• Sonuç bulunamadı

B. Yezîd b. Muâviye’nin Veliahtlığına Karşı Hz. Hüseyin

III. Türkçe Literatür

Nós vamos ter que controlar sua língua”, disse o

dentista, tirando todo o metal da minha boca. Pedacinhos cinzas caem e tilintam na bacia. Minha boca é um filão principal em uma mina.O dentista limpa meus canais. Eu sinto um sopro de fedor quando eu me

engasgo. “Eu não posso colocar a jaqueta no dente ainda, o seu dente ainda está drenando”, diz ele:“Vamos ter que fazer alguma coisa com sua língua”, eu ouço a raiva subindo em sua voz. Minha

língua fica tirando os chumaços de algodão, empurrando as brocas, as longas e esguias agulhas.

“Eu nunca vi algo tão forte e teimoso”, diz ele. E eu

penso, como se doma uma língua selvagem, treiná -la para ficar quieta, come se embrida e sela uma língua?

Como se deita ela? “Quem diz que roubar um povo de

sua língua é menos violento que guerra?

Ray Gwyn Smith

Era ainda dia quando entrei no dark-room e comecei a observar um homem

moreno sem camisa encostado à parede. Ele estava com o peitoral à mostra, a camisa em um dos ombros, um cordão dourado no pescoço, uma calça colada ao corpo e com o botão aberto. Ele pegava em seu pênis enquanto se insinuava. Outro homem que se encontrava do meu outro lado estava também se insinuando com o pênis. Eu estava bem no meio dos dois, mas a uma distância que os impedia de interagirem comigo com outros sentidos que não o da visão. Fiquei algum tempo no dark aguardando acontecer alguma coisa para além daquela

cena que eu estava vendo. Algum tempo depois, o homem sem blusa sai do dark-room.

O dark-room é um compartimento escuro, localizado no andar inferior do cinema. Encontra-se entre um corredor onde ficam as cabines reservadas para as práticas de pegação e outro corredor menor que se bifurca em direção a uma sala de projeção para o lado direito,

para outro pequeno corredor para o lado esquerdo e para o lounge à frente. À noite, o espaço

possui regiões parcialmente escuras e outras em que é necessário empreender um exercício da visão de acomodamento ao processo de rarefação luminosa no local. A partir das 18 horas

alguns poucos espaços do dark possibilitam experiências ainda orientadas também pela visão

nas regiões de penumbra. Essas regiões ficam próximas às duas entradas da sala e são parcialmente iluminadas por pequenos feixes de luz vindos dos outros ambientes tornando-as menos escuras, abrindo espaço também para interações mediadas pela visão. Estrategicamente, escolhi ficar nesses espaços na maior parte dos meus breves períodos

“internamento” no lugar. Uma citação presente nessa pesquisa da antropóloga María Elvira (2007, p. 94) evidencia bem minha maneira de participar daquela ritualidade.

Tenho caminhado entre a escuridão e a penumbra, tenho ficado quieta. Tenho agüentado o calor e guardado silêncio, tenho bebido guaraná e cerveja, tenho jogado o copo no chão, tenho tentado participar. No entanto, não tenho me masturbado, nem tenho masturbado ninguém, não tenho feito sexo oral em nenhum dos rapazes nem tenho sido penetrada, não tenho efetuado todos os gestos que estruturam o ritual, nem pronunciado as pouquíssimas palavras que o complementam.

O “simples” trânsito de uma ponta a outra da sala já potencializa sentidos que são acionados pelo espaço. Se passar pelos corredores é quase que sinônimo de esbarrar em alguém, transitar pelo dark-room se configura também quase em um sinônimo de ser tocado de alguma maneira. O escuro e os sentidos que ele cria embaçam temporariamente a cortesia e a etiqueta da fachada mantida nos outros espaços. Se minha identidade está protegida do olhar e da possível reprovação do outro, parto da premissa de que posso fazer algumas coisas que provavelmente não teria coragem se eu conseguisse ver e ser visto pelas pessoas. Esse embaçamento das identidades abre espaço também para interações entre pessoas que eventualmente não aconteceriam em outros espaços onde houvesse uma possibilidade de leitura e avaliação dos marcadores sociais da diferença. Assim, pessoas consideradas muito feias, muito velhas, muito afeminadas ou que congregam todos esses marcadores podem

eventualmente no espaço do dark-room terem suas identidades preservadas, “aproveitando-

se” do escurinho para se não interagir diretamente com as pessoas, bater uma punheta enquanto ouve-ver-toca-é tocado em interações que na efervescência do momento desprezam a leitura e avaliação de alguns marcadores como raça, suposição de classe, idade, performance de gênero, estilo. Como não consigo ver nitidamente como são os potenciais parceiros para interação e como as interações se dão mais pelo reconhecimento tátil do pênis, do peitoral e das nádegas, interações podem acontecer por meio da avaliação tátil do tamanho do pênis e da bunda e da leitura de um peitoral desejável, considerado gostoso.

