A. TÜRKMENLER
12. Türkmeneli Gazetesi Başyazarı Necat Kevseroğlu
O que vimos anteriormente põe na pista de um complexo de fenómenos que permitem perceber como aquilo a que chamámos «lógica da territorialidade» compromete as ontologias constituídas sobre a sua base. Os fenómenos em causa são de diversa ordem e o seu levantamento culminou na detecção de uma componente decisiva do acontecimento de realidade em cujo quadro damos connosco: isso a que chamámos o
ontologia não pode deixar de ter em conta este elemento decisivo – e, depois, que por estranho que à primeira vista isso possa parecer, o significado constitui, porventura, até a chave do acontecimento em que tudo o mais se inscreve – uma chave que em tudo se reflecte e para que tudo aponta.
A questão está, porém, em saber se a ontologia alternativa cujo cabimento e cuja falta tentámos pôr em evidência pode ser constituída – e como.
É aqui que «entra em cena» o ponto de vista literário enquanto possibilidade de constituição de uma ontologia alternativa. Pois a possibilidade que aqui se trata de explorar é a de todo este complexo de problemas relativo à constituição de uma ontologia alternativa encontrar na literatura – ou em determinadas formas de literatura – o terreno em que pelo menos em parte se acham saídas e respostas para as faltas que se fazem sentir e as exigências que levantam. Por outras palavras, a possibilidade que aqui exploramos é a de a literatura constituir como que o ponto de vista privilegiado ou o terreno privilegiado para o desenvolvimento do problema da identidade, em moldes que consigam escapar às dificuldades e aos desvios ou ilusões que procurámos pôr em evidência. Mas que é que a literatura – ou, de todo o modo, algumas possibilidades que só ela abre – tem que lhe confere essa posição de privilégio?
Isto equivale a falar da literatura como uma saída para a filosofia – não um abandono dela, mas uma «continuação dela por outros meios». Quer dizer, o que referimos equivale a falar da possibilidade de em certas matérias – e na verdade não em matérias periféricas, mas em matérias centrais – a literatura ter virtualidades que faltam à filosofia, não virtualidades que nada têm que ver com as questões filosóficas, mas virtualidades que equacionam e, em certa medida, tratam questões filosóficas. O que nos faz cruzar com a questão da relação entre filosofia e literatura – quer dizer ao mesmo tempo também com a questão das relações entre literatura e realidade, literatura e vida – ficção, realidade e vida etc.
Esta é uma questão muito antiga, debatida pelo menos desde Platão e Aristóteles – desde os quais se levantam sucessivamente vagas daquilo que podemos descrever como «questões de águas» ou «conflitos territoriais» entre literatura e filosofia. O problema é aliás mais complexo, porque não envolve pura e simplesmente a filosofia, de um lado, e a literatura, do outro, antes implica também «questões de águas» e «conflitos territoriais» entre diferentes géneros, programas e correntes literárias, etc.
Não cabe aqui explorar, em todos os seus recantos e sinuosidades, o complexo labirinto das relações que referimos, mas apenas focar alguns pontos.
Em primeiro lugar, importa vincar que, se há «questões de águas» e «conflitos territoriais», isso tem pelo menos em grande parte que ver com o facto de haver coincidência ou intersecção de «pretensões territoriais» e de essa coincidência ou intersecção ter que ver com a questão central da captação da realidade. Para o dizer numa palavra, toda a literatura comporta, constituída a seu modo, uma forma de ontologia43.
Em segundo lugar, a questão está em saber que é que essa forma de ontologia tem (ou pode ter) de próprio – e, em especial, formulando o problema em propositada inversão do esquema hegeliano da Vorstellung e do Begriff (da representação e do conceito), que é que a ontologia feita ou tentada no modo da literatura pode ter que ultrapasse a ontologia levada a cabo na forma da própria filosofia?
Em terceiro lugar, se não cabe explorar todo o labirinto de que se falou, cabe, em todo o caso, percorrer um dos seus «sectores» onde a própria questão da identidade e a tentativa de a equacionar e de a desenvolver teve um papel central e permanente. Falamos de V. Woolf. Tanto nos seus escritos de pendor mais teórico quanto na obra de ficção as questões que acima apontámos têm um óbvio protagonismo. E é por isso que nos concentramos sobre os seus escritos e tentamos seguir onde pode levar a tentativa de constituir uma ontologia alternativa na forma de qualquer coisa como uma «ontologia literária» – que possibilidades é que isso abre e até que ponto permite corrigir os desvios ou as ilusões de que se esboçou uma crítica nas páginas que precedem.
