• Sonuç bulunamadı

B. Yezîd b. Muâviye’nin Veliahtlığına Karşı Hz. Hüseyin

VII. Kerbelâ Vak'asının Sonuçları

Elenco nesse tópico os corredores do Arena Cine como espaços que viabilizam interações específicas centradas no olhar e nos efeitos produzidos pela proxêmica dos corpos. Os corredores estão presentes em quase todos os espaços do cinema, funcionando ora como espaços de trânsito que põem os corpos em constante perambulação, ora como espaço de interações fugidias, ora como lugares de demarcação de posições, funcionando como vitrinas de exibição, de insinuação e de produção de diferenças que orientam a dinâmica dos desejos. O espaço do cinema é perpassado por esses pequenos espaços que possuem dinâmicas

próprias no que tange aos tipos de interações que eles podem viabilizar. Os corredores como um espaço de passagem, que estimula o trânsito tem seu uso-projeto ressignificado no cinemão, sendo apropriado por meio de usos diversos. Esforçarei-me para apresentar alguns.

Um rapaz que estava com uma blusa um pouco levantada e que encenava uma performance afeminada encontrava-se na porta de uma das salas de exibição assistindo a uma cena de sexo anal entre dois homens. Consigo ver que são dois atores brancos e que ambos encenavam uma performance masculina. O que estava sendo penetrado encontrava-se em uma posição por cima e de costas para o que penetrava, mas de frente para a câmera, possibilitando com que víssemos melhor seu corpo. O que o que estava sendo penetrado tinha alguns pelos no corpo e na cena era mais ativo do que o que o penetrava, no sentido de ser mais atuante na

cena. Assim, os papeis dos atores e os modos eles estavam sendo encenados “torcia” a rigidez

da classificação bicha x bofe, ativo x passivo que comumente cria correspondências entre a performance de gênero e o desempenho sexual.

O passivo não tinha trejeitos, pelo contrário sua aparência e performance

constituíam uma imagem de um “macho natural”. Não só os pelos, o tipo físico, os

movimentos que ele fazia enquanto sentava no cacete no outro e sua performance como toda desassociavam de modo evidente as representações construídas a despeito da passividade no contexto das relações homossexuais. Pensar o ativo como sendo o macho, viril, dominador, o que come, e o passivo como sendo o afeminado, dominado, não se constituíam nas formas mais apropriadas de compreender as interações entre os homens exibidas tanto na tela como no entre dos corredores.

Nesse instante não via ninguém interagindo com o rapaz aparentemente afeminado que observava a cena exibida na projeção entre a porta da sala de exibição e o corredor. Ele permaneceu sozinho por algum tempo naquela posição ou transitando por entre os corredores e outros espaços do cinema acompanhado de outro rapaz que parecia ser seu colega pelo tipo de interação que evidenciavam. Ambos eram jovens, aparentando em média uns vinte e poucos anos. Eles estavam vestindo shorts bem colados ao corpo que deixavam transparecer o tamanho de suas bundas, que por sinal eram grandes. Um deles usava uma blusa com um nó amarrado na cintura deixando a barriga à mostra. Quando me aproximei de um deles pude observar que sua voz era fina. Percebi também que um deles fazia a sobrancelha, deixando rosto com uma impressão feminilizada. Ele e seu colega transitavam

pelos corredores, em alguns momento, sem blusa e com os shorts colados ao corpo

As descrições nos dão pistas interessantes de como a masculinidade se organiza

nesses espaços. Embora “o discreto” possua lugar de destaque nessa arena, sua posição de

