C. KÜRTLER
1. Erbil Valisi Nevzat Hadi
A dificuldade que importa agora resolver é essa: qual é a forma do fundo? Mais especificamente: de que modo pode a filosofia ou a literatura fazer que passe a ser
forma aquilo que habitualmente é o fundo da vida?
Antes de mais, e para compreender o porquê da não-evidência do fundo da vida e da consequente dificuldade em captá-lo numa forma, é preciso ter em consideração um aspecto peculiar da própria relação forma/fundo da vida. Ao contrário daquilo que à primeira vista se possa supor (e também ao contrário da relação forma/fundo da
Gestalttheorie), a relação forma/fundo da vida não é uma relação que diga respeito a
uma simples inversão na apresentação dos planos. Quer dizer, aquilo que está primariamente em causa na relação forma/fundo da Gestalttheorie é uma prioridade de planos, uma prioridade tal que, para que uma forma apareça em primeiro plano (foreground), há uma forma que tem de ficar em plano de fundo (background) – uma forma que serve de suporte à forma que aparece. Mas essa relação pode ser facilmente invertida, de tal modo que a forma que se encontrava em primeiro plano passa para plano de fundo e, ao mesmo tempo, a forma que se encontrava em plano de fundo passa para primeiro plano. Todavia, apesar de este modo de consideração nos possibilitar uma primeira aproximação ao problema da ambiguidade estrutural da relação forma/fundo da vida (com toda a complexidade de fenómenos que vimos anteriormente), ele ainda não nos permite ver com clareza aquilo que está de facto em causa nesta mesma relação. E o
que está em causa é que o fundo da vida não diz respeito a uma forma que se encontra num plano de fundo e que pode facilmente passar para primeiro plano – empurrando para o fundo as formas que estão a ter lugar na apresentação. O que importa ter em conta é que (tal como se desenhou anteriormente) o fundo em causa tem a natureza de um fundamento. Mas um fundamento que consiste precisamente em qualquer coisa como um atravessamento nas formas por ele fundadas (e não uma mera posição de fundo relativamente a elas). É tendo em conta este modo peculiar de atravessamento do
fundo da vida nas formas por ele fundadas que importa agora analisar a própria relação
forma/fundo, e o modo como a filosofia e a literatura lidam com a captação dessa mesma relação.
Mas, antes de avançarmos, importa ainda tentar perceber o que faz desse fundo
da vida algo que, uma vez procurado, não é de todo evidente. E aquilo com que nos
confrontamos de imediato é que o fundo não é de todo evidente porque a característica essencial da vida é a de se ocultar de si mesma – de «fugir» a uma apresentação de si mesma. Mas este «ocultar-se» ou este «fugir a si mesma» ocorre de um modo muito peculiar. Pois a vida não se oculta propriamente «para além» daquilo que é apresentado («para além» daquilo que é por ela fundado), mas antes no modo de «escapar» ou «fugir» dentro do acontecimento de si mesma – não como algo de estranho, de outro, mas como aquilo que é o mais próprio. Ou seja, o fundo da «minha vida» tem a particularidade de, como vimos, fundar o aparecimento de tudo (é um acontecimento não apenas ultra-englobante, mas também um acontecimento que é responsável pela própria forma como aparece aquilo que aparece). No entanto, ela própria não se acha fundada por si mesma, i.e., não tem a natureza de um «território» por ela fundado (sendo condição de possibilidade, não é possibilitada). É isto que importa vincar: a «fuga» da própria vida (nos vários sentidos que apontámos) consiste em refugiar-se naquilo mesmo que se acha fundado por ela (pois, como vimos, não acontece que exista o fundamento por um lado e, por outro lado, aquilo que é fundado – fundamento e fundado são co-dependentes). Assim, o fundamento só pode ser procurado naquilo mesmo que é por ele fundado. Acontece, todavia, que isto é problemático. Pois, como pode o fundamento da vida ser procurado naquilo que é por ele fundado, se, por outro lado, é certo que também não pode coincidir inteiramente com o território de nada daquilo que funda? Mais, a natureza do fundamento é de tal forma original que consiste
na sua presença em qualquer momento da apresentação (por maior ou mais pequeno que esse momento seja na sua extensão ou duração). Então, o problema não é saber onde procurá-lo (como se essa procura pudesse ser feita num qualquer território preferencial), o problema não é saber onde ele se encontra (pois encontra-se em tudo), o problema está antes em saber o modo como se encontra em tudo.
