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Uşaklıgil, “Yırtık Mendil”, Bir Yazın Tarihi, s 69-87.

Şerife Çağın

20 Uşaklıgil, “Yırtık Mendil”, Bir Yazın Tarihi, s 69-87.

Conforme Dias121, muitos textos utilizam as palavras cultura e civilização como

sinônimos, mas há autores que as diferenciam. Norbert Elias122 propõe que civilização, de fato,

não significa a mesma coisa em diferentes países. De acordo com o autor, para os ingleses, por exemplo, o termo resume “seu orgulho pela importância de suas nações para o progresso do Ocidente e da humanidade”, enquanto para os alemães “significa algo de fato útil, mas […] de segunda classe, compreendendo apenas a aparência externa dos seres humanos” – neste caso, o que expressaria o “o orgulho em suas próprias realizações e no próprio ser é [o termo] Kultur”123. Essas duas ideias se diferenciam de forma que, enquanto “civilização” remeteria a um processo ou seu resultado, relacionado a um incessante movimento para frente, Kultur

120 OLIVEIRA, 1991; SCHAPOCHNIK, Nelson. Cartões-postais: álbuns de família e ícones da intimidade. In: SEVCENKO, Nicolau; NOVAIS, Fernando A. (Org.). História da vida privada no Brasil: República: da Belle Époque à Era do Rádio. v.3. São Paulo: Companhia das Letras, 1991; SEVCENKO, Nicolau. A capital

irradiante: técnica, ritmos e ritos do Rio. In: SEVCENKO, Nicolau; NOVAIS, Fernando A. (Org.). História da vida privada no Brasil: República: da Belle Époque à Era do Rádio. v.3. São Paulo: Companhia das Letras, 1991b.; VIGARELLO, 1996; VIGARELLO; HOLT, 2008.

121 DIAS, 2005. 122 ELIAS, 1994. 123 ELIAS, 1994, p.24.

delimitaria a produção humana que expressa a individualidade de um povo.

Guardando suas distinções, ambos os termos aludem a representações de autoimagens nacionais. Entretanto, sobretudo quanto ao termo civilização, designaria povos mais “evoluídos” – as nações da Europa Ocidental, por exemplo, que em um contexto colonialista e imperialista consideravam inquestionável que sua cultura, sua maneira de ver e julgar o mundo fossem superiores às outras, apresentando um forte traço de etnocentrismo124.

Em síntese:

[…] se examinamos o que realmente constitui a função geral do conceito de civilização, e que qualidade comum leva todas essas várias atitudes e atividades humanas a serem descritas como civilizadas, partimos de uma descoberta muito simples: este conceito expressa a consciência nacional. Ele resume tudo em que a sociedade ocidental dos últimos dois ou três séculos se julga superior a sociedades mais antigas ou a sociedades contemporâneas “mais primitivas”. Com essa palavra, a sociedade ocidental procura descrever o que lhe constitui o caráter especial e aquilo de que se orgulha: o nível de sua tecnologia, a natureza de suas maneiras, o desenvolvimento de sua cultura científica ou visão do mundo, e muito mais125.

Dias destaca que muitos autores se baseiam na existência de linguagem escrita para diferenciar um povo civilizado de um povo “primitivo”, o que por um lado não seria sinônimo de não possuírem cultura, mas, por outro, com certa discriminação social, contrapondo o “homem civilizado” a um suposto “selvagem”126.

Voltando ao mencionado contexto colonialista, Elias refere que uma característica significativa dos movimentos colonizadores é que tenham como mote a “civilização”127. Isso

se justificaria pela necessidade não apenas de terras, mas de pessoas, que devem ser integradas à teia do país colonizador – essas pessoas devem assimilar os padrões de vida, ser integradas como trabalhadoras ou consumidoras, entre outras atitudes que as tornem “civilizadas”.

No século XIX o Brasil se conectou à teia da civilização. Podemos considerar a instalação da Corte no Rio de Janeiro como um grande marco, pelas adequações que promoveu, mas não gostaríamos de pensar em um processo evolutivo linear. Rainho destaca que a “europeização dos costumes” no Rio após a chegada da família real portuguesa de certa forma correspondeu ao processo discutido por Elias, e se relacionava a uma “sociabilidade baseada na adoção de valores estrangeiros”. A autora propõe que, nesse processo, os “cuidados com a higiene, a correção dos modos, as boas maneiras à mesa e a adequação e distinção no vestir

124 DIAS, 2005; ELIAS, 1994. 125 ELIAS, 1994, p.23. 126 DIAS, 2005. 127 ELIAS, 1994.

foram os elementos caracterizadores de uma etapa na qual a 'boa sociedade' se civilizava”128.

