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2. MOBİL TELEKOMÜNİKASYON PİYASALARI ve NUMARA

2.3. Numara Taşınabilirliği

2.3.2. Türleri

Fraser, em seu texto From redistribution torecongnition? Dilemmasof justice in

a post-socialistage31, publicado em 1995, propunha-se a formular uma concepção de justiça que considerasse o contexto vivido, levando em conta os desafios e especificidades do mundo contemporâneo. Para ela, esse momento pode ser nomeado como “era pós-socialista”. A filósofa afirma que as identidades grupais se constituíam como um dos principais motivos das mobilizações políticas e a injustiça a ser combatida seria a da ordem da dominação cultural que tinha substituído a luta política de classe e exploração econômica.

Dois anos mais tarde, em 1997, Fraser apresenta um panorama mais aprimorado da “condição pós-socialista” em seu livro Justice interruptus: critical

reflection on the postsocialist condition, no qual elegeu para discutir aspectos

constitutivos do “sentimento” da esquerda no final da década de 1980, expressos nas dúvidas sobre as possibilidades históricas de uma mudança social progressista. Um dos aspectos elegidos foi a ruína do socialismo soviético que teria conduzido aquele modelo para o colapso de arranjos institucionais existentes e o abalo de crenças em ideias que motivaram lutas por transformações sociais em torno de 150 anos. Para a autora, após esse abalo, não se tinha nenhuma ideia para ser incorporada como substituta das crenças anteriores. Outro aspecto que destaco teria sido a mudança da pauta das reivindicações políticas, o apelo pelo reconhecimento de grupos pelas suas diferenças e a exigência por igualdade social (FRASER, 1997). Sob o ponto de vista dos movimentos sociais, houve um aumento do interesse pela pauta sobre política de identidade, e a classe deixa de ocupar a posição principal nas pautas de lutas.

Segundo Alex Lima (2010), filosoficamente, o termo redistribuição filia-se à tradição liberal anglo-americana ligada a diversas teorias de justiça distributiva, elaboradas no final do século XX, por estudiosos como John Rawls e Ronald Dworkin. Segundo Fraser, os proponentes da redistribuição apoiam-se em antigas “tradições de organizações igualitárias, trabalhistas, e socialistas. Atores políticos alinhados a essa orientação buscam uma alocação mais justa de recursos e bens” (Fraser, 2007,

31 O título em português seria Da redistribuição para reconhecimento? Dilemas da justiça em uma era

p.101). Assim, Rawls, por intermédio de sua obra Uma teoria da Justiça32, apresenta a concepção de justiça denominada justice as fairness, ou seja, justiça como equidade. A sua teoria traz uma alternativa de superação das teorias utilitaristas e intuicionistas sobre justiça com base na tradição do liberalismo kantiano. Para Rawls (2002), instituições e leis, mesmo organizadas e eficientes, se não forem justas, devem ser abolidas. Portanto, a justiça deve ser a primeira virtude de uma instituição social.

Segundo Moraes (2009), a justiça social, conforme Rawls, é a forma pela qual as instituições sociais mais importantes distribuem direitos e deveres fundamentais e determinam a repartição de vantagens advindas da cooperação social. A estrutura básica da sociedade é disposta em torno de várias posições sociais, considerando que as pessoas nascem em condições diferentes no que se refere aos aspectos econômicos, sociais e políticos. Diante disto, a constituição das políticas e instituições econômicas e sociais mais importantes definem as liberdades e condições de vida de uma pessoa, afetando, assim, a sua expectativa de vida. São às “desigualdades, supostamente inevitáveis na estrutura básica de qualquer sociedade, que os princípios de justiça social devem ser aplicados em primeiro lugar”. (RAWLS, 2002, p.8).

Os proponentes de políticas de reconhecimento, apoiando-se em novos paradigmas, defendem “visões de uma sociedade amigável às diferenças, procuram um mundo em que a assimilação às normas da maioria ou da cultura dominante não é mais o preço do respeito igualitário” (FRASER, 2007, p. 102).

O reconhecimento é um termo que deriva da tradição filosófica hegeliana, a partir da subjetividade da relação entre sujeitos que enxergam-se como iguais, apesar de separados uns dos outros. A reflexão sobre reconhecimento foi enriquecida conceitualmente pelos existencialistas no século XX. A ideia original de Hegel foi retomada por autores contemporâneos como Axel Honneth em Luta por

reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais (2003) e Charles Taylor em Multiculturalism: examining the politics of recognition, de 1994 (LIMA,2010;

SUIAMA,2007).

