2. MOBİL TELEKOMÜNİKASYON PİYASALARI ve NUMARA
2.3. Numara Taşınabilirliği
2.3.5. Faydaları
O estudo sobre relações raciais é essencial para esta tese. Utilizaremos autores como Hasenbalg(1992), Guimarães (1999), Rosemberg (2002), Munanga (2006), dentre outros, que nos respaldaram para debater três conceitos: racismo, raça e ações afirmativas. Os conceitos de raça e racismo contribuirão para análise de como foram estruturadas e como mantêm-se as desigualdades raciais na sociedade brasileira, bem como a forma como elas repercutem nas relações cotidianas, sendo naturalizadas principalmente no que se refere à ocupação de espaços e de posições consideradas de poder. O conceito de ação afirmativa, para além de contextualizar e demarcar o desenvolvimento deste estudo sobre o PAA no Instituto Rio Branco, soma- se à teoria de justiça de Fraser(1997). Adotaremos a proposta de Fraser como possibilidade para uma noção de justiça que contemple as perspectivas de distribuição, reconhecimento e representação, considerando, assim, os aspectos materiais e simbólicos do combate à desigualdade social, nesta tese, significando racial.
As relações raciais no Brasil historicamente perpassam pelas injustiças cometidas contra negros/as desde a sua chegada nesse país. Remontamos alguns elementos da história da luta contra essas injustiças para a construção de um diálogo com as três dimensões propostas por Nancy Fraser. No que tange à falta de distribuição, serão expostos traços da história da luta pela igualdade de negros/as e brancos/as e dados que mostrem suas marcas em relação à má distribuição; no que tange à falta de reconhecimento, abordaremos elementos das teorias raciais que perpassam e vão além do escopo da história do Brasil. São ideias que foram disseminadas antes ainda da escravidão de negros/as no país e ainda se mantiveram posteriormente à abolição; sobre a representação, apresentar-se-ão dados sobre a presença de negros/as em espaços considerados de poder político de representação. E como “remédio” para as injustiças cometidas nas três dimensões, apresentamos, de maneira geral, algumas iniciativas realizadas a partir da pressão e articulação do movimento negro brasileiro. Por fim, traremos aspectos sobre ações afirmativas, um dos “remédios” usados como uma possibilidade de combater ou amenizar as injustiças cometidas contra negros no país. Será que ações afirmativas, da maneira em que são
implementadas, são suficientes para combater as injustiças contra negros/as? Considerando aqui, mais especificamente, na inserção e permanência em espaços/ocupações tidos como de privilégio.
Fraser (1995;2009), como vimos, já havia apontado a importância das três dimensões (redistribuição, reconhecimento e representação) estarem imbricadas para o combate à injustiça. Aqui, o foco da injustiça a ser observada e problematizada é referente às relações raciais. Mesmo havendo a posição tradicional de esquerda que durante muito tempo tentou explicar as desigualdades entre negros/as e brancos/as apenas como uma questão socioeconômica, embora reconhecessem as desigualdades raciais, para eles, essas desigualdades poderiam desaparecer com o desenvolvimento da industrialização. Esse pensamento faz parte da segunda corrente do pensamento social brasileiro sobre relações raciais defendido por Florestan Fernandes (ROSEMBERG E PINTO,1989). Contudo, consideramos que as desigualdades raciais foram estruturadas no plano material e simbólico, assim, para fins analíticos, as desigualdades no plano material podem ser concebidas como a injustiça da falta de redistribuição que implica em exploração, marginalização econômica e escassez de recursos. No Brasil, a falta de redistribuição no que tange à população negra está enraizada na estrutura econômica da sociedade brasileira que, em um primeiro momento, escravizou negros/as e, após abolição, não oferecem condições para que os/as ex-escravizados/as pudessem estruturar-se materialmente. De todas as injustiças referentes ao plano material, citaremos como exemplo a falta de acesso ou acesso desigual, em relação aos brancos/as, à educação e a uma ocupação digna.
Após três séculos escravizando negros africanos, o Brasil iniciou um processo gradual de abolição: em 1850 proíbe o tráfico transatlântico de negros africanos; em 1871 instituiu liberdade aos filhos nascidos de mães escravizadas; em 1885 criou a lei do sexagenário, que concede liberdade aos escravizados com mais de sessenta e cinco anos e, em 1888, finalmente, promulgou-se a lei geral de libertação dos escravizados/as. O Brasil foi o último país da América Latina que aboliu a escravidão e, além disso, ainda mantinha uma relação de dominação com negros/as libertos/as. (SILVA; ROSEMBERG, 2007).
Conforme enfatizam Silva e Rosemberg (2007), as relações políticas e sociais entre brancos e negros após a abolição da escravatura foram marcadas por três processos:
1 - não foram adotadas políticas de segregação racial, como nos Estados Unidos e África do Sul. Com isso, não foram estabelecidas maneiras de definir legalmente a pertença racial;
2 - na passagem do século XIX para o século XX houve um incentivo para imigração de europeus brancos, conforme a política de Estado para o branqueamento da população, em consonância com as políticas racistas desenvolvidas na Europa durante o século XIX;
3-não foram realizadas políticas de integração dos/as ex-escravizados/as à sociedade envolvente.
Com a impossibilidade de definir a pertença racial oficialmente, isto é, não havia uma política que se preocupasse em estabelecer legalmente quem era branco e quem era negro, e as políticas de branqueamento dificultaram ainda mais a afirmação da identidade racial brasileira. Junto a isso, a ausência de políticas de integração de negros/as recém-libertos/as fortaleceram significativamente as bases históricas das desigualdades sociais entre negros/as e brancos/as no país.
