• Sonuç bulunamadı

GENEL DEĞERLENDİRME PANELİ

Belgede Uluslararası Eğitim Forumu II: (sayfa 159-162)

Por uma questão de exposição analítica, organizamos os vários fatores explicativos do recurso às MCA avançados na literatura em dois blocos principais – a insatisfação com a medicina convencional e as teses da pós-modernidade –, mas na realidade estes fatores são dificilmente indissociáveis, havendo diversas interseções entre eles.

Insatisfação com a medicina convencional

A insatisfação com a medicina convencional constitui um dos fatores recorrentemente evocado como explicação para a crescente popularidade das MCA. Esta insatisfação tem sido geralmente trabalhada em torno de três aspetos: i) a dificuldade da biomedicina responder aos desafios que a transição demográfica e epidemiológica coloca; ii) os riscos associados às terapêuticas da biomedicina, sobretudo os medicamentos; iii) a fraca qualidade da relação terapêutica.

A transição demográfica e epidemiológica, com o envelhecimento da população e o aumento da prevalência da doença crónica, como já tivemos oportunidade de desenvolver

88

(cf. capítulo 3, ponto 3.2), é um dos fatores avançado para explicar o crescente recurso às MCA, defendendo-se que a medicina convencional, ao contrário dos contributos inquestionáveis nas doenças agudas e infeciosas, não tem sido bem sucedida no modo como lida com a doença crónica e em dar resposta a doenças degenerativas, designadamente no alívio da dor e do sofrimento associado a estas doenças (Siahpush, 1998; Kumar, 2003; Coulter e Willis, 2007). Este recurso estaria, pois, fundado na insatisfação – em termos pragmáticos – com a medicina convencional, especificamente com os resultados dos seus tratamentos, isto é, a sua eficácia.

No quadro da insatisfação com a medicina convencional, outra explicação remete para a preocupação com os efeitos secundários atribuídos aos fármacos, bem como a aspetos simbólicos de alguma rejeição da artificialidade associada aos químicos e, por contraste, uma valorização do natural, pragmática e simbólica, conforme já referido (cf. capítulo 3, ponto 3.6). Neste sentido, a aparente inocuidade das MCA e a sua utilização de produtos naturais, encarados como menos disruptivos da integridade do corpo, podem constituir um fator de atração (Cant e Sharma, 1999; Badone, 2008).

Esta preocupação não pode deixar de ser associada à crescente vigilância social sobre os riscos dos medicamentos – para cuja visibilidade os meios de comunicação social têm contribuído –, bem como aos alertas sociais relativos à sobreprescrição de determinado tipo de fármacos aos quais se atribuem maiores riscos, como é o caso dos antibióticos ou dos psicofármacos (Raposo, 2010).

Outra razão avançada por alguns autores tem a ver com a qualidade da relação médico-paciente (Kumar, 2003), em particular o tempo disponível para as consultas, relativamente escasso na biomedicina (Cant e Sharma, 1999: 39). Os proponentes deste argumento referem que os indivíduos recorrem às terapias alternativas não devido à insatisfação com os resultados dos tratamentos médicos em termos da sua eficácia, mas sim devido à insatisfação com a relação médico-paciente. Na sua forma mais extrema, argumenta-se que os médicos perderam a sua “humanidade”. Passam pouco tempo com os seus pacientes, que muitas vezes não são informados sobre o diagnóstico, o tratamento e o prognóstico relativos às suas próprias doenças. Os médicos adotam uma ideologia materialista, centrada no médico e não há uma participação mútua (Siahpush, 1998: 60).

Outro ângulo de análise, que nos parece mais profícuo, é situar as eventuais diferenças na relação médico-paciente nos dois sistemas terapêuticos no quadro das posições no campo dos cuidados de saúde que ambos ocupam e nas respetivas implicações no contexto micro da relação terapêutica, ao invés de estabelecer comparações diretas entre algo que não é diretamente comparável. A análise de Chatwin (2008, 2009) sobre as interações nas consultas de homeopatia é bastante elucidativa a este respeito, ao partir de duas questões incontornáveis: a familiaridade e a eficácia. Ao contrário da medicina

89

convencional, os homeopatas têm que gerir a “estranheza” dos pacientes relativamente aos medicamentos homeopáticos, bem como o desconhecimento – ou mesmo suspeita – acerca da sua eficácia. Assim, nas primeiras consultas as estratégias mobilizadas concretizam-se na explicação das especificidades do processo homeopático, bem como na racionalização dos remédios homeopáticos, incluindo a explicação da sua eficácia terapêutica, de modo a transformar o estranho em familiar.