O filósofo alemão Axel Honneth afirma que o reconhecimento é uma categoria moral fundamental, sendo o problema da distribuição uma derivação. O reconhecimento, para Honneth (2003), está sustentado na natureza ética dos sujeitos, que pretendem afirmar seus direitos mediante a anulação dos particularismos e posições unilaterais que existem na relação das diferenças. Para ele, as lutas por reconhecimento caracterizam-se como um aspecto fundamental da coexistência positiva das diferenças identitárias e culturais. Honneth (2003) entende que a lei, por ser constituída de maneira universalista, sob condições modernas, tutela os direitos de forma igualitária, desvinculando o reconhecimento jurídico de qualquer espécie de status social. Assim, o reconhecimento dos direitos decorre de uma operação de entendimento puramente cognitiva, que atribui ao outro a imputabilidade moral que torna-o autônomo em suas particularidades, porém igual aos demais na perspectiva da universalidade da lei.

Quanto à injustiça, o filósofo assinala que os obstáculos que surgem ao longo da trajetória das pessoas podem converter-se em indignação e sentimentos negativos. Tais sentimentos permitem um deslocamento de atenção dos atores do externo para a própria ação, para o contexto em que ela ocorre e para as expectativas ali presentes. Disso podem advir impulsos para um conflito, desde que o ambiente político e cultural seja propício para tanto. Sendo assim,

Toda reação emocional negativa que vai de par com a experiência de um desrespeito de pretensões de reconhecimento contém novamente em si a possibilidade de que a injustiça infligida ao sujeito se lhe revele em termos cognitivos e se torne o motivo da resistência política (HONNETH, 2003, p. 224).

Logo, o autor defende que, em última instância, os conflitos intersubjetivos por reconhecimento, principiados por situações desrespeitosas vivenciadas cotidianamente, são cruciais para o desenvolvimento moral da sociedade e dos indivíduos. Dessa maneira, para Honneth, é por meio do reconhecimento intersubjetivo que as pessoas podem atingir realização completa de suas capacidades e uma relação consigo mesmas marcada pela integridade.

Nancy Fraser (1995) afirma temer que as proposições de Honneth possam reconduzir a essencializações identitárias e sectarismo, e busca construir um paradigma alternativo do reconhecimento. Considera que

O “reconhecimento” se impôs como um conceito-chave de nosso tempo. Herdado da filosofia hegeliana, encontra novo sentido no momento em que o capitalismo acelera os contatos transculturais, destrói sistemas de interpretação e politiza identidades. Os grupos mobilizados sob a bandeira da nação, da etnia, da “raça”, do gênero e da sexualidade lutam para que “suas diferenças sejam reconhecidas”. Nessas batalhas, a identidade coletiva substitui os interesses de classe como fator de mobilização política – cada vez mais a reivindicação é ser “reconhecido” como negro, homossexual ou ortodoxo em vez de proletário ou burguês; a injustiça fundamental não é mais sinônimo de exploração, e sim de dominação cultural (FRASER, 2012, p.1).

Nancy Fraser (2009)33, ao considerar tanto uma perspectiva de

reconhecimento quanto de redistribuição na sua concepção de justiça, afirma que podemos considerar que existe justiça quando se tem um arranjo social cuja finalidade seja a participação de todas as pessoas como pares da vida social. Sendo assim, a superação da injustiça significa: “desmantelar os obstáculos institucionalizados que impedem alguns sujeitos de participar, em condições de paridade com os demais, como parceiros integrais da interação social.” (FRASER, p.17,2009). Para tanto, o desafio é buscar estratégias para desmantelar os obstáculos, advindos da estrutura econômica e da valoração cultural. Para impactar o primeiro obstáculo, ela propõe a redistribuição de riquezas e, para o segundo, o reconhecimento das identidades.