privilégio nunca pode ser pensada isoladamente dos tipos de interações que acontecem nos corredores do cine. Ser afeminada, mas ter uma bunda grande ou ser considerada bonita ou até mesmo saber dar o close certo, utilizando-se de códigos que camuflem, mesmo que temporariamente os trejeitos, a voz, pode possibilitar certo grau de visibilidade e ascendência na escala da pegação seja nos corredores, como nos outros espaços do cinema. Sem contar que é importante que se diga que em geral são algumas afeminadas por meio de suas conversas nos corredores, falando um pouco mais alto, cantando, interagindo com alguns funcionários, fazendo algum comentário em voz alta, que reinventam essa arena, escancaram a ficcionalidade do macho natural. Elas são capazes de brincarem de ser macho, de mudarem de voz, de mudarem de postura, mesmo que temporariamente, de vestirem roupas que façam alusão a esse tipo de identidade, como estratégia para pegar ou ser pega por alguém. Os corredores são as vitrinas do cinemão. O espaço de apresentação do produto. O lugar para dar o close certo.

O espaço, assim, era usado como estratégia de espacialização. Algumas pessoas utilizam as paredes laterais de alguns corredores para encostarem-se, observando e sendo vistas pelos que transitavam pelo lugar, quase que como vendendo seu “produto”. Tais práticas de espacialização se davam a partir das práticas de apresentação e insinuação que os atores manipulavam com os códigos disponíveis para a sedução próprios daquele espaço e daquela circunstância. Ficar mexendo no celular encenando desinteresse, demarcar uma posição, ficar se insinuando por meio do olhar, insinuar algo por meio do toque na genitália, se esbarrar propositadamente com os corpos que transitam eram algumas formas de interagir em um espaço de constante movimentação.

Os corredores além de funcionarem como espaços de apresentação e insinuação dos corpos funcionam também como espaços de fricção dos corpos. É no trânsito constante dos corpos, se deslocando de um lado para o outro, entre os espaços do cinema, que as fricções se tornam inevitáveis. Essas fricções tanto podem ser intencionais, sinalizando interesse, expectativa, tesão no corpo do outro, como não intencionais, explicitando que se esbarrar se configura em uma consequência de passar por aquele lugar. Algumas vezes tive de passar nesses corredores me apoiando nas paredes para não me esbarrar em alguém, pois à noite devido a pouca iluminação do lugar e às cores escuras das paredes ficava difícil de passar por esses espaços sem cruzar pelos corpos que lá transitam.

Em outro momento, ouvi o mesmo rapaz que estava mais acima assistindo ao filme falando para seu suposto colega que o que ele estava cansado. Ele disse para o colega: “Bicha, eu tô cansada”. Pouco antes disso o vi em um dos corredores envolvido em uma cena onde ele estava de costas sendo cortejado e ao mesmo tempo roçado por um homem mais velho e que encenava uma performance masculina. A performance feminilizada do rapaz parecia não incomodar o homem que parecia exibir o produto (a bunda grande do rapaz) em um misto de satisfação e tesão. Ele cochichava no ouvido do rapaz e havia também outros dois homens no entorno deles no pequeno corredor ocupando outros papeis naquela cena, os voyeurs. O tempo que estive observando não vi nada para além dessas interações que se expressaram pelo olhar, pelas insinuações e pelas fricções e sarrações. Beijo, penetração, felação e punheta são interações incomuns nos espaços dos corredores. As interações nesses espaços são geralmente interações mediadas pelo olhar, pelas fricções e sarrações, que acontecem em número menor. Já houve vezes de eu enquanto passava pelos corredores ser pego de surpresa com alguém passando a mão no meu pau ou comunicando algo pelo olhar ou mesmo interagindo por meio de sons desejantes, expressos com a língua como em um movimento de respiração feito somente pela boca.

Um homem de óculos estilo Ray Ban estava na extremidade de uma cabine do

corredor que dá acesso ao dark room. Ele começou a se insinuar para mim pegando no pau

em movimentos sutis e descontínuos. Depois de não conseguir nenhuma resposta de minha parte, sinalizou com a cabeça, convidando-me para entrar na cabine. Aceno também com a cabeça e um sorriso que não e ele responde com um legal e um sorriso e vai embora.