O autor aprofunda ainda as diferenças nas consultas de homeopatia por parte de homeopatas médicos e por parte de homeopatas não médicos (Chatwin, 2009). Enquanto as segundas tendem a ser mais longas e concretizadoras da abordagem holística reclamada pela homeopatia, através de incentivos para que os pacientes falem não só sobre os seus problemas de saúde mas também sobre outros aspetos da sua vida, nas primeiras os médicos tendem a limitar-se a incorporar os medicamentos homeopáticos no arsenal de medicamentos e tratamentos convencionais (Chatwin, 2009: 167).

Se a relação terapêutica pode ser um fator a ter em conta nas escolhas dos pacientes, a verdade é que as pesquisas têm demonstrado que não há um tipo de relação exclusivo na medicina convencional, da mesma forma que não haverá um modelo único para as MCA. Como desenvolvemos no capítulo anterior (cf. capítulo 3, ponto 3.5), a relação médico-doente é condicionada por um conjunto variado de fatores, desde os contextos institucionais em que ocorre – por exemplo, sistema público ou sistema privado –, até às ideologias profissionais dos médicos, para referir apenas alguns deles. Além disso, postular a existência de uma relação terapeuta-paciente nas MCA baseada num modelo de negociação/decisão partilhada ou consumerista é ignorar a diversidade que pode caracterizar essa interação e reproduzir uma retórica de valorização das MCA mobilizada pelos respetivos terapeutas ou por aqueles que se encontram engajados na sua legitimação.

Algumas pesquisas focadas na relação terapeuta-paciente nas MCA têm comprovado a diversidade de modelos de relação e a sua contingencialidade, designadamente a variação ao longo das várias fases do encontro terapêutico.

Num estudo sobre a prática da acupunctura nos EUA, por exemplo, defende-se que entre os acupunctores se pode encontrar uma diversidade de modelos de cuidados de saúde, situados ao longo de um continuum entre o polo do modelo tecnocrático e o polo do modelo holístico, com implicações na relação terapêutica; enquanto alguns terapeutas valorizam os aspetos técnicos ligados à inserção de agulhas, mantendo uma distância (profissional) relativamente aos pacientes, outros investem na criação de uma interação caracterizada pela empatia e pelo tratamento individualizado de cada paciente (Barnes, 2003).

Numa outra pesquisa aplicada ao caso da homeopatia, Robert Frank (2002) conclui que a interação entre os médicos homeopatas e os pacientes é um processo complexo, em

90

que as várias fases da consulta assumem diferentes formas, incluindo o consenso, o conflito e a negociação. Durante a fase inicial de diagnóstico, o homeopata é muito cooperante, sendo que as informações prestadas pelo paciente são fundamentais. Ao contrário da biomedicina, em que a atenção é centrada nos resultados dos exames médicos, na homeopatia a experiência relatada pelo paciente é fundamental, constituindo a fonte de informação por excelência. No entanto, defende o autor, esta característica não deriva do altruísmo nem da preocupação com a satisfação do paciente, mas sim da própria lógica terapêutica da homeopatia; a homeopatia é, por ter de ser, uma medicina centrada no paciente. Já no que se refere ao processo de decisão sobre a terapêutica, o retrato é diferente; é o homeopata que prescreve e muitas vezes o paciente nem sequer conhece o nome do medicamento. Ou seja, nesta fase da consulta, verifica-se um padrão de relação paternalista (Frank, 2002: 1293-94).

Na mesma linha, centrando-se nos tipos de transações que ocorrem nas consultas de homeopatia, Chatwin constrói uma tipologia que engloba quatro tipos de abordagem na fase de definição dos tratamentos: i) categórico (o terapeuta prescreve, de forma unilateral, um tratamento); ii) diferido (o terapeuta protela a decisão sobre o tratamento, sendo a unilateralidade atenuada); iii) aberto (o paciente é incentivado a refletir e a participar na decisão sobre o tratamento que é adequado para ele); iv) invertido (o terapeuta orienta o paciente para que este assuma o controlo sobre a decisão de tratamento). Estes tipos de transações organizam-se, assim, num continuum entre o centrado no terapeuta (mais diretivo) e o centrado no paciente (menos diretivo) (Chatwin, 2009: 170-71). Embora o formato diferido tenha sido o mais frequente nas consultas analisadas no estudo, foram também observados outros formatos, o que vem comprovar a diversidade de interações que temos vindo a assinalar.