Fraser não ignora a dificuldade para integrar as vertentes redistributiva e identitária, tanto no campo da moral, como no da teoria social. Ao longo da última década, sua teoria pretendeu solucionar o descompasso entre a redistribuição e o reconhecimento, de modo que os respectivos clamores não conflitem ou sobrepujem- se uns aos outros. Desde o início de sua obra, a feminista se propôs a investigar a relação entre os protestos por redistribuição e os reclames por reconhecimento, assim como as mútuas interferências que poderiam surgir quando os dois tipos de demandas sociais aparecessem concomitantemente. Para isso, a filósofa firma uma distinção analítica entre injustiça econômica e cultural e seus respectivos remédios, embora ela reconheça que, na prática, ambas estão sempre entrelaçadas. Fraser congela o debate filosófico entre os defensores da redistribuição e do reconhecimento e volta- se para os termos e suas referências políticas contemporâneas. Considerando paradigmas populares de justiça que instruem as lutas na sociedade civil, para ela,

33Artigo original publicado na New Left Review, n. 32 Nov/Dez 2005, traduzido para o português em

redistribuição é um conceito ligado a políticas de classe e reconhecimento a políticas de identidade (FRASER; HONNETH,2003).

O confronto dos dois paradigmas pode-se dar: 1- pelas diferentes concepções de injustiça que pressupõem; 2- pelos diversos tipos de remédios para enfrentar essas injustiças; 3 - pelas diferentes concepções de coletividade que sofrem injustiças; 4- pelas concepções discordantes acerca das diferenças grupais.

Quadro 2: Confronto entre os paradigmas de redistribuição e reconhecimento em uma perspectiva política. Categorias Concepções de injustiça Remédios para injustiça Concepções de coletividade que sofrem injustiça Concepções acerca das diferenças grupais Redistribuição Socioeconô micas - enraizadas na estrutura econômica da sociedade, incluindo a exploração, marginalizaç ão econômica e a escassez de recursos. Reestruturação político econômica,

que pode envolver distribuição de renda, reorganização da divisão do trabalho, sujeição dos investimentos à tomada democrática de decisões ou transformação de outras estruturas econômicas básicas. Os sujeitos coletivos são classes ou coletividades semelhantes a classes no sentido em que são definidas economicamente

por uma relação distintiva com o mercado ou com os meios de produção. Na gramática marxista, seria a classe trabalhadora. * São construídas socialmente como resultado de uma economia política iníqua. Cultural – enraizada nos padrões sociais de representaçã o, interpretação e comunicação . Dominação Mudança cultural ou simbólica, envolvendo reavaliar positivamente identidades desrespeitadas e os produtos culturais de grupos execrados, São definidas em termos de status social, ou seja, por gozarem de menor respeito, estima e prestígio em comparação com outros grupos sociais. Seria aquele Duas formas de diferença entre os grupos: 1 – como variações pré- existentes e benignas, mas hierarquizadas valorativamente por um esquema interpretativo

Reconhecimen to cultural, não reconhecime nto e desrespeito de grupos historicament e marginalizad os. reconhecer e valorizar positivamente a diversidade cultural. Poderia envolver, também, a transformação completa dos padrões sociais de representação, interpretação e comunicação em formas que modificariam o sentido de eu e de todos. grupo étnico de baixo status, marcado pelos padrões dominantes de valoração cultural como diferente e menos valioso. Gays, lésbicas, grupos racializados, marcados como diferentes e inferiores, mulheres. malicioso ou 2 – como diferenciações hierarquizadas valorativamente por um esquema malicioso, porém construídas contemporaneam ente.

Fonte: LIMA, Alex Myller Duarte. Justiça em Nancy Fraser. (Mestrado em Ética e

Epistemologia). Universidade Federal do Piauí. Teresina, 2010.FRASER, Nancy; HONNETH, Axel. Redistribution or recognition? : political- philosophical exchange . London: Verso, 2003. * Fraser alarga o conceito para nele situar também os grupos racializados de imigrantes ou minorias étnicas, usualmente ocupantes de trabalho subalternos mal pagos ou mesmo

largamente excluídos do trabalho remunerado regular. Estariam também incluídas as mulheres em grande parte por causa do trabalho doméstico não remunerado e são prejudicadas também no campo do emprego formal.

Vale ressaltar que, para Fraser, essas distinções entre injustiças econômicas e culturais, bem como entre remédios redistributivos e de reconhecimento, são apenas analíticas, pois, para solucionar casos reais de injustiça, seria sempre necessário levar em conta as duas dimensões da justiça social, sem reduzir uma à outra. Isto é, para a autora, essas distinções constituem uma falsa antítese. Em texto de 1995, a autora explicita um problema relacionado à ideia de que há contradição nos objetivos das políticas de redistribuição e das de reconhecimento. Para tentar resolver essa tensão, a autora busca delinear e explicitar como se dá a relação das políticas de reconhecimento com as políticas de redistribuição.

