Grosso modo, os colonos consideram que as famílias vindas para o projeto
melhoraram de vida, especialmente quando se comparam aos “compadres que ficaram de fora”, que dependem ainda, do favor de algum patrão que lhes negocie uma terra
para plantar. Tende a ser consensual entre os colonos que o acesso à terra foi a grande ajuda que o DNOCS lhes concedeu. Essa gratidão mostra-se emblemática na resposta que um colono forneceu em um questionário do DNOCS
Extraído da ficha dos irrigantes, nos arquivos do DNOCS, em Paraipaba
Não se esquivam, contudo, a dizer que tiveram as vidas remexidas. No início pelo DNOCS, AGROVALE e CIVAC. É também ponto de convergência entre os colonos que a CIVAC foi a organização que trouxe grandes prejuízos para o colono, uma vez que “afetou o bolso e a moral do irrigante”.
Financeiramente, a grande maioria dos sujeitos, apesar de reconhecer a organização da cooperativa, considera que a entidade os prejudicou em demasia. Não apenas por ter um maior interesse em colaborar com a AGROVALE, mas, sobretudo, por não ter definido uma diretiva de assegurar a sobrevivência das famílias, que eles próprios haviam selecionado.
Do ponto de vista da moral, os colonos opinam que a conduta autoritária da
CIVAC os desmoralizava, subtraindo a “autoridade”74
dos chefes de família, debilitando, como no sentido proposto por Arendt (2007), a cadeia que conduz cada sucessiva geração a um aspecto predeterminado do passado. Esse sentimento de perda de autoridade, diante das mediações, é partilhado por algumas famílias como uma das causas da descontinuidade dos filhos com o trabalho nos lotes. É emblemático, nesse sentido, o depoimento de Dona Alpina, cujos três filhos trabalham em atividades de prestação de serviços em Paraipaba. Lamentando ter se obrigado a vender o lote, ela justifica a opção dos filhos, dizendo:
[...] era dum lado os técnicos e as assistente social do DNOCS, dizendo como a gente tinha que prantar, como tinha de cuidar da casa da gente e como tinha de se comportar, por todas as paragens do Projeto; pelo outro lado, a CIVAC (que na verdade era a merma coisa, pois o presidente era um colono, mas só porque tava no estatuto, quem mandava mesmo era o Z. F. do DNOCS) era quem decidia tudo das nossas produção. Era um casadinho deles tudo. A gente recebia a mão-de-obra, que era um dinheiro pra gente comer, até a gente receber o dinheiro dos produtos da gente. Os tomates que foram jogado na estrada, pensando o que? Prejuízo do colono. Se a gente num entregasse o que tinha colhido e fosse pegar a mão-de-obra, nada pra nós. Os filhos querem lá saber de seguir uns pais desse que se sujeitaram demais. Tinha ditadura lá por cima e aqui por baixo também.
Saudade de que? Prossegue dona Alpina para mostrar a irritação que sente, quando no Projeto, alguém refere-se a uma saudade daquele tempo:
Era uma fartura sem liberdade, aí eles foram se desestimulando. Eu tenho raiva quando o pessoal diz que tem saudade daquele tempo. A gente produzia muito, mas tinha que entregar a produção para a cooperativa e eles não tinham como vender tudo. Daí a gente tinha grande prejuízo, porque eles também não tinham como
vender” [...] Os filhos dos colonos num se interessaram em continuar porque eles
viam como os pais eram maltratados .
