Bihruz Bey’in Safderun Alafranga Dünyasında Hastalıklar:
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4.3.4. Sosyal Hayatın Cinnetli Kaçakları: ġadan ve Deli Hikmetullah Filozof Efend
128 Tradicionalmente, como já se observou, o governo mexicano argumentava que os assuntos relativos a processos eleitorais e ao tipo e organização do sistema político doméstico constituíam temáticas sobre as quais atores internacionais não tinham legitimidade para emitir opiniões ou juízos. O governo se opunha, assim, à participação de estrangeiros em processos eleitorais e à criação de mecanismos supranacionais de verificação das eleições domésticas dos Estados (Benítez Manaut, 1996, p. 541; Bautista, 1995, p. 47).
Até o fim de 1993, o governo mexicano negava, por conseguinte, a possibilidade de aceitar observadores estrangeiros durante as eleições do ano seguinte, mas em razão do inesperado conflito em Chiapas, e da súbita e imensa presença de ONGs, congressistas, políticos de vários países e da imprensa internacional que o conflito suscitava, o governo teve, por fim, de ceder, abandonando a tradicional posição nacionalista e defensiva em favor de uma postura mais flexível e aberta que permitiu a presença de observadores eleitorais estrangeiros.
No Congresso dos Estados Unidos, as atenções já estavam voltadas para o México em razão da entrada em vigor do NAFTA, e as reações e críticas com relação ao surgimento do movimento zapatista e às respostas do governo mexicano não tardaram muito tempo. Um grupo de parlamentares conhecidos por suas posições “anti-mexicanas”, liderado pelo então deputado democrata Robert Torricelli, começou uma ampla campanha para vigiar de perto os direitos humanos e o processo político mexicano numa audiência realizada em fevereiro de 1994 (Benítez Manaut, 1996, pp. 542-3). As pressões internacionais, sobretudo de origem norte-americana, apenas se intensificariam depois desse episódio. Durante os primeiros quinze dias de março, o governo mexicano foi pressionado pelo Carter Center e pelo National Democratic Institute for International Affairs para que aceitasse a entrada no país de observadores estrangeiros e, em outro front, o governo Salinas enfrentava a pressão de organizações mexicano-estadunidenses, sobretudo da Califórnia, e até mesmo de alguns funcionários do governo Bush, como Bernard Aronson (ibidem, pp. 547-8). Segundo Benítez Manaut (1996), essa pressão estava ligada à ofensiva internacional que certos grupos civis mexicanos desenvolviam no exterior para buscar respaldo financeiro e político para suas atividades, da qual se destacava a aproximação entre seis importantes grupos civis mexicanos e funcionários do National Endowment for Democracy, em abril de 1994 (ibidem, p. 548).
Pela primeira vez um governo do México aceitava assessoria internacional no processo político-eleitoral doméstico e permitia a entrada de observadores eleitorais internacionais. O convite do governo mexicano para que a ONU participasse do processo
129 eleitoral de 1994 indicava a passagem de uma interpretação estrita da norma de não- intervenção em assuntos mexicanos para uma posição ainda ambígua, mas mais acessível (Covarrubias, 2001, p. 348). Essa flexibilização da postura do governo era uma resposta clara à pressão crescente tanto de grupos e partidos dentro do México, como de atores do exterior. Esta pressão, por seu turno, era gerada, por um lado, pela desconfiança dos mexicanos com relação à confiabilidade das eleições e, por outro, pelo temor, dentro e fora do país, dos efeitos potencialmente devastadores que uma nova crise pós-eleitoral, como a de 1988, poderia provocar num ambiente político já bastante convulsionado pelo conflito em Chiapas e pelo assassinato de Luis Donaldo Colosio.
A crise política desatada no país em janeiro de 1994 em razão do surgimento do levante zapatista se aprofundou no dia 23 de março do mesmo ano, quando Luis Donaldo Colosio, candidato do PRI à presidência, foi assassinado em Tijuana, Baja California, durante um comício eleitoral. O assassinato de Colosio evidenciava outra faceta da crise do sistema político mexicano: as lutas internas da elite no poder, pois ainda que legalmente o assassinato não tenha sido reconhecido como um crime político pelas autoridades mexicanas, a grande maioria dos analistas e boa parte dos atores políticos considerava que a morte tinha um significado político e havia sido orquestrada dentro das fileiras da elite do PRI (Benítez Manaut, 1996, p. 544-5; Crespo, 1999). Desse modo, às dúvidas sobre o processo eleitoral que evocavam a suposta fraude da eleição de 1988 somavam-se não só as incertezas com relação ao conflito em Chiapas, mas também as suspeitas e temores liberados pelo assassinato de Colosio que aprofundavam, portanto, a já grave crise política pela qual o país passava. Todos esses fatores contribuíram para a decisão do governo Salinas de aceitar os observadores eleitorais internacionais naquele ano.
Segundo Benítez Manaut (1996), esta concessão tática do governo Salinas ocorria em razão da inevitabilidade da presença e da pressão internacional: autorizados ou não pelo governo, os atores internacionais assinalados estariam presentes no país observando o processo político daquele ano (Benítez Manaut, 1996, p. 539)84. Aqui vale a pena observar o histórico da presença de observadores eleitorais estrangeiros nos processos eleitorais de 1994, 1997, 2000, 2003 e 2006 para se ter uma melhor idéia dessa grande presença e pressão
84 Em 1992, o Centro Carter já havia desenvolvido atividades de observação eleitoral nas eleições estaduais de
Michoacán sem autorização do governo mexicano (Bautista, 1995, p. 47), e para as eleições de 1994 enviou missões de observação eleitoral no início das campanhas, uma vez mais sem dispor da permissão do Estado mexicano (Benítez Manaut, 1996, p. 539), o que revela que, de fato, seria bastante difícil para o governo Salinas impedir a presença de observadores eleitorais estrangeiros no país sem incorrer num alto custo político e de imagem no âmbito internacional, sobretudo naquele momento em que o NAFTA apenas começara a vigorar, e que para muitos marcava o apogeu do projeto de modernização salinista.
130 internacional durante o processo eleitoral de 1994. Como pode ser observado no gráfico abaixo, 1994 foi o ano eleitoral que mais atraiu a presença de observadores estrangeiros. Nem mesmo a perspectiva de alternância na presidência, em 2000, e a disputa presidencial de 2006, a mais polarizada e conflituosa da história mexicana recente, atraíram tanto a atenção internacional85, o que reforça, novamente, nossos argumentos a respeito do papel da rede transnacional, da vulnerabilidade do governo Salinas, e da sua necessidade de fazer uma série de concessões táticas para preservar a imagem de sua administração.
GRÁFICO 4.2
Fonte: Dados fornecidos pela Subdiretoria de Processos Internacionais do Instituto Federal Eleitoral (IFE) em comunicação pessoal com o autor, em novembro de 2008.
Diante de tamanha pressão internacional que se avolumava, e das perspectivas eleitorais favoráveis ao PRI em todas as pesquisas de opinião, o cálculo do governo Salinas foi o de que era melhor abrir o processo político ao escrutínio dos atores internacionais, o que não só contribuiria para diminuir a possibilidade de um novo conflito pós-eleitoral como o de
85 Os processos eleitorais de 1997 e 2003 referem-se a eleições nacionais intermediárias para a renovação da
Câmara de Deputados, o que explica a menor presença de observadores eleitorais estrangeiros nesses anos.
943 397 860 180 693 0 100 200 300 400 500 600 700 800 900 1000 1994 1997 2000 2003 2006