[...] se queremos desenvolver ou extinguir estados emocionais devemos procurar os eventos ou variáveis que os causam: observando, registrando, analisando e interpretando dados como parte de uma análise de contingências e a partir dessa análise promover estímulos para reforçar o comportamento desejado. Em uma intervenção antibullying usando a análise de contingência, não há uma intervenção previamente estabelecida, mas uma análise para cada evento que pode promover uma mudança nas condições de estímulos associados com o comportamento que se deseja extinguir ou manter (PINGOELLO, 2012, p. 35).
Dentre os textos coletados, encontramos indicações de projetos com base na perspectiva da Análise Comportamental. São ações que visam promover a mudança de um determinado comportamento, como o bullying, via análise de suas contingências mantenedoras; buscam variar as respostas dadas, a fim de mantê-las ou excluí-las. São usados elogios ou incentivos como recompensas e o ensino de condutas de controle e comportamentos alternativos, com treinamento em controle cognitivo de pensamento (BRASIL: GUTSTEIN, 2012; LOPES NETO, 2005; PINGOELLO, 2012; SCHUCHARDT, 2012; STELKO-PEREIRA, 2012. ESPANHA: CEREZO; MENDEZ, 2012).
Como ação específica nesta perspectiva, encontramos, na Espanha, o Programa Conscientizar, Informar e Prevenir - CIP (Concienciar, Informar y Prevenir) (CEREZO; MENDEZ, 2012), e no Brasil, os projetos antibullying propostos por Pingoello (2012) e Gutstein (2012).
Detalharemos a proposta brasileira de Pingoello (2012) por acreditarmos que explicita bem a perspectiva desse tipo de intervenção comportamental e diretiva.
A proposta de Pingoello (2012) constitui-se como um programa de formação docente e de alunos para a diminuição do bullying, elaborado, aplicado e avaliado em sua tese doutoral. As atividades formativas destinadas aos professores são organizadas em sequência e versam sobre diversos conteúdos:
Conceito e características do bullying. Usando o texto teórico do terceiro capítulo de sua tese que traz a fundamentação sobre o fenômeno, a pesquisadora sugere uma dinâmica de leitura e interpretação do texto e, como uma atividade de casa, a observação dos alunos na tentativa de identificar casos de bullying. Identificação. Os professores são levados a analisar as situações observadas,
refletindo sobre quais as ações deveriam ser tomadas por professores e alunos. Prevenção e intervenção. A pesquisadora propõe a leitura do quarto capítulo da
sua tese, com debate e análise de um caso observado em sala de aula. Esta atividade objetiva apresentar a Análise Comportamental aos professores, para que estes compreendam
[...] que todo comportamento é resultado de um estímulo antecedente, no caso do bullying, há a necessidade de deixar claro que o agressor age conforme os estímulos recebidos e a vítima reage aos estímulos emitidos pelo agressor, ambos estão condicionados aos estímulos antecedentes dos ambientes em que estão inseridos. Dessa forma, pode-se perceber que a intervenção deve ter como base a substituição de um estímulo pelo outro, um estímulo que gera um comportamento inapropriado pode ser substituído por um estímulo que gera um comportamento apropriado socialmente (PINGOELLO, 2012, p. 73-74).
Dificuldades para implantar um projeto antibullying na escola. Propõe-se o estudo do texto "Cómo insertar el enfoque escolar integral (EEI): El desafio de su implantación" (ORTEGA et al., 2006).
Conceituações das distintas formas de violência na escola. Propõe-se a leitura e interpretação do capítulo "Comprender la definición y el contexto de la violencia escolar" (ORTEGA et al., 2006).
Estudo e análise de casos. A pesquisadora juntamente com os professores volta a analisar situações, fazendo inferências sobre as possibilidades de intervenção e de prevenção.
Sugestões de ações antibullying. A pesquisadora propõe a leitura de parte do terceiro capítulo da tese - o item 4.3. "Propostas de procedimentos interventivos Antibullying" (PINGOELLO, 2012, p. 49), para que os professores pensem sobre atividades de intervenção a serem utilizadas em sala de aula.
Planejamento de ações educativas a serem aplicadas em sala de aula com os alunos. Como sugestões para este trabalho a autora indica: produções de vídeos, peças teatrais e pesquisas sobre o bullying; entrevistas com outros alunos; mesas redondas; construção de cartazes para disseminar informações; composição de músicas sobre o tema para apresentá-las em festival; produção de textos, poemas e/ou jornal informativo; leitura e análise de textos com posterior produção de textos; estabelecimento de um regulamento antibullying.
O programa também tem uma sequência de atividades destinadas à formação dos alunos (PINGOELLO, 2012):
palestra informativa com espaço para discussão, com segundo encontro para reforço das informações dadas na palestra e debates sobre casos;
elaboração de cartazes para transmitir os conhecimentos recebidos; uso de versões musicais para falar sobre o tema e transmitir mensagens;
leitura e análise do livro "Pretinha, Eu?", de autoria de Júlio Emílio Braz, com compreensão dos comportamentos de agressores e vítimas e de outras formas de ação;
pesquisa bibliográfica sobre o tema no mundo e pesquisa quantitativa com a aplicação de um questionário - na tese ele foi elaborado pela professora da sala
e pela pesquisadora, com três questões para os alunos aplicarem em algum responsável destes e depois tabularem e analisarem os dados;
exposição de vídeos para debater sobre aparências, realidade e opiniões próprias e alheias e para "Mostrar o mal que a discriminação e a exclusão podem causar às pessoas; perceber a presença dos conceitos do fenômeno bullying no vídeo; analisar a exclusão social pela ótica de quem é excluído" (PINGOELLO, 2012, p. 88);
produção de vídeo jornalístico pelos próprios alunos para transmitirem seus conhecimentos sobre o tema;
elaboração de um estatuto pela pesquisadora, a ser lido pelos alunos, em grupo, para que estes possam apresentar melhorias para o texto final a ser entregue para a direção aprovar em assembleia geral;
representação de uma peça teatral pelos alunos menos inibidos, escolhidos pelos professores, com texto elaborado pela pesquisadora (sugerido por um dos professores participantes).
Segundo Pingoello (2012) este programa mostrou-se efetivo para diminuir o índice de autores e alvos de bullying. A autora aplicou questionários antes e após o desenvolvimento dos encontros formativos com os alunos e professores, e a análise realizada mostrou diminuição nos índices tanto dos que percebiam as agressões, quanto daqueles que se reconheciam como alvos ou autores.
Destacamos que o programa apresentado é rico em atividades, mas não considera o aluno como protagonista, nem o professor, algo já evidenciado pela literatura internacional como tão importante para a melhoria das relações interpessoais e consequente prevenção ao bullying. É diretivo, centrado na pesquisadora. Professores e alunos aparecem como receptores, pois a autonomia para professores e escola pensarem a prevenção é reduzida.