A. TÜRKMENLER
5. Dr. Ahmet Telaferli
Como vimos, o ponto de vista natural prevê uma possibilidade de ampliação da identidade das coisas, i.e., prevê, já de si, que na identidade das coisas pode acontecer muito mais do que aquilo que se apresenta – reconhece que nela se pode esconder algo de diferente. Apesar de o ponto de vista natural se considerar transparente no acesso que tem às coisas, isso não significa que, dada a elasticidade da teia e trama que compõe o território das coisas (numa estrutura de identidade e diferença), ele não admita que existam «lugares» nas coisas (aspectos, propriedades, etc.) que não se achem imediatamente à mostra e que sejam mais difíceis de alcançar. Ora, é aqui que entra em cena o ponto de vista «especializado», i.e., o ponto de vista que amplia o tecido da identidade territorial das coisas, expondo aquilo que elas encerram e que tende a ficar oculto na própria apresentação natural. Este ponto de vista especializado é o ponto de vista científico. O que temos agora de tentar perceber é: em que consiste a
especialização do ponto de vista científico?, que mudanças introduz o ponto de vista científico, relativamente ao ponto de vista natural, na consideração que faz da estrutura de identidade e diferença do território das coisas?
Antes de mais, percebemos que o ponto de vista científico surge porque, de algum modo, o ponto de vista natural reconhece que há momentos na sua apresentação que podem ser «ampliados». O que isto quer dizer é que, apesar da evidência que se tem da identidade das coisas, há momentos regionais nessa mesma evidência (de determinada identidade) que são passíveis de ser melhorados na sua focagem, de tal modo que passem a revelar conteúdos ou determinações que não são visíveis naturalmente, aumentando assim o património cognoscitivo e também a própria compreensão que já se tem daquilo que está a descoberto na óptica natural32. No que diz
respeito aos aspectos estruturais que temos vindo a seguir (aqueles que têm que ver com a estrutura da identidade e diferença), isto significa que a identidade contém em si mesma diferenças que tendem a ficar escondidas na sua apresentação natural. Ora, são precisamente as diferenças dentro da identidade que podem criar uma crise regional na apresentação natural da própria identidade. Note-se que este «escondimento» não produz uma crise geral no ponto de vista natural na apresentação que tem das coisas. No fundamental, a identidade das coisas tende a manter-se aproblemática. Acontece apenas que se passa a reconhecer a existência de «regiões» ainda não postas a descoberto «dentro» de um território que, no seu todo, é naturalmente evidente.
O ponto de vista científico surge, assim, como forma de análise específica de certos conteúdos da identidade das coisas que escapam ao ponto de vista natural. É uma espécie de olhar incisivo que perscruta e analisa determinados aspectos das coisas, i.e., investiga as coisas sob um ângulo preciso que põe em evidência um aspecto particular da identidade – focando a sua atenção, de cada vez, num conteúdo diferenciável que pertence a identidades já naturalmente reconhecidas33. Assim, aquilo que no ponto de
vista natural se acha presente de forma simultânea e, por isso, se encontra indiferenciado, no ponto de vista científico é alternativo. Quer dizer, a mesma
32 Observe-se que, quando aqui falamos de «ampliação do tecido» das identidades e diferenças, nos estamos a referir tanto à reconsideração de coisas próximas quanto à focagem de regiões «interiores» que a organização do território pragmático funcional habitualmente deixa na periferia.
33 Ou a identidades que resultam do «desdobramento» de identidades naturalmente reconhecidas (o importante é que, de todo o modo, há um fio de conexão entre o terminus ad quem da transformação de perspectiva desenvolvida pela ciência e o complexo de identidades naturalmente estabelecido e que é aquele que se «habita», em que se vive).
identidade pode ser analisada por diferentes ciências segundo a forma de focagem específica de cada uma delas. Neste sentido, o ponto de vista científico lida com propriedades da identidade, mediante ferramentas especializadas que permitem ampliar a teia da identidade e descobrir nela diferenças específicas, de tal modo que se dão a ver conteúdos que não estão imediatamente dados no ponto de vista natural – embora se encontrem nele de forma confusa, no sentido em que correspondem ao acréscimo de determinação que a óptica espontânea sempre já admite como possível (e, nesse sentido, sempre já prevê).
