O método de abordagem que proporcionou as bases lógicas dessa investigação foi o indutivo, partindo-se da observação de casos concretos confirmadores dos impactos provocados pelo Programa de Microfinança Rural do Banco do Nordeste nos negócios e na vida dos seus beneficiários na comunidade de Xique-Xique, localizada no distrito de Domingos da Costa, pertencente ao município de Boa Viagem, na mesorregião dos Sertões Cearenses, distante 234 km da capital.
A pesquisa consiste em observar, analisar e interpretar determinadas variáveis consideradas importantes na representação das possíveis transformações de ordem econômica e social ocorridas, e que podem ser atribuídas à exposição dos agricultores ao Agroamigo. Trata-se, portanto, de uma investigação de natureza descritiva, desenvolvida na forma de estudo de caso.
Os resultados desse estudo de caso resultaram em um diagnóstico socioeconômico dos agricultores familiares beneficiados com o microcrédito rural, onde foram evidenciados os efeitos da política pública em referência nos negócios das unidades familiares, nas condições de vida dos seus beneficiários e suas implicações no combate à pobreza rural, que é a premissa principal do Agroamigo. Para tanto, foram perseguidos os objetivos específicos que constam do desenho do Programa, verificando-se em que medida eles foram ou não alcançados.
Os dados e informações utilizadas no processo avaliativo foram obtidos por meio de uma pesquisa de campo, valendo-se da técnica de coleta de dados por meio de questionários aplicados aos beneficiários do Agroamigo na comunidade de Xique-Xique. Adicionalmente, como subsídios teóricos para a discussão dos principais temas abordados no decorrer do trabalho, foi realizada uma pesquisa bibliográfica por meio do suporte de livros, artigos, dissertações e teses pertinentes ao tema. Realizou-se, ainda, de forma complementar, um levantamento de informações oficiais divulgadas pelo Banco do Nordeste, órgão regulador e promotor do Agroamigo.
Desse modo, foram utilizadas abordagens quantitativas e qualitativas, com o propósito de agregar ao estudo, elementos capazes de assegurar uma eficiente compreensão e interpretação dos principais fenômenos que se pretende verificar.
A escolha da comunidade de Xique-Xique como base para a seleção do espaço amostral é explicada pela sua representatividade, em termos do número de contratos firmados na modalidade Agroamigo, no município de Boa Viagem - CE, destacando-se como a localidade que contraiu o maior número de financiamentos no período compreendido entre o ano de lançamento do Programa, em 2005, até meados de 2013. Já a opção pelo município de Boa Viagem se deu, sobremaneira, pela perspectiva de maior articulação com alguns mediadores do Programa e os beneficiários desta política de microcrédito rural, haja vista o trabalho realizado em meus dois anos de serviços prestados na agência do Banco do Nordeste localizada naquela região.
A seleção do espaço amostral consistiu na identificação, através da interlocução com os principais atores do ambiente institucional envolvidos com a concessão do crédito, dos agricultores da comunidade de Xique-Xique expostos há algum tempo ao Agroamigo. Desta forma, foram selecionados os mutuários que tinham contratado duas ou mais operações pela metodologia de microcrédito rural do Banco do Nordeste, com o propósito de respeitar um tempo mínimo de maturação do empreendimento e viabilizar a análise dos impactos socioeconômicos produzidos pelo Programa para o público em foco.
Importa destacar que, a partir de 2012 o Agroamigo ampliou o seu escopo de atuação, antes limitado ao atendimento dos agricultores enquadrados no Grupo B do Pronaf, passando a financiar os demais grupos do Pronaf, exceto A e A/C. No entanto, esta investigação se limitará ao público de mais baixa renda do Pronaf, ou seja, os do Grupo B.
