O renovado interesse pelo “natural” constitui um dos traços das sociedades contemporâneas que, não sendo exclusivo do campo da saúde, tem sobre este implicações diretas. A carga simbólica do termo é forte e, por isso, sujeita a manipulações diversas, como já assinalámos anteriormente (cf. capítulo 1, ponto 1.2). Efetivamente, no quadro da cultura de consumo, em que o valor simbólico se sobrepõe progressivamente ao valor de uso de bens e serviços (Featherstone, 1987, 1990), o qualificativo natural tem vindo a ser utilizado como forma de valorização social de determinados produtos, por oposição ao artificial, ao químico, em que se materializam os riscos inerentes à modernidade. O natural é, pois, investido de um conjunto de atributos simbólicos que o associam, por um lado ao saudável, e, por outro à inocuidade (Stevenson, 2004).
A consciência pública crescente face aos riscos tem contribuído para uma florescente indústria do natural, que podemos associar à ideia do desenvolvimento do comércio com os riscos, a partir da proposta de Beck (1992). Segundo o autor, a demonstração dos perigos e riscos da modernização é um fator de desenvolvimento económico, já que a definição e manipulação dos riscos permitem a criação de novos mercados para responder a novas necessidades para evitar o risco. Um dos exemplos é precisamente o dos produtos ditos naturais, quer com finalidades terapêuticas, quer direcionados para outras áreas da vida quotidiana, direta ou indiretamente relacionadas com a saúde; veja-se o caso, na alimentação, do aumento da produção, comercialização e do consumo de alimentos provenientes da agricultura biológica ou, no vestuário, da utilização de materiais não sintéticos.
No caso específico dos recursos terapêuticos, um dos traços característicos da modernidade corresponde ao que Lopes designa por “reabilitação do natural” (Lopes, 2010b) ou o “(re)emergir do natural na era do farmacológico” (Lopes et al., 2012), para dar conta do renovado interesse pelo natural no imaginário social contemporâneo. Num quadro cultural em que a ciência detém um estatuto ambivalente, entre a confiança e o ceticismo, bem como num discurso público sobre saúde que desloca o enfoque do tratamento para a prevenção, os produtos terapêuticos naturais, antes relegados para um plano residual com a expansão do domínio dos fármacos, encontram um espaço propício ao seu desenvolvimento. Isto é,
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a ciência configura nas sociedades pós modernas um lugar de produção de segurança, mas também de produção do risco. Precisamente, os fármacos constituem o ícone por excelência das virtudes da ciência no âmbito terapêutico, mas constituem também o ícone dos seus riscos. (…) O natural ressurge assim no discurso social (e socializado) como a ancestral segurança, o renovado meio de defesa, face à incerteza que a ciência e os seus riscos introduzem no quotidiano, e sobremaneira no domínio terapêutico (Lopes, 2010b: 25).
A associação dos produtos terapêuticos naturais à ideia de inocuidade, isto é, à ausência de riscos e de consequências negativas para a saúde, tem vindo a ser comprovada em pesquisas empíricas sobre o consumo de medicamentos, quer químicos, quer naturais (Lopes, 2010; Raposo, 2010). A expansão do consumo do natural pode decorrer de um posicionamento valorativo ideologicamente empenhado relativamente às vantagens e eficácia dos respetivos produtos terapêuticos, ou ser suscitada por objetivos de minimização do risco, geralmente associado aos seus equivalentes químicos, isto é, os fármacos (Raposo, 2010: 163). Num inquérito a uma amostra representativa da população portuguesa, realizado em 2008, os resultados revelam que quando se compara a atribuição leiga de risco face a medicamentos químicos e a medicamentos naturais, verifica-se que é atribuído um risco mais elevado aos primeiros do que aos segundos, que, embora associados a uma maior inocuidade, não são no entanto consumidos sem quaisquer reservas. Em contraste, as perceções sobre eficácia são mais favoráveis para os químicos do que para os naturais, o que revela a popularidade e adesão que a oferta farmacológica continua a manter. Esta dualidade entre risco e eficácia, em que o primeiro surge em muitos discursos leigos como o “preço a pagar” pela segunda caracteriza as expectativas sociais em torno dos fármacos (Raposo, 2010; Lopes et al., 2012).
