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A. TÜRKMENLER

6. Kürt Bölgesel Yönetimindeki Türkmen Kültürü ve Sanatı Genel Müdürü Ümit Halife

Entretanto, para percebermos melhor o que está em jogo em tudo isto, é preciso focar um pouco mais detidamente as estruturas de composição da apresentação em que nos achamos constituídos, aquilo a que podemos chamar os nexos de suporte que constituem, por assim dizer, o seu travejamento interno e os diferentes tipos de problemas (os tipos fundamentais de fragilidade) a que se acha exposta. Consideramos tudo isto já tendo em conta em especial o caso da identidade.

Concentremo-nos, antes do mais, na questão do suporte (da sustentação, do desempenho de funções de apoio).

Se considerarmos as identidades colectivas (e o sistema de identidades colectivas) que, como dissemos, constituem o plano em que habitualmente se acha estabilizado o nosso olhar, verificamos que este tipo de apresentados está constituído de

tal modo que refere sempre já as identidades de malha mais fina (ou a rede de identidades e diferenças de malha mais fina) que constitui o seu interior. Se, por outro lado, considerarmos esta rede de malha mais fina, verificamos que ainda corresponde a um complexo de identidades colectivas (ou a uma malha de identidades e diferenças num registo ainda sintético – diferente daquele que corresponderia a uma multiplicidade de puros momentos de ὅπερ εἶναι). De tal modo que também esta multiplicidade de apresentados refere uma malha ainda mais fina de identidades e diferenças, que constitui, nesta medida, o seu suporte. Ou seja, aquilo que, num sentido, desempenha funções de suporte, pode muito bem ser, noutro sentido, algo suportado por apresentações (e apresentados) mais elementares.

Nesta ordem de dependência ou de suporte, aquilo que em última análise desempenha as funções de suporte (se assim se pode dizer, de suporte básico) é a rede mais fina de identidades e diferenças (quer dizer, aquilo que corresponderia ao pré-sintético). O problema está em que, quando dirigimos o nosso olhar em direcção a este registo elementar (o mais elementar de todos) há dificuldade em encontrar aquilo que lhe corresponde – regista-se um fenómeno de fuga, da ordem daquele que se referiu anteriormente. Quer dizer: é difícil encontrar o simples, desfazer o quadro de complexidade em que naturalmente nos achamos depostos. Poderia distraidamente supor que não é assim, representar algo e conferir-lhe o predicado da simplicidade. Mas aquilo que mesmo nesse caso representamos não é propriamente o efectivamente simples, mas apenas algo que confusamente se presume tal e que a própria falta de acuidade da forma como representamos leva a aceitar como tal.

Esta é uma componente fundamental dos mecanismos de «suporte» que estão em funções na «montagem» da apresentação de que dispomos e como condições para a subsistência de «bolhas» em que a evidência natural se mantém de pé, mesmo quando já se detectam problemas a respeito da questão da identidade e da diferença. Pois pode muito bem acontecer que os problemas detectados digam respeito à esfera das identidades colectivas de terceira, quarta ordens, etc., e deixem absolutamente incólumes as regiões de malha mais fina.

Mas isto ainda não é tudo – e em certo sentido deixa escapar o essencial. E a razão está em que, para além deste, há um outro «mecanismo» fundamental de pressuposição que aqui também desempenha um papel essencial.

Esse outro «mecanismo» de pressuposição ou de suporte tem que ver com o assentamento fundamental ou com a pressuposição fundamental do próprio modelo ou da própria compreensão da identidade e da diferença. Por outras palavras, para além dos próprios nexos de sustentação que resultam do próprio modelo ou que estão desenhados no próprio modelo, há um decisivo nexo de sustentação ou de suporte em virtude do qual tudo aquilo que aparece na apresentação de que dispomos (não apenas as componentes que, segundo o modelo, ocupam uma posição derivada, mas também aquele que, segundo ele, ocupam uma «posição» de base) depende do próprio modelo global de compreensão da identidade e diferença enquanto tal.

