BÖLÜM 2: DEVLET TOPLUM İLİŞKİSİNE DAİR ALTERNATİF BİR
2.4. Modern Devletin Toplumsal Dayanağı Olarak Milliyetçilik
3.1.1. YÖN'de İktidar Stratejileri: Sol Bir Kitle Partisi Arayışları
3.1.1.1. TİP ile İlişkiler ve Polemikler
Grafico 5c Jornal Correio Regional
1.868,18
212,8
651,36
0,00
500,00
1.000,00
1.500,00
2.000,00
OCOR/PRF
OCOR/CRF
MEDIA/AT
LEGENDA
OCCOR/CRF- OCORRÊNICA CONTRA DISTRIBUIÇÃO FUNDIÁRIA
OCCOR/PDF- OCORRÊNICA PRÓ-DISTRIBUIÇÃO FUNDIÁRIA
ESTAT/CT - ESTATÍSTICAS CONCENTRAÇÃO DA TERRA
ESTAT/AT - ESTATÍSTICAS DEMOCRATIZAÇÃO DA TERRA
ESTAT/OUT - ESTATÍSTICAS OUTRAS
MEDIA/AT - MEDIAÇÕES ACORDO TOTAL
MEDIA/AP - MEDIAÇÕES ACORDO PARCIAL
MEDIA/DES - MEDIAÇÕES DESACORDO
MEDIA/MP - MEDIAÇÕES MEDIDAS PREVENTIVAS
DJ/D - DECISÕES JUDICIAIS DESPROPRIAÇÃO
DJ/APR - DECISÕES JUDICIAIS - AÇÕES PREVENTIVAS
DJ/APU - DECISÕES JUDICIAIS - AÇÕES PUNITIVAS
DJ/OP - DECISÕES JUDICIAIS OUTRAS PROVIDÊNCIAS
DJ/R - DECISÕES JUDICIAIS - REINTEGRAÇÃO
MOB/PT - MOBILIZAÇÕES POR TERRA
MOB/PC - MOBILIZAÇÕES POR CRÉDITO
MOB/PSP - MOBILIZAÇÕES POR SEGURANÇA PÚBLICA
MOB/OUT - MOBILIZAÇÕES - OUTRAS
OCUP/SDP - OCUPAÇÕES SEM DANOS PATRIMONIAIS
OCUP/CDP - OCUPAÇÕES COM DANOS PATRIMONIAIS
4.5 – Tempos radicais, pautas parciais (julho-setembro)
O terceiro trimestre de 2003 foi marcado no panorama nacional pelo radicalismo, tanto entre os atores políticos inseridos nos temas fundiários – Governo, Ruralistas e Sem- Terra - quanto na cobertura da grande imprensa. Demissões, manifestos e denúncias tornam esse trimestre intenso com relação ao debate agrário. Em termos de novidades em torno desse tema, os novos acontecimentos nesse período se reflete no aumento sensível do registro
Episódicos, no tipo de enquadramento então realizado, e que pode ser constatado nos Gráficos
3A e 3B.
O gesto do presidente colocando o boné do MST provoca uma avalanche de críticas, quanto mais porque ocorre em meio a uma onda de ações políticas daquele Movimento - interrupções de pedágios no Paraná; saques em Pernambuco e ocupações de prédios públicos no Mato Grosso e em Alagoas. É polêmico, ainda no início de setembro daquele ano, a demissão do presidente do INCRA, Marcelo Resende, justificada pela “falta de sintonia” entre a direção do referido Órgão e o Governo. Ilustra também a tendência radical da cobertura agrária nacional nesse período o enfoque estigmatizante dos movimentos sociais, em particular, do MST. A revista Época, por exemplo, realiza uma associação direta da morte de um fotógrafo a seu serviço a um suposto clima de ‘Convulsão Social’120. Já a Veja, faz uma cobertura reducionista do contexto fundiário, ao destacar o agro-negócio como ‘O Brasil da solução’, em contraste com a mobilização dos Sem-Terra como ‘O Brasil do problema’121.
Sobre esse enquadramento, há uma clara orientação antagônica na revista, visando opor um MST, associado ao atraso, com o Agronegócio, concebido como modernidade. Na realidade tal enfoque se relaciona à típica visão editorial da Veja. Cortes percebe nessa orientação dicotômica uma implícita hierarquia de valores, estabelecida cobertura jornalística dessa revista, entre a propriedade e o direito de à dignidade:
O grupo [MST] utiliza conceitos ausentes no discurso hegemônico, fala em exploração, que o capitalismo é desumano, em socialismo, em produzir para viver. Para a revista, isso é atraso, é problema. (...) A linguagem light de Veja apenas admite que o capitalismo causa ‘desconforto’. (...). A revista registra com cores
120 O assassinato do fotógrafo Luís Antônio da Costa em São Bernardo, SP, por um assaltante desconfiado que
passava por uma manifestação popular que o fotógrafo registrava, provocou uma espécie de manifesto da Época contra o que classificou de ‘Convulsão Social’. Não contente com uma chamada de Capa, e matérias envolvendo 14 páginas, com um discurso criminalizante dos movimentos sociais, a revista alardeia em seu discurso editorial um clima de instabilidade social no País. Nele, o MST e o PT são citados, respectivamente, 8 e 10 vezes. A carta do editor, na mesma edição da revista, não deixa dúvidas dessa simplificação: “Não importa se foi uma
manifestação dos Sem-Tetos ou um bandido comum. O tiro que matou o repórter fotográfico Luis Antônio da Costa expôs a falta de controle que o governo tem sobre os movimentos sociais”. Ver: Uma bala no peito e Fora de controle. Época, pp.36-49, 28.7.03. Grifo nosso.
121
vermelhas a barbárie das invasões. Afinal de contas, a propriedade é um direito sagrado no nosso estado de direito e o direito a uma vida digna, com comida à mesa e um teto onde morar, parece de menor relevância. Na verdade, é um privilégio.122
Simultaneamente, nos meses de junho e julho os jornais O Estado de São Paulo e
Folha de São Paulo também se destacaram nessa cobertura agrária saliente e crítica sobre o
MST123. Em um olhar ligeiro, pode passar despercebido na imprensa do sudoeste do Paraná esse recorte simplificante da mídia nacional, mas, através de uma análise mais criteriosa, observamos alguns traços dessa tendência. A influência grande imprensa sobre a cobertura local é um fator constatável não apenas no plano formal, mas um reflexo da própria dinâmica jornalística de interação constante com o presente. Assim, além da assinatura das agências de notícias, os jornais locais também se pautam a partir dos meios tradicionais, em busca de abordagens mais amplas.
Já em início de julho o editorial Tragédia anunciada124, do Correio Regional, faz incisivas críticas ao Governo Lula por este “estender o tapete vermelho ao MST” e elogia o agro-negócio, como um ‘Sucesso reconhecido no mundo’. Nessa mesma edição, mais de uma página é concedida também à uma reunião de produtores rurais, na cidade de Guarapuava, onde a pauta central é o problema das ‘invasões’. Nesse evento, realizado em um CTG local, tanto o prefeito da cidade, Hugo Burko (PSDB), quanto outras lideranças, alertam a existência de “um clima de guerra no campo”. A matéria é, sem dúvidas, fortemente favorável ao aos grandes produtores rurais. Esse enfoque de privilegiar os eventos ligados aos ruralistas demonstra um contraste significativo do CR com relação ao primeiro e segundo trimestre, considerando que nesse terceiro trimestre a cobertura Pró-Democratização Fundiária é bem mais expressiva.
O JB realizou nesse período uma cobertura mais modesta, mas não menos constante. Além do debate propiciado através articulistas de deferentes olhares sobre o problema agrário – como o texto O poder e os bonés da deputada estadual petista Luciana Rafagnin – o jornal também concedeu duas capas ao assunto. A primeira relacionada à
122
CORTES, Verônica P. Aravena. Sem medo do bicho papão: o governo Lula nas páginas da revista veja. In:
Estudos de jornalismo & Relações Públicas. p. 37 São Bernardo do Campo: Umesp, ano 2, n.4, dez de 2004.
123
Comparativo da revista Carta Capital sobre os meses de junho e julho, entre os anos de 1999 e 2003, observa que o Estado de São Paulo teria veiculado, nesses meses de 1999, 24 notícias sobre o MST e um editorial crítico, passando, em 2003, para 228 notícias e cinco editoriais críticos ao Movimento; Já a Folha de São Paulo teria dado, no ano de 1999, 76 matérias envolvendo o MST e criticado-lhe em um editorial, passando, no ano de 2003, a mencionar o MST em 166 matérias em seis editoriais críticos. Ver: Dize-me com quem andas e... . Carta Capital, pp.26-28, 20.8.03.
124
ocupação da polêmica fazenda Araupel125, que terá cobertura permanente desse periódico. e a segunda sobre a visita do ministro Miguel Rosseto e a liberação de recursos que realizou na região sudoeste, assunto que ao qual é dedicado uma página inteira. No caso da troca de direção do Presidente do Incra, que provocou indignação no MST e da CPT, o episódio recebeu destaque de capa no JB126. Curioso notar, por outro lado, o espaço tímido que o jornal dedica a um conflito na região centro-sul do Estado, em que deixou um coordenador do MST morto e dois outros líderes feridos.
O Diário do Povo, por sua vez, não se diferencia muito desse enfoque episódico, restringindo também as suas pautas principais no tema agrário à visita do ministro Rosseto e a crise em na Fazenda Araupel. Um editorial do DP do dia 18.7.03 apresenta o cenário político nacional em torno da Reforma Agrária (título do texto), mas não assume qualquer posicionamento, restringindo-se a pincelar a conjuntura, mantendo, portanto, a linha moderada até então característica desse periódico. A suposta isenção declarada pelo DP, a respeito da cobertura jornalística, pode ser problematizada a partir de uma análise mais criteriosa sobre a visão editorial da empresa. Sobre período conturbado no Campo, em que se torna prática usual as ocupações de pedágios e prédios públicos, a editora do jornal avalia:
Aqui, nós tivemos uma questão muito séria, que foi o uso do MST. O governo usou o MST para a questão dos pedágios. No momento que um grupo, que tinha toda uma concepção ideológica muito clara, se presta para determinados protestos como esse, ele vai perdendo credibilidade. È perigoso a forma como a massa de manobra vem sendo conduzida no MST. (SERPA, Leoni, Diário do Povo, op.cit.).
Essa leitura crítica das ações violentas do MST não deixa de refletir um posicionamento do jornal com relação ao Movimento, que dificilmente deixa de ter implicações na cobertura jornalística. Em todos casos, essa não é uma crítica isolada. A opção pelas ações não-legais no campo reflete as dificuldades de ampliação do MST a partir de fins dos anos 90, quando os seus líderes e aliados começam a denunciar uma campanha de ‘criminalização’ dos movimentos sociais. Conforme muitos críticos, esse caminho representa um equívoco, seguido por outras organizações de trabalhadores rurais, como as Ligas Camponesas. Navarro (In: SANTOS, 2002:211) acredita que esse seja um caminho que tende a levar o MST ao isolamento e aos desvios de sua vocação primária.
125
Em 17.12.03 a revista Veja veiculou matéria de uma página criticando esse assentamento, pelo alto custo e ‘ameaça’ à áreas de preservação. Ver: Pobres, mas custam milhões. Veja, 17.12.03.
126
Em uma outra perspectiva, Carvalho diz que essas ‘ações diretas’ (ocupação de terras, de prédios e a resistência nos acampamentos) tem uma dimensão emancipadora nas relações dos movimentos sociais com o Estado, como analisa:
O MST, ao optar pela ocupação dos grandes imóveis rurais improdutivos, confrontou-se diretamente com o grande capital financeiro e comercial nacional e estrangeiro. Ao romper com as prerrogativas históricas e legais do direito de propriedade privada da terra improdutiva, estava, de maneira indireta afirmando que não iria aguardar pela ação do Estado para a realização da reforma agrária no Brasil. Portanto, emancipava-se do estado. Rompia com a prática histórica de diversos movimentos sociais de luta pela terra e da luta sindical e partidária de reivindicar do Estado a reforma agrária. (CARVALHO in SOUZA, 2002:247)
Essa dimensão ‘não-legal’ das ações dos trabalhadores rurais sem-terra tem, contudo, um sentido mais claro para a imprensa micro-regional paranaense que, ainda que admita simpatias ao Movimento, tende a não concordar com tais práticas, como denota também as declarações do editor do JB, Ivo Pegoraro: “A gente via parte da sociedade dando apoio ao Movimento, e teve bons resultados aqui na nossa Região. Agora, eu questiono muito o Movimento no País como movimenta agrário. Ele começou como movimento agrário, mas hoje como movimento agrário está descaracterizado. Agora, eu respeito como movimento social”127.
Essa suposta admiração do editor do JB se reflete na cobertura desse Jornal que, durante o ano de 2003, concedeu o maior número de títulos Pela Democratização Fundiária -
PDF, (27), contra 19 do DP, 2 do OP e 10 do CR, conforme podemos verificar na tabela 2. A
mesma identificação é compartilhada pela editora do DP, quando ressalta a o seu conhecimento da história do MST, mas também as suas restrições às práticas do movimento: “Venho da região onde o MST surgiu. Os primeiros sem terras vieram de Nononai. O governo jogou muitos para Terra Nova e parte foi para a Fazenda Anoni. Precisa ser feito, sim, mas precisa ser feito de uma forma que não entre mais conflito. Eu acho que no Brasil já se guerreou demais com relação a terra.”128
Nesse aspecto, identificamos um elemento importante na determinação editorial do jornal, que se refere à visão de mundo do editor, e que se constrói também a partir de sua formação profissional.129 - mas encontra também sua abordagem corrrespondente na ação que a mídia sobre a mensagem, a partir do agendamento de seus temas.
127
PEGORARO, Ivo. Entrevista citada.
128
SERPA, Leoni. Entrevista citada.
129
Essa participação do olhar profissional do jornalista na apresentação jornalística contemplada na dimensão dos processos da produção da notícia modelo Newsmaking, que relaciona os processos de produção da notícia e a cultura profissional à apresentação da informação (ver WOLF, 1995).
Vejamos a distribuição de tópicos em torno do problema agrário nos jornais micro-regionais de nossa pesquisa, entre os meses de julho e setembro de 2003.
ENQUADRAMENTOS DAS MATÉRIAS III TRIMESTRE DE 2003 Gráfico 6a Jornal de Beltrão 17% 45% 38% PERSONALISTA TEMÁTICO EPISÓDICO Gráfico 6b Diário do Povo 18% 46% 36% PERSONALISTA TEMÁTICO EPISÓDICO
GRÁFICOS PROBLEMA AGRÁRIO NO SUDOESTE DO PARANÁ TEMAS POR ÁREA (CM2) – III TRIMESTRE DE 2003
GRÁFICO 7a JORNAL DE BELTRÃO