Assim, o que caracteriza o fundamento da vida, o núcleo da vida, se assim o podemos dizer, é este modo de «fuga de si» ou descentramento de si mesmo. Ou seja, aquilo que caracteriza a «fuga da vida» é o facto de esta coincidir com um descentramento original do fundo de si mesma e, com isso, ganhar refúgio ou habitar o próprio núcleo daquilo que é por ela fundado – as formas por ela apresentadas. A partir daqui percebemos melhor que a «minha vida» (e com isto a identidade que é de cada vez a minha) se encontra presente na identidade de tudo aquilo com que toma contacto, habita a identidade de tudo. E na verdade, não apenas habita a identidade de tudo como se encontra nuclearmente implicada na identidade de tudo (embora de forma confusa). Quer dizer, não é (ao contrário do que tende a perceber-se) uma forma de acrescento superficial à identidade das coisas, mas antes aquilo que funda cada momento da apresentação delas (mesmo os momentos mais despecebidos e aparentemente insignificantes). Mas isto não significa que esse «habitar» a identidade de tudo corresponda mais a um estar «dentro» do que a um estar «fora» delas. E isto porque ele se encontra tecido (entretecido) em tudo.
É, portanto, a partir da compreensão deste modo peculiar de presença do fundo
da vida a todas as formas da vida que cabe agora tentar perceber como esse mesmo fundo é tratado pela filosofia e pela literatura. E, se a questão é a da possibilidade ou
impossibilidade de fazer passar a forma o fundo da vida, e perceber a própria forma da vida, podemos traduzir o problema nos seguintes termos: somos nós capazes de captar em próprio aquilo que somos?
A literatura consiste num modo específico de tentativa de conversão (e não inversão) do fundo ou «solo» da vida em forma. Aquilo que está em causa, de cada vez, é captar os traços dessa «personagem» que é a vida e que se expressa não apenas através das diferentes personagens mas também em tudo aquilo que tem lugar no mundo da obra literária. Mas justamente, a literatura aponta para uma determinada direcção ou
que é seguida na filosofia – desde logo porque, como vimos anteriormente, a vocação da literatura não é a do conceito. Também podemos exprimir isto dizendo que o projecto filosófico se reporta à vida, sim, mas procura como que quadros diferentes dela, a partir dos quais se torna compreensível – como se a chave para a captação da vida fosse o encontro como que de frases em relação às quais a própria vida é apenas uma palavra no meio delas – como se fosse possível sair do próprio «solo da vida», pô-lo «no seu lugar» e reencontrá-lo «de fora», a partir da sua origem, das suas condições, do que o precede, do que o rodeia, do que está para lá dele, etc. Numa palavra, o projecto da filosofia leva sempre de algum modo ao lugar imaginário de um espectador que assiste ao próprio «solo da vida» a entrar em cena no meio de um quadro de realidade que o situa e lhe dá forma. O decisivo aqui – e o que é característico da filosofia – é o modelo fundamental desta integração da vida (do «solo da vida») em algo de outro – que o resolve, como se o próprio «solo da vida» fosse reconduzível a algo mais, quer dizer, fosse susceptível de ser descoberto como um momento de algo mais de que é precisamente apenas um momento. Para o exprimir na própria linguagem da filosofia: independentemente de ser naturalista ou não, o modelo filosófico tende a ter em relação ao mundo-da-vida (à
Lebenswelt – admitindo aqui que a noção de Lebenswelt fixa adequadamente o
fenómeno do «solo da vida») algo de análogo àquilo que caracteriza o «naturalismo», quando o «naturalismo» pretende alcançar uma compreensão da Lebenswelt como produto ou momento de uma ordem natural (como produto ou momento do quadro ou quadros de realidade para que aponta o conceito de natureza).