Ora, toda esta segunda modalidade fundamental de pressuposição ou de exercício de funções de suporte cria condições para que o reconhecimento ou a detecção de dificuldades em matéria de identidade e de diferença se produzam só num âmbito circunscrito e deixando de pé, fora dele, a evidência (a pretensão de eficácia) própria da óptica natural. Pois pode muito bem acontecer que os problemas detectados toquem apenas estes e aqueles aspectos da trama de identidades e de diferenças – e, ao limite, até pode acontecer que afectem todos os seus níveis – mas de tal modo que na verdade digam apenas respeito à aplicação do modelo e o deixam absolutamente «de pedra e cal» (com o resultado que assinalámos: a própria projecção de algo que ultrapassa as dificuldades detectadas presume o modelo e procura algo na verdade concebido «à sua imagem e semelhança»). De tal modo que o novo concebido em resultado da detecção de tais problemas só será novo em relação a aspectos derivados. Pois a própria compleição fundamental da identidade e da diferença será exactamente a mesma que na sua óptica habitual.

É grosso modo este o quadro de níveis mais ou menos profundos de pressuposição que podem intervir na «montagem» da nossa perspectiva e que podem dar abrigo à subsistência na óptica natural de evidência a respeito do quadro da identidade e da diferença, mesmo quando a detecção de dificuldades e problemas já se começou a produzir e até a alastrar.

Acontece, entretanto, que a consideração deste aspecto não é suficiente e precisa de ser completada com a focagem de um outro aspecto cuja consideração permite, aliás, perceber também um outro problema de pressuposição (de subsistência de evidência a respeito dos elementos fundamentais ou de suporte). Esse outro aspecto diz respeito à

própria natureza das dificuldades que podem surgir ou da forma como pode ser posta em xeque a evidência natural a respeito da identidade e da diferença.

Se nos reportarmos àquilo que designamos como o próprio modelo da identidade e da diferença (que está suportado em todos os níveis de composição da apresentação em que nos achamos constituídos – e tanto quer dizer também daquilo que se encontra apresentado nela), as dificuldades que são susceptíveis de o pôr em xeque dizem respeito à possibilidade de na verdade as coisas não se passarem como o modelo em causa fixa. Quer dizer, é possível que o modelo não tenha aplicação onde pretende tê-la; é possível que haja outras formas de constituição da identidade e da diferença36. Tudo

isto de tal modo que a vigência universal do modelo em causa na forma como vemos as coisas esconde essas outras possibilidades, faz que apliquem indevida e erroneamente este modelo onde não é adequado, etc. Em suma, a nossa compreensão fundamental da identidade e da diferença (o próprio modelo que lhe corresponde e que tentámos bosquejar nas páginas precedentes) pode ser errado – uma forma de compreensão das coisas que domina no nosso ponto de vista, mas de que não há correspondência «fora dele», na «própria realidade» a que tem a pretensão de se aplicar (ou a respeito da qual sustenta pretensões de validade). E isto ou porque o modelo não tem aplicação legítima em determinadas regiões da realidade ou – no limite – porque afinal não tem aplicação legítima nenhuma.

Esta última possibilidade pode parecer extrema – e em certo sentido é-o. Mas noutro sentido não. Com efeito, mesmo quando se admite tal possibilidade (i.e., mesmo quando o afastamento em relação à evidência natural vai a este ponto), tende a supor-se que, seja como for, o modelo espontaneamente adoptado em relação à questão da identidade e da diferença goza de plena inteligibilidade, não envolve nenhum problema de peso nesta matéria. Ou seja, admite-se a possibilidade de o modelo em causa ser

errado, mas, no preciso momento em que se admite isso, pressupõe-se que ele é

perfeitamente compreensível em todos os seus elementos fundamentais e exclui-se qualquer significativa dificuldade quanto a este ponto. Ora, este é um importante elemento de suporte da evidência natural (que não se limita a adoptar um determinado modelo e a pressupor a sua validade, antes tem também como importante esteio a

36 O que, nesse sentido, só muito impropriamente ficam referidas se falarmos delas como identidades e

diferenças (porque qualquer menção destes conceitos acaba por introduzir subrepticiamente o modelo em

evidência de «eficácia compreensiva» – a evidência de que se compreende muito bem o teor do modelo adoptado37.