Porém, a nosso ver, a própria mudança na sociedade abriu espaço para que outras referências chegassem, ainda que da Europa, mas por outros caminhos que não necessariamente tinham o Rio de Janeiro como rota, uma vez que em dado momento se tornou comum aos jovens da dita “boa sociedade” irem para o velho continente estudar – e não apenas os que pertenciam à elite carioca.

Saballa comenta que, entre 1900 e 1920, nota-se uma preocupação com a modernização e a civilização em Porto Alegre129, mas notamos que não era uma ambição exclusiva desse período – desde antes da virada do século já havia se manifestado. No âmbito do ciclismo exemplificamos com dois trechos extraídos do jornal Correio do Povo em 1897 e 1898, respectivamente:

[…] Vencedora como meio commodo de rapida locomoção, a bicycléta entrou nos costumes actuaes e faz parte integrante do instrumental da civilisação moderna, ao lado do telephone e da luz electrica.

A plena aceitação no Rio de Janeiro deste novo instrumento sportivo e de velocipedia é de recente data e muito posterior á sua introducção na Europa, onde constitue já um meio de locomoção aceita indistinctamente por todas as classes sociaes. [...]

Aqui não attingimos ainda um tal apuro. [...]

A bicycléta pneumatica ahi esta plenamente aceita no mundo civilisado; cidades inteiras ha hoje que vivem da fabricação dessas machinas, na Inglaterra, na Allemanha, na França e na America do Norte.

Eis ahi, portanto, um grande elemento de progresso. [...]

A sagacidade de alguns medicos europeus chegou a ponto de enxergar na bicycléta um novo poder therapeutico, desconhecido até então, recommendando-o como panacéa á varias molestias.

O pessimismo de outros relegou o novo systema de locomoção para o index de coisas nocivas e condemnada pela hygiene e pela medicina. […]

[…] A bicyclette que conquistou o logar merecido nas sociedades civilisadas de todo o mundo, e que entre nós tão bem aceita tem sido por toda a gente de bom gosto e de espirito pratico, já está entrando como elemento poderoso no exercicio da clinica fluminense...[...]130 131.

Nas duas situações observamos algumas atribuições – ainda que já fosse conhecida há muito na Europa, é vinculada à bicicleta uma condição de novidade e “elemento do progresso”; o “mundo civilisado” e as “sociedades civilisadas” remetem basicamente aos países industrializados do hemisfério norte; o veículo teria sido bem acolhido por “gente de bom

128 RAINHO, 2002, p.44. 129 SABALLA, 2010.

130 A primeira citação foi originalmente publicada em O Paiz; a segunda, na Semana Sportiva, ambos do Rio de Janeiro. As duas foram transcritas pelo Correio do Povo, respectivamente em dezembro de 1897 e junho de 1898 e integram a compilação de Henrique Licht sobre o ciclismo no Rio Grande do Sul. Optamos por distinguir nas referências quando a informação foi obtida neste livro e quando foi localizada diretamente nos periódicos. 131 SEIDL (17 dez. 1897) apud LICHT, 2002, p.17-18; LICHT, 2002, p.27.

gosto”, ou seja, integrantes de uma elite “moderna” e médicos sagazes, enquanto os “pessimistas” a veriam como nociva. Aqui ainda não teríamos atingido o apuro da difusão desse moderno objeto, devido possivelmente ao nosso “processo civilizador” incompleto.

Elias discute que a reorganização dos relacionamentos humanos é acompanhada de mudanças nas maneiras e na estrutura de personalidade do homem, e que o resultado provisório disso é a conduta “civilizada”132. O autor aponta que a ampliação da rede de interdependência

social tornou importante a sincronização dessa conduta, pois as ações dos indivíduos estariam integradas. O autocontrole teria se estabelecido firmemente. Com a formação do que o autor chama de “monopólio da força”, os espaços sociais foram pacificados e foram criados substitutos para os perigos e emoções em livros e pinturas – cabe pensar que também o esporte e a moda teriam seu papel nessas substituições. Da emergência de uma nova sensibilidade para a violência advém “regras novas às práticas do corpo: regulamento das violências, técnicas de ginástica, cálculo dos espaços e dos tempos”133 – o que remete também ao que já mencionamos

sobre as modernas percepções sobre tempo e espaço.

Quanto aos códigos de civilidade vigentes no século XIX, Rainho coloca que as alterações efetuadas desde o século XV em relação a normas de higiene e comportamento geral serviram para edificar barreiras e evidenciar traços de distinção do “homem civilizado”134. Essa

afirmação é consoante com Vigarello quando o autor estabelece um sentido de distinção e diferença simbólica à aproximação entre higiene e limpeza, e como essa limpeza particularizava a antiga aristocracia, a burguesia em evidência e o pobre135.