(...) reivindicações por reconhecimento(...) tendem a promover a diferenciação do grupo. Reivindicações por redistribuição, ao contrário, exigem a abolição dos arranjos econômicos que servem de base para a especificidade de grupo(...) dessa forma, elas tendem a promover a desdiferenciação de grupo(...) Enquanto a primeira [forma de política] tende a promover a diferenciação, a segunda tende a solapá-la. Os dois tipos de reivindicação, portanto, encontram-se em tensão; elas podem interferir entre si, ou até atrapalhar um a outra (FRASER, 1995, p. 74).

Esse seria o dilema redistribuição-reconhecimento apresentado por Fraser e, segundo ela, ainda não se encontrou uma solução na contemporaneidade. De acordo com a filósofa, qualquer grupo que tenha sua participação paritária na interação social negada, o que ela nomeou inicialmente de coletividades bivalentes34 e depois

categorias sociais bidimensionais35, necessitaria de ambos os tipos de remédios. Para

ela, grupos bidimensionalmente subordinados sofrem tanto por injustiça econômica36

quanto por injustiça de reconhecimento sendo que, nenhuma dessas injustiças sofridas tem um efeito indireto da outra, as duas são originais. Nem uma política exclusivamente de redistribuição, nem uma política exclusivamente de reconhecimento serão suficientes para reduzir as desigualdades de maneira efetiva (FRASER; HONNETH, 2003, p. 19).

Nancy Fraser identifica e assume que, para implementar o seu projeto de construção de uma teoria de justiça que abarque em um único arcabouço teórico redistribuição e reconhecimento, política de classe e de identidade, seria necessário debruçar-se sobre vários campos de investigação, sendo eles a filosofia moral, a teoria social, a teoria política e mesmo a política prática. Considerando o itinerário que a filósofa percorreu, foi elaborado o quadro a seguir

34No texto FRASER, Nancy. From Redistribution to Recognition? Dilemmas of Justice in a 'Postsocialist'

Age. New Left Review, n. I/212, p. 68-93, July-Aug. /1995.

35 FRASER, Nancy; HONNETH, Axel. Redistribution or recognition? : political- philosophical exchange

. London: Verso, 2003.

36 Os termos que Fraser emprega para designar as formas específicas de injustiça econômica

(maldistribution ), cultural ( misrecognition ) e política ( misrepresentation e misframing ) Segundo Greenbaum (1996, p. 447), os prefixos mal e mis são pejorativos, o primeiro equivalendo a improper (impróprio, inadequado,) ou badly (mal, não bem, de maneira ruim, perversamente) e o segundo a wrong (errado, incorreto, errôneo, falso) ou wrongly (erroneamente, falsamente). Além disso, mal é pouco usado na língua inglesa (foi emprestado do francês), ao passo que mis é bem mais comum. Ele explica ainda que, por exemplo, disinformation possui um sentido mais restrito do que misinformation, pois este se refere à difusão intencional de informações falsas ou distorcidas, usualmente por agências governamentais e, particularmente, agências de inteligência. Nesse sentido, maldistribution seria distribuição inadequada ou ruim; misrecognition seria reconhecimento errôneo, falso, incorreto; misrepresentation significaria representação errônea, falsa, incorreta; e misframing equivaleria a estruturação errônea, falsa, incorreta.

Quadro 3: Campos de investigação e tarefas desenvolvidas por Fraser para a consolidação de sua teoria de justiça.

Campo de

investigação Tarefa

Filosofia Moral Formular uma concepção abrangente de justiça que possa acomodar tanto as reivindicações defensáveis por igualdade social, quanto as reivindicações defensáveis por reconhecimento da diferença.

Teoria Social Conceber uma explicação da sociedade contemporânea que possa acomodar tanto a diferenciação entre classe e status quanto a sua mútua imbricação.

Teoria Política

Prefigurar um conjunto de arranjos institucionais e reformas políticas que possam remediar tanto maldistribution quanto misrecognition ao tempo em que minimizam as interferências mútuas que provavelmente surgirão quando as duas espécies de reparação forem buscadas simultaneamente.

Política Prática

Fomentar o engajamento democrático em meio às divisões atuais para construir uma orientação programática abrangente que integre o melhor da política de redistribuição com o melhor da política de reconhecimento.

Fonte: Nancy, Fraser; HONNETH, Axel. Redistribution or recognition? A political- philosophical exchange. London: Verso, 2003

Para fazer um exame das dimensões filosóficas e moral desse projeto, uma questão importante é saber se os paradigmas de justiça alinhados com a moralidade podem lidar com as reivindicações por reconhecimento e diferença ou se é necessário, ao contrário, uma virada para eticidade (FRASER, 2001). Para isso, Fraser necessita abandonar a consideração política da redistribuição e do reconhecimento enquanto paradigmas populares de justiça, retomando-os como categorias filosóficas normativas.