Já era noite quando me localizei em uma das entradas do dark e fiquei observando alguns corpos que estavam encostados às paredes, um ao lado do outro. Geralmente, só permanecia no espaço depois de tomar pelo menos uma lata de cerveja. A cerveja me dava coragem de inclusive transitar com as pernas menos trêmulas e o corpo menos rijo. Assim, fui percebendo que depois de um tempo de permanência no local a visão se acomodava, as pernas ficavam menos trêmulas e era possível andar pelo espaço visualizando movimentos de pessoas, contornos de corpos sem ser necessário o uso das mãos para “abrir o caminho”.

visualizar e distinguir suas aparências e o que eles faziam, outros homens optavam por comporem uma espécie de moldura espacial, localizando-se em uma região mais clara da sala que ficava próximo às paredes. Chamei essa primeira região de breu e a segunda de penumbra, como o fez Díaz Benitez (2007).

Meu corpo, como todos os outros, não passava despercebido naquele local, sendo mais visto por alguns por eu me encontrar geralmente em uma região do dark mais clara e de fácil reconhecimento da visão. Localizar-se na penumbra próximo às paredes abre espaço para interações mediadas também pela visão, possibilitando uma leitura e reconhecimento de alguns marcadores sociais da diferença, como raça, suposição da idade, performance de gênero e sexual, possíveis de serem lidos à meia-luz. Ficar nesse espaço também possibilita certo controle do corpo no lugar, consentindo ou obstando tentativas de aproximação por parte das outras pessoas que estão no lugar que geralmente se iniciam por meio da interação tátil. É comum, mesmo estando nessa região de penumbra ser pego de surpresa com uma mão na genitália, no peito, na bunda.

Muito embora alguns dos meus interlocutores tenham apresentado o dark-room como um lugar perigoso, associado a ocorrências de assaltos e ao completo desregramento das práticas sexuais não era isso que “via” em minhas breves imersões no dark. Em minha experiência no dark, sobretudo quando ia no período noturno ao cinema, eu era invadido por uma misto de sensações: calor, falta de ar, tensão, medo, tesão A cada nova ida ao lugar, meus

sentidos iam se acostumando com o cheiro forte65, com o barulho ensurdecedor, com a

possibilidade de não ver tudo o que eu desejava ver e com a possibilidade de ser tocado sem autorização prévia.

Ainda sobre os diferentes modos de apropriação do lugar pelos frequentadores do cinema, o dark-room também pode vir a funcionar como um espaço de interação entre homens que já se cruzaram em outros espaços do cinema e que por algum motivo não

65 O cheiro no dark-room era uma mistura de gala, com suor, cerveja e mais ao final da pesquisa com produtos

de limpeza. Os sons produzidos no local eram o som de um ventilador grande de parede onde o barulho do movimento de suas hélices ocupava todo o espaço produzindo efeitos inclusive no corpo. Os sons advindos das práticas de sexo oral, sexo anal e de algumas interações realizadas por duplas, trios ou grupos eram também ouvidos no lugar, porém difíceis de serem ditos. O silêncio das interações abria espaço para os ruídos presentes em uma comunicação verbal precária, para o barulho do entra e sai de pessoas, para sons codificados como sendo de tapas na bunda, de punhetas, de penetrações anais, de chupadas... A possibilidade de ver pouco criava uma certa ansiedade de interação imediata por meio do tato. Se nos outros espaços do cinema onde a luz viabiliza a leitura dos marcadores sociais da diferença as interações são constituídas a partir da fabricação de uma fachada e da gestão dela, no dark room essa fachada se não se dissolve por completa, ela encontra-se embaçada pela impossibilidade de ver tudo.

estabeleceram interação direta neles como pode ser o lugar preferido do cinemão para alguns frequentadores e ainda ser o lugar onde se transita apressadamente ou onde não se corre o risco nem de chegar perto.