Como apontámos, esta tentativa de redução não só acaba por saltar a própria constituição interna do «solo da vida» mas, de facto, não consegue esclarecer bem o nexo entre a vida e esses antecedentes (ou esse «meio» ou «condição» para lá dela que alegadamente a integram e, ao integrá-la, a esclarece, a torna compreensível) – mas, sobretudo esquece que os próprios antecedentes ou esse «meio» ou «condição» para lá dela, que alegadamente a integram e aclaram, correspondem, na verdade, a um complexo de constructos teóricos também eles construídos no «solo da vida», também eles compreendidos no meio deste «solo» e à luz dele (do seu património de evidências, do seu sentido, da sua peculiar morfologia, etc.). Por outras palavras, esta tentativa de redução esquece que só ilusoriamente a Lebenswelt é situável em algo de outro. Pois, como se viu, é a vida, (a «minha vida») que na verdade sempre engloba e enquadra o
que quer que seja, mesmo aquilo que aparentemente é o mais independente dela e parece situar-se já no seu «exterior».
Ora, o que é próprio da literatura – e em especial o que é próprio da compreensão da literatura desenvolvida por V. Woolf – é, se assim se pode dizer, uma outra maneira de procurar o fundo, ou melhor, um outro modo de procurar converter em
forma o fundo da vida. A literatura não abandona o fundo ou «solo» em causa para o
fundar numa forma ou numa constelação de formas distintas dele e que supostamente o esclarecem, se assim se pode dizer, a partir de fora, por integração em quadros de inteligibilidade exteriores, etc. A literatura fica de algum modo na própria vida e procura algo que equivalha a converter esse fundo em forma – quer dizer, em algo que não se esconda, não se «apague», antes apareça – algo que mostre a sua determinação, o seu «rosto». Ou, para o exprimir nos termos a que acabámos de recorrer, o que está em causa no projecto literário (ao contrário do projecto filosófico) não é tentar compreender a Lebenswelt a partir de algo de outro. A procura da forma da vida, que a literatura também assume como tarefa, distingue-se por algo como isto: não se compreender o mundo-da-vida a partir de algo «exterior» a ele (algo que o situe, por que ele seja iluminado, etc.); se assim se pode dizer, aquilo que a literatura tenta captar é a forma da
própria Lebenswelt, ou seja, a forma desse fundo global que constitui o mundo-da-vida.
Numa palavra – e para o expressar já em termos próximos daqueles que são usados por V. Woolf, aquilo que está em jogo no projecto literário é sempre, de algum modo, a «captação» da própria vida (life itself).
Mas, sendo assim, isso põe um problema que importa agora pôr em relevo. Segundo o que dissemos, o empreendimento da literatura é a) tal como a filosofia um empreendimento voltado para a própria vida (para aquilo a que chamámos o fundo dela) e apostada em converter esse fundo em forma; b) diferentemente da filosofia um empreendimento tal que essa conversão é procurada dentro do próprio «solo» da vida, numa direcção «imanente» que não o procura desvendar a partir de fora. Pode-se, por isso dizer, de forma vincada, que o que está em causa na literatura é a captação e a «inscrição» (a fixação: a escrita) da vida. Ou seja, pode-se dizer que, nesse peculiar sentido (um sentido que passa justamente pelo facto de a vida ter aquilo que exprimimos fazendo referência a Möbius e a Escher) a literatura é bio-grafia.
resulta do que vimos, se a literatura está votada a uma procura da forma da vida (da vida convertida em forma), essa tensão para a forma é eo ipso, tensão para a totalidade (e para uma totalidade com as características que decorrem da peculiar morfologia anteriormente referida). Ora, o que isso quer dizer é que a literatura está ao mesmo tempo marcada por uma tensão para a totalidade da vida própria e por uma tensão para a «totalidade total», como que metidas uma, na outra, em virtude da peculiar forma que faz que ambas sejam ao mesmo tempo englobantes e englobadas. A biografia é uma escrita da vida e uma escrita da vida é – só pode ser – uma escrita da vida toda: da vida na totalidade. Só que isso põe uma série de dificuldades.
