As análises que fizemos das aulas do projeto, pensadas e planejadas para favorecerem a aprendizagem, a interação, o diálogo dos alunos com as ideias da ciência, levam-nos realmente à ideia de que professores que refletem na ação, sobre a ação e sobre a reflexão na ação, conforme sugere Schön (1995), buscam compreender suas ações e decisões pedagógicas, tornando-se pesquisadores de suas próprias práticas e desenvolvendo práticas pedagógicas mais significativas.
Nossa pesquisa também mostrou que a formação dos professores faz parte de uma construção coletiva de espaços de interação pedagógica. Isso foi evidenciado nas entrevistas, quando os professores relataram a importância do “outro” para o desenvolvimento como professor, bem como a importância do planejamento participado. Esse “outro” apareceu no papel dos colegas de projeto, que enriqueciam as discussões e os planejamentos das aulas, dentro das reuniões, no papel do professor supervisor e no papel da coordenação. A pesquisa mostra que quando existe interação e compartilhamento de experiências e saberes, as chances de o professor reelaborar saberes necessários ao exercício profissional são favorecidas. Isso foi relatado pelos professores nas entrevistas, inclusive no que concerne a formação da identidade docente, quando afirmaram que o projeto os auxiliou na decisão em ser professor.
Como já colocamos anteriormente, um ponto positivo mencionado pelos professores nas entrevistas refere-se às reuniões semanais, pois contavam com avaliação
compartilhada do grupo de professores sobre as aulas dadas, bem como com planejamento participado das futuras aulas. Essa dinâmica auxiliou no estudo e reflexão sobre as ações dos professores e colaborou com nossas convicções de que situações práticas, vivenciadas na formação inicial, podem subsidiar a produção de conhecimentos do professor. Para isso é indicado que essas situações da prática sejam analisadas criticamente e re-elaboradas a partir das discussões e reflexões ancoradas nas teorias que as sustentam, objetivando melhoria da prática e melhor entendimento do papel do professor em sala de aula. A problematização das concepções trazidas pelos professores, de suas experiências das aulas dadas dentro do projeto, e a mediação teórica introduzida no grupo pela coordenação do projeto, nas reuniões semanais que ocorriam, possivelmente permitiram e possibilitaram mudanças na forma de agir dos professores nas aulas analisadas.
Ao compartilharem de um ensino orientado por uma proposta de trabalho que prioriza o diálogo, as interações em sala de aula e a reflexão da própria prática, esses licenciandos dinamizaram a própria formação. Mesmo não tendo sido objeto de investigação nesse trabalho, ousamos afirmar que essa experiência contribui na formação dos professores que já estão em exercício da profissão e, também, com o aprendizado dos alunos da Educação Básica, que participaram das aulas nas escolas.
Retomando os resultados de nossa pesquisa, vimos que os professores haviam sido orientados a desenvolverem aulas interativas e dialógicas, e passavam por um processo de avaliação compartilhada nas reuniões semanais do projeto, que se aproximava do que Schön (2000) chama de ação-reflexão-ação. Observamos que os professores investigados, mesmo apresentando uma evolução quanto ao uso do discurso em sala de aula, se diferenciaram significativamente na forma pela qual faziam uso desse discurso e da forma como conduziam suas aulas. Isso diz respeito à particularidade de cada um, fazendo parte da subjetividade do professor, que segundo Tardif (2002), provém das histórias de vida, crenças e experiências familiares e escolares. Nesse sentido, a entrevista semi-estruturada auxiliou a captar essas particularidades, na busca em entender algumas ações dos professores.
A prática docente implica a construção de habilidades para a gestão da sala de aula, assim como também requer a mobilização de diferentes saberes diante das situações que surgem naquele ambiente. Os relatos dos professores mostraram que a vivência no projeto os possibilitou maior segurança quanto às decisões tomadas em sala de aula.
Os dados que obtivemos em nossa pesquisa podem servir de apoio na busca de melhorias nos cursos de formação inicial. Ao refletir sobre o conjunto de nossa análise sobre a formação de professores, observamos que, no processo de se constituir professor, ainda em formação, o espaço/tempo de Estágio de Docência pode ser considerado importante, pois pode oferecer maiores chances para o entendimento e a apropriação de teorias contemporâneas de ensino e aprendizagem. O projeto de iniciação à docência possibilitou, a esses professores, a reflexão das tendências contemporâneas de ensino e aprendizagem que ajudam a definir o trabalho do professor, mudando o olhar sobre a sala de aula.
Nessa perspectiva, os estudos de Vygotsky e Bakhtin influenciaram nosso trabalho, direcionando nosso olhar não só para o ensino, mas também para a aprendizagem, contribuindo para que o aluno tenha um papel mais ativo em sala de aula. Entendemos que os cursos de formação inicial de professores devem investir mais em momentos e/ou projetos que propiciem a discussão e problematização das teorias de ensino e aprendizagem.
Finalmente, voltamos o olhar para os professores em formação inicial pesquisados e para nós mesmos. Acreditamos que esse trabalho proporcionou transformações não só nesses professores, mas também em nós. O professor Felipe, durante a entrevista, vendo um trecho de sua aula B, diz ter orgulho de si mesmo, pelo fato de ter reconhecido elementos que outrora foram discutidos durante o tempo de vivência no projeto e, pelo seu processo de reflexão pessoal, passou a ver as interações e a dialogia como fatores fundamentais para o desenvolvimento da aprendizagem dos alunos.
De modo geral, as considerações que apresentamos não devem ser compreendidas como generalizáveis, mas como aspectos de nossa pesquisa que contribuem para o ensino. Para nós, a análise desses dados contribuiu de forma significativa no sentido da responsabilidade quanto ao planejamento e encaminhamento das aulas de ciências. No entanto, propiciar aos licenciandos, de maneira geral, no mínimo a evolução como a que foi percebida em Guilherme e Felipe, deve ser a meta de todos nós.