Há também no espaço do dark, as pessoas que se instalam nos espaços considerados mais seguros (descritos mais acima) por possibilitarem um controle maior do corpo e das investidas que o corpo do outro pode eventualmente vir a fazer. Geralmente, essas pessoas ficam encostadas de costas para a parede e de frente ou de lado para as outras pessoas presentes na sala. Quando uma tentativa de aproximação se dá de forma bem sucedida vemos algumas pessoas masturbando outras ou sendo masturbadas. Também é possível observar duplas de casais que estão interagindo de alguma maneira e que sinalizam de algum modo que estão abertas para interações com outras pessoas, quando, por exemplo, enquanto uma pessoa está sendo chupada por outra se aproxima dela e começa a beijá-la ou a pegar no seu peito, ou na sua bunda.

As interações também se fazem por meio do sexo oral e anal, onde é possível vermos a cena a partir do que ouvimos sonoramente dos agentes envolvidos na transa. Tais interações são lidas a partir dos gemidos e das manifestações faladas no momento de uma interação, acionando nossa imaginação a criar cenas que do que possivelmente está acontecendo no lugar, mobilizando ou desmobilizando sentidos, atenção, tentativas de aproximação, tensão, nojo, tesão. O que se escuta por meio desses gemidos, dessas poucas palavras enunciadas, de alguns sussurros dos picos de tesão mobilizam também as plateias que se formam no espaço. É comum ver pessoas batendo punheta enquanto escutam ou se aproximam para tentarem ver alguma interação de sexo anal, oral ou grupal. Embora não tenha coragem de se aproximar dos corpos que estão interagindo ou de ter alguma interação mais próxima com outras pessoas no espaço é comum ver pessoas que em determinado acabam permitindo serem chupadas ou aparentemente “cheias de tesão” colocam o pau para fora e começam a se masturbar. No dark-room uma cena pode vir a mobilizar muitas outras.

Já para aquelas pessoas que estavam dispostas a praticarem todos os espaços do lugar, acompanhando ou participando efetivamente de suas interações que algumas vezes podiam envolver uma quantidade significativa de corpos, o que pode ser classificado como suruba ou sexo grupal havia a região do breu, onde as interações eram mediadas pela leitura, codificação e avaliação tátil. Quem estava mais distante, na região de penumbra, só conseguia ver movimentos de alguns corpos e escutar sons de penetrações, chupadas, “sons do desejo”

(“Deixa eu chupar teu pau, deixa”! – “ Ei, me come, vem”! - “Porra, que cacete gostoso”!) que produziam um clima de saturação sexual naquele lugar e me impedia tornava frustrantes minhas tentativas de confinamento daquelas interações em operações somente cognitivas de apreensão da realidade social. Operava naquele espaço outra possibilidade de leitura das interações que me colocavam em uma posição de não saber o que dizer sobre aquelas práticas, por acabar caindo no risco de fazer uma leitura experiências que eram eminentemente corporais a partir de modelos provenientes de um outro tipo de saber que estava preocupado com as classificações, interpretações, reduzindo, portanto, aquelas experiências ao registro formal da linguagem escrita.

Tatear no dark-room se constituía talvez em uma estratégia eficaz de sobrevivência do desejo em um espaço onde a visão, para funcionar, teria de passar antes por um processo de acomodação. As interações táteis acionavam nas regiões do dark-room uma “língua selvagem” (ANZAULDÚA, 2007), uma língua que se manifestava por meio do pega- pega no escurinho. Quem cruzava o espaço do dark passava por aquela espécie de leitura e reconhecimento inicial tátil. Era uma espécie de rito de passagem. A pressa em tocar, em pegar em outros corpos não dava espaço para a fachada, nem para a etiqueta, nem para a cortesia. A pressa, o pega-pega das mãos inquietas e apressadas em direção ao pênis de quem transitava pelo dark constituía um modo de operar dessa língua que por ser acionada pelas potências disruptivas do corpo era difícil de ser domada, o que não a destituía de saberes e códigos próprios de enunciação.

