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A. TÜRKMENLER

9. Türkmeneli Aydınlar Derneği Başkanı Fuat Tigin

Nesse caso, o que se verifica é que a «ontologia natural» (essa «pedra angular» da ontologia natural que é a ontologia da identidade e da diferença – e, portanto a ontologia natural) tem «pés de barro» e que há uma ontologia por constituir, por pôr de

pé. E a tarefa do empreendimento filosófico sc. do projecto crítico (no sentido próprio e

forte do termo) é tentar satisfazer a exigência crítica, lançando mãos à obra de construir uma ontologia da identidade e da diferença capaz de ultrapassar os problemas detectados no procedimento de verificação (e que se possa garantir como sendo à prova

de verificação)38. Se isso não for possível (quer dizer, se o propósito de constituição de qualquer coisa como uma ontologia crítica da identidade e da diferença – uma ontologia que esclareça efectivamente todo o quadro de problemas que se põem a respeito da identidade e da diferença não for possível), então a tarefa da filosofia é marcar bem qual a situação em que efectivamente se está, com tudo o que tiver de opacidade e de incerteza. Por outras palavras, nesse caso o que é próprio do projecto crítico (o que satisfaz a exigência crítica que está no seu cerne) é marcar ou balizar bem a

insuficiência da perspectiva que se tem ou a que se chega, destruindo todas as

pretensões de saber mais do que efectivamente se sabe (todas as ilusões de evidência, seja de evidência de validade, seja de evidência de inteligibilidade, etc.) e identificar tão precisamente quanto possível os problemas, as dificuldades, os focos de opacidade e de «perda de pé» que impedem a constituição de uma ontologia crítica e a plena satisfação, nesse sentido, do projecto filosófico.

5.2 O ponto de vista filosófico: corte e continuidade relativamente à óptica natural

38 E aqui há diversas combinações possíveis. Pode acontecer que a compreensão natural fique globalmente posta em causa ou porque a sua pretensão de validade se revela globalmente frágil ou porque oferece falta de inteligibilidade em todos os elementos que a compõem. Também pode acontecer que a compreensão natural sobre a identidade e a diferença só seja posta em xeque nalguns aspectos da sua composição ou em relação a algumas partes da esfera de aplicação relativamente à qual sustenta pretensões de validade. Consoante assim for, a tarefa de constituição de uma compreensão crítica da questão da identidade e da diferença (e, nessa medida, a tarefa de constituição de uma ontologia crítica) terá um correspondente recorte. Se só uma parte da ontologia natural se revela problemática, então a ontologia crítica conjugará a parte «sã» da ontologia natural e aquilo em que necessitar de ser corrigida. Se nada da ontologia natural «passar no exame», então a tarefa da ontologia crítica será tentar constituir tudo de raiz.

Importa ter presente tudo isto – por um lado, para perceber a amplitude dos problemas com que estamos a lidar e, por outro lado, também para perceber até que ponto pode ir o distanciamento relativamente à óptica natural (a evasão ou o projecto de

evasão em relação àquilo que domina nela) e como esse distanciamento vai muito mais

longe no caso da filosofia (ou melhor – insiste-se – no caso do projecto filosófico enquanto projecto crítico) do que na constituição das diversas disciplinas científicas e no contacto com os problemas que põem. Por maior que seja a adesão espontânea à óptica natural sobre a identidade e a diferença e à evidência de que habitualmente tende a revestir-se, o nosso ponto de vista está constituído de tal modo que é capaz de se aperceber de todo este quadro de possibilidades e de problemas e de conceber um projecto com as características daquele que acabámos de enunciar e que equivale nem mais nem menos do que à ideia de, em certo sentido, tudo se refazer de forma controlada, em regime de verificação, desde o começo.

Mas a questão está também em saber se é possível – se é possível uma tal evasão, se é possível uma verificação global como aquela de que se falou, se é possível constituir qualquer coisa como uma compreensão da identidade e da diferença em regime crítico, à prova de crítica. Em última análise, também pode acontecer que a realização de um tal projecto enfrente dificuldades que fazem que, de facto, acabe por não passar de isso mesmo: de um projecto.

Mas mesmo isto ainda não é tudo. Pois supõe, apesar de tudo, qualquer coisa como um quadro mais ou menos claro, onde seja possível formular o projecto em causa, tentar executá-lo, verificar até que ponto é exequível ou não, realizar o que for possível realizar, etc. Por outras palavras, a marcação de reserva que acabou de se fazer supõe que não estamos enredados em opacidade – e que o próprio confronto com o projecto em causa consegue de cada vez perceber muito bem onde está, que é que realizou e que é que deixou por realizar, etc. Mas, de facto, não é assim e essa suposição supõe mais do que na verdade estamos em condições de poder supor.