Por um lado, quando se fala da totalidade da vida, no sentido da totalidade da vida própria (da «minha vida»), aquilo que habitualmente tende a vigorar no nosso ponto de vista é uma totalidade que diz respeito àquilo que tem lugar durante o período que engloba o tempo decorrido desde o nascimento até à morte. Ora, no que diz respeito à captação ou à escrita da vida (que é sempre a «minha vida»), aquilo que desde logo se percebe é que a totalidade em causa se encontra sempre em «aberto» – por terminar, por concluir. Encontramo-nos, por isso, sempre impedidos de «ter em mãos» a totalidade da vida que é a nossa – porque, enquanto a vida se «desenrola», ela não se encontra totalizada e, quando termina, não existe mais sujeito que possa olhar para ela e ver a forma que desenhou. Sabemos também que isto é assim porque o «desenrolar» da vida não tem um carácter meramente cumulativo. A relação que cada momento da apresentação tem, quer relativamente ao que passou quer relativamente ao que está por vir, é uma relação de tal modo dinâmica que pode tingir a vida na sua totalidade. Ou seja, cada momento pode alterar a visão da totalidade da vida (de tal modo que, como já vincava o topos antigo, até ao último instante a continuação do curso da vida pode alterar a determinação da sua totalidade – o seu «rosto», a sua forma). Isto significa que, para ter uma visão da totalidade da vida (no sentido aqui tomado), para poder escrever integralmente a vida (para pôr de pé a biografia, no sentido forte e próprio do termo), seria necessária uma visão da totalidade-da-vida já acabada – o que, como vimos, se revela impossível, porque implicaria, por assim dizer, estar «fora» da vida para a poder ver na sua totalidade (que de resto, tendo em conta o carácter ultra-englobante da vida, não faz sentido falar)50.
50 Existe ainda uma ilusão (que tende a passar despercebida e que é preciso pôr em evidência) presente na noção de totalidade da vida, enquanto esta «totalidade» é compreendida como um acontecimento que
Contudo, isto ainda é apenas uma parte do problema. Pois, por outro lado, como se isto ainda não bastasse, tudo isto acaba por se ver acrescido de dificuldades maiores se se tem em conta que a totalidade em causa não é só a totalidade da vida própria (da «minha vida»), mas a totalidade da realidade – a totalidade total, a totalidade ultra-englobante, de que se falou – ou melhor, se se tem em conta que a «minha vida» engloba no acontecimento de si mesma a totalidade das outras vidas e de tudo o resto: a totalidade total, ultra-englobada para a qual a «janela», a «praia» ou «cais» da «minha vida» dá – e de tal modo que a «minha vida» é de algum modo todas as coisas (ὅτι ἡ ψυχὴ τὰ ὂντα πώς ἐστι πάντα) e engloba tudo isso no seu seio. Percebe-se a dificuldade estrutural que se atravessa no caminho do projecto da biografia, i.e., os problemas que se levantam quando se procura fixar e escrever a vida.
Pois o que isto significa é que, se aquilo que dissemos tem fundamento e a literatura está efectivamente votada a escrever a vida e a pôr de pé a biografia no sentido que se indicou, então o romance que na literatura se trata de escrever seria sempre qualquer coisa como o romance total – ou o poema que se trata de escrever seria sempre qualquer coisa como o poema total. E, em última análise, tudo quanto ficasse aquém disso ficaria aquém do que está implicado no projecto da biografia: o projecto da biografia total, da obra total ou do livro total.
