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A. TÜRKMENLER

3. Irak Türkmen Cephesi Telafer Kuzey Temsilcisi Nebil Harbo

Mas, sendo assim, por outro lado a trama de identidade e diferença que se encontra na base da transparência e da evidência natural é uma trama que tem em conta o aspecto funcional das coisas em relação a mim. As coisas não apenas se distinguem umas das outras. Para além disso, a sua diferença própria é considerada segundo o seu enquadramento num plano pragmático, no sentido em que tudo aquilo que aparece exerce uma determinada função. Tal função diz respeito a uma tensão de uso ou de lida que tem como pano de fundo um desempenho vital (o desempenho vital de quem está posto no meio das coisas e a quem todas elas se apresentam). Note-se que o uso não implica necessariamente a restrição da identidade das coisas a meros utensílios. A noção de utensílio privilegia a nossa acção sobre as coisas e não contempla um outro aspecto essencial da forma como estas podem interferir no campo da vida. A função das coisas encontra-se determinada num duplo sentido, não apenas pelas acções que me possibilitam (essas acções de que as coisas são objecto), mas também pela acção que podem exercer sobre mim (ou seja, pelo modo como as próprias coisas me podem afectar, i.e., pelo modo como posso ser sujeito passivo da acção delas sobre mim). Nestas circunstâncias, tanto a marcação de fronteiras entre as coisas quanto a fixação da sua identidade regula-se pela forma de interferência (n.b. do referido duplo modo de interferência) que exercem numa tensão de não-indiferença de mim mesmo

relativamente a mim27. Assim, a identidade das coisas enquadra-se numa «cartografia» de proximidade ou distância segundo o interesse que por elas tenho. E faz parte dessa mesma identidade elas ocuparem um lugar (de relevo ou, pelo contrário, de indiferença – ou melhor, de uma multiplicidade de graus de relevo até à indiferença) em virtude da função que desempenham. De facto, o olhar que lançamos sobre as coisas está

27 Este ponto é decisivo: o que dá o «mote» a todo este sistema de funções vitais é a não-indiferença de mim mesmo em relação a mim – a forma como quem está posto a assistir a tudo geralmente não se limita

a assistir, antes está tomado por uma dedicação a si, por uma não-indiferença a si mesmo, em virtude da

silenciosamente habitado por uma «gramática» de «o que é?». Dito por outras palavras, o olhar é portador de quesitos que procuram delimitar e determinar o que é o quê e, neste sentido, fixar identidades. Ora, estes quesitos de delimitação e identificação são fundamentalmente quesitos pragmáticos, relativos a uma identidade funcional. Isso reflecte-se justamente no tipo de resposta que tendemos a dar quando temos de exprimir a identidade das coisas e dizemos «isto é algo que serve para». Em suma, a pergunta acerca da identidade de qualquer coisa requer, na sua resposta, um enquadramento funcional. De tal forma que a definição da identidade, ao procurar dar conta das propriedades categoriais, não se fica pela descrição das determinações «coisais», antes implica também (e de facto está fundamentalmente regulada por) determinações funcionais28.

Assim, a transparência da apresentação natural reveste as coisas de determinações «excessivas» em relação a elas mesmas (ao que são e têm independentemente da sua relação com a tensão pragmática de lida – de quem lida com elas). Isto é, o ponto de vista deposita nas coisas algo que não lhes pertence, mas que, no entanto, ele vê como fazendo efectivamente parte delas (e fazendo tão efectivamente parte delas quanto as determinações categoriais no sentido estrito do termo). Por exemplo, o cheiro de determinada planta, que nos faz sentir atraídos ou repelidos e que está marcado por essa propriedade relativa a quem o experimenta, é algo que o ponto de vista natural reconhece como pertencendo ao território próprio da identidade da planta e não ao ponto de vista. Uma cadeira tem uma identidade relativa à possibilidade que oferece de uma pessoa se sentar nela e não há nenhuma possibilidade de ver uma cadeira senão a partir da compreensão dessa possibilidade de uso que é a do sentar-se. Um animal com que nos cruzamos tem uma identidade marcada pela relação de forças entre ele e o «próprio» que o vê (de tal modo que faz parte da sua identidade o ser perigoso ou não perigoso, etc.)29.

28 As propriedades categoriais são determinações a que o ponto de vista natural recorre na fixação da identidade das coisas. No entanto, é necessário diferenciar ainda (no interior das propriedades categoriais) determinações «coisais» de determinações «funcionais». Aquilo que as diferencia é o facto de as determinações «coisais» dizerem respeito a propriedades das próprias coisas (em si mesmas, na sua própria posição), enquanto que as determinações «funcionais» dizem respeito a propriedades pragmáticas – propriedades específicas da relação que se tem com as coisas ou da relação que elas têm com a tensão de não-indiferença e o desempenho vital de quem se vê no meio delas, a ter de levar a cabo entre elas (com elas, sob interferência delas), as tarefas da sua própria vida.

29 Como aliás sucede com todas as coisas – uma das determinações essenciais com que sempre nos deparamos é precisamente aquela que tem que ver com o grau de perigo (ou da ausência dele) de que cada realidade se reveste. Todavia, este aspecto tende a ficar esbatido porque a generalidade das coisas

Assim, a identidade com que as coisas aparecem na minha vida está subrepticiamente marcada por uma atribuição às próprias coisas de determinações «funcionais» que excedem as suas definições «coisais». Essas determinações «funcionais» têm que ver com aquilo que podemos descrever como toda uma rede de relações comigo. Mas essas determinações não estritamente «coisais» estão tão integradas no aspecto com que as coisas se apresentam que parecem pertencer-lhes a

elas mesmas (e não resultarem de uma ligação com a tensão de não-indiferença de que

eu próprio sou portador). Ou seja, existe uma evidência da identidade das coisas que toma como evidente o próprio facto de que a identidade das coisas se encontra co- determinada por determinações «funcionais» que eu mesmo «deposito» nelas.

Isto percebe-se facilmente, por exemplo, no caso da determinação das dimensões das coisas no espaço – quer dizer, naquilo a que habitualmente chamamos o seu

tamanho. A fixação da dimensão real da identidade das coisas é correlativa de um

fenómeno de proximidade ou distância das coisas relativamente ao meu corpo30. Neste

sentido, existe uma intervenção na identidade das coisas que tem um carácter auto-referencial (o meu corpo como medida das coisas) mas que, no entanto, não tende a ver-se como tal. Ou seja, a dimensão real das coisas tende a ser fixada como sendo aquela com que as coisas me aparecem numa forma de desempenho vital (na ordem pragmática) que estabeleço com elas. A «dimensão canónica» das coisas é uma dimensão relativa ao uso na esfera de proximidade do meu próprio corpo. Assim, o meu corpo é sede de intervenção pragmática, fixando a identidade das coisas pela forma de intervenção que elas têm na minha vida.

aparece de tal modo que está globalmente dado por assente que não oferecem perigo. E só estas ou aquelas realidades, mais ou menos excepcionais, têm um aspecto mais vincado. Mas isso não significa que esta determinação não seja nuclear – acontece é que está globalmente dada por adquirida – pertence, por assim dizer, ao «meio» e, como tal, como tudo o que pertence ao «meio», não precisa de ser considerada em especial, torna-se inconspícua (o que não significa, de modo nenhum, que deixe de ser decisiva).

30 Quer dizer: a variação da distância faz que as coisas apareçam com diferentes tamanhos e todo o regime de fixação das diferenças está marcado pelo estabelecimento de qualquer coisa como uma dimensão-padrão – aquela com que as coisas se apresentam quando estão próximas de mim. É a antecipação dessa dimensão-padrão que faz que, mesmo à distância não vejamos, por exemplo, uma casa, uma pessoa, etc. como algo minúsculo (e a interferência dessa antecipação é tal que, se medirmos com o dedo o tamanho da «imagem» de uma casa ou de uma pessoa vistas à distância, ficamos surpreendidos com a descoberta de como é mais pequena do que parece). Mas, por outro lado, se virmos como é que, por sua vez, está definida a dimensão na visão próxima, apuramos que tem, sem dúvida, que ver com o sistema de relações dimensionais entre as diferentes coisas. No entanto, as dimensões fixadas na visão próxima não dependem apenas das relações entre as coisas, dependem também – e dependem fundamentalmente – da relação que têm com o meu próprio corpo que é, por assim dizer, a «régua» por que todas as coisas são medidas.

Aquilo que se depreende é que, independentemente do problema que possa surgir quanto ao teor real da identidade das coisas (daquilo que elas sejam em-si-mesmas), isso é algo que no ponto de vista natural se acha resolvido – em primeiro lugar porque a identidade das coisas se acha definida por uma necessidade de orientação pragmática e, pelo menos em parte, com recurso a determinações pragmáticas; em segundo lugar, porque essa mesma fixação pragmática do teor das coisas não se compreende a si mesma como meramente pragmática, mas sim como algo transparente e adequado, que pura e simplesmente reflecte as próprias coisas. Quer dizer, o ponto de vista vive-se naturalmente na ausência de consciência do carácter «acrescentado» (pelo menos de uma significativa parte) das determinações com que as coisas lhe aparecem.

A identificação das propriedades da identidade implica o «enquadramento» dessas mesmas propriedades na «lógica» pragmática que lhe subjaz – seja uma peça numa engrenagem mecânica, um número numa operação matemática, um conceito numa «lógica» do pensamento, uma sensação no mundo sensível, uma palavra na ordem do discurso, etc. Essa «lógica» (seja ela qual for) tem-se sempre como canónica, porque o ponto de vista a toma como medida adequada de tudo o que nela se enquadra. Assim, a própria «transparência» resulta do facto de o ponto de vista se tomar naturalmente como canónico, i.e., de se tomar como medida adequada de tudo o que aparece. Um ponto de vista canónico é um ponto de vista que, precisamente, presume que todos os pontos de vista, para verem adequadamente, têm de ver como ele vê31. Isto não significa

que não admita que se possa ver de outro modo. Simplesmente, tratar-se-á de um ver que não vê bem, que não vê «como deve ser». Ou então, aquilo que efectivamente se admite não chega a entrar na própria evidência natural que temos das coisas. Por exemplo, voltando ao problema das dimensões, se alguém disser que as coisas têm efectivamente o tamanho reduzido com que aparecem ao longe, isso parecerá resultar de um qualquer defeito cognitivo. Mas, por outro lado, de certo modo nunca chego a deixar de ver as estrelas como pontos luminosos. Apesar de saber que esses pequenos pontos no espaço são sóis gigantes que se encontram a anos luz de distância, a verdade é que tal determinação «coisal» não afecta a determinação «funcional» que fundamentalmente regula a identidade das estrelas na evidência com que efectivamente se apresentam.

Quer dizer, apesar de eu considerar essa possibilidade alternativa e de reconhecer como válida a tese que lhe corresponde, esse outro modo de ver não chega a entrar na minha evidência natural da identidade das estrelas.

Mas há ainda um outro aspecto determinante para a compreensão da funcionalidade com que as coisas efectivamente se apresentam e têm fixada a sua identidade. Para que exista enquadramento (do que aparece na «lógica» que lhe subjaz) a identidade tem de encerrar em-si-mesma as suas propriedades. Quer dizer, o ponto de vista pragmático reconhece as propriedades das coisas como algo que a identidade delas encerra em-si-mesma – as propriedades são vistas como propriedades das próprias

coisas, no interior do respectivo território – do território muito bem delimitado e maciço

de cada coisa. Este fechamento da identidade das coisas é determinante por dois motivos: primeiro, porque a «limitação» é fundamental para o enquadramento lógico- operatório; e, segundo, porque só assim se pode «desdobrar» a identidade e explorar aquilo que ela contém em-si-mesma, i.e., descobrir aquilo que lhe pertence e que, por isso, é próprio dela. Apenas porque a identidade tem um território próprio, um território delimitado, é possível manipulá-la, enquadrá-la e colocá-la numa relação «lógica». Mas isso é também o que permite diferenciá-la de outras identidades e, por isso, reconhecer- lhe um «lugar próprio» – o lugar que ocupa na relação que estabelece com outras identidades.

Em suma, o que caracteriza a óptica espontânea é um constelação de propriedades que, no que diz respeito à identidade e à diferença, se caracteriza fundamentalmente pelos seguintes traços. Por um lado, há qualquer coisa como uma trama de identidade e diferença, com as características de flexibilidade que se apontaram (constituição de identidades de segunda, terceira, quarta ordem, etc.; possibilidade de adopção de várias bitolas, mais finas e mais grossas, na marcação das identidades e diferenças relevantes, etc.). Por outro lado, este regime de fixações da trama da identidade e da diferença vê-se a si mesmo como absolutamente válido e inquestionável – como qualquer coisa que participa da transparência que caracteriza o acesso de que dispomos na sua relação com a realidade. Em terceiro lugar, sem que dê conta disso, a aplicação deste regime fundamental ou desta trama da identidade e da diferença está regulada por aquilo que podemos descrever como uma orientação pragmática. De tal modo que os princípios de fixação de identidade e de marcação de

diferença têm, em decisiva parte, que ver com a tensão de não-indiferença em relação a si mesmo (ao que será de si, etc.). Podemos mesmo dizer que onde as determinações captadas são determinações coisais no sentido mais estrito do termo, a sua captação e a sua integração no sistema das identidades e diferenças por que nos regulamos tem que ver com a relevância de que podem revestir-se do ponto de vista pragmático ou em relação à não-indiferença a si mesmo. Mas o facto de haver este condicionamento pragmático, tende a passar despercebido e não afecta a evidência de transparência. Da mesma forma que tende a passar despercebido aquilo que focámos quando considerámos a forma como se apresentam as estrelas: que a apresentação (sc. a trama de identidades e diferenças com que estamos em contacto) tem um carácter

pragmaticamente centrado – quer dizer, está focada num centro de relevância pragmática, onde as identidades e diferenças estão desenhadas de forma mais precisa

em tudo aquilo que tem que ver com a sua relevância funcional. Ao passo que tudo aquilo que carece de relevância funcional (ou tudo aquilo cuja relevância funcional não se percebe, não chama a atenção) está relegado para uma espécie de periferia, em relação à qual a nossa perspectiva no fundamental está distraída.

3.4 O ponto de vista científico como prolongamento do ponto de vista