A mudança na visão e foco de estudo sobre a produção escrita centrando-se na influência do contexto social e na importância do papel comunicativo da linguagem evidenciou a importância da abordagem de gêneros como instrumento de ensino (VEADO, 2008). Nessa direção, estudiosos33 da escrita em LE passaram a investigar a instrução formal em sala de aula baseada em gêneros textuais e a sua contribuição no processo de ensino e aprendizagem, bem como a sua influência nas práticas comunicativas do cotidiano.
Os gêneros são “textos que encontramos em nossa vida diária e que apresentam padrões sociocomunicativos característicos, definidos por composições funcionais, objetivos enunciativos e estilo concretamente realizados na integração de forças históricas, sociais, institucionais e técnicas” (MARCUSCHI, 2009, p.155). Pode-se enfatizar que “não são instrumentos estanques e enrijecedores da ação criativa. Caracterizam-se como eventos textuais maleáveis, dinâmicos e plásticos” (MARCUSCHI, 2002, p.19). Com base nesta afirmação do autor, cabe salientar que as características básicas de cada gênero devem ser estudadas para que os alunos possam delas se apoderar, sem perder a noção de que textos do mesmo gênero podem apresentar variações no estilo composicional, embora permaneçam como exemplares de construtos socioculturalmente produzidos, facilmente reconhecidos por quem os lê ou ouve.
Aguiar (2009) explica que os gêneros textuais são “instrumentos necessários para agirmos discursivamente (falar/escrever) nas diversas esferas da sociedade” (p. 28). Dessa forma, “a apropriação dos gêneros é um instrumento fundamental de socialização e inserção prática nas atividades interacionais humanas” (BALTAR, 2003, p.56).
33 AGUIAR, 2009; BALTAR, 2003; CRISTOVÃO, 2006; DELLI‟ISOLA, 2007, FERRARINI, 2009; HYLAND, 2004; MARCHUSCHI, 2002; VEADO, 2008; dentre outros.
Nessa direção, os diversos estudos realizados têm como premissa a existência de uma estreita relação entre a competência do aprendiz, manifestada na produção de texto e o seu conhecimento sobre os gêneros textuais. Nesse sentido, o aprendiz, observando os padrões discursivos, contextuais e linguísticos característicos deste gênero, é capaz de produzi-lo para alcançar um propósito comunicativo específico.
Ferrarini (2009) reconhece os gêneros como instrumentos para o ensino que podem propiciar a comunicação adequada em contextos que exijam o domínio de capacidades comunicativas específicas. Entretanto, muitas vezes, as práticas de ensino de escrita se restringem apenas a aspectos estruturais ou formais dos textos, como nos alerta Bezerra (apud CRISTOVÃO; NASCIMENTO, 2006). A autora argumenta que a não observação de aspectos comunicativos e interacionais leva os aprendizes e até mesmo professores a valorizarem mais a forma textual do que a sua função e, dessa forma, estes negligenciam o propósito comunicativo do texto. Marcuschi (2002, p.20) salienta que os gêneros textuais se “caracterizam muito mais por suas funções comunicativas, cognitivas e institucionais, do que por suas peculiaridades linguísticas e estruturais”. No entanto, o autor ressalta que, apesar dos gêneros textuais não se definirem por aspectos formais, não se deve desprezar a forma que também tem sua importância na produção textual.
Professores que adotam a perspectiva de ensino baseada em gêneros vão além do conteúdo, dos processos composicionais e formas textuais e reconhecem a concepção da produção escrita como instrumento para a comunicação com os leitores (HYLAND, 2004). Como o autor explica:
Na sala de aula, os professores que utilizam a abordagem baseada em gêneros focam em textos, mas não com um foco limitado da gramática descontextualizada. Ao contrário, os padrões linguísticos apontam para os contextos além da página, indicando as restrições sociais e escolhas que operam nos contextos específicos dos produtores do texto. Entende-se que o escritor tem objetivos e intenções, estabelece relações com os leitores, tem informações que deseja transmitir e as formas do texto são recursos utilizados para se alcançar esses aspectos. Em suma, a importância da abordagem baseada em gêneros se deve ao fato da integração de aspectos do discurso e contextuais do uso da língua que podem ser negligenciados quando o foco
é exclusivamente posto em estruturas, funções ou processos (HYLAND, 2004, p.18, tradução nossa).34
Portanto, articula-se aqui a perspectiva de ensino com base em gêneros textuais como forma de instrumentalização para que os alunos possam responder às demandas comunicativas em LE, especialmente aquelas pela produção textual (AGUIAR, 2009; BALTAR, 2003; MARCUSCHI, 2002; FERRARINI, 2009; VEADO, 2008). Nesse sentido, entende-se a importância da abordagem dos gêneros como suporte para as atividades de linguagem. Como afirmam Schneuwly & Dolz (2004, p. 75) “[d]o ponto de vista do uso e da aprendizagem, o gênero pode [...] ser considerado um megainstrumento que fornece um suporte para a atividades, nas situações de comunicação, e uma referência para os aprendizes." Nessa mesma direção, Cristóvão e Nascimento (2006, p.5) defendem e incentivam o ensino de escrita via gêneros textuais argumentando que:
o domínio dos gêneros se constitui como instrumento que possibilita aos agentes produtores e leitores uma melhor relação com os textos, pois, ao compreender como utilizar um texto pertencente a um determinado gênero, pressupõe-se que esses agentes poderão agir com a linguagem de forma mais eficaz.
Assim, reconhece-se que, através da observação das características principais e recorrentes em um dado gênero textual, feita através da análise do corpus, pode-se identificar as suas propriedades ensináveis quanto à sua forma de organização retórica e aos aspectos contextuais, linguísticos e discursivos usados em sua produção. Por meio destas análises, criam-se os modelos didáticos de gêneros (CRISTOVÃO, 2007) ou os padrões discursivos e linguístico-discursivos, como feito neste estudo, para facilitar a transposição didática de cada um deles, sem deixar de considerar que, embora já socio-historicamente construídos, os
34 In the classroom, genre teachers focus on texts, but this is not the narrow focus of a disembodied grammar. Instead, linguistic patterns are seen as pointing to contexts beyond the page, implying a range of social constraints and choices that operate on writers in a particular context. The writer is seen as having certain goals and intentions, certain relationships to his or her readers, and certain information to convey, and the forms of a text are resources used to accomplish these. In sum, the importance of a genre orientation is that it incorporates discourse and contextual aspects of language use that may be neglected when attending to structures, functions, or processes alone.
gêneros apresentam diferenças em sua composição, dependendo, principalmente, de quem os escreve, quando e para quem. Deve-se ressaltar, então, que o ensino de gêneros textuais requer preparo e cuidado para não veicular a ideia de que determinado gênero tenha “uma forma fixa, imutável e circula em um único domínio discursivo” (DELL‟ISOLA, 2007, p. 13). Cabe também asseverar, com base em Bakhtin (2006, p. 283), que “se os gêneros do discurso [gêneros textuais] não existissem e nós não os dominássemos, se tivéssemos de criá-los pela primeira vez no processo do discurso..., a comunicação [verbal] seria quase impossível.”
Portanto, pode-se concluir que a sala de aula de inglês pode ser um ambiente em que os alunos vivenciam a linguagem em situações diversas, a fim de prepará-los para as atividades interacionais, de produção de conteúdos e de comunicação do cotidiano e possam assim, agir com a linguagem de forma mais eficaz para atender aos propósitos comunicativos específicos de cada gênero utilizado.