Vejamos um pouco melhor o que isto significa. Significa, em primeiro lugar, que a escrita da vida tem de corresponder como que à conjunção da escrita de todas as vidas – de todas as biografias (quer dizer, por um lado, de todas as autobiografias e, por outro lado, de todas as biografias-de-outrem em que teriam de ficar fixadas as personagens que cada vida ao mesmo tempo é para as outras (biografias de outrem essas que fazem parte das diferentes vidas a que tais personagens aparecem). Mas mais. Também poderia tratar-se apenas do livro de todas as vidas (como se se tratasse, ainda assim, de algo regional). Pois, como vimos, cada vida nesse sentido distingue-se pelo facto de ser em certo sentido todas as coisas: pelo facto de ser de certo modo «a praia» de tudo,
começa com o nascimento e acaba com a morte. Essa ilusão faz pressupor que a forma da vida se encontra dependente de uma totalidade extensiva (seja essa extensão espacial ou temporal). Tal falácia radica no pressuposto da existência de um ponto de vista que, em última análise, tendo «toda a sua vida à sua frente» pudesse atribuir-lhe uma forma definitiva. No fundo é o que pode estar em causa, hipoteticamente, num ponto de vista limite que olha para toda a sua vida no último instante antes da morte. Mas isto é ilusório, porque nem mesmo um ponto de vista que tivesse integralmente a sua vida à sua frente estaria isento do equívoco do próprio olhar. Quer dizer, nada garante que uma totalidade desta natureza não pudesse ter, também ela, múltiplas interpretações, estar repleta de ambiguidades, indecisões, índices de restrição, ramificações do sentido, etc.
preenchida e marcada por tudo o mais (e de tal modo que vale para cada vida, no sentido aqui em causa, qualquer coisa como um nihil alienum a que, em última análise, nada se exime51). Ora, o que isto significa é, por sua vez, que a escrita da vida – a
biografia – acabaria por ter de equivaler a qualquer coisa como a «escrita total» ou o «livro total», também ele ultra-englobante. Mas – e este é o problema – o livro integral não é possível (e não é possível em nenhum destes sentidos). De sorte que não é possível nenhum escrever da vida – quer dizer, nenhum escrever da totalidade. Ou seja, não é possível o romance integral, não é possível o poema total.
Põe-se então o problema de saber o que daí resulta. Quer isso dizer, então, que o projecto próprio da literatura não é exequível – ou quer dizer, pelo contrário, que afinal não é este o projecto da literatura: que, bem vistas as coisas, ela não tem que ver com essa preocupação de escrever a vida?
Se não estamos em erro, é de facto isso mesmo que está em causa na literatura – ou, como também se pode dizer, o projecto literário é sempre de algum modo o da
biografia no sentido referido52. Sucede apenas algo de que não nos podemos esquecer, que está em certa medida implicado num aspecto que já vimos, mas que importa agora ver um pouco mais em pormenor. Pois trata-se de algo que faz que este projecto da biografia, no sentido aqui em causa, seja ao mesmo tempo uma espécie de «missão impossível» (um projecto pura e simplesmente inexequível, no modo que referimos) e um projecto exequível naquela forma que, como também vimos, é própria da literatura: a forma do símbolo, da tensão evocativa, etc. Por outras palavras, quando agora mesmo falámos do livro integral, etc., imperceptivelmente embarcámos na ideia de um livro marcado pela forma de adequação que anteriormente mostrámos ser a do conceito: nessa óptica, o livro só é integral se houver como que uma inscrição ou transcrição
integral, que nada deixe de fora, etc. Mas procurámos pôr em evidência também que o
regime de sentido e de fixação próprio da literatura não é esse – o da adequação – mas sim um outro que admite a desproporção (e mesmo uma desproporção esmagadora), tal como admite a impertinência (e mesmo uma extraordinária impertinência). Pois a chave deste outro regime está no poder da evocação em virtude do qual o menos (o
51 No sentido do «Homo sum, humani nihil a me alienum puto» de Terêncio (Heautontimorumenos I, 77) ou da carga que esta formulação de Terêncio adquiriu no seu uso proverbial. Mas o ponto decisivo é que o
nihil alienum aqui em causa não se circunscreve à esfera do «humanum», antes tem uma amplitude muito