Mas, voltemos à questão da forma da vida que, segundo dissemos, tanto a filosofia quanto a literatura procuram captar. Importa agora focar um pouco mais detidamente o sentido do complemento determinativo – ou seja, o sentido disso de que a forma aqui em causa é forma.
Quando aqui se fala de forma da vida, o que está em causa é, antes do mais, este mesmo acontecimento em que cada um de nós sempre já está imerso e em que também sempre já está imerso quem arranca com qualquer projecto filosófico ou literário. A vida é, nesse sentido, o solo de que tanto a filosofia quanto a literatura partem – e não apenas o solo de que partem (em princípio poderiam partir dele de tal modo que a direcção que tomassem lhe «virasse as costas»), mas aquilo que, no fundo, sempre está em causa nelas – aquilo de que, como dissemos, uma e outra procuram ver a forma. Ou seja, no caso da literatura e da filosofia, o solo de que partem é também aquilo sobre o qual se exercem (é também, se assim se pode dizer, o seu «objecto»). No curso habitual, o solo aqui em causa – a vida – a maior parte das vezes não faz sentir nenhuma necessidade de captação da sua forma. Mas onde e quando chega a haver filosofia ou literatura, a questão da captação da forma da vida já se suscita de algum modo – pois a questão tanto da literatura quanto da filosofia é sempre essa. E, por outro lado, mesmo quando o desenvolvimento da filosofia, por exemplo, parece levar muito para lá deste solo original de que tudo arrancou – transpondo-o, desarticulando-o, reconhecendo-o como algo completamente diferente daquilo que parecia no ponto de partida (inserindo-o em novos quadros que avançam muito para lá desse solo e o «dissolvem» ou integram neles ao ponto de ele quase desaparecer no novo panorama) – mesmo aí o que está em causa é sempre ainda a captação da forma da própria vida, de que tudo nasceu e a que tudo diz respeito. Ou seja, mesmo aí todas as metamorfoses, todas as categorias novas, todos os quadros de determinação inovadores não são outra coisa e não têm outro sentido senão o de tentativas de ver a forma disto de que tudo arrancou – a vida que, a partir de um determinado momento, se descobriu de algum modo perdida da forma que é a sua, carecida de que se lhe descubra a forma: carecida de aparecer como forma ou de que o seu próprio «fundo» lhe apareça como forma.
O primeiro aspecto que importa considerar é que este solo – a vida – em cujo meio damos connosco sempre já lançados se caracteriza por aquilo que podemos descrever com uma «morfologia» muito peculiar. E é peculiar por diversas razões. Uma delas é o facto de possuir qualquer coisa como uma «geometria variável» – a que corresponde também uma multiplicidade de centramentos não coincidentes entre si. Mas, que pode querer dizer, neste contexto, ter uma «geometria variável»? Significa, por um lado, que tem uma multiplicidade de figuras ou de formas (ou seja, que esse «fundo» ou esse solo da vida não tem uma única forma, mas na verdade uma pluralidade delas). Mas, por outro lado, isso não significa o que se tende a sugerir logo que se fala de «geometria variável», a saber: que essas formas são assumidas em sucessão, uma após as outras. O que está em causa é antes a possibilidade de o «solo» da vida ter, ao mesmo tempo, diversas formas, diversas delimitações, diversas «manchas». Ou, como também podemos dizer, o que está em causa é o facto de o «solo» da vida corresponder ao mesmo tempo a uma multiplicidade de territórios com uma determinação diferente e também com centros (e organização dos territórios em torno desses centros) diferentes. O traço essencial é precisamente este fenómeno de
sobreposição de territórios diversos na constituição do mesmo fenómeno, de tal modo
que se trata de algo proteiforme num sentido diferente do que é comum, pois o que o caracteriza não é a mudança de forma, mas se assim se pode dizer a
não- impenetrabilidade das formas diferentes e opostas, o modo como estão umas nas outras. Mas tudo isto é ainda uma descrição formal que não permite perceber bem as
propriedades que é aqui mister pôr em evidência. Tentemos, pois, ver a coisa no concreto.