O período considerado na identificação dos financiamentos que formaram a amostra foi aquele compreendido entre o ano de lançamento do Agroamigo, em 2005, até meados de 2013. Objetivou-se, com isso, obter o maior número possível de observações para o estudo, tornando os resultados mais precisos. Assim, dos 51 (cinquenta e um) clientes identificados como beneficiários do Agroamigo e pertencentes ao Grupo B do Pronaf, naquela comunidade, 31 deles já havia renovado pelo menos uma vez a operação. Dos 31 pontos de observação que poderiam constituir a amostra do presente estudo, 25 deles participaram das entrevistas, haja vista que, no período em que a pesquisa de campo foi realizada, 2 (dois) deles já não viviam mais na localidade e outros 4 (quatro) estavam ausentes.
Considerando que a investigação tomou como base a verificação do alcance dos objetivos do Agroamigo na comunidade de Xique-Xique, e sendo o combate à pobreza no
meio rural o principal propósito do Programa, foram verificados, ainda, alguns parâmetros sinalizadores de exclusão social naquela comunidade.
O conceito de pobreza utilizado neste trabalho é o mesmo empregado por Lemos (2012), sendo este fenômeno abordado em seu sentido lato, com dimensões que perpassam os indicadores de privação de renda monetária e ativos produtivos, normalmente utilizados nos métodos convencionais de aferição de pobreza. Assim, em conformidade com o autor,
tenta-se entender pobreza ou exclusão social como um estado de privações por que passam as famílias tanto de renda monetária (como convencionalmente são medidos os indicadores de pobreza) como de privação de acesso a serviços essenciais necessários ao usufruto de uma vida com um mínimo de dignidade. (LEMOS, 2012, P.80)
Para aferir os padrões de exclusão social em Xique-Xique, utilizou-se o Índice de Exclusão Social (IES) criado por Lermos, o qual consta de sua obra intitulada Mapa da
Exclusão Social - radiografia de um país assimetricamente pobre. Ressalte-se que, para a
construção do IES, foram consideradas as informações de todos os integrantes das famílias dos beneficiários do Agroamigo, não somente os chefes de família que contrataram o microcrédito, perfazendo um total de 64 pessoas.
O IES é composto por três indicadores âncoras: Passivo Social, Passivo Econômico e Passivo Ambiental. O Passivo Social indica o percentual da população maior de quinze (15) anos que se declarou analfabeta. O Passivo Econômico, por sua vez, é aferido pelo percentual da população que sobrevive em domicílios cuja renda varia de zero a, no máximo, dois salários mínimos. E por fim, tem-se o Passivo Ambiental, que é obtido pela conjugação de três (3) outros indicadores: Privagua, que é o percentual da população que sobrevive em domicílios privados do acesso ao serviço de água encanada com, ao menos, um ponto de torneira dentro de casa; Privsane, que indica o percentual da população que sobrevive em domicílios que não têm acesso ao serviço de esgotamento sanitário ou, ao menos, de fossa séptica para destinar os dejetos humanos e o Privlixo, que mede o percentual de domicílios privados do serviço de coleta sistemática de lixo.
O Quadro 4 mostra, de forma esquematizada, os indicadores utilizados na construção do IES.
Quadro 4 - Organograma para a Construção do IES
Fonte: Elaborado pela autora a partir de Lemos (2012).
Cada um dos indicadores utilizados na construção do IES está associado a um peso obtido através do método multivariado de análise fatorial. Assim, a equação para estimar o IES tem o seguinte formato:
O indicador PASSAMBI, por sua vez, é definido da seguinte forma:
A análise dos dados obtidos com a aplicação dos questionários, os quais deram suporte para a aferição do IES na comunidade de Xique-Xique, bem como a verificação das possíveis alterações nas variáveis econômicas e sociais das famílias beneficiadas com o crédito do Agroamigo constituem o centro de análise da próxima secção.
IES = 0,35.(PASSEDUC + PASSECON) + 0,30. PASSAMBI
6 PERIL DA EXCLUSÃO SOCIAL E OS IMPACTOS DO AGROAMIGO NA