DEMOKRASİ VE KATILMA
2. Demokrasi ve Kuramları
2.2. Demokrasi Kuramları
2.2.4 Reformist Demokrasi Kuramı – Çoğulcu Demokrasi Yaklaşımı
Nesta seção, a partir dos conceitos de vontade de segunda ordem e vontade de primeira ordem segundo Frankfurt, podemos retomar, do ponto em que paramos, a discussão sobre o caso do soldado virtuoso que se recusou a participar de um crime e verificar como a sua decisão pode ter sido tomada efetivamente como sujeito autônomo e não heterônomo, servindo-nos de tais conceitos.
Ao se ver confrontado com o dilema entre decidir participar da ação criminosa junto com seus companheiros, a opção mais fácil e menos arriscada, e decidir não participar dela, a opção mais difícil e mais arriscada, o soldado virtuoso pode estar num conflito de primeira ordem. Isso porque, como já vimos, ele poder estar sendo heterônomo tanto numa opção como na outra, no sentido de estar agindo em consequência de uma determinação. Ele pode estar sendo influenciado pela força do grupo de companheiros que o obriga a participar do ato criminoso ou, por outro lado, pode estar sendo influenciado pela força do grupo religioso que, por uma doutrinação moral eficaz, inculcou nele o medo do castigo divino resultante da prática de atos condenáveis (nesse caso, ele é condicionado a agir moralmente sob forças heterônomas associadas ao imperativo hipotético kantiano, como vimos na seção 3.1). As duas forças conflitantes estão no mesmo nível de primeira ordem porque ambas são forças heterônomas, vindas de entidades que são exteriores ao soldado e que, portanto, não são autonomamente dominadas por ele. Como o viciado libertino, ele não tem controle sobre essas forças determinantes, ele simplesmente vai se deixar levar pela força que se mostrar mais impositiva. Se sua ligação com seu grupo de companheiros de farda for mais forte, ele optará por participar do crime, mas, se sua obediência aos ditames da sua religião ou o seu medo do castigo divino for mais forte, ele optará por se recusar a participar do crime.
O soldado, porém, como o viciado relutante, poderia ter uma vontade de segunda ordem na qual ele poderia se decidir por sua própria vontade e não pela vontade de
33 He has no stake in the conflict between them and so, unlike the unwilling addict, he can neither win nor lose the struggle in which he is engaged. When a person acts, the desire by which he is moved is either the will he wants or a will he wants to be without. When a wanton acts, it is neither.
forças heterônomas de primeira ordem. Nessa deliberação de segunda ordem, em que se institui uma vontade de segunda ordem, o soldado pode compreender o processo psicológico de heteronomia em que está envolvido. Ao tomar consciência de que está sendo manipulado por forças determinantes, ele tomará uma decisão movida por uma vontade de segunda ordem, na qual não interferem diretamente nem o impulso gerido pelo grupo de companheiros e nem o impulso gerido pelo seu grupo religioso. Se, como sujeito, independente de sua formação religiosa, ele tiver desenvolvido intrinsecamente um caráter moral sólido, fundado talvez em seu senso moral inato (conforme hipótese de Bloom colocada na seção 3.1), ele optará autonomamente por repudiar o ato criminoso. Se for um indivíduo com tendências naturais à desobediência moral, ele optará autonomamente por aderir aos companheiros.
Pode acontecer, ainda, como no caso do viciado relutante, do soldado ser vencido pela força heterônoma de primeira ordem gerida pelo grupo de companheiros e acabar participando do crime, seja por motivo de covardia ou de avidez, mas estar plenamente ciente destas fraquezas que o levam ao ato. Nesse caso, ele poderá ser mais tarde tomado por um amargo remorso, porque havia nele uma vontade autônoma, de segunda ordem, de não participar do crime por escrúpulos morais pessoais, mas que não foi suficientemente forte para prevalecer sobre seu desejo de primeira ordem heterônomo. No caso de um soldado libertino que participou do ato criminoso, esses escrúpulos morais não o afligem porque ele, não agindo de acordo com uma vontade de segunda ordem, não efetua uma reflexão moral sobre a própria ação que lhe permita compreender que está sendo manipulado por uma força heterônoma. Ele apenas se deixa levar por ela, aceitando-a como um fato natural.