Elias também propõe uma relação de desigualdade, na qual a sociedade europeia, como se fosse uma classe mais alta, disseminaria as condutas “civilizadas” nas áreas coloniais. Para o autor, esses padrões seriam assimilados principalmente por pequenos grupos dirigentes e pelas classes altas dessas nações136.

O desenvolvimento da moda e suas mudanças de estilo também estariam ligados ao “processo civilizador”, e na primeira metade do século XIX manuais de etiqueta, traduzidos ou adaptados de textos ingleses ou franceses, cumpriam o papel de orientar a “boa sociedade” para a vida na Corte. Estas publicações reproduziam regras de comportamento e roupas, espelhando o que seria desejado ou esperado dessa camada social – contudo, as roupas e a moda vigente nem sempre correspondiam ao que estava escrito, e nesse sentido os jornais teriam informações 132 ELIAS, 1994. 133 VIGARELLO; HOLT, 2008, p.394. 134 RAINHO, 2002. 135 VIGARELLO, 1996. 136 ELIAS, 1994.

mais realistas137.

Cabe mencionar que Rainho considera que a generalização dos comportamentos civilizados “não deve ser entendida como uma simples difusão, que atingiria progressivamente todo o corpo social a partir de uma elite que o domina”138.

Segundo Svendsen, na maioria das vezes as explicações sobre a difusão de moda são baseadas em várias versões da “teoria do gotejamento”, propostas por Adam Smith, Immanuel Kant, Herbert Spencer, Georg Simmel, e Gabriel de Tarde, por exemplo139. Conforme pontuamos anteriormente, não desejamos estabelecer uma linha evolutiva, mas sim pensar nesses processos de civilização e europeização como ramificados, ainda que se destaquem pontos emblemáticos. Svendsen aborda especificamente a moda de vestuário, mas ampliaremos essa noção de difusão de moda para um conceito mais amplo, alcançando também as modas de comportamento140.

O processo de difusão em “gotejamento” dependeria de uma desigualdade na economia simbólica, também relacionada inicialmente ao capital financeiro – “a inovação ocorre num nível mais alto e depois se espalha pelas camadas inferiores porque as classes mais baixas se esforçam para se elevar, o que as leva a estar sempre um passo atrás”141. Svendsen argumenta

que:

[…] Tarde enfatiza que a sociedade moderna confere maior flexibilidade à imitação, de tal modo que as classes mais altas podem também imitar as inferiores [...]. Naquela altura [1890], a imitação das classes baixas pelas superiores já vinha ocorrendo há algum tempo142.

Como exemplo dessa imitação em sentido inverso, Svendsen propõe o terno, que se espalhou da classe média para a classe alta e, pensando nas listras que mencionamos anteriormente, poderíamos sugerir também a apropriação da padronagem dos uniformes dos marinheiros para os trajes de banho das elites, conforme apresentado por Pastoureau143.

Tal como Svendsen, Elias afirma que uma singularidade da sociedade ocidental é que “as características das classes baixas difundem-se por todas as outras […] E constitui uma das peculiaridades mais importantes do processo civilizador”144.

137 RAINHO, 2002.

138 RAINHO, 2002, p.41. Grifo nosso.

139 SVENDSEN, Lars. Moda: uma filosofia. Tradução Maria Luiza X. de A. Borges. R. de Janeiro: Zahar, 2010. 140 Veremos mais detalhadamente no capítulo 2.

141 SVENDSEN, 2010, p.42. 142 SVENDSEN, 2010, p.46. 143 PASTOUREAU, 1993. 144 ELIAS, 1994, p.211.

Por fim, notamos nos discursos da imprensa brasileira, que elevava a Europa como o grande modelo de civilidade e cultura a ser seguido, esse sentido de “gotejamento”, entendido no viés espacial das relações civilizadoras de colonialismo e imperialismo, não entre classes de uma mesma região. Devemos, porém, considerar que as expectativas criadas até pelos grupos locais que desejavam se inserir nos moldes “modernos e civilizados” eram idealizações. Os exemplos europeus chegavam ao Brasil por meio de manuais e revistas, em alguma medida eram incorporados pelas classes altas, mas também se tornavam híbridos, na medida que questões próprias locais se mesclavam a essas normas – como nas questões da higiene que vimos há pouco. Ainda que enredado nas teias da civilização, o país permaneceria por muito tempo transmitindo uma imagem de exotismo para o mundo “civilizado” de fato145.

Benzer Belgeler