/ Eu devia estar alegre e satisfeito/ Por morar em Ipanema/ Depois de ter passado fome por dois anos/ Aqui na Cidade Maravilhosa/ Eu devia estar sorrindo e orgulhoso/ Por ter finalmente vencido na vida/ Mas eu acho isto uma grande piada/ E um tanto quanto perigosa/ Eu devia estar contente por ter conseguido tudo que eu quis/ Mas confesso abestalhado/ Que eu estou decepcionado/ Porque foi tão fácil conseguir/ E agora eu me pergunto: E daí?/ E tenho uma porção de coisas grandes/ Pra conquistar, eu não posso ficar aí parado/ Eu devia estar feliz pelo Senhor/ Ter me concedido o domingo/ Pra ir com a família ao jardim zoológico/ Dar pipocas aos macacos/ Ah, mas que sujeito chato sou eu/ Que não acha nada engraçado/ Macaco, praia, carro, jornal, tobogã/ Eu acho tudo isso um saco/ É você se olhar no espelho/ Se sentir um grandessíssimo idiota/ Saber que é humano, ridículo/ Limitado, e que só usa dez por cento de sua cabeça-animal/ E você ainda acredita que é um doutor/ Padre ou policial/ E que está contribuindo com sua parte/ Para o nosso belo quadro social/ Eu é que não me sento no trono de um apartamento/ Com a boca escancarada/ Cheia de dentes, esperando a morte chegar/ Porque longe das cercas embandeiradas/ Que separam quintais/ No cume calmo do meu olho que vê/ Assenta a sombra sonora/ Dum disco voador.