Outra pesquisa ainda, comparando diretamente a relação dos pacientes com os terapeutas das MCA e com os médicos de família – isto é, com aqueles que, teoricamente, teriam mais semelhanças com as abordagens preconizadas pelas MCA –, conclui que as diferenças não são significativas, tendendo a prevalecer o modelo da decisão partilhada (Kelner, 2000).

Relativamente às teses da insatisfação com a medicina convencional, a reflexão de McGregor e Peay (1996) constitui um importante contributo para aprofundar a noção de insatisfação. Segundo os autores, a insatisfação tem sido tratada de forma demasiado generalista e sem se ter em consideração exatamente a que níveis se situa. Defendem que há três categorias de insatisfação, conceptualmente distintas. A primeira é uma desconfiança ou falta de confiança geral na eficácia da medicina convencional. Embora essa desconfiança possa ter sido provocada por uma série de experiências adversas, pode não ser dirigida a nenhum indivíduo, doença ou tratamento médico em particular, mas sim

91

baseada num conjunto de crenças e valores gerais. A segunda é a insatisfação específica com os médicos ou tratamentos médicos, que pode resultar de experiências negativas de tratamento ou de interacção médico-paciente. A terceira é uma perda de esperança em conseguir resultados satisfatórios com os tratamentos convencionais para um determinado problema de saúde, que pode levar à procura das terapias alternativas como último recurso, em “desespero”. A utilidade desta segmentação é permitir explorar os diversos níveis de satisfação, isolando os aspetos que são objeto dessa insatisfação. Um indivíduo pode, por exemplo, ter pouca confiança na medicina em geral, mas estar satisfeito com o desempenho de um médico em particular; ou pode procurar alternativas para um problema de saúde que a medicina convencional não consegue resolver, sem deixar de acreditar nessa medicina (McGregor e Peay, 1996: 1318-19).

As teses da pós-modernidade

Outro conjunto de argumentos remete para o que tem sido designado por teses pós- modernas. De forma sucinta, o recurso às MCA, representando um reflexo de padrões mais abrangentes que caracterizam as sociedades pós-modernas, constituiria uma resposta ao declínio da crença na ciência e na tecnologia para a resolução dos problemas da modernidade (incluindo as questões da saúde e da doença) e ao crescimento de processos de individualização, traduzidos numa busca por um maior controlo dos indivíduos sobre as suas próprias vidas e numa atitude crítica face à autoridade pericial, onde se inclui a autoridade médica. Consequentemente, o crescimento das MCA constituiria um fenómeno de desmedicalização, ou seja, a perda do controlo da medicina sobre determinados aspetos da vida humana.

Especificamente, os proponentes deste argumento defendem que na pós- modernidade está a emergir um novo sistema de valores, com novas ideias sobre a natureza, a ciência, a tecnologia, a saúde, a autoridade, a responsabilidade individual e o consumerismo, apelidados de valores pós-modernos, que explicam o crescente recurso às MCA (Bakx, 1991; Easthope, 1993; Eastwood, 2000; Rayner e Easthope, 2001).

Siahpush (1998) sistematiza estes valores em quatro vertentes: i) uma nova visão sobre a natureza; ii) novas crenças sobre a saúde e a doença; iii) a rejeição da autoridade; iv) a responsabilização individual e o consumerismo. A primeira remete para a valorização da natureza e do natural (cf. capítulo 3, ponto 3.6), ao ponto do autor referir a emergência de uma cultura verde, em que a ingestão de produtos químicos – quer em medicamentos, quer em alimentos (veja-se o exemplo do crescimento do mercado da agricultura biológica) – é evitada. A segunda respeita a mudanças nas crenças sobre a saúde para conceções mais holísticas, que contemplam o bem estar, de uma forma integrada, do corpo, mente e

92

espírito. A terceira corresponde à rejeição da autoridade, especificamente da autoridade científica e profissional, associada à demanda por uma participação mais ativa dos indivíduos, que se verifica no campo da saúde. Por fim, a pós-modernidade também é caracterizada pela crença na responsabilidade individual, atribuindo-se aos indivíduos a capacidade para atingir estados de saúde desejáveis, que dependem de esforços, empenho e mudanças de estilos de vida. Esta responsabilização está intimamente ligada ao consumerismo, já que os indivíduos têm maior possibilidade e capacidade de escolha, mudando mais facilmente de opções terapêuticas em função da sua eficácia. (Siahpush, 1998: 60-62).

