BÖLÜM 2. TÜRK BORÇLAR HUKUKUNDA ĐBRA SÖZLEŞMESĐ
3.5. TÜRK ĐŞ HUKUKUNDA ĐBRA SÖZLEŞMESĐNĐN GEÇERLĐLĐK
No que se refere às expectativas de dirigentes e profissionais acerca dos andarilhos de estrada, verificamos a presença de relatos pragmáticos em relação à vida futura desses indivíduos. A justificativa apresentada pela maioria está relacionada ao fato de considerarem a errância dos andarilhos uma condição de vida irreversível na qual a opção por essa escolha tem que ser respeitada porque eles, segundo dizem, dificilmente se readaptariam no mundo sedentário. Considerando a opção pela errância como um dos modos de existência, é óbvio que as decisões dos andarilhos precisam ser respeitadas. Entretanto, a forma como foi colocada essa questão nos permite considerar que as instituições assistenciais se limitam em desempenhar apenas as atividades previamente estabelecidas, qual seja: banho, alimentação, pernoite e despejo para as ruas, rodovias ou cidades circunvizinhas após o tempo de permanência permitido de dois dias.
Como eu disse, é difícil. Primeiro porque não adianta o profissional que está atendendo querer encaminhar para tratamento porque a pessoa também tem que querer mudar... Mas, de um modo geral, eu não vejo o andarilho querendo mudar e a impressão que a gente tem deles é que eles gostam de ser assim porque acabaram se acostumando com essa vida de estar hoje aqui, amanhã em outro lugar. Então, a gente vê que eles não querem mudar e aí a gente respeita a decisão dele porque todos têm o direito de viver como bem entenderem (P1). A perspectiva que eu tenho é... que eles não se readaptariam à vida de antes porque, como eu disse, foi uma opção e a pessoa para tomar uma decisão, já faz parte dela... Mais fácil uma pessoa, assim, que está hoje na rua querer sair e voltar para a família que o andarilho... A sensação que eu tenho é que eles [andarilhos] estão fugindo de alguma coisa o tempo todo, do sistema que eles não concordam (P4).
É continuar acolhendo aqueles que passam por aqui com comida, roupas e pernoite porque não podemos e nem temos condições de fazer mais nada. Infelizmente, vejo que o futuro deles não será bom e acabarão morrendo pelas rodovias do país, alcoolizados, vem um veículo e atropela ou se suicidando pela vida miserável que vive. Tentamos, na medida do possível lhes transmitir uma palavra de esperança e fé na vida futura, mas o sofrimento deles é tanto que, nem isso, acho que conseguem mais acreditar (P5).
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Olha, como eles estão acostumados nessa vida, eles não querem mudar, eles querem continuar assim, eles mesmos não têm mais perspectivas de vida. Eles não têm mais ilusão, querem continuar nessa vida que eles estão. Eles não gostam de muita conversa não, são mais arredios. Eu acho que são pessoas que não tem mais esperança de futuro e vão morrer assim pelas estradas... (P6).
Se é uma opção de vida deles, eles não vão querer sair dessa situação. Então, eu não vejo muita perspectiva em relação a eles do ponto de vista de retorno à sociedade e acho que ficarão sempre nessa vida porque se é uma opção, eles vão permanecer assim... Se estão assim é porque querem ficar assim e aí é opção deles (P7).
Conforme podemos observar nesses relatos, as expectativas futuras em relação aos andarilhos apresentam certo conformismo - típico de uma prática assistencial caritativa - na qual as atividades se concentram em oferecer apenas serviços de caráter emergencial e isso acaba incidindo em todos os setores da atividade institucional cuja tendência, como vimos, é a objetificação e a sujeição de todos os usuários nela albergados indistintamente. Essas constatações são semelhantes àquelas apresentadas por Goffman (1974) ao salientar que, no contexto das instituições totais, a equipe dirigente tende a transformar o trabalho com pessoas em objetos devido à subordinação às hierarquias administrativas cujos corpos ficam à mercê do saber institucional que determina as operações a serem implementadas em cada indivíduo particular.
Segundo esse autor, cada modelo institucional contém um repertório de discurso moral específico que determina o comportamento dos internados a partir de uma visão funcionalista da vida, levando, consequentemente, a uma racionalização das atividades e um distanciamento social com os sujeitos institucionalizados, além de uma interpretação estereotipada deles como justificativa para o tratamento que lhes é imposto de forma disciplinar. Daí uma das possíveis explicações para a ausência de expectativas verificadas nos relatos de dirigentes e profissionais de nossa pesquisa em relação aos andarilhos uma vez que essa prática assistencial comporta, também, atividades racionalizadas, versão funcionalista da vida e distanciamento nas interações sociais com esses indivíduos. As
únicas relações estabelecidas se limitam à triagem investigativa visando os encaminhamentos futuros, seja para as instituições de saúde quando apresentam alguns problemas psíquicos ou orgânicos, seja para as estradas propriamente dita quando cumprido o tempo de permanência estabelecido.
Os relatos também indicam uma aparente contradição institucional entre os objetivos e as expectativas porque ao mesmo tempo em que descrevem como finalidade assistencial “ajudar” o ser humano em suas necessidades emergenciais, apresenta certa indiferença em relação aos próprios andarilhos de estrada quanto à vida futura. Ora, se os objetivos institucionais visam prestar um assistencialismo dito “humanizado” e acolhedor, como ficou enfatizado em alguns relatos sobre esse assunto, deveríamos esperar da parte dos dirigentes e profissionais algumas expectativas mais favoráveis pelo menos no que se refere ao próprio trabalho desenvolvido no sentido de acreditar que vida sempre pode ser possível mesmo nas condições mais impossíveis e adversas enfrentadas pelos andarilhos em suas experiências nas estradas.