Neste sentido, existe um corte entre o ponto de vista natural e o ponto de vista científico, porque esses conteúdos (sendo especializados) passam a ser vistos segundo uma «lógica» categorial que cada ciência em particular cria para si mesma. Se, no ponto de vista natural, a identidade das coisas se encontra fundamentalmente determinada pela função que estas exercem na minha vida, no ponto de vista científico encontra-se determinada pela função que exercem num determinado sistema de explicação ou inteligibilidade. E o que caracteriza de cada vez um sistema desta natureza é o facto de se constituir como uma abstracção, i.e., com categorias e «sintaxe» próprias, que se substituem às categorias (da «lógica») do funcionamento natural. Tal substituição requer a criação de novas referências categoriais que vão servir para a especialização do ponto de vista – referências essas que são em grande parte estranhas ao ponto de vista natural. O que acontece é que a introdução de tais categorias (dizendo respeito a uma lógica especializada34) cria como que «secções» na análise das identidades naturalmente
desenhadas na óptica pragmática. Assim, as diferentes ciências florescem como forma de dar conta de diferentes aspectos do mesmo. Desta forma, as ciências reconfiguram e voltam a reconfigurar o território da identidade das coisas, ora eliminando, ora criando novas determinações e novos campos de determinações. As diferentes ciências surgem assim como forma de completação (com um carácter complementar) das «regiões» menos claras inscritas nas estruturas fundamentais da apresentação pré-científica. Todavia, aquilo que nalguns casos começa como forma de completação acaba por assumir proporções tais e com tal margem de emancipação que se «insubordina» contra o enquadramento pré-científico e acaba por pôr em causa pelo menos uma significativa
34 Este processo de seccionamento é muito nítido na descrição aristotélica da génese das ciências que seccionam, por ἀφαίρεσις, o todo confuso (συγκεχυμενον) e acham os campos de determinação correspondentes às secções de ἀφαίρεσις (o campo correspondente ao ᾗ A, ao ᾗ B, ao ᾗ C, etc.). Veja-se em especial Aristoteles, Metafísica, IV.
parte das suas suposições ou assentamentos. Veja-se, por exemplo, de entre muitos outros aspectos que se podem citar, a sugestiva descrição de B. Russell:
If we were not much higher than an electron, we should not have this impression of stability, which is only due to the grosseness of our senses. King's Cross, which to us looks solid, would be too vast to be conceived except by a few eccentric mathematicians. The bits of it that we could see would consist of little tiny points of matter, never coming into contact with each other, but perpetually whizzing round each other in an inconceivably rapid ballet-dance. The world of our experience would be quite as mad as the one in which the different parts of Edinburgh go for walks in different directions. If – to take the opposite extreme – you were as large as the sun and lived as long, with a corresponding slowness of perception, you would again find a higgledypiggedly universe without permanence – stars and planets would come and go like morning mists, and nothing would remain in a fixed position relatively to anything else. The notion of comparative stability which forms part of our ordinary outlook is thus due to the fact that we are about the size we are, and live on a planet of which the surface is not very hot.35
O distanciamento da óptica científica em relação à óptica espontânea pode, assim, ir muito longe e subverter em larga medida as próprias categorias e os assentamentos da óptica pragmática e do seu sistema de identidades e diferenças. Mas, independentemente dos cortes que o ponto de vista científico possa introduzir relativamente ao ponto de vista natural, verifica-se que, simultaneamente, mantém uma espécie de continuidade funcional em relação a ele. Ou seja, independentemente de se produzirem novas reconfigurações das determinações territoriais da identidade das coisas, e independentemente da significativa margem de «insubordinação» que essas novas apresentações científicas tragam em relação ao «edifício» do reconhecimento pragmático, o que acontece é que, em diversos aspectos, o modelo de fundo tende a permanecer o mesmo.
Ora, aqui interessa-nos em especial um ponto decisivo que tende a preservar-se inalterado. A estrutura base de identidade e diferença das coisas, a composição daquilo a que chamámos a «trama» de identidades e diferenças, tal como se encontra presente no ponto de vista natural, mantém-se. Ou seja, o ponto de vista científico é, também ele, um ponto de vista que se vem inscrever na elasticidade dessa trama. E a evasão que representa em relação à óptica natural pode muito bem (e na verdade tende a) não ser uma evasão no que diz respeito a este aspecto. Ou seja, neste ponto crucial, o tecido da
apresentação científica pode (e, na verdade, tende a) ter a mesma estrutura de fundo (de identidade e diferença) que o tecido da apresentação natural. De sorte que as perspectivas desenvolvidas pelas ciências põem em questão estas e aquelas identidades, estas e aquelas diferenças, mas não a própria «malha» da identidade e da diferença, que continua a valer como livre de qualquer problema, como válida e transparente, no sentido oportunamente referido.
§4 A fragilidade da tese de evidência