O mesmo raciocínio pode ser feito no caso particular da personagem Philip Carey, do romance Servidão Humana, de Somerset Maugham. Ao compreender que suas crenças religiosas são fruto de uma educação religiosa muito rigorosa imposta pelo tio, ele percebe que foi manipulado por forças exteriores que o levaram a essas crenças. O desejo de crer nelas foi induzido por forças de primeira ordem, sobre as quais não tinha controle autônomo. Mas, por outro lado, ele pode concluir também que, estendendo sua reflexão de segunda ordem, sua descoberta de que estava sendo manipulado pelo tio deveu-se à sua relação com um grupo de amigos ateus avessos à religião. Assim, ao refutar sua fé por causa destes amigos, estaria agindo também heteronomamente. Logo, após essa reflexão mais ampla, ele poderá optar tanto por repudiar sua fé como por continuar a ter fé, mas agora essas decisões serão tomadas por
uma vontade de segunda ordem. Qualquer que seja sua decisão, ele agora estará sendo autônomo. Se ele decidir, na dúvida, que não deve optar nem por um caminho nem por outro, poderá ainda optar por uma posição neutra de suspensão de seu juízo, sempre movido por uma vontade de segunda ordem. Nesse caso, estará adotando a doutrina filosófica clássica do ceticismo ou a religiosa do agnosticismo.
Entretanto, não se deve, em absoluto, inferir, dados esses dois exemplos, que somente quando existe um conflito entre duas vontades heterônomas, a manifestação de vontade autônoma exija que o sujeito seja capaz de apresentar vontade de segunda ordem.
A vinculação da autonomia à vontade de segunda ordem é uma condição necessária para que a autonomia se manifeste no indivíduo, quaisquer que sejam as situações em que uma determinada vontade heterônoma o domine. Isso porque, mesmo quando uma vontade heterônoma se manifeste no indivíduo de forma não conflituosa com outra vontade heterônoma, esta própria vontade heterônoma independente, por definição, é uma vontade da qual não tem consciência de que é uma vontade dirigida por uma entidade determinante. Assim, o indivíduo será autônomo sempre que, numa reflexão de segunda ordem, compreender que uma determinada ação de sua parte está sendo impulsionada por uma vontade heterônoma, por natureza de primeira ordem e dirigida por uma entidade determinante.
Finalizamos esta seção com uma colocação de Frankfurt (1971, p. 13, tradução nossa) que parece sintetizar, em poucas palavras, o leitmotiv deste capítulo:
Em qualquer caso, ele [o viciado relutante] faz algo que ele próprio quer fazer, e não por causa de alguma influência externa cujo objetivo coincide com o seu próprio, mas por causa de seu desejo de fazê-lo. O viciado relutante identifica-se, no entanto, através da formação de uma vontade de segunda ordem, antes com um do que com outro de seus desejos de primeira ordem conflitantes. Ele faz um de seus desejos mais verdadeiramente seu e, ao fazer isso, ele abre mão do outro. 34
Neste capítulo analisamos e discutimos os conceitos de heteronomia, autonomia, vontade de primeira ordem e vontade de segunda ordem com o objetivo de entender que as relações conflituosas de tais condições no indivíduo é que irão determinar se ele irá
34 In either case, he does something he himself wants to do, and he does it not because of some external influence whose aim happens to coincide with his own but because of his desire to do it. The unwilling addict identifies himself, however, through the formation of a second-order volition, with one rather than with the order of his conflicting first-order desires. He makes one of them more truly his own and, in so doing, he withdraws himself from the other.
ou não aderir às crenças objeto de nossa analise, as não condizentes com estados de coisas reais, no sentido de realidade do senso comum que apresentamos.
No próximo capítulo investigaremos possíveis relações entre as noções de ficção e crença para analisarmos especialmente a influência que a ficção exerce sobre as crenças.