Por outro lado, isso também pode estar relacionado com a própria estrutura institucional e aos procedimentos de controle sob a vida desses sujeitos em função dos objetivos exigirem certo procedimento administrativo no que se refere às regras pré- estabelecidas a serem rigorosamente executadas no espaço interno a fim de garantir a ordem e a soberania (Nascimento et al., 2009; Rosa, 2005; Vieira et al., 2004; Nasser, 2001; Rangel, 1987; Dornelas, 1987; Goffman, 1974). Nesse sentido, ao cumprirem as regras institucionais, tanto os dirigentes quanto os profissionais tendem a desempenhar atividades absolutamente técnicas que, por serem rotinizadas e de certa forma serializada, acabam por tornar o trabalho entediante cujo desdobramento é uma prática assistencialista funcional e fragmentada (Mota et al., 2009). Esses autores comentam, ainda, que um dos maiores desafios para a assistência social contemporânea é exatamente superar essa tendência
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pragmática dos serviços prestados cuja ênfase reside no conhecimento prático-operativo do
saber-fazer paramentado pela razão instrumental ao invés do saber-transformar que exige
um posicionamento crítico-reflexivo capaz de romper com essas atividades técnico- imediatistas relacionadas à formação profissional.
Além do desenvolvimento dessa cultura profissional do saber-fazer, é inegável a força das atuais determinações do capitalismo, cuja produção flexível, ancorada na redefinição das noções de espaço-tempo, exige pressa, agilidade, eficiência e eficácias das ações profissionais, num nítido movimento que cria sérios obstáculos às operações intelectivas que busquem apanhar as particularidades e singularidades do real numa perspectiva de totalidade (Mota et al., 2009, p. 193).
Snow e Anderson (1998) também apontaram observações semelhantes nos albergues assistenciais que acolhem todos os tipos de miseráveis na cidade de Austin na qual os dirigentes e voluntários não acreditam ser possível esses sujeitos abandonarem as ruas devido ao longo tempo de permanência nelas. As atividades desenvolvidas nos albergues pesquisados por esses autores incluem também uma assistência absolutamente funcional no oferecimento de sopa e pernoite, devolvendo esses sujeitos para as ruas na manhã seguinte pelo fato de ser a regra institucional da casa. De acordo com esses autores, esses procedimentos revelam, além de um distanciamento interativo dos trabalhadores com os usuários desses serviços, atividades rotinizadas que tornam o trabalho enfadonho e muitas vezes desanimador por serem repetitivos todos os dias, com as mesmas ofertas de serviços e os mesmos tipos de sujeitos.
Segundo Snow e Anderson (1998), isso pode ser explicado, em parte, na organização e disseminação dos serviços oferecidos na qual esses sujeitos são processados de maneira semelhante a uma linha de montagem impessoal e altamente estruturada cujo resultado é um nivelamento das diferenças individuais e um declínio na autonomia pessoal, levando muitos, inclusive, a um distanciamento institucional quando se sentem humilhados. Vale salientar aqui que no caso particular da realidade norte-americana, toda a formação profissional nessa
área de conhecimento está fundamentada na filosofia positivista sustentada por medidas instrumentais e técnicas estatísticas para validar toda a assistência social no desnudamento da realidade. Isso explicaria, por exemplo, a pseudo-ideia de neutralidade na relação interativa com os usuários desses serviços assistenciais.
No caso específico de nossa pesquisa, a impressão é que toda a equipe institucional aceita de forma passiva e conformista os protocolos burocráticos das atividades de trabalho a serem desempenhadas sem quaisquer questionamentos, se tornando, assim, uma prática de pronto-socorro assistencial junto aos sujeitos nela albergados. Isso explicaria, talvez, a resistência de alguns andarilhos em recorrer a esses serviços devido à forma impessoal e homogeneizante desses prestadores de assistência. Desse modo, condicionados a exercerem atividades emergenciais de pronto-atendimento e a cumprirem os procedimentos previamente estabelecidos pela instituição, não é de se estranhar a ausência de expectativas em relação aos andarilhos dada sua orientação ser altamente conformista com as mais variadas formas de desamparo e miséria.
Isso não significa dizer que o serviço social tem o dever e a obrigação exclusiva de solucionar por si mesmo os problemas das desigualdades e misérias presentes na sociedade contemporânea. Entretanto, se o serviço social pudesse pelo menos problematizar essas políticas assistenciais elaboradas para assegurar a sua demanda e manter essa população sob sua tutela, provavelmente encontraria alternativas para a potenciação da vida desses indivíduos, compreendida aqui como capacidade de criação, invenção e produção de outras subjetivações (Menezes, 2007).
Em outras palavras, o fato dos dirigentes e demais profissionais se inserirem em determinadas instituições assistenciais não lhes impede de agir politicamente a favor da afirmação da vida, sobretudo, quando assumirem seus papéis de potenciadores eticamente comprometidos com o social. Entretanto, isso exige uma visão mais ampla e crítica da
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realidade, além da ousadia de questionar o supostamente inquestionável ante as imposições do poder do Estado e do saber médico-político, abandonar a zona de conforto, desparametrizar o pensamento da razão instrumental, questionar os elementos de ordem e estabilidade para que seja possível encontrar outras saídas para os emaranhados objetivantes dessas práticas assistenciais e adquirir, quem sabe, melhores expectativas nas atividades desenvolvidas junto a esses indivíduos.