A mãe dela morreu, ela ficou com oito anos, né, oito ou sete? Oito. Com oito anos, até hoje, ela vai fazer 16 anos, graças a Deus. Ajudo e eu tô cuidando dela, até quando precisar de mim eu tô aí (Iraci, avó de Raiara).
Raiara é uma jovem de 15 anos que reside em Bocaina de Baixo, região localizada no distrito de Rodrigo Silva, na cidade de Ouro Preto. A sua história de vida neste local se iniciou aos oito anos de idade quando sua mãe faleceu e a jovem foi morar com seus avós, tia e dois primos em uma casa humilde que possui criação de bodes, peixes e gansos.
No caminho, enquanto procurava a casa da jovem, fui perguntando às pessoas que via pela rua se conheciam a jovem e todos me direcionaram ao caminho correto, pois se trata de um lugar pequeno, onde a vizinhança nativa é muito antiga e todos se conhecem. Ao chegar à porteira indicada por uma senhora, vi um senhor capinando e juntando lenha na beira da estrada e o perguntei se conhecia a jovem. O mesmo logo abriu a porteira e me chamou para entrar, era o avô da garota. Mesmo sem me conhecer, demonstrou muita hospitalidade. Apresentei-me e disse a ele que gostaria de conversar com o responsável pela Raiara, pois ela estava participando de uma pesquisa e gostaria de convidá-la para a entrevista. O senhor desceu o morro comigo e, por um instante, pediu para que eu esperasse parada enquanto espantava os bodes. Passamos, então, por uma lagoa, por gansos e alguns bodes, até chegar à casa onde estava Raiara. Ele disse que chamaria a avó, pois ela estava na colina buscando lenha.
Raiara me recebeu e ficamos conversando no jardim. No primeiro momento, ela não se lembrou de mim. Houve períodos de silêncio da jovem, que ficou um pouco acanhada. Fomos conversando, mostrei o questionário respondido por ela na escola e, assim, ela se lembrou da ocasião em que fui à escola para a aplicação do questionário, no ano passado. Como sua avó estava demorando, Raiara assobiou bem alto, como um sinal de comunicação, por trás do bambuzal sua avó gritou: “Já estou chegando!”.
Então, após uns dez minutos de conversa com Raiara no jardim, ela foi se soltando e me perguntando sobre a pesquisa. Enquanto isso, observei o pomar que tinha pés carregados de frutas e as criações soltas pelo terreiro. Logo pude imaginar que esta família parecia viver da agricultura familiar, mas ainda sem esta certeza.
Nesse tempo de espera, Raiara foi me mostrando as plantações, e disse para eu esperar para não ter que voltar depois. Finalmente, se aproximou de nós uma senhora com um lenço na cabeça, com uma roupa um pouco suja devido ao fato de estar carregando lenha, além de uma moça mais nova e desconfiada e de um rapaz que olhava despistadamente, sem entender quem era “eu”, esta moça que nunca havia passado por ali.
Logo que sua avó e sua tia chegaram mais perto, me apresentei a elas. O rapaz seguia de lado, um pouco acanhado (este rapaz se trata do pai de Raiara). Fui convidada, então, a sentar- me junto com a avó na sala simples, onde tinha dois sofás, uma parede bem descascada e já sem pintura, mas bem arejada. Dona Iraci, muito comunicativa, disse que aceitava conversar e participar da entrevista e que responderia o que soubesse responder. A tia de Raiara ficou por alguns minutos sentada conosco, mas não foi de muita conversa, apenas observava e rapidamente se ausentou. Muito me admirou que o pai de Raiara foi se aproximando, primeiro apareceu na porta, ficou rodeando, até que eu perguntasse para Dona Iraci quem era aquele rapaz, e, então, me apresentei a ele. Foi assim que ele se assentou na janela e, entre as falas da avó, completava com algumas informações. Ele se demonstrou muito envolvido com a filha, embora não morasse ali com elas. Raiara, mesmo morando afastada da cidade e não saindo muito da região em que vive, parece ser uma menina feliz e muito amada.
Dona Iraci, avó de Raiara, tem 65 anos e é casada. No momento da entrevista, todos os moradores de sua casa encontravam-se desempregados. A avó contou que sempre morou em Bocaina e, em relação à composição de sua família, falou com muito orgulho de seus quatro filhos, sendo duas mulheres e dois rapazes, um deles o pai de Raiara. Quando pergunto sobre o seu esposo e sobre o trabalho formal, ela logo disse:
Sou casada. Mora aqui também. É aquele que tá lá. É aquele que te recebeu que é meu marido. Não, nesse momento, eu não tô não. Ele também não. Não. Já trabalhei. Trabalhei quatro anos na escola, mas tem muitos anos. Depois trabalhei na Cachoeira ali, na Aldebaram, numa casa, 11 anos (Iraci, avó de Raiara).