No que concerne aos problemas da filosofia moral, foi preciso: investigar se o reconhecimento é uma questão de auto realização ou de justiça; precisar se justiça distributiva e reconhecimento constituem efetivamente dois paradigmas normativos distintos, ou se algum deles pode ser subsumido ao outro; saber como é possível separar as reivindicações justificadas por reconhecimento daquelas que são injustificadas; estabelecer se a justiça requer o reconhecimento de nossa humanidade comum (LIMA, 2010).

Tendo em vista que a filosofia moral, usualmente, separa questões de justiça e questões de boa vida, que a maioria dos filósofos relaciona a justiça distributiva com a moralidade (Moralitat) kantiana e o reconhecimento com a ética (Sittlichkeit)

hegeliana, e que os teóricos políticos liberais e filósofos morais deontológicos37

afirmam que o correto/moral tem prioridade sobre o bem, pode-se considerar que “esses alinhamentos filosóficos complicam o problema de integrar redistribuição e reconhecimento” (FRASER, 2007, p.105).

Tanto teóricos deontológicos, quanto teóricos do reconhecimento estão de acordo que a distribuição pertence à moralidade e o reconhecimento à ética e que elas não se encontram. Cada um busca manter o seu paradigma e anular o outro. Portanto, haveria uma incompatibilidade e uma “esquizofrenia filosófica” ao buscar integrar redistribuição e reconhecimento. Contudo, Fraser argumenta que é possível fazer esse alinhamento. Para isso, ela se propõe a construir uma política de reconhecimento sem que esteja vinculada, prematuramente, à ética. Trata as “reivindicações por reconhecimento como reivindicações por justiça dentro de uma noção ampla de justiça” (FRASER, 2007. p. 105).

A estratégia para que o reconhecimento não esteja vinculado à ética é romper com o modelo padrão de reconhecimento, o da identidade que, conforme Fraser (2007), é um modelo problemático, pois, o não reconhecimento seria danoso à identidade, enfatizando a estrutura psíquica em detrimento das interações sociais e instituições. Assim, corre-se o risco de “substituir a mudança social por formar intrusas de engenharia da consciência. (...) como resultado o modelo tende a promover o separatismo e a enclausurar os grupos ao invés de fomentar interações entre eles”. (FRASER, 2007, p.107).

A análise alternativa do reconhecimento proposta por Nancy Fraser (2007) é de substituir o modelo de identidade por modelo de status. Portanto, o reconhecimento se torna uma questão de status social. Sendo assim, o não reconhecimento significa a subordinação social por ser privado de participar como igual da vida social e a não depreciação e deformação da identidade de grupo, como considerado pelo modelo de identidade.

O modelo de status necessita de uma política que vise a superação da subordinação, para que as pessoas possam participar de maneira integral da sociedade. Para isso,

37É relativo à filosofia moral, dever da obrigação. O termo Deontologia foi criado no ano de 1834, pelo

filósofo inglês Jeremy Bentham, o objeto de estudo é o fundamento do dever e das normas, deontologia é também conhecida como "Teoria do Dever”.

Entender o reconhecimento como uma questão de status significa examinar os padrões institucionalizados de valoração cultual em função de seus efeitos sobre a posição relativa aos atores sociais. Se e quando tais padrões constituem os atores como parceiros, capazes de participar como iguais, com os outros membros, na vida social, aí podemos falar de reconhecimento recíproco e igualdade de status. Quando, ao contrário, os padrões institucionalizados de valoração cultural constituem alguns atores como inferiores, excluídos, completamente, “os outros” ou simplesmente invisíveis, ou seja, como menos do que parceiros integrais na interação social, então nós podemos falar de não reconhecimento e subordinação de status (FRASER, 2007, p.108).

Quando as instituições constroem atuações conforme normas culturais que impedem a paridade de participação, estamos frente a um não reconhecimento, conforme o modelo de status. Alex Lima (2010), para ilustrar a proposta de Fraser, apresenta como exemplo as leis matrimoniais que, na maioria dos países, excluem a união entre pessoas do mesmo sexo por serem “ilegítimas” e as práticas comuns do policiamento relativas à categorização racial, que associam pessoas negras com a