Com efeito, como se indicou, nada garante que o próprio levantamento do regime habitual seja completo. As características do nosso ponto de vista não permitem excluir que haja elementos que lhe escapam – e que esses elementos sejam decisivos. Do mesmo modo, quando se trata de pôr à prova a óptica habitual, também nada garante que a perspectiva da própria verificação não deixa subsistir ângulos cegos que a

comprometem (ângulos cuja co-consideração seria susceptível de fazer aparecer tudo a uma nova luz). E algo de equivalente vale também para a tentativa de constituição crítica da questão da identidade e da diferença – de uma ontologia crítica (e em especial de uma ontologia crítica da identidade e da diferença, no sentido referido). Numa palavra, tudo se passa num terreno muito mais ambíguo e muito mais incerto do que à primeira vista pode parecer. Sempre pode acontecer que aquilo que parece já uma perspectiva inteiramente desimpedida e de sinopse, na verdade, corresponder apenas a uma parte de um labirinto de perspectivas que a própria finitude do ângulo em que se está não permite reconhecer.

Ora, isto significa, como é óbvio, que a realização da exigência crítica está seriamente obstacularizada e que o nosso ponto de vista é ao mesmo tempo um ponto de vista capaz de formular e compreender essa exigência e um ponto de vista cuja forma de constituição não parece fundada para lhe corresponder. Isso não significa que em absoluto se possa dizer que nunca a satisfará (também seria preciso que estivesse constituído de outro modo para poder antecipar semelhante impossiblidade de forma legítima). Significa apenas que, pelo menos à partida, não está bem apetrechado para o efeito e que não se vê bem como poderá apetrechar-se para satisfazer eficazmente a exigência crítica e tudo o que ela implica.

Mas mais. Poderia ser assim e, no entanto, haver de qualquer modo nitidez em relação ao que se está e não se está em condições de fazer. Contudo, é justamente isso que não sucede. A opacidade, a falta de clareza com que nos debatemos, passa também por a opacidade e a falta de clareza poderem muito bem não se manifestar enquanto tais e produzirem a impressão de clareza, não-opacidade, suficiência, etc. Isso é assim, como vimos na óptica espontânea (onde, por exemplo, a falta de inteligibilidade pode ser vivida como plena inteligibilidade, ausência de qualquer problema, etc.). Mas é também assim na própria execução do projecto de «saneamento» crítico – designadamente no que diz respeito à questão da identidade e da diferença. Quer dizer, a própria execução do projecto crítico pode muito bem ser «vítima» daquilo que pretende eliminar. De sorte que, ao tentar realizar o projecto, tem a ilusão de conseguir levar a cabo muito mais do que efectivamente leva (ou porque julga executá-lo plenamente e na verdade só em parte o realiza, ou porque dos passos que, apesar de tudo, julga estar em condições de realizar na verdade não dá senão alguns).

Ora, entre outras coisas, isto significa que, se a filosofia (caso seja fiel ao seu projecto e à exigência de que é portadora) representa um muito mais radical corte com a óptica natural e qualquer coisa como uma re-fundação de toda a nossa perspectiva sobre a identidade e a diferença, por outro lado nada impede que – mais (e até mesmo muito mais) do que aquilo de que se tem consciência – a transformação de óptica introduzida pela análise filosófica deixe subsistir importantes elementos de continuidade com evidência natural sc. de permanência dela (subtraindo-se ao escrutínio crítico e introduzindo-se subrepticiamente no seu próprio curso). De tal modo que quer as iniciativas de verificação da óptica natural, quer as concepções alternativas a que estas dão lugar acabam por equivaler a meras extensões daquilo que desprevenidamente concebemos.

§6 Sobre a possibilidade de constituição de uma ontologia alternativa

Daquilo que focámos anteriormente resulta que tanto o ponto de vista científico (no seu projecto de análise da estrutura de identidade e diferença das coisas), quanto o ponto de vista filosófico (no seu projecto de evidenciação e revisão crítica dessas mesmas estruturas) acabam por constituir ou poder constituir (embora em direcções diferentes) como que um prolongamento do ponto de vista natural. Para levarem a cabo os seus projectos de obtenção de determinação e inteligibilidade da identidade das coisas, produzem, por um lado, significativos cortes com o ponto de onde partem; mas, por outro lado, esses cortes não impedem a subsistência de uma continuidade de fundo com isso de que propõem afastar-se – a apresentação natural. Assim, tais pontos de vista apenas realizam parcialmente o seu programa. E isso que propõem «agarrar» continua, no essencial, a escapar.