Não só a ausência de políticas de integração contribuiu para a manutenção da desigualdade entre negros/as e brancos/as, mas também foram instituídas de maneira explícita estratégias de repressão, discriminação e eliminação dos/as negros/as e tudo que representasse símbolos de resistência. Pode-se exemplificar com a destruição dos cortiços no Rio de Janeiro, a perseguição dos cultos de religiões de matriz africana e do jogo de capoeira.
Contudo, vale apontar que, mesmo com as perseguições, houve, desde antes da abolição, inúmeros focos de resistências e reivindicações por liberdade, direitos e igualdade entre negros e/ou escravizados. Durante o período escravagista, é possível citar a formação das irmandades, fugas individuais e coletivas, formação de quilombos e, após a abolição da escravatura,
Na ausência de qualquer iniciativa séria por parte do governo para garantir um futuro digno aos negros brasileiros após o dia 13 de maio, um grupo de
libertos da região de Vassouras, no Rio de Janeiro, endereçou uma carta a Rui Barbosa, então figura importante da política nacional. Na carta, eles reivindicavam que os filhos dos libertos tivessem acesso à educação. A abolição estava prestes a completar um ano, a monarquia entrara em colapso e aquelas pessoas, ex-escravos, agora tinham planos de ascensão social para seus filhos. E, ao contrário do que proclamavam alguns abolicionistas, aqueles libertos tinham, sim, uma interpretação própria do que seria cidadania (ALBUQUERQUE, 2006, p. 198).
Não se sabe se a carta mencionada foi respondida, o que sabe-se é que nenhuma medida foi tomada no sentido de formular um plano educacional para os filhos/as de ex-escravizados/as. Outras reações dos/as negros/as à efetivação de projetos sociais e políticos que os excluíam ganhou expressão nos primeiros anos da Primeira República. Aconteceram revoltas urbanas e rurais, tais como a guerra de Canudos (1896 – 1897), Revolta da Vacina (1904), a revolta da Chibata (1910). Para Albuquerque (2006), as revoltas que aconteceram na Primeira República demonstravam a luta de negros/as para garantia de seus direitos e contra a discriminação, uma vez que a abolição e a República deveriam representar mudanças sociais e políticas que não aconteceram.
As transformações esperadas não aconteceram naquele período, contribuindo para que as desigualdades no Brasil ficassem cada vez mais evidentes e acirradas. Essas desigualdades expressam-se nos planos material e simbólico. Pois, mesmo considerando que a desigualdade econômica é significativa, hoje já temos indicadores sociais43 que mostram que a dimensão econômica explica apenas parte das
desigualdades entre negros e brancos (SILVÉRIO, 2002).
A partir da análise dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) de 1987 realizada por Hasenbalg (1992), o autor identifica que após 100 (cem) anos da abolição as desigualdades sob o ponto de vista da distribuição entre brancos/as e negros/as continuavam gritantes. Ilustrando essa afirmação, indico dois exemplos explanados pelo autor naquele período: “os brasileiros brancos tinham uma oportunidade de concluir a universidade 9,5 vezes maior do que a dos pretos e 5,2 vezes maior que a dos pardos.” (HASENBALG, 1992, p. 56). Sobre trabalho, “a proporção de pessoas nas ocupações de níveis mais elevados (...) era de 26,9% entre brancos, 8% entre pretos e 12,6% no caso dos pardos.” (HASENBALG, 1992, p.57).
Quase vinte anos depois, algumas iniciativas44 foram tomadas e a desigualdade
sob o ponto de vista material foi impactada, porém ainda persiste, considerando-se o acesso à educação e ao trabalho.
Segundo Henriques (2001), a escolaridade do/a jovem negro/a em torno dos 25 anos se situa por volta de 6,1 anos de estudo, ao passo que um/a jovem branco/a, na mesma faixa etária, tem em torno de 8,4 anos de estudo. A escolaridade de brancos e negros cresce de forma contínua no decorrer do século mas a diferença de anos de estudo entre ambos permanece.
Segundo Silva & Silva (2014) as desigualdades na educação podem refletir no mundo do trabalho, assim como em outras esferas da vida social. Negros/as ainda ocupam posições precárias. Mesmo entre trabalhadores com mais de 12 anos de estudo, o rendimento em média de homens negros equivale a 66% do rendimento recebido por homens brancos com a mesma escolaridade. E a situação das mulheres negras ainda é pior, pois, com o mesmo nível educacional, recebem rendimentos correspondentes a 40% do rendimento dos homens brancos. (SILVA&SILVA, 2014). Conforme já mencionado, não foi somente a escravidão a grande responsável por essas desigualdades, mas também a crença em teorias raciais acabou por forjar e sustentar ideias discriminatórias. Conforme exemplifica Hanchard (2001), a escravidão é uma das diversas variáveis explicativas para a desigualdade de negros/as e brancos/as no país, uma vez que, mesmo após a abolição, os/as negros/as libertos/as ainda não tinham condições de competir no mercado de trabalho, uma vez que os europeus que imigraram para o país recebiam um tratamento diferenciado pelo Estado em detrimento aos/às negros/as brasileiros/as. As teorias raciais traduziam um desejo de manutenção de preconceitos raciais, práticas autoritárias e de relações de dependência que sustentaram-se na sociedade escravagista. Portanto, se as desigualdades no plano material, aqui exemplificadas por meio do acesso ao poder econômico e à educação, são sinônimos da falta da distribuição que reafirma a injustiça contra negros/as no Brasil, a falta de reconhecimento, isto é, a desigualdade no plano simbólico, que dissemina e mantem as injustiças contra negros e negras, podem ser exemplificadas por meio das teorias
raciais que construíram e fortalecem ideias relacionadas à subalternização de negros/as.