Mas o que é que significa haver problema de inteligibilidade – e até que ponto podem ir esses problemas de inteligibilidade (ou seja, qual o seu alcance)?

Haver problema de inteligibilidade significa que, mesmo que o modelo seja perfeitamente válido e tenha aplicação legítima em todos os casos, sem excepção, a forma como se acha fixado no nosso ponto de vista não permite compreender bem isso mesmo que consigna. Ou, dito de outro modo, o modelo tem um determinado teor (fixa isto e aquilo, aponta para qualquer coisa como um ὅπερ εἶναι, mas ao mesmo tempo admite a possibilidade da síntese, de que o diferente se conjugue e os diferentes passem um pelo outro, etc.). Se, todavia, acontece que, ao tentar identificar-se que é que corresponde propriamente a essa pura identidade de algo simples consigo mesmo, não se encontra nada, antes se descobre que se trata de algo de que, na verdade, não se faz a

mais pequena ideia (ou se acontece que, ao tentar compreender que é que está em causa

na síntese – como é que um não-A pode estar em A –, essa presença do não-idêntico no não-idêntico ou esse ὁμοῦ acaba por revelar-se equivalente a uma incógnita), então o que se manifesta é que a evidência habitual da plena inteligibilidade, na verdade, carece de fundamento. Tal como também carecerá de fundamento a subsistência dessa mesma evidência natural de inteligibilidade do modelo da identidade e da diferença, quando se percebe que o modelo em causa é frágil no que diz respeito à sua pretensão de validade, etc.

Aquilo com que estamos a lidar aqui é a possibilidade de um fenómeno de

pseudo- evidência de inteligibilidade – de uma evidência de inteligibilidade constituída

de tal modo que não resulta de uma efectiva compreensão das determinações em causa, mas antes de uma distracção a seu respeito, de uma falta de acuidade (de tal modo que é essa falta de acuidade ou essa distracção que constitui a impressão de se perceber tudo). O que está em causa é, portanto, a exposição do nosso ponto de vista sobre a identidade e a diferença à possibilidade de uma forma muito peculiar de «fuga» ou falta de acesso. Pois não se trata de falta de acesso a algo que se situa para lá da esfera de

37 O modelo podia estar adoptado e com plena pretensão de validade, mas de tal modo que, ainda assim, suscitasse problemas de inteligibilidade – e não fosse possível perceber sem dificuldade aquilo que fixa. Mas sucede que, pelo menos à primeira vista, não é nada assim: o modelo está adoptado, tem pretensão de validade irrestrita e goza de evidência compreensiva. E essa evidência compreensiva não fica posta em causa, antes se mantém pressuposta, quando se levanta questões de validade, se admite a possibilidade de o modelo envolver erro, afinal não poder ser aplicado a isto e àquilo, etc.

acesso de que se dispõe, mas sim da «fuga» disso mesmo que se acha inscrito nesse acesso (e na verdade, se assim se pode dizer, de algo com que o próprio acesso se acha «escrito»), pois permanentemente recorre à referida compreensão da identidade e da diferença, vê segundo ela, tem o apresentado montado sobre a base dela. E é isso mesmo (que, desse modo, constitui como que a «morfologia» e a «sintaxe» da apresentação de que se dispõe) que se revela susceptível de se revelar, afinal de contas, nem mais nem menos do que uma incógnita – algo que não se sabe bem a que é que corresponde.

Numa palavra, o que está em causa na questão da inteligibilidade é a possibilidade de o acesso em que estamos constituídos (o acesso que somos) descobrir que afinal desconhece a própria linguagem que fala e na verdade não percebe o que diz.

§5 A ontologia crítica e a sua fragilidade