Se considerarmos que é que está em jogo quando se fala da vida, um ponto que parece ser claro é que a vida é sempre o acontecimento de alguém (que pode justamente falar da sua vida, dizer na primeira pessoa: «a minha vida»). Nesse sentido, a vida é um acontecimento único, privado e incomunicável (insusceptível de ser transmitido, partilhado, etc.) – um acontecimento que está de certo modo fechado nos limites da experiência daquele ou daquela a que pertence, etc. É, por outro lado, também óbvio que esse acontecimento privado, único e incomunicável teve início num determinado momento do tempo, tem um determinado alcance (um território limitado, com que está em contacto, a que chega, onde se desenrola, etc.) e, por outro lado, mais tarde ou mais
cedo acabará. Nesse sentido, enquanto vida de alguém («minha vida» de alguém – ou mais precisamente enquanto a vida daquele ou daquela para quem a vida de cada vez é), a vida corresponde a qualquer coisa como um pequeno canto ou recanto de um território de realidade incomensuravelmente mais vasto. Trata-se de algo de englobado por um campo de realidade muito mais amplo – e as relações são de tal modo
desproporcionadas que até faz sentido falar de algo ultraenglobado – de uma
pequeníssima clareira de vida própria sumida no imenso de tudo o mais.
Mas, sendo assim, por outro lado quando falamos da vida, não está apenas em jogo um acontecimento relativamente circunscrito que acabámos de referir – como se se tratasse de algo completamente heterogéneo em relação a tudo o mais. Não. Quando falamos da vida o que está em causa é ao mesmo tempo também algo de comum a essa e a muitas outras vidas de morfologia similar – separadas pelo facto de cada uma estar fechada na sua própria esfera e com o seu próprio centro, mas unidas pelo facto de cada uma repetir de algum modo a mesma constelação de determinações, o mesmo padrão, etc., e corresponder a qualquer coisa como ao cumprimento de uma espécie de «lei da vida» que se cumpre nessas ocorrências referidas – e que se cumpre com as suas constâncias e variações ou constâncias e «caprichos» (de tal modo que as variações e os «caprichos» fazem parte do que é constante nela).
Note-se que o facto de estarmos a seguir de algum modo a forma como falamos da vida (ou a constelação de significados que o termo tem no seu uso comum) não quer dizer de maneira nenhuma que se trate apenas de uma questão semântica. Falamos assim – ou há essas propriedades semânticas que aqui estamos a usar como fio condutor – porque sempre já nos vemos no meio de algo com estas características: porque esse é o solo em que sempre já nos encontramos, ou seja, porque essa é sempre já a complexa evidência do que é a vida (ou do que é o acontecimento que nós mesmos somos e em que estamos lançados) – numa palavra, porque essa é sempre já a morfologia do acontecimento em causa.
E o que acabámos de focar é precisamente que nunca vemos esse acontecimento como algo de absolutamente heterogéneo em relação ao que quer que seja mais, antes o compreendemos como um entre muitos similares, como elo de uma cadeia, como caso de um modo-de-ser que se repete, de uma lei que sempre de novo, inexoravelmente, se cumpre – e de tal modo que a vida, a nossa própria vida (a única, incomunicável e
irrepetível) é ao mesmo tempo um momento dessa vida abrangente (a própria lei) – a vida das diferentes vidas: a vida de todas as vidas (a «árvore», se assim se pode dizer, de que todas são os «ramos»). E aqui começamos já a tocar a coincidência de morfologias diferentes ou o fenómeno de constituição proteiforme no peculiar sentido que se apontou: aquilo a que chamamos «a vida» (mais importante: aquilo em que nos vemos, quando nos vemos lançados na vida) é, ao mesmo tempo, o acontecimento próprio, único, irrepetível e incomunicável, e o acontecimento muito mais vasto da sua «lei»: da vida enquanto aquilo que comanda as vidas e as põe a todas como «casos», «ramos» ou «momentos» seus.