Isto define ao mesmo tempo o terreno em que nos moveremos na continuação. Admitindo que a ontologia na sua forma literária tem efectivamente virtualidades que a própria análise filosófica desconhece, tentaremos seguir de perto o que podemos designar, um pouco toscamente, como a «ontologia literária» que se acha expressa na obra de V. Woolf. Mas é, entretanto, de notar que a análise que aqui apresentamos não tem ela mesma a forma de uma ontologia literária, antes corresponde como que a uma aproximação filosófica à ontologia literária, procurando «fazer a ponte» entre a filosofia
43 Woolf não fala propriamente de ontologia. Mas aquilo que escreve a respeito da relação entre literatura e vida (e a forma como a literatura reflecte uma determinada concepção da vida – e consegue ou não captar a própria vida) exprime precisamente este nexo fundamental. Vejam-se infra §14.1.
e a literatura – ou mais especificamente entre as questões filosóficas que apontámos e a obra de V. Woolf.
Mas, antes de avançarmos, consideremos ainda alguns pontos que são centrais em relação a um problema incontornável, aquele que diz respeito à relação entre «real» e «ficção». Desde logo apresenta-se a seguinte aporia: como é que o problema da ontologia pode ser tratado pela literatura (ou por qualquer coisa como uma «ontologia literária») quando a literatura está marcada precisamente pela ficção? Se a ontologia se encontra internamente orientada para a resolução de um problema relativo ao «ser» das coisas (tal como efectivamente são), como é que a literatura, tendo por forma própria a ficção (que por definição é algo criado ou inventado – logo, algo que «não-é») pode adequar-se a exprimir o problema do «ser» ou a contribuir o que quer que seja para esclarecê-lo ou resolvê-lo?
O que se pretende mostrar é que esta aporia assenta num pressuposto. E o pressuposto é o de que os limites entre o que é «real» e o que é «ficção» podem ser traçados claramente – de tal modo que podemos «separar o trigo do joio». E é também o de que «real» é – maciçamente – aquilo que habitualmente tomamos como tal, a própria realidade directamente vivida – de que a literatura se afasta criando mundos e personagens fictícios, que não existem realmente, etc. Ora, é preciso desmontar este mesmo pressuposto, que na verdade tem «pés de barro» e dá por assente muito mais do que na verdade está em condições de fazer legitimamente. Pois pode muito bem acontecer que a própria definição de «real» (deste «real» que facilmente se deixa identificar como tal e parece inteiramente separável do fictício) se encontre já, ela mesma, afectada por conteúdos de «ficção» que tendem a passar despercebidos, sim, mas que estão presentes e tão presentes na própria constituição do «real» que na verdade todo o tecido do que vale por «real» está entretecido por eles. E, se assim for, o próprio paradigma de diferenciação «real» e «ficção» fica posto em causa – e assim também posto em causa o paradigma habitual de repartição de «pelouros» entre aquilo que trabalha com o «real» e aquilo cujo ofício é a «ficção».
Aquilo que vimos anteriormente põe-nos na pista do que agora se trata de pôr em evidência. O que se viu foi que a possibilidade de demarcações territoriais da identidade das coisas que sejam «assépticas», i.e., livres de qualquer contágio (nas suas múltiplas formas) com aquilo de que se diferenciam, se revelou como uma miragem.
Quer dizer, o que se viu foi justamente que a fixação da identidade das coisas (toda a trama da sua apresentação e compreensão habitual) se encontra montada numa série de estruturas que, pela sua natureza, se revelam de múltiplas formas como sendo «ficcionais». A questão não é que aquilo a que chamámos os «conteúdos» seja ficcional. Em última análise também podem sê-lo – mas, mesmo que não o sejam, de todo o modo têm um carácter ficcional todas as estruturas fundamentais de organização em que se acham inseridos e por que estão organizados na forma como habitualmente se nos apresentam. Ou seja, a natureza do ponto de vista em que nos encontramos e em cuja matriz ou em cujo «molde» tudo se encaixa condiciona aquilo que lhe aparece, i.e., intervém activamente, como anteriormente se viu, na estrutura do apresentado. Assim, já há ficção a intervir como factor constitutivo na própria forma de apresentação do que comummente vale como «real».
Isto não impede, é claro, que continue a poder falar-se de uma diferença entre o plano que corresponde à «experiência» tal como se impõe de facto (tenha ou não tenha envolvidas em si estruturas puramente ficcionais) e aquele que corresponde a qualquer coisa como uma evasão desse primeiro plano, composto por variação sobre ele, com maior ou menor liberdade de composição etc. Acontece porém que esta oposição deixa de corresponder a dois âmbitos absolutamente heterogéneos entre si e passa a corresponder a meros contrastes de grau dentro de uma esfera globalmente marcada pelo seu carácter ficcional e globalmente «deslocada», «excêntrica», em relação ao que possa ser o plano da «própria realidade» enquanto tal. Por outras palavras, em vez de uma divisão de territórios claramente «mapeados» e onde é possível saber sempre com precisão onde se está, o que é o quê, etc., a situação em que nos encontramos relativamente à oposição entre «realidade» e «ficção» é muito mais a de um labirinto onde as próprias referências usadas para estabelecer esse contraste acabam por se revelar expostas à possibilidade de serem descobertas como tendo elas próprias um carácter fictício. Tudo isto de tal modo que, em matéria de «real» e de «ficção», só ilusoriamente se sabe muito bem que chão se pisa ou «a quantas se anda». E algo de equivalente vale também, como se percebe a partir do exposto, para a posição relativa que a filosofia e a literatura ocupam nesse labirinto. É claro que, diferentemente da literatura, a filosofia está marcada de raiz pela sua, digamos assim, vocação para a realidade – ou seja, para se dirigir num sentido oposto ao da ficção. Mas à semelhança
do que acontece com a própria apresentação habitual, onde qualquer mínimo de realidade apresentada (aparentemente oposto, até não mais, à ficção) se encontra já afectado por ficção, também as perspectivas desenvolvidas pela filosofia, por mais não-ficcionais e até mesmo «anti-ficcionais» que pretendam ser, podem muito bem estar já afectadas por ficção (constituindo assim formas inconscientes de ficção).
Inversamente, o facto de a literatura ser conscientemente ficcional de modo nenhum a condena a ser, em absoluto, mais ficcional (quer dizer, mais de costas voltadas para a própria «realidade») do que aquilo que não tem consciência de ter carácter ficcional e que faz valer a ficção que comporta como sendo já a própria realidade – de tal modo que, isso sim, põe de costas voltadas para a realidade e faz esquecê-la. Não. Em primeiro lugar, o carácter reconhecidamente ficcional da literatura não impede que os seus conteúdos nitidamente ficcionais despertem tensões para o real, voltem para ele, ponham na sua pista, etc. E, em segundo lugar, pode até acontecer que a própria literatura, enquanto ganha liberdade nas suas relações com a realidade e a ficção, tenha mais recursos para fazer ver o labirinto de que se falou, para fazer perceber que se está nele, para mobilizar a sua exploração, para lembrar o que ainda falta descobrir e pôr na pista dele, etc.
Mas este é ainda só um aspecto numa complexa constelação de outros que têm de ser considerados quando, mesmo que sumariamente, num quadro como o da investigação que nos propomos levar a cabo, se suscita a questão da relação entre a literatura e a filosofia.
Vejamos, em segundo lugar, um ponto de contacto entre filosofia e literatura que é vital para os problemas com que nos debatemos. Esse ponto de contacto pode ser expresso dizendo que tanto a filosofia quanto a literatura partilham qualquer coisa como uma vocação para a captação da realidade. Acontece que este enunciado é equívoco e pode significar muitas coisas se não for precisado em que sentido específico se está a falar de captação da realidade.
Tanto a filosofia quanto a literatura como que «descolam» do âmbito mais imediato, desconfinam, por assim dizer, o ângulo e procuram alcançar um ponto de vista mais abrangente que fixe e compreenda melhor não apenas o que é ou foi mas o que é ou foi na óptica do que poderia ter sido. Ou seja, no contraste com outras possibilidades, tomando em atenção aquilo que decide como as coisas são ou o que acabam por ser; não
apenas o que é ou foi neste e naquele contexto mais ou menos restrito, mas o que é ou foi no sentido em que se repete ou em que é assim sempre e por todo o lado ou, pelo menos muitas e muitas vezes – quer dizer, no sentido de totalidade; não apenas o que parece ser, mas o que efectivamente é, posto a nu, desmascarado (mesmo que só posto a nu e desmascarado no facto de ter aposta uma máscara que não se consegue arrancar etc.).
Também podemos expressar tudo isto dizendo que nos dois casos está em causa alcançar isso numa perspectiva liberta da imersão em virtude da qual, de tão colados que habitualmente estamos à vida, não chegarmos a ver bem aquilo no seio do qual nos encontramos, aquilo com que lidamos, aquilo que nos faz. Uma das cenas que se repetem na Ilíada é a situação de batalha onde os próprios guerreiros que nela estão envolvidos precisamente por se encontrarem no meio da batalha, perdidos na confusão dela, etc., não têm meio de acompanhar aquilo que nela se está a passar – justamente o que está em causa na batalha e para cada um deles – o encaminhamento em relação ao desfecho de derrota ou vitória, etc. A perspectiva disso não se tem no meio da batalha mas de uma posição privilegiada – de um lugar cimeiro de onde é possível acompanhar o todo, perceber as alterações de relação de forças, acompanhar, nesse sentido, o que efectivamente se está a passar. Esse lugar que as mais das vezes cabe só aos deuses é, se assim se pode dizer, aquele de onde se pode ver a forma da batalha44. Ora, se
considerarmos no sentido mais lato aquilo a que costumamos chamar a vida, tanto a filosofia quanto a literatura distinguem-se, justamente, por perceberem como a nossa
44 Ilíada, Canto XIII, vv.11-12. A mesma imagem encontra-se presente em V. Woolf quando esta se refere a um «vantage ground» da literatura, alcançado por certos escritores (por oposição àqueles escritores que ainda se encontram no meio da confusão da batalha e que, por isso, ainda não estão em condições de saber qual a posição que ocupam no meio dela). Trata-se de um «vantage ground» que põe em evidência o projecto da literatura como um «ponto de vista adequado para», i.e., um ponto de vista privilegiado na representação dessa confusão. Cf. Essays, Vol.3, Modern Novels, 31 «All that we can be said to do is to keep moving, now a little in this direction, now in that, but with a circular tendency should the whole course of the track be viewed from a sufficiently lofty pinnacle. It need scarcely be said that we make no claim to stand even momentarily upon the vantage ground; we seem to see ourselves on the flat, in the crowd, half blind with dust, and looking back with a sort of envy at those happy warriors whose battle is won and whose achievements wear so serene an air of accomplishment that in our envy we can scarcely refrain from whispering that the prize was not so rare, nor the battle so fierce, as our own. Let the historian of literature decide. It is for him, too, to ascertain wheter we are now at the beginning, or middle, or end, of a great period of prose fiction; all that we ourselves can know is that, whatever stage we have reached, we are still in the thick of the battle. This very sense of heights reached by others and unassailable by us, this envious belief that Fielding, Thackeray, or Jane Austen were set an easier problem, however triumphantly they may have solved it, is a proof, not that we have improved upon them, still less that we have given up the game and left them victors, but only that we still strive and press on».
situação habitual na vida corresponde à imersão na batalha que está encenada nos poemas homéricos (e à ausência de perspectiva sobre aquilo que se passa nela) e por aspirarem a qualquer coisa como a posição privilegiada a que é feita referência na
Ilíada. Numa palavra, tanto a literatura quanto a filosofia percebem a falta de – e
procuram alcançar – um ponto de vista de onde se consiga enxergar e que podemos descrever como a forma da própria vida ou a forma da situação em que nos encontramos (a forma da realidade que somos, da realidade com que somos e nos temos de haver).
É precisamente isto que estabelece uma superfície de contacto entre a filosofia e a literatura – e, ao mesmo tempo, um terreno de conflitos entre elas. A superfície de contacto faz que tenham relevo uma para a outra, que se sirvam ou «alimentem» uma da outra, etc. Como diz Daiches: «the metaphysical and the literary constitute no real pair of contraries. Philosophical insight may be, and has often been, successfully conveyed through fiction, and whatever else literary value may be it may certainly in some of its aspects include the philosophical».45 E, por outro lado, como já dissemos, também o
conflito que por vezes (ou mesmo muitas vezes) há entre uma e outra tem que ver com esta comum vocação, com o facto de ambas aspirarem a captar aquilo a que chamámos a forma da vida e reagirem a outras tentativas de captação da vida (a saber, a outras pretensões de a haver captado) onde não encontram os traços que cada uma julga que pertencem a essa forma e terem de figurar onde se trate de conseguir vê-la.
Mas isto leva à importante diferença e distância que há entre a filosofia e a literatura – uma diferença ou distância que as separa radicalmente, apesar de tudo o que há de comum na respectiva vocação: a diferença entre o «reino» do conceito, que é próprio da filosofia, e aquilo que não é o «reino» do conceito.
Mas o que significa o «reino» do conceito e o facto de a filosofia estar dominada pela vocação para o conceito?
Isso não significa apenas que a filosofia está orientada para qualquer coisa como
representationes per notas communes, representações repetíveis, instanciáveis numa
multiplicidade de ocorrências. Significa, sim, que está orientada para uma captação nítida e precisa dos objectos, capaz de distinguir «a fundo» aquilo que têm de próprio e de perceber com não menos nitidez e não menos «a fundo» a diferença que separa cada elemento discernível de cada outro. Por outras palavras, a vocação da filosofia é a
vocação da distinção – mais ainda, para falar como Leibniz (onde traça a escala que vai das representações confusas às representações distintas e destas às representações adequadas – e, em última análise, às representações intuitivas)46, a vocação da filosofia
é a da distinção total e, nesse sentido, a da adequação. Ora, em última análise isso significa que a filosofia tem uma afinidade natural com a «lógica» daquilo a que chamámos a demarcação territorial – i.e., a «lógica» da territorialidade. Porque está ligado ao conceito, o projecto da filosofia tende a orientar-se para qualquer coisa como uma versão depurada, melhorada, tanto quanto possível perfeita, do sistema de demarcação territorial de determinações. E a filosofia tende a compreender a sua vocação para a captação da forma da vida como vocação para uma captação conceptual