YEREL DÜZEYDE KATILIM
3.3. Hizmette Halka Yakınlık
3.3.3 Toplam Kalite Yönetim
A ficção, para nós, seres humanos, únicos seres na Terra que a praticam com mais desenvoltura, devido à propriedade mental privilegiada que possuímos, tem um papel fundamental em nossas vidas pela utilidade (hipótese evolutiva), pelo prazer (hipótese ontológica) e pelo conhecimento (hipótese epistemológica) que proporciona. Logo, não é de estranhar o papel relevante que a literatura, com suas poesias, seus contos e seus romances, assumiu ao longo da história da espécie humana. Derivados dos livros impressos da literatura e apoiados por tecnologias cada vez mais sofisticadas surgiram meios artísticos alternativos para a transmissão das estórias de ficção, como o teatro, o cinema e a televisão, sendo estes dois últimos alçados à condição de indústrias lucrativas. Com a ajuda da tecnologia e de grandes orçamentos, estes meios buscam aprimorar a transmissão das estórias com técnicas cada vez mais sofisticadas com o propósito de fazer com que o receptor as perceba quase como realidade (como a atual transmissão em 3D no cinema).
A ficção na arte ou ficção-entretenimento é uma estória imposta à mente do sujeito não para enganá-lo, uma vez que ele sabe que se trata de um engodo, mas para proporcionar-lhe um prazer induzido indiretamente. Esse prazer pode ter diversas formas, como, por exemplo, o prazer do sujeito pela identificação com uma personagem, o prazer pela admiração de uma qualidade excepcional de outra, o prazer
pelo final feliz de uma estória, e também o prazer mais vergonhoso pela desgraça de uma personagem, prazer denominado na língua alemã Schadenfreude, que significa “prazer com a desgraça alheia”, segundo Pinker (1998, p. 385). É o prazer que sentimos quando vemos um mendigo e pensamos: “Ainda bem que não estou na pele dele”. Como exemplo deste prazer, Pinker (1998, p. 411) cita um provérbio : “Quando é que um corcunda exulta? Quando vê um corcunda com uma corcova maior.”
Esse tipo de prazer é tratado também pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer (2005, I377, p. 412):
Também não se deve negar que, nesse aspecto, e a partir desse ponto de vista do egoísmo, que é forma do querer-viver, a visão ou descrição dos sofrimentos alheios nos proporciona satisfação e prazer, como Lucrécio bela e francamente o expressa no início do segundo livro de De rerum natura:
Suave, mari magno, turbantibus aequora ventis, E terra magnum alterius spectare laborem: Non, quia vexare quemquam est jucunda voluptas; Sed, quibus ipse malis careas, quia cernere suave est. (Quando o mar está bravio e os ventos açoitam as ondas, É agradável assistir em terra aos esforços dos marinheiros: Não que nos agrade assistir aos tormentos dos outros, Mas é um prazer sabermo-nos livres de um mal.)
Todavia, veremos mais adiante que esse tipo de alegria, obtida pela intermediação do conhecimento do próprio bem-estar, encontra-se bastante próxima da fonte positiva e real da maldade.
É para atender a esse tipo de prazer, Schadenfreude, que são feitas as estórias em que as personagens se debatem em situações emocionais dramáticas ou vivem em situações socioeconômicas precárias de causar pena. É o prazer que sentimos depois de assistirmos a uma tragédia numa peça de teatro ou num filme (as tragédias gregas e as de Shakespeare têm por fim proporcionar esse prazer) e saímos da sala aliviados porque toda aquela desgraça não aconteceu conosco.
Na sua obra Poética (1966) Aristóteles já antevia o poder da arte da tragédia sobre o espectador 38, representada no teatro, de libertação das paixões, pois ele, ao ser impactado por paixões como as do terror e da piedade, encenadas nos palcos, conseguia se ver livre delas. A essa libertação das emoções, que o espectador expurgava de si,
38 Em oposição ao seu antigo mestre Platão, que considerava a arte uma atividade menor e prejudicial ao conhecimento, já que se resumia a copiar o que já era uma cópia, pois os fenômenos aparentes do mundo sensível já eram cópias do mundo ideal e inteligível.
dava-se o nome de catarse ou purificação. Assim, diz Aristóteles (1966,1449a, 24-27, p. 74):
É, pois, a tragédia imitação de uma ação de caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com as várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes, não por narrativa, mas mediante atores, e que, suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação dessas emoções.
A ficção-entretenimento, como no caso das tragédias gregas, difere da realidade porque não é produto, como esta, da percepção imediata de eventos no mundo que ocorrem exteriormente ao agente que percebe, à revelia dos pensamentos da sua mente. A realidade é produto da percepção, conforme definida por Russell, que se dá pela conjunção da sensação no agente, através dos seus sentidos, causada por uma manifestação de um objeto, com o significado que o objeto tem para o agente (por exemplo, o som do trovão, que lhe dá a certeza da existência real de um trovão lá fora, embora não veja os raios). Fatos reais não necessitam da intervenção da mente do agente porque são os fatos presentes dados pela realidade à sua volta. Mesmo que a realidade não se apresente a nós pela percepção imediata, ela pode se apresentar com inferências que fazemos a partir de experiências perceptivas que temos com fatos que lhe são correlatos. Por exemplo, não temos a percepção imediata das mentes das pessoas, mas sabemos que elas as possuem pelo seu comportamento e pela comparação (analogia) que fazemos com nossas próprias mentes (voltaremos a esse assunto na seção 4.5). Após essa inferência inicial, a realidade das mentes das pessoas ficará para sempre como conhecimento adquirido em nossa memória, e a mente do agente não precisará mais fazer novas inferências com relação a esse fato que conheceu. Fatos reais não necessitam da intervenção da mente do agente a não ser que estes fatos se configurem como fatos que o surpreendem e exigem sua atenção crítica a posteriori, como os que originam o conhecimento justificado, ou como os que exigem uma avaliação crítica e uma interpretação subjetiva quando se caracterizam por fugirem a uma lógica racional, como as tragédias familiares de difícil explicação. Tentaremos dar uma justificativa para esse último fato quando falarmos mais à frente da personagem de ficção (seção 4.5).
Assim, a ficção-entretenimento, diferindo da realidade nesse aspecto fundamental, não é algo dado pelo mundo exterior à percepção do agente, pelo mundo fora dele, mas é algo que depende da sua intervenção, da sua colaboração, mais especificamente, da sua mente. A ficção-entretenimento não existe no mundo exterior
ao agente, ela tem que ser criada por uma determinada mente e, a seguir, essa criação será aceita por outras mentes num acordo implícito entre estas e a mente criadora pelo qual todas as mentes envolvidas estão cientes de que tudo não passa de uma mentira bem engendrada para um benefício geral (entretenimento). Logo, a intervenção da mente se dá tanto pela necessidade do criador de criar algo como pela necessidade do receptor da criação (ou do que vai se deleitar com a criação) de aceitar aquilo que lhe está sendo oferecido como uma mentira à qual se entrega. É uma aceitação voluntária que depende de sua intervenção ou vontade de entregar-se a um engano. Na recepção da realidade não há necessidade dessa intervenção da mente, ela é entregue ao agente independente da sua vontade ou de qualquer intervenção.
Como os eventos que compõem a narrativa da estória da ficção-entretenimento não ocorreram na realidade exterior ao agente, a estória tem que ser criada por um estado volitivo da sua mente a que chamamos imaginação 39. A realidade, como um dado que está fora do agente e da sua mente, que existe independente da sua existência, não depende desse estado mental chamado imaginação (produtiva) para existir. Mas a ficção, sim, depende crucialmente da imaginação do agente, que a requisita quando quer criar uma história fictícia. Assim, é pela imaginação que grandes escritores criam personagens memoráveis, como Ulisses, do poema Odisseia, de Homero, ou Jean Valjean, do romance Os Miseráveis, de Vitor Hugo, ou Madame Bovary, do romance
Madame Bovary, de Gustave Flaubert, ou Philip Carey, do romance Servidão Humana,
de Somerset Maugham, e autores de histórias em quadrinhos criam personagens que deliciam os adolescentes, como Super-Homem, Batman, Wolverine, etc.
Não é necessário muito esforço mental para concluir disso que a ficção só existe devido à capacidade da imaginação humana, não apenas de reproduzir os elementos da realidade, mas de recombinar das mais diversas maneiras tais elementos e partes deles, como Descartes (1973, p. 94) já refletira em sua Primeira Meditação:
Pois, na verdade, os pintores, mesmo quando se empenham com o maior artifício em representar sereias e sátiros por formas estranhas e extraordinárias, não lhes podem, todavia, atribuir formas e naturezas inteiramente novas, mas apenas fazem
39
No vocabulário filosófico a palavra imaginação é entendida em pelo menos dois sentidos. No primeiro sentido, ela é a faculdade de formar imagens reproduzindo o que foi objeto de uma percepção da realidade (nesse caso é chamada de imaginação reprodutiva). No segundo sentido, é a faculdade de combinar imagens provenientes dessa realidade formando novos conjuntos fictícios (nesse caso é chamada de imaginação produtiva, criadora ou inovadora). Segundo Lalande (1999, p. 520), no segundo sentido usa-se às vezes o adjetivo inovadora no lugar do adjetivo criadora porque no, sentido estrito, não há uma criação, mas uma combinação nova de imagens. Usamos neste trabalho a palavra imaginação no segundo sentido, em que ela produz algo novo diferente da realidade, embora baseada em seus elementos.
certa mistura e composição dos membros de diversos animais; ou então, se porventura sua imaginação for assaz extravagante para inventar algo de tão novo, que jamais tenhamos visto coisa semelhante, e que assim sua obra nos represente uma coisa puramente fictícia e absolutamente falsa, certamente ao menos as cores com que eles a compõem devem ser verdadeiras.
Diante da diversidade das nossas reações emocionais perante as nossas dúvidas existenciais sobre quem somos de fato ou o que fazemos aqui, não existe um consenso geral na consideração do que seja ficção e realidade, embora a diferença entre esses dois estados de percepção mental, conforme foi aqui apresentada, pareça bastante clara à primeira vista.