Mas isto ainda não é tudo – na verdade é apenas o começo. Pois, por outro lado, vendo bem, esta instância total que unifica em si as diferentes vidas (de tal modo que todas são manifestações dela) tem, de todo o modo, ainda um carácter nitidamente regional. É muito mais, incomensuravelmente mais, do que o acanhado território de cada vida, mas, por outro lado, constitui também ela apenas um momento de uma realidade ainda mais vasta, incomensuravelmente mais vasta, de que a própria vida (no sentido mais abrangente) é uma manifestação.
Ora, acontece que, vendo bem, também chamamos vida à própria totalidade mais abrangente – se assim se pode dizer, à «totalidade total» de que a vida, no segundo sentido, também ela representa apenas um momento. E isto de tal modo que também aqui não se trata apenas de um modo de falar, mais ou menos ocasional, mas sim da expressão de uma unidade global em cujo seio sempre já nos vemos – ou seja, da expressão da continuidade que tendemos a atribuir a todas as instâncias daquilo que nos rodeia, desde as mais englobadas até às mais englobantes, incluindo aquilo que confusamente representamos como uma instância totalmente englobante. Por outras palavras, a mesma noção ou a mesma determinação fundamental que exprime o que é de cada um (o único, o irrepetível, o incontornável, etc.) tem plasticidade suficiente para consignar também aquilo que já não é apenas regional: isso mesmo a que também chamamos «a realidade» ou, como também podemos dizer, «a grande aventura total de
haver o que há» (de ter havido, haver e estar para haver o que quer que seja, que houve,
há e haverá).
A vida assim entendida, como instância unificadora de tudo, como unidade de toda a diversidade, como unidade global na qual todos nós nos encontramos
englobados, parece constituir-se por si mesma independentemente de qualquer representação mais precisa; ou seja, parece irredutível a qualquer representação específica que dela se tenha – por parte daquele que dá por si a viver e a relacionar-se nela com ela. Esta sua irredutibilidade a qualquer dos momentos que ela engloba (a qualquer uma das diferentes vidas que nela têm lugar) deve-se ao facto de ela ser confusamente tudo e, ao mesmo tempo, não ser em absoluto nada. Por outras palavras, a vida é todas as personagens (todas as vidas) e, ao mesmo tempo, não é nenhuma em particular. Mas o decisivo é este peculiar fenómeno de unificação em virtude do qual tudo se condensa numa única identidade global que, por mais que seja, por assim dizer, fugidia, «evasiva» nem por isso deixa de estar constituída e de desempenhar um papel importante e mesmo decisivo na forma como sempre já nos vemos. Podemos até mesmo dizer que a vida (enquanto unidade global) é confusamente como que uma única
«personagem total» e que tudo está confusamente compreendido como algo desta
personagem que ao mesmo tempo a determina e exprime. O fenómeno aqui em causa tem características tais que não se trata de uma personagem entre outras personagens, mas antes de uma personagem de que tudo são expressões, de que tudo são momentos, de que tudo são traços, predicados, gestos, indícios. De sorte que é como se confusamente (não estamos a falar de uma perspectiva temática ou sequer de uma perspectiva distinta) tudo fosse de certo modo uma única realidade, uma única
«substância», de que tudo são «modos» ou «atributos», etc. Pode-se, por isso, falar de
qualquer coisa como um «monismo» emocional ou afectivo ou de um «espinosismo
emocional ou afectivo».47
47 Sobre este conceito cf. Carvalho, M. J. e Ferro, N., (eds.), S. Kierkegaard Diapsalmata, Lisboa, Assírio e Alvim, 2011, p.106 ss. Dois aspectos a assinalar, para prevenir equívocos. Quando se fala de uma única grande personagem, que é a vida no sentido da realidade mais englobante, isso não significa de modo nenhum que se trate de algo a que pertencem propriamente os atributos específicos da consciência, etc., que habitualmente estão associados ao conceito de personalidade. Trata-se justamente de um «modo de representação» que tem, como se assinalou, carácter confuso, e que não chega a determinar concretamente este ponto – nem no sentido de incluir os atributos em questão, nem no sentido de os excluir. Mas o decisivo está em que, mesmo que não haja inclusão de tais atributos ou determinações, a totalidade do que há (a vida nesse sentido) está de algum modo constituída como uma instância que é relevante e que joga um papel como algo que intervém, a que nos reportamos – de que nos sentimos como uma ínfima parte, em cujas «mãos» sentimos que estamos, que nos envolve, nos transporta, que é de algum modo percebida como benevolente e protectora – ou, pelo contrário, como hostil, ou como indiferente, etc. E se, porventura, assume traços mais próximos daqueles que são característicos da noção de personalidade, no sentido próprio do termo, então esses traços correspondem a uma modificação deste núcleo fundamental que é neutro em relação à assunção ou não assunção deles – de tal modo que aquilo a que nos reportamos, em cujas mãos nos vemos, etc., é este mesmo núcleo (continuando a exercer as funções de núcleo) e sobredeterminado pela assunção desses traços. O segundo aspecto diz respeito à referência a qualquer coisa como uma única substância – e à proximidade e distância que tem com aquilo
Mas, por outro lado, tudo isso de que a minha vida é apenas uma ínfima parte, tem características tais e está posto de tal modo em relação com ela que, também faz, precisamente, parte dela (da minha vida). Aqui toca-se de novo a questão da geometria variável (no peculiar sentido que dissemos) e da forma como o solo da própria vida, em que sempre já nos temos, não corresponde a um só território, com uma só delimitação, mas a vários, coincidentes, postos uns nos outros. É este o fundo que agora importa focar. A «grande personagem» que tudo engloba, e da qual a minha vida é apenas uma
ínfima parte, é algo que (apesar da extraordinária desproporção entre ambas) também
faz parte do acontecimento da minha vida. Pois a minha vida (a totalidade ultra- englobada, tão ultra-englobada que é sempre apenas uma ínfima parte) caracteriza-se por ser uma parte marcada por uma constitutiva «abertura» para a totalidade que a engloba – de tal modo que essa mesma abertura faz da própria totalidade um acontecimento que é o seu – que é da minha vida.
Podemos traduzir tudo isto dizendo que a «minha vida», por acanhado que seja o seu território e por mais que tudo o resto a ultrapasse, tem como que o carácter de uma «janela», «cais» ou «praia» que dá para o «mar» onde tudo o mais tem lugar, um «mar» incomensurável, a perder de vista e que corresponde à «totalidade total» que vimos anteriormente. A «janela», o «cais» ou a «praia» em questão (a «janela», o «cais» a «praia» da minha vida) dá, se assim se pode dizer, para o mar de tudo isso – mas de tal modo que a «janela» não se fica por si (o «cais» ou a «praia» não se fica por si) antes
inclui ou engloba de certo modo esse «mar» que a ultrapassa. E é porque a nossa vida
não se fica absolutamente em si (fechada naquilo que faz dela apenas uma infima parte desse todo) mas vai de algum modo até esse «mar do resto» (do que a ultrapassa), que
que se pode descrever como um «espinosismo». Faz sentido falar de um certo «espinosismo» para descrever este fenómeno de unificação global – pois há justamente qualquer coisa como uma unificação
global, tal que tudo pertence de certo modo ao mesmo, a multiplicidade das coisas (no espaço, no tempo,
etc.) não está apresentada como um agregado ou um amontoado de focos dispersos, mas sim constituída em algo de único, englobante. E isto de tal forma que todas as coisas, como dissemos, são confusamente percebidas como determinações e expressões do mesmo – esse mesmo «o mesmo» que a noção «a vida» exprime – e de tal modo que não se trata de algo com um alcance apenas regional, mas sim de algo em relação ao qual a própria totalidade dos seres vivos e qualquer outra totalidade que ainda seja restrita constituem apenas uma parte. Mas, por outro lado, sendo assim, o carácter confuso deste operador de unificação faz que se trate também de algo muito diferente de uma representação efectivamente correspondente ao conceito de substância, com toda a sua carga de determinação já bastante diferenciada. Em suma, trata-se de uma modalidade muito peculiar de monismo confuso – o qual, por ser confuso e coexistir ao mesmo tempo com uma representação da subsistência independente das múltiplas realidades, não deixa de ser, numa componente decisiva, efectivamente monista e de compreender todas as coisas como sendo de algum modo uma só: a instância omnienglobante a que também chamamos a vida – a vida enquanto totalidade «total».
pode contrapor-se a ele: se estivesse absolutamente fechada em si só se teria a si mesma e não poderia contrapor a si esse imenso que a ultrapassa. Por outras palavras, a minha vida que é englobada «abre-se», a si mesma, para a totalidade que a engloba.
Mas embora se reconheça naturalmente que a minha vida é esmagadoramente ultrapassada pelo demais, esse mesmo reconhecimento dá-se no «interior» da minha própria vida. De tal forma que, de facto, é a «minha vida» que põe no seu interior tudo aquilo que a ultrapassa. E aquilo que a ultrapassa – em toda a sua extensão, até à totalidade mais englobante – é de certo modo sempre seu48. O mesmo é dizer, a minha
vida, a cada momento, engloba em si mesma até o mais englobante (ou, como dissemos, aquilo por que é, no sentido referido, «ultra-englobada»). Assim, essa totalidade de que a minha vida faz parte (e que lhe confere um carácter regional) é algo que ela compreende em si mesma e a partir de si mesma. Em suma, a minha vida também engloba isso que a ultrapassa, de tal forma que pode mesmo dizer-se que, apesar do seu carácter regional (ultra-englobado, de pequeníssima parte, etc.) ela é um acontecimento
total, porque também abraça isso mesmo que a ultrapassa e inclui isso que tem uma
natureza ultra-englobante. Por outras palavras, a minha vida, a englobada, a ultra- englobada, é, na verdade, também, não apenas um acontecimento englobante (porque engloba aquilo que a ultrapassa) mas ultra-englobante, porque engloba até o mais englobante (a vida no sentido ultra-englobante como algo que lhe pertence).
Tudo isto é um pouco difícil de expressar – e, ao ser expresso, pode parecer um pouco esdrúxulo ou estranho. Mas, de facto, é algo com que estamos sempre já familiarizados, de que temos sempre já noção e que molda decisivamente o terreno em que desde sempre nos movemos. O acontecimento que nós somos é um acontecimento de acesso e é um acontecimento de acesso que, enquanto acontecimento de acesso, é coextensivo a tudo aquilo a que se acede nele. É esta explosão do acesso e esta coextensividade do acontecimento do acesso em relação a tudo quanto está posto a descoberto nele que se acham expressos na conhecida formulação de Aristóteles, no Livro III do De Anima, onde diz: […] ὅτι ἡ ψυχὴ τὰ ὂντα πώς ἐστι πάντα49. E aqui de
novo a perspectiva que sempre já temos distingue-se pelo seu carácter confuso – não
48 O que não significa, n.b., que não haja a determinação «o que não é seu», o que é «alheio», o que a excede, aquilo de que «a minha vida» é apenas uma ínfima parte; significa apenas que tudo isso é, no entanto, também parte da vida – quer dizer que o exterior (mesmo o mais radicalmente exterior) está de algum modo dentro (e se não estivesse nem sequer havia qualquer notícia dele).
tem nada de parecido com um filosofema, com uma concepção expressa ou temática que foque o acesso enquanto tal, etc. Mas isso não impede que, por outro lado, haja de todo o modo alguma consciência desse acontecimento que, apesar do seu carácter circunscrito, é ao mesmo tempo, tudo aquilo «para que dá», tudo aquilo de que é «cais», «praia» ou «janela» – tudo aquilo que de algum modo se avista nesse acontecimento e que o preenche e determina com a sua presença.
Este duplo estatuto da «minha vida» como aquilo que é englobado (e até mesmo ultra-englobado) e, simultaneamente, aquilo que é englobante disso mesmo que a engloba, é algo que podemos descrever, como equivalendo de algum modo aos paradoxos gráficos de Escher – por exemplo, aquele em que a mão que desenha é a mão