A congruência entre estes valores e as bases filosóficas da maioria das MCA explicaria o recurso a estas terapias, na medida em que os terapeutas utilizam frequentemente tratamentos naturais e não-invasivos, advogam uma visão holística da saúde, possibilitam a participação do paciente no processo de cura e defendem que a saúde está no interior do indivíduo e que é ele, em última instância, o responsável por atingir o estado de saúde desejado (Siahpush, 1998: 60).

As MCA permitiriam, assim, um maior controlo do indivíduo sobre a sua saúde (Easthope, 1993), o cumprimento da auto-determinação e o reconhecimento da subjetividade e agência individual nos processos de tratamento, sistematizadas na noção de individuação, por oposição à despersonalização dos contextos biomédicos (Broom e Tovey, 2007). Sendo baseadas num modelo de saúde holístico, que enfatiza aspetos pós-modernos da saúde que a biomedicina suprimiu, as MCA teriam o potencial de devolver aos indivíduos a emoção, a espiritualidade, a natureza e o reconhecimento e valorização da escolha e autonomia individual sobre a própria saúde (Eastwood, 2000).

Neste quadro, o recurso às MCA é conceptualizado, por alguns autores, como forma de resistência ao discurso e às práticas biomédicas (Thompson, 2003; Goldner, 2004; Badone, 2008).

Os clientes dos terapeutas alternativos procuram libertar-se das discrepâncias de poder entre o médico e o paciente. O recurso às terapias alternativas representa uma forma de resistência face ao aparelho biomédico de controlo social que, como Foucault mostrou, permite aos profissionais da elite prescrever comportamentos de saúde apropriados aos membros de classes menos privilegiadas. A decisão de consultar um terapeuta alternativo pode assim ser interpretada como uma expressão de protesto contra o poder coercivo e disciplinar da burocracia biomédica (Badone, 2008: 209-210).

O fenómeno das MCA chega a ser classificado como um movimento social, devido ao elevado número de pessoas que se identificam como ativistas e ao impacto coletivo que estão a conseguir (Goldner, 2004). Numa pesquisa realizada nos EUA, a autora refere que a maioria dos terapeutas e utilizadores de MCA que foram entrevistados definem a sua

93

participação nestas medicinas como ativismo. Embora a sua resistência remeta essencialmente para atos individuais, considera que os ativistas estão a causar um impacto mais vasto a partir do momento em que se identificam com um aparentemente coeso movimento social que desafia a medicina ocidental de forma coletiva. O movimento das MCA não conta, porém, com uma organização identificável que o unifique; em vez disso, trata-se de um movimento difuso que inclui várias clínicas, organizações e indivíduos ativistas, unidos pela sua ideologia (Goldner, 2004: 711).

Focando a análise em recursos terapêuticos utilizados pelas MCA, Rayner e Easthope (2001) colocam a hipótese de o consumo de “medicamentos alternativos” representar um caso paradigmático dos consumos pós-modernos. A partir da análise de conteúdo de anúncios publicitários a estes medicamentos e de um inquérito aos respetivos compradores, concluem pela existência de um nicho de mercado baseado em estilos de vida, com ênfase sobretudo no valor simbólico em detrimento do valor de uso, sendo estes medicamentos simbolicamente valorizados como um meio de auto-construção, em congruência com os valores pós-modernos acima identificados. Porém, os resultados da pesquisa mostram que a ênfase no controlo individual não é acompanhada pela rejeição do controlo pericial. Aquilo que se verifica é um reposicionamento da autoridade, cada vez mais plural, em que o objeto da rejeição se limita à posição hegemónica da pericialidade no controlo da saúde.

As teses pós-modernas pressupõem a existência de um indivíduo-tipo, que podemos caracterizar como um consumidor informado, capaz de fazer escolhas racionais face à existência de diferentes prestadores de cuidados de saúde, a partir dos níveis de confiança depositada nesses prestadores e da monitorização reflexiva das suas próprias ações e resultados dessas ações. Nesse sentido, algumas propostas têm associado o self reflexivo de Giddens (1992) à perspetiva do consumerismo (Hughes, 2015). A autora defende que nas modernas sociedades ocidentais assistimos a uma situação de

relativismo, em que a autoridade histórica da medicina e da indústria farmacêutica é desafiada e torna-se apenas uma de muitas explicações para uma condição médica. Neste contexto, os consumidores procuram o tratamento em que acreditam, confiam e são capazes de suportar do ponto de vista financeiro. Associado a esta relegação da biomedicina para uma de muitas intervenções possíveis surge uma ênfase na responsabilidade individual para reduzir os riscos de saúde (Hughes, 2015: 450-51).

Acresce a este argumento o facto de as MCA, na generalidade dos países ocidentais, não se encontrarem disponíveis nos respetivos sistemas de saúde, pelo que o recurso implica, por parte dos indivíduos, uma procura ativa de informação e a capacidade para fazer escolhas informadas (Baarts e Pedersen, 2009: 728).

94

Os argumentos pós-modernos têm sido objeto de várias críticas. Uma delas remete para a relação entre as propostas teóricas e a realidade empírica. Por um lado, considera-se que os argumentos conceptuais que defendem a associação entre valores pós-modernos e aumento do recurso às MCA se situam de forma especulativa na grande teoria, com pouco fundamento nos dados empíricos, por ausência de estudos que sujeitem esses argumentos à verificação empírica (Broom e Tovey, 2007: 1025). Por outro lado, refere-se a dificuldade de os testar empiricamente, até por uma questão de indefinição na direção da causalidade: os indivíduos que recorrem às MCA revelam valores pós-modernos que explicam a procura, ou porque recorreram às MCA passam a partilhar valores pós-modernos? (Coulter e Willis, 2007: 219). Estes mesmos questionamentos têm sido colocados na interpretação de resultados de pesquisas empíricas sobre o recurso às MCA. Quando se verifica, por exemplo, que os utilizadores de MCA aderem, mais do que os não utilizadores, a uma visão holística da saúde, constitui essa adesão uma causa ou um efeito do recurso a estas medicinas? (Astin, 1998).

Uma segunda crítica, de caráter concetual, é a que classifica como questionável a desmedicalização que estaria associada aos valores pós-modernos (Cant e Sharma, 1996b, 1999). Se as MCA aparentemente desmedicalizam a saúde pessoal ao encorajar os indivíduos a serem menos dependentes da biomedicina, paradoxalmente, ao trazerem para o seu escrutínio todas as áreas da vida emocional e espiritual – através da ênfase numa abordagem holística do indivíduo –, remedicalizam os quotidianos individuais (Cant e Sharma, 1999: 46). Na medida em que terapeutas das MCA possam ser considerados mais um tipo de peritos numa sociedade que se baseia cada vez mais no conhecimento pericial, a MCA parecem, assim, ter, em simultâneo, a capacidade de se envolver em processos de medicalização e desmedicalização, de crescimento e de decrescimento da dependência da pericialidade (Cant e Sharma, 1996b: 12).

Outros autores levam este argumento mais longe, ao considerar que a utilização crescente das terapias complementares e da biomedicina pelos mesmos indivíduos constitui um incremento na medicalização e no controlo social. Isto é, para estes indivíduos, a narrativa de saúde expandiu-se, não se dividiu. As terapias complementares reforçariam assim uma ordem normativa, com a sua ênfase na responsabilidade individual, auto- disciplina e a criação de corpos e mentes disciplinados. Em vez de libertadoras, têm a capacidade de conseguir um sujeito auto-responsável, auto-policiador e politicamente conformista (Kumar, 2003: 5.7).

Acresce que a ideia de um modelo de paciente passivo, complacente e obediente exclusivo da biomedicina, por contraponto à conceptualização da saúde como responsabilidade individual e agência como atributo das MCA é contestável (Hughes, 2004). Com efeito, segundo a retórica das MCA, as práticas de saúde que lhes estão subjacentes

95

permitiriam ao paciente o desempenho de um papel mais ativo na sua saúde e encorajariam os indivíduos a conceptualizarem as suas experiências de doença de uma forma mais holística, potenciando assim um tipo de self holístico, ativo e empoderado/capacitado. Porém, a noção de auto-responsabilidade passou a constituir uma componente importante da atual retórica da manutenção da saúde e da prevenção da doença, também na biomedicina. Os pacientes são cada vez mais encorajados a agir como consumidores responsáveis, capazes de, de forma ativa, manter a sua saúde através de escolhas de estilos de vida (Sointu, 2006: 493). Como desenvolvemos anteriormente (cf. capítulo 3, ponto 3.1), este cidadão ativo e informado tem vindo a emergir nas políticas de saúde

Belgede Uluslararası Eğitim Forumu II: (sayfa 159-162)