As perceções sociais sobre os produtos terapêuticos naturais não são, porém, unívocas, sendo que uma das variações respeita ao tipo de produtos que estão a ser considerados. A este propósito, afigura-se útil a distinção entre o natural tradicional e o natural moderno (Lopes, 2010b), correspondendo o primeiro aos remédios tradicionais à base de plantas ou tratamentos caseiros, derivados do conhecimento ancestral local e produzidos no âmbito do setor popular (Kleinman, 1980), geralmente em contextos rurais, e o segundo a suplementos alimentares (segundo a terminologia utilizada na farmacologia) ou medicamentos homeopáticos, processados, embalados e comercializados em lojas de produtos naturais ou farmácias.
Tal como para as medicinas ou terapias não convencionais, importa, pois, situar os significados atribuídos aos medicamentos e a outros produtos terapêuticos em contextos culturais específicos. Em zonas rurais ou peri-urbanas, em que a utilização de produtos à base de plantas medicinais é significativa, prevalecem discursos que enfatizam os aspetos positivos destes produtos e os associam a estilos de vida tradicionais rurais. Em contraste,
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são salientados os fracassos dos fármacos, associados à modernidade e à urbanização. Trata-se de uma crítica à modernidade e uma afirmação da superioridade da tradição (Wayland, 2004: 2409). A prevalência destes discursos não implica, porém, a recusa dos fármacos, cuja utilização ocorre em articulação com a das plantas medicinais.
Sem descurar as interseções entre os produtos naturais tradicionais e as MCA, são os produtos naturais modernos que têm para a presente pesquisa particular interesse, na medida em que constituem um dos recursos terapêuticos que materializam a ação das terapias nelas integradas. Ora, como refere Miles, estes produtos ou medicamentos naturais combinam em si mensagens de tradições antagónicas. Utilizam os conceitos e símbolos da ciência para a sua validação e legitimação social, mas, simultaneamente, recorrem à tradição e à simbologia do natural, porque processados a partir de ervas naturais.
Num pequeno comprimido, ciência e natureza são encapsuladas (…) Os medicamentos naturais legitimam e medicalizam a natureza e reafirmam e reembalam um conhecimento e estilo de vida que a sociedade moderna muitas vezes desvaloriza e degrada. (…) A medicina natural ultrapassa as dicotomias habituais criadas entre ciência e natureza e entre modernidade e tradição (…) ao fazê-lo fornece uma mercadoria de “dupla ação” com uma potência simbólica poderosa (Miles, 1998: 219, 221).
87 Capítulo 4
Experiências e razões do recurso às Medicinas Complementares e Alternativas: o estado da arte
O interesse pelas medicinas complementares e alternativas (MCA) tem sido crescente nas sociedades ocidentais desde os anos 1960, o que é visível quer pelo aumento do número de indivíduos que recorrem a estas medicinas, quer pelo aumento dos terapeutas e pela diversificação da oferta em termos de terapias (Saks, 2001). As pesquisas que têm procurado quantificar a dimensão da procura em vários países do ocidente têm demonstrado um considerável aumento da sua utilização nas últimas décadas (Harris et al., 2012). Uma das vertentes mais significativas nos estudos no domínio das ciências sociais sobre as MCA tem explorado as razões desse recurso, procurando responder à seguinte questão: “Porque é que as pessoas recorrem às MCA?”. Esta questão, como afirma Sharma (1996), tem implícita uma segunda parte: “(…) em vez de recorrerem à medicina convencional?”.
No presente capítulo, procedemos a uma revisão, que se pretende sistemática, da literatura que dá conta dos resultados dos estudos que exploram as experiências e razões do recurso às MCA. Focando-se nas abordagens sociológicas, esta revisão abrange também contributos de outras ciências sociais, como a antropologia e a psicologia.