Utilizando a noção de língua selvagem (ANZALDÚA, 2007) como uma metáfora para pensar as interações que se dão no dark room, é possível que pensemos que tais interações por serem portadoras de sentidos e códigos próprios podem acabar viabilizando experiências diferentes das que ocorriam nos outros espaços do cinema, interações menos visuais e mais orgânicas. Uma língua selvagem não se fixa, escapando por todos os lados, na penumbra e no breu, estando parado ou em movimento. Agenciar uma língua selvagem, proveniente dos agenciamentos corpo-desejo, se configura em dar passagem aos devires minoritários que nos atravessam, dando passagem para possíveis experimentações. Esse tipo de “interação selvagem” pode abrir margens para interações específicas capazes de torcer a linguagem produzida pelos sistemas de representação e classificação produtores e mantenedores de uma fachada social onde o escuro, a proxêmica dos corpos, a efervescência produzida pelo lugar, a curiosidade, o desejo, o exercício de ver menos e sentir mais colocam o corpo em uma encruzilhada de sensações ambivalentes, cruzando desejo e medo sob constante tensão.

O olfato também agenciava interações entre os homens no dark. O cheiro funcionava como uma espécie de faro nas interações, orientando os agentes em seus deslocamentos. Deslocamentos que aconteciam a partir do que se sentia dentro do lugar. Cheiros de gala, suor e sexo agiam no dark abrindo espaço para possíveis interações ou enchendo os corpos de sensações aparentemente ambivalentes como tesão, nojo, mas que podiam ser sentidas simultaneamente. O cheiro poderia movimentar as pessoas de um lado para o outro dentro do dark como podia eventualmente dispersá-las para outros espaços do cinema.

O dark-room era um dos poucos lugares do cinema em a mistura dos corpos e a possibilidade de experimentação poderiam entrar em cena, embaçando a arquitetura da

fachada ou o que Oliveira (2016, p.56) chamava de economia performática do gênero66 onde

as interações nos outros espaços pareciam estar circunscritas.

No dark-room, o barulho ensurdecedor dos ventiladores, a aglomeração de algumas pessoas em regiões de difícil acesso, as constantes abordagens tátil, o forte cheiro de suor e gala não me possibilitava realizar um tipo de etnografia que não fosse sinestésica. “Sair de minha própria pele” ou me permitir habitar, mesmo que temporariamente, em zonas inseguras dentro do espaço talvez tenha constituído em um dos meus maiores medos em minhas experiências nos espaços do cinemão. Tive que, muitas vezes, entorpecer meu corpo com álcool e cigarro para ter coragem de entrar no dark. Por esse motivo, não consegui produzir uma etnografia no dark que informasse que sistemas de classificações e distinções operavam naquele espaço, via descrição densa, à la Geertz.

A saída foi então rastrear as linhas, os roteiros que só foram possíveis de serem

feitos fazendo também o trottoir, como dizia Perlongher (2008). Ratrear essas linhas de força

e intensidade produzidas pelo lugar não se configurava em defini-las ou interpretá-las, mas colocar-se sensível aos seus movimentos e às suas dinâmicas. No escuro do dark, a observação não era possível. A participação, quando acontecia, não me colocava tão nativo quanto meus interlocutores, mas me despia de uma pretensa “roupa de antropólogo” que me blindava às intensidades daquele lugar. Os incômodos, os medos, o desejo só me convencia que eu estava sendo perpassado por uma profusão de sensações que também pareciam configurar a experiência de outras pessoas naquele espaço, aproximando-me delas via sensação.

66“Processo que envolve atividades de leitura, adição, subtração, medição e aferição dos valores masculinos

postos em cena por cada uma das partes na tentativa de lhes conferir inteligibilidade e definir as posições a serem assumidos por cada uma das partes em interação.”

O dark-room, como um lugar que personifica o estranho, o outro, que incita esse contato/contágio mais próximo de corpos diferenciados, embaçando os marcadores das diferenças como raça, performance de gênero, classe em uma ambiência marcada pela

efervescência do sexo e pela rarefação da luz. O dark-room convoca dos curiosos que

espreitam o lugar, mas não se expõem aos seus efeitos, que deem língua a outros afetos que pedem passagem, comparado a um cartógrafo “atento às linguagens que encontra e devorando as que lhe parecem elementos possíveis para a composição das cartografias que se fazem necessárias” (ROLNIK, 1989, p.15-16). Ou talvez que consigam igualmente como um cartógrafo, tornar-se sensível à compreensão de uma profusão de línguas que se comunicam ao mesmo tempo e que, por ameaçar certas coerências comunicativas, se constitui em uma língua muda, um dialeto, uma língua menor.

Nas linhas que se seguem apresento a narrativa produzida como fruto dos meus encontros com dois dos funcionários do cinema, Carlos, o recepcionista e Nilmar, o faxineiro, e com três frequentadores do local, Edglê, Júlio e Eduardo, e as possíveis implicações desses encontros.