A dona Juçara que viveu essa fase de controle rígido sobre os sujeitos, na condição de filha de colono, se pronuncia com certa amargura quando evoca o passado. Dona Juçara refere um progresso de vida, mas sem esconder a decepção confrontada às expectativas
74 Por ser um conceito valioso para as reflexões deste estudo, a definição de autoridade proposta por Hanna Arendt orienta as análises realizadas, por postular que “a relação autoritária entre quem manda e o que obedece não se assenta nem na razão comum, nem no poder do que manda; o que eles possuem em comum é a própria hierarquia, cujo direito e legitimidade ambos reconhecem e na qual ambos têm seu lugar estável
[...]a gente veio do pior pro ruim, mas a gente via o pai e a mãe se contrariar muito [...] o negócio é que tinha muita conformação, assim porque eles diziam pior já foi, vamos esperar as milhora [...] tinha muita gente mandando na vida da gente e isso era o pior, porque pra nós, as mocinha e rapaz, a gente começava cuns flertes, ia se distraindo num namorin até se casar[...] quando casava que aí a gente tinha de ter as responsabilidade, aí que a gente via a dureza daquela vida [...] quando nasce os filhos como é que a gente pode querer pra eles uns destino igual aos nosso [...] vem de longe a vida sufrida do agricultor [...] como bem: a gente tem os lote, tem a casa, mas num tem dinheiro [...] se os filho num for trabalhar na rua, eles nunca tem dinheiro [...] trabalham só pra butar pra dentro, pra família”
Os depoimentos que evidenciam o peso da relação entre colonos e mediadores para descontinuidade dos filhos como agricultor familiar são mais partilhados por mulheres (mães). Já o sentimento de que foram lesados pela cooperativa é de partilhamento quase geral entre os colonos, basta dizer que nos dias de hoje muitos estão inadimplentes com o Banco, por conta de débitos não solvidos da CIVAC.
No mesmo questionário, em que o DNOCS faz uma ausculta sobre a opinião dos irrigantes acerca da institucionalidade que governava o Projeto, pode-se perceber, pela opinião do colono em relação à CIVAC, o quadro geral de desconfiança prevalecente entre os colonos daquela área irrigada.
As palavras são do Sr. Otávio, colono do D2, em 1981. Colhido da ficha dos irrigantes em arquivos do DNOCS, em Paraipaba.
Hoje, mais afoitos, pois menos sujeitos aos domínios da institucionalidade que, de início, os regia, os colonos verbalizam o que Seu Ojo de Perdiz, em 1977, apenas sugeria. Os mandos e desmandos da CIVAC são patentes nas falas dos colonos. Seu Agrião, por exemplo, quando perguntado sobre a conduta da CIVAC, ao dizer que os diretores se davam bem, indaga: gastando dinheiro de quem? Ele argumenta:
A maioria dos colonos queria sair da cooperativa. Eles queriam achar um jeito de sair fora. No começo ficava porque era sujeito, obrigado. A gente via a coisa errada. O presidente melhor que teve por aqui pegava o carro da cooperativa e passava a
noite num cabaré lá em São Luiz do Curu [...] por certo com o dinheiro da Cooperativa.
Já seu Mastruço e Sansão (ambos, colonos do D2) expressam, com suas falas, o quanto os colonos foram monopolizados e lesados financeiramente. Se tinha roubo?
Sempre aparecia roubo, poucas pessoas que tinha saldo. O colono levava de carrada de produção e não tirava saldo. A gente tirava dez litros de leite de manhã e ainda tirava em outro balde. Era umas vacas da Argentina, que comiam ração balanceada. Bem cuidadas davam até vinte litros de leite. Entregue na Cooperativa entrava no buraco de formigueiro, sumia. Por isso a descrença na Cooperativa (Mastruço). A gente tinha prejuízo. Nos lote se perdia tomate e macaxeira, por falta de comprador. As laranja quem comprava era o vendedor de insumo que colhia as fruta e mandava jogar na BR-222, pra dar uma satisfação a gente diziam que não vendia porque a laranja era azeda. O que se ganhava era menor era menor que os custos (Sansão).
Não se ouve no Projeto alguém que fale bem da Cooperativa. Os tempos da
CIVAC findaram “sem deixar saudades”. Ao contrário, deixaram lembranças de
prejuízos de ordem moral e material, além de dívidas bancárias. As lembranças da Cooperativa são muito negativas. Tanto assim, que a Cooperