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Teemu Leinonen (Çeviri):

Belgede Uluslararası Eğitim Forumu II: (sayfa 94-100)

Porquê o termo (re)emergência para dar conta do modo como as MCA ganham visibilidade nas sociedades ocidentais contemporâneas? Partilhamos da posição de Cant e Sharma (1999), quando defendem que em vez de se falar sobre o crescimento das MCA nas últimas quatro/cinco décadas, é mais adequado falar da sua re-emergência após um período de eclipse, que começou, tal como acima referido, quando a biomedicina desenvolveu alianças com o estado e com as ciências laboratoriais, ou seja, no final do século XIX na maioria dos países ocidentais. Tal não implicou o desaparecimento das outras formas de cura não biomédicas, que se mantiveram, mas de forma muito ténue (Cant e Sharma, 1999: 6).

As análises sociológicas sobre o (re)surgimento das MCA são unânimes quanto à sua localização temporal nas sociedades ocidentais, situando-o nas décadas de 1960 e 1970 (cf. por exemplo, Cant e Sharma, 1996a, 1999; Saks, 1995, 2003).

Em particular, Saks (2003) refere a emergência de uma contra-cultura médica, definida como uma subcultura em oposição à cultura dominante da medicina, relacionada com mudanças sociais mais vastas que ocorriam nas sociedades ocidentais nessas décadas (Roszak, 1970). Uma dessas mudanças é constituída pelo questionamento da pericialidade, cujo âmbito se alargou aos médicos e à medicina. Uma das críticas mais contundentes à medicina convencional é a de Illich. Ao analisar a contribuição direta da medicina para a saúde, o autor considera que não só esta foi mínima, como acabou por ser mais negativa que positiva. Os argumentos podem ser sistematizados da seguinte forma: i) os avanços da medicina geraram expectativas públicas de “curas milagrosas”, que foram goradas; ii) a medicina alargou demasiado o tipo de problemas que passaram a ser considerados do foro médico (uma crítica à medicalização, apelidada de sobre- medicalização); iii) foi responsável por um considerável número de doenças produzidas medicamente – as doenças iatrogénicas –-, designadamente através dos efeitos indesejados da utilização de fármacos; iv) diminuiu a capacidade dos indivíduos para lidar autonomamente com a sua própria doença ao fomentar uma dependência, que o autor considera debilitante, do perito (Illich, 1975).

Outra forte crítica à biomedicina é preconizada por Bakx (1991), ao afirmar a existência de uma distância cultural cada vez maior dos consumidores relativamente aos médicos da biomedicina, bem como uma insatisfação pragmática com os resultados da prática médica.

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A biomedicina está em risco de perder a sua hegemonia (…) porque: primeiro, distanciou-se culturalmente dos consumidores dos seus serviços; segundo, falhou em corresponder às suas promessas de propaganda de verdadeiras investidas no combate às doenças criadas pelo próprio modernismo; terceiro, os pacientes têm ficado cada vez mais alienados pelas experiências físicas e psicológicas negativas nas mãos dos próprios médicos (Bakx, 1991: 33). No quadro destas críticas, o questionamento da eficácia da medicina no combate a determinado tipo de doenças – como é o caso das doenças crónicas – desempenha um papel central. Recorre-se inclusivamente à epidemiologia para demonstrar que a maioria das melhorias na saúde desde o século XIX deve-se sobretudo às melhorias na alimentação e no saneamento básico, mais do que à intervenção biomédica (Saks, 2003). O autor defende que a contra-cultura providenciou uma plataforma para os pacientes exercerem uma crescente pressão para a prestação de contas por parte da medicina ortodoxa (Saks, 2003), ao mesmo tempo que emergem filosofias de saúde alternativas, em boa parte materializadas nas MCA, que vão conquistando um crescente interesse por parte de indivíduos cada vez mais informados sobre diferentes opções de saúde.

A noção de mercado de saúde natural (Thompson, 2003) procura salientar o desenvolvimento de uma oferta terapêutica cosmopolita baseada em recursos qualificados como naturais, onde se incluem quer as terapias, quer os produtos que podem ser consumidos com ou sem controlo pericial. Este mercado é sustentado numa retórica de valorização do paciente-consumidor, isto é, no indivíduo informado capaz de fazer escolhas de saúde a partir da pluralidade de opções disponíveis.

O desenvolvimento das MCA tem passado, assim, pela expansão da mercantilização dos serviços e produtos que lhes estão associados, bem como da empresarialização dos respetivos terapeutas (Collyer, 2004; McClean e Moore, 2013). Nas sociedades ocidentais, as MCA têm vindo a ocupar um segmento de mercado florescente, tornando-se cada vez mais um grande negócio, que envolve em muitos casos grandes empresas nacionais ou multinacionais, responsáveis pelo fabrico e distribuição de produtos terapêuticos, equipamentos e dispositivos utilizados por estas medicinas.

O quadro sociocultural que temos vindo a descrever constitui o pano de fundo para a crescente popularidade das MCA. A entrada (ou reentrada) destes sistemas terapêuticos no campo dos cuidados de saúde tem sido abordada, por alguns autores, recorrendo ao conceito de pluralismo médico (Cant e Sharma, 1999; Janes, 1999; Nigenda, Manca e Mora, 2001; Clamote, 2006).

Segundo Clamote, o pluralismo médico significa “(…) uma situação estrutural de coexistência, num espaço social determinado, de práticas e conceções terapêuticas diversas, que são remetidas pelos atores sociais, bem como, em geral, pela normatividade e institucionalidade desses espaços, a uma pertença a configurações médicas diversas”

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(Clamote, 2006: 197). Quer as configurações, quer as formas de coexistência podem ser diversas. No primeiro caso, elas oscilam entre configurações médicas sistemáticas, com significativos padrões de formalização institucional e doutrinária, e práticas médicas fragmentárias, que não gozam dos mesmos níveis de legitimação. No segundo, a coabitação entre as diversas configurações pode ir desde situações em que se encontra formalmente consagrada, ainda que compreendendo formas de hierarquização oficialmente instituídas, até àquelas em que se verifica uma exclusão aberta e um combate a determinadas práticas, classificadas como heterodoxas, pelas várias formas instituídas de regulação do campo da saúde (Clamote, 2006: 197-198).

O conceito, como afirma o autor, tem estado refém de uma utilização circunscrita às modernas sociedades ocidentais, em que a medicina convencional possui o monopólio do campo de prestação dos cuidados de saúde. Ora, essa circunstância não se verifica em outras áreas do sistema-mundo – nomeadamente em espaços onde as medicinas populares ou a medicina tradicional detêm um estatuto de legitimidade social paralelo à medicina convencional, como referido anteriormente (cf. capítulo 1, ponto 1.2). O autor advoga uma abordagem integrada do pluralismo médico, que permita captar as diferentes situações de pluralismo médico em diferentes áreas do sistema-mundo, retomando a distinção entre sociedades do centro, sociedades periféricas colonizadas e sociedades da arena exterior (Clamote, 2006: 217). Por razões óbvias interessa-nos, em particular, a análise do pluralismo médico nas sociedades do centro.

Nestas sociedades, a medicina moderna foi construindo um percurso de implantação de um monopólio no campo das práticas de saúde, redefinindo as outras práticas médicas como heterodoxas, onde se incluem as MCA. Estas assumem, elas próprias, uma diversidade de configurações, das quais Clamote destaca duas:

Por um lado, com o desenvolvimento do espaço de mercado, teorias mais sistematizadas, como a homeopatia, também reemergem, e estas com maior potencial - pelo seu carácter teórico e possibilidades de institucionalização - de contestação da normatividade biomédica no campo de prestação de cuidados de saúde, procurando a sua legitimação no espaço da cidadania. Por outro lado, com as dinâmicas de globalização, através do mesmo espaço de mercado e do espaço comunitário, tradições médicas, mais ou menos sistematizadas, extra- ocidentais, são enxertadas no espaço genésico da modernidade, quer nos espaços comunitários de novas migrações, quer na ampliação mercantil das margens de conceção de estratégias de bem-estar nas sociedades do centro (Clamote: 2006: 221-22).

O pluralismo médico, nestes contextos, passa assim pela dominação de um dispositivo normativo pleno da medicina moderna. O autor defende que, mesmo face a tentativas de incorporação na mesma ordem de legitimidade por parte das tradições e práticas de saúde heterodoxas mais sistematizadas, a biomedicina continua a manter a sua posição de

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controlo normativo. Fá-lo delimitando um espaço próprio de atuação dessas práticas, com o estatuto de “coadjuvante”, através da externalização de algumas das suas impotências face a fenómenos de doença derivados do padrão epidemiológico moderno, com o peso de doenças crónicas, degenerativas e debilitante, e de formas de mal-estar e de possível desvio que ganham visibilidade e legitimidade por noções culturais mais alargadas do que é doença (Clamote, 2006), expressas no fenómeno da medicalização (cf. capítulo 3, ponto 3.1). Podemos afirmar que nesse sentido a biomedicina tolera a intervenção das MCA num campo que, nas palavras do autor, se situa fora do universo médico, como por exemplo a gestão de condições associadas à doença crónica, como o desconforto físico ou psicológico. Fá-lo também negando o reconhecimento de eficácia científica às terapêuticas preconizadas pelas MCA, remetendo os seus eventuais resultados para um mero efeito placebo (Clamote, 2006).

O pluralismo médico não é um fenómeno novo nem um fenómeno específico das sociedades ocidentais, é uma inevitabilidade social, um fenómeno que caracteriza virtualmente qualquer espaço social (Clamote, 2006), é a norma mais do que a exceção (Cant e Sharma, 1999). No entanto, para estas autoras, tomando como referência as sociedades ocidentais contemporâneas, o fenómeno assume contornos diferentes dos do passado, justificando a noção de novo pluralismo médico. A principal distinção face às formas pré-modernas de pluralismo consiste no facto de a diversidade de sistemas terapêuticos que coexistem no mesmo espaço ser fortemente estruturada, a partir da posição dominante da biomedicina. Esta desempenha o papel principal no processo de atribuição de diferentes graus de legitimidade a diferentes terapias. Mesmo quando essas terapias são praticadas em espaços de cuidados de saúde biomédicos, é sempre numa relação de subordinação face à profissão médica (Cant e Sharma, 1999: 195).

Importa ainda salientar que o pluralismo médico não se esgota no plano institucional, que, até ao momento, tem sido privilegiado na presente análise; “A configuração do pluralismo médico como possibilidade social passa igualmente pela ação social de atores que articulem nos seus percursos terapêuticos essas diversas práticas médicas, ortodoxas e heterodoxas, disponíveis em contextos específicos” (Clamote, 2006: 230). Se, por ora, este segundo plano não tem sido explorado, ele é crucial para análise do recurso às MCA a partir das experiências dos atores, pelo que o retomaremos, de forma aprofundada, posteriormente.

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2.3. Medicina convencional e Medicinas Complementares e Alternativas: fronteiras,

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