Para conhecer um pouco mais sobre a história de vida da jovem Raiara, procuramos entender como foi a vida escolar de sua avó, considerada a principal figura materna dela, após o falecimento de sua mãe. Para isso, realizamos uma conversa sobre o passado, sobre as práticas familiares empreendidas pelos pais de Dona Iraci a fim de entender como essas práticas familiares são, hoje, empreendidas com Raiara.
Então, iniciamos a conversa falando sobre a escolaridade de Dona Iraci, e comecei perguntando sobre até quando havia estudado, como era, para ela, estudar e por quais motivos tinha parado de estudar. Pela sua fala, percebi o quanto foi difícil a sua infância, tendo que conciliar os estudos com o trabalho doméstico e os cuidados com os irmãos mais novos, já que teve pouco apoio do pai em casa.
Na fala a seguir, tenho a impressão de que Dona Iraci quer recuperar aquilo que não teve a oportunidade de fazer, através das realizações de seus filhos. Por saber a dificuldades enfrentadas em sua infância e em sua vida adulta com a baixa escolaridade e baixa oportunidade de trabalho, ela disse que:
Eu parei, eu ajudei muito mamãe, entendeu, mas não continuei a escola também não. Agora, meus filhos, eu quero que eles continua. Meus filhos (Iraci, avó de Raiara).
Quando falamos sobre os incentivos de seus pais durante a sua escolarização, ela disse que passou muitos “apertos”. Perguntei, então, se alguém ajudava nos deveres de casa e como eram seus professores, e ela respondeu, pensativa:
Ah, aquela época, quase não, quase não tinha não, né. Naquelas época não, era só a gente só e era muito aluno, mas são todos legal entendeu, todos legal mesmo (Iraci, avó de Raiara).
Percebe-se que Dona Iraci vem de uma família com baixo capital escolar e, quando perguntei se seus pais estudaram, ela disse que: “Não, a minha mãe, eu não lembro. Eu só sei que eles não sabiam ler. Não”. A sua aprendizagem foi através de sua vivência, apesar de ter estudado pouco, é uma senhora muito ativa e comunicativa, sente muito por não ter apreendido a ler, mas sabe que, naquela época, tinha que ter forças para ajudar a sua mãe, que passou por dificuldades em seu relacionamento e, principalmente, de ordem financeira, por ter perdido o seu marido logo cedo, com crianças ainda em idade escolar. Ao tratarmos do assunto “leitura”,
ela se confundiu quando perguntei se ela gostava de ler e se tinha livros em sua casa. Pensou por instantes e disse:
Não. Não sei ler direito não. Conheço tudo quanto é letra, ajunto e sei o que que é entendeu. Sei tudo quanto é letra direitinho, mas não sei juntar. [riso] Ai, ai. Nayane me ajuda. Todos eles, minha caçula também tá com 19 anos (Iraci, avó de Raiara).
Dona Iraci contou que seus pais incentivavam os estudos, mas não tinham condições para manter os filhos na escola. Assim, ela e seus irmãos passavam apertos para fazer as tarefas escolares.
Quando falamos dos estudos de sua neta, ela disse que espera o melhor, que continue estudando, apesar da sua casa ser longe da escola. Hoje, a neta precisa acordar muito cedo para pegar o ônibus no ponto e a avó relatou que Raiara só falta as aulas quando está doente.
Observando as mudanças ocorridas, ela relatou que, antigamente, tinha que andar quilômetros para chegar à escola a pé, e, hoje, com a facilidade dos ônibus escolares, está tudo bem melhor. Chamou a atenção para os cadernos de hoje em dia e para as mochilas bonitas, pois, antigamente, carregavam seus poucos pertences em saquinhos de arroz.
Hoje, Raiara não trabalha fora, fica por conta apenas dos estudos e da casa, por isso, é muito cobrada pelo seu pai, que, apesar de não morar junto e ter pouco estudo, apenas até a sétima série, sempre está presente.
Dona Iraci também contou, com muito orgulho, que tem um filho que está no seminário estudando para ser padre, e que este é o “cabeça” da casa, quem incentiva a todos, inclusive a Raiara. Este filho atingiu a longevidade escolar até o Ensino Superior, cursou Biologia. Ela fala que, “graças a Deus”, ele se salvou entre os demais filhos.
A avó de Raiara contou, entristecida, que não pôde dar atenção e carinho para seus filhos durante a infância, e que isso pode tê-los prejudicado. Esse carinho é dado, hoje, à sua neta. Por fim, ela e o pai da jovem demonstram muita preocupação com seu futuro, e acompanham de perto a sua vida escolar, suas amizades e o namoro, embora seu pai não aprove este relacionamento por ela ser muito nova. Acreditam que não adianta bater nem reprimir, o que precisam é de muita conversa. Eles contaram que a garota passou no Instituto Federal Minas Gerais – Campus Ouro Preto, mas, devido à falta de internet, não viram a tempo e ela perdeu a vaga, isso com muito pesar.