Esse corredor, localizado próximo ao dark-room, é certamente o corredor do cinema onde as interações são mais intensas, seja porque ele se localiza próximo ao dark e nele se encontrem quatro cabines, seja porque nele se opera uma dinâmica diferenciada dos outros corredores do arena. Por vezes, vi formarem-se nesse corredor um estirão de homens encostados na parede e enfileirados observando quem passava por ali, criando uma ambiência de silêncio, insinuação, expectativa e cálculo das melhores possibilidades de interação, diga- se de passagem, de uma leitura, codificação e seleção dos corpos mais desejáveis. Ficar parado nesse corredor se configurava em uma estratégia interessante da pegação no corredor, pois possibilitava o ver e ser visto pelos outros frequentadores do cinema, funcionando como uma espécie de vitrina de exibição daqueles corpos e como uma espécie de rito de preparação

para as intensidades que perpassavam outro espaço do cinema: o dark-room.

Quando estou saindo do cinema, enquanto lavo minhas mãos com álcool em gel observo que os dois rapazes descritos no início da narração estão conversando com o

recepcionista e um deles interage com o amigo se referindo a mim da seguinte maneira: “Até que ele é bonitinho, só é muito sério”. Quando cruzo a roleta de saída olho para trás e eles estão olhando-se em um espelho que fica entre a roleta de entrada e a de saída. Dão tchau para mim e eu os cumprimento. Aproveito a ocasião para dizer que estou fazendo uma pesquisa acerca dos cinemões e pergunto a eles se eles topariam me conceder uma entrevista. Pergunto a eles o que eles fazem e o que já viram no cinema e eles me respondem que vão ao cinema para satisfazem seus desejos sexuais, mas que também o cinema tem sido um lugar onde eles fazem amigos e os encontram. Falam de algumas das experiências que já tiveram no Arena. Partilham comigo que há um casal heterossexual que frequenta o cinema com o intuito do homem ver a mulher fazendo sexo com outros homens. Um deles diz que já fez sexo com mais de doze homens em um dia e que quando está lá não sente o tempo passar. Falam que um conhecido adquiriu HIV no cinemão e narram um pouco do processo. Dizem que o cinemão vicia e que as relações não duram para além do espaço onde acontecem. Um deles diz que já namorou pessoas que conheceu na sauna, espaço também frequentado por eles, mas que no cinemão não é lugar para encontrar relações mais duradouras.

Os corredores são espaços que circunscrevem todo o cinema. Eles têm um formato labiríntico que fazem com que a experiência de praticar o cinemão se constitua também a partir da mobilidade, mas não só isso. Alguns fragmentos descritos acima nos apresentam os diferentes usos que esses espaços podem vir a assumir, usos que embora transitórios, evidenciam estratégias de espacialização e interação. Na primeira descrição o aparentemente simples fato de estar parado no corredor e de costas possibilitou ao jovem ser alvo de olhares tanto reprovadores como apreciadores que culminaram em uma interação de sarração com outro cara mais velho. A frase proferida também por ele ao seu colega: Bicha, eu estou cansada! (pois ele se encontravam a bastante tempo andando entre um corredor e outro) expõe outro uso social daquele espaço, sua função de passagem, de trânsito, de constante movimentação que se dá concomitante às investidas intencionais ou não intencionais de fricção entre os corpos que dificilmente não se esbarram uns nos outros. Quando tais fricções não são intencionais é comum ouvir pedidos de desculpa por umas dos atores sociais envolvidos. As estratégias de espacialização utilizadas pelo o rapaz de óculos Ray ban enquanto se insinuava para mim evidenciam por meio da demarcação espacial outro possível uso do lugar. Na minha inserção nesses espaços os corredores poderiam ser eventualmente vitrinas de apresentação e insinuação dos corpos, espaços de passagem e fricção dos corpos, como espaço de demarcação sócio espacial. As diferenças entre o primeiro e o terceiro uso podem ser tênues e se interpenetrarem, porém possuem dinâmicas específicas

que dependem do que a arquitetura e os sentidos dos corredores possibilitam, que muda de um corredor para o outro.

Figura 17 - Corredor do Cinema.

Fonte: Próprio autor.