• Sonuç bulunamadı

Poliane é uma jovem de 16 anos, moradora de Bocaina de Cima desde o seu nascimento. Ela é filha de mãe solteira, Dona Rosana, que teve oito filhos: seis homens e duas mulheres, que já estão, em sua maioria, casados e morando fora.

Em relação à composição familiar, moram dois irmãos e um amigo em sua casa, mas não foi detalhado o vínculo e os motivos para este último morar lá. Fui encaminhada até a sua casa através do apoio de Poliane, que é cunhada de Raiara. As duas moram bem próximas. Raiara me apresentou, então, para a sua sogra, a Dona Rosana, uma senhora emagrecida e com um lenço sobre a cabeça, e perguntou se ela podia me receber. Rosana, muito disponível e simples, me convidou para entrar. Logo em sua sala, encontrei Poliane deitada no sofá assistindo à televisão.

Sua casa é bem pequena e de tijolo à vista. Então, a jovem se espremeu no sofá e sentamos, as três, para iniciar a entrevista. Mostrei para Poliane o questionário respondido por ela e, bem tímida, ela se recordou do momento. Ela participou da entrevista como ouvinte, e ressalto que gostaria de ter realizado apenas com a sua mãe, mas ela não tinha para onde ir. Apesar disso, observei que a jovem não prestou muita atenção, pois estava cuidando de seu sobrinho pequeno, que lhe desviava o foco por todo o tempo. Durante a entrevista, por vezes, entravam algumas galinhas pela sala.

Inicialmente, Dona Rosana se apresentou e falou sobre a sua profissão com muito amor ao que fazia. A senhora trabalhou como auxiliar de limpeza em uma empresa terceirizada da mineradora Vale, em Vargem Grande, por cinco anos, mas, no momento da entrevista, estava desempregada. Ela estudou até a 4ª série do Ensino Fundamental em Bocaina, onde nasceu e morou por toda a vida.

Em relação à escolaridade de Dona Rosana, começamos a conversar para compreender, hoje, como isso se reflete na escolaridade de sua filha. Ela disse que parou de estudar para trabalhar e ajudar a sua mãe, que ficou viúva muito cedo. Sua mãe não trabalhava fora e não tinha ganho nenhum para sustentar a família. Relatou ter sido uma fase muito difícil de sua infância. Não soube dizer se todos os seus sete irmãos estudaram até o Ensino Médio, mas garantiu que estudaram mais do que ela.

Ó, eu aprendi um pouquinho só, sabe, mas, depois que eu parei de estudar, eu não peguei mais um livro pra estudar nem nada. Eu pegava mais era caderno pra escrever.

Adorava. Agora não. Muita coisa eu não sei ler não. Alguma coisinha eu sei (Rosana, mãe de Poliane).

Quando pergunto se seus pais incentivaram a ela e aos seus irmãos a estudarem, ela disse que sim. Seus pais não foram estudados e não sabiam ajudá-los nas tarefas escolares, que eram feitas em casa. Quando tinham dúvidas, era necessário recorrer aos vizinhos, pois, em casa, ninguém era escolarizado. Assim, Dona Rosana fez uma relação, na fala abaixo, com os dias de hoje, se posicionando quanto à escolarização de seus filhos.

Incentivava. Mandava a gente pra escola, não deixava a gente faltar de aula à toa de jeito nenhum. Não deixava não. Bom, se tivesse doente, aí sim, mas, do contrário, não deixava não. A mesma coisa hoje com esses menino: se tiver doente, não vai na escola não, agora, se não tiver, tem que ir estudar. Tem que estudar. Que hoje em dia, pras pessoas ter as coisa, tem que estudar. Mesmo muitas que tem estudo tá difícil, imagina se não estudar né, é complicado (Rosana, mãe de Poliane).

Hoje, na casa de Dona Rosana, quem ajuda os irmãos a fazerem as atividades escolares é a irmã mais velha, ela estudou até o Ensino Técnico e, atualmente, mora em Belo Horizonte, onde trabalha. A única que está estudando, no momento, é a Poliane, a filha caçula, pois o seu irmão abandonou os estudos.

Ah, lá, aquele lá parou, ó. Parou na 5ª. Ah, diz que esse ano ele vai voltar, né, não sei. Eu espero que ele volte a estudar, né. Ah, tem que estudar, mas ele gosta mais de trabalhar, estudo ele não... Não, por enquanto, ele tá parado, mas gosta de trabalhar, trabalhar é com ele, agora estudar... (Rosana, mãe de Poliane).

Segundo a mãe, quando tem que fazer pesquisas, Poliane vai à Ouro Preto de ônibus e utiliza a internet pública da Câmara Municipal dos Vereadores, paga apenas a passagem para ir. Dona Rosana falou que ela “não é muito de fazer trabalhos em grupo”, mas, sempre que tem, ela deixa ir fazer, porém sempre com horário para voltar para a casa. Ela parece ser presente e regula as ações da filha. Completou dizendo:

Não sou não. Não sou mansa, né. Eu gosto de corrigir, também não sou de bater também não. Gosto de chamar atenção, conversar, explicar. Com certeza (Rosana, mãe de Poliane).

Durante o percurso da escolarização da filha, sua mãe acha difícil acordar muito cedo, mas disse que logo eles se acostumam. Até o momento, não teve problemas escolares com a sua filha, costuma ir à escola quando tem que buscar as notas, mas não frequenta os eventos, vai em outro dia.

Percebe-se que a sua maior preocupação é a filha desviar se dos estudos e seguir pessoas mal intencionadas. Ela falou que a melhor coisa que uma pessoa pode ter é os estudos e, por isso, gostaria que seus filhos tivessem aquilo que ela não teve, a oportunidade de ter. Dona Rosana completou a afirmação com a fala:

Ah, ela melhorou bastante, eu acho. Principalmente, né, nos estudo, ela deu uma caminhada boa. É. A escola, lá, os aluno tudo com uniforme, igual os professor lá falou que tem menino que, às vezes, sai de casa pra estudar, mas dentro da sala não entra. Fica na rua. E eu já falei com ela, se eu souber que ela ficou na rua, ela vai tomar um coro, e aí eu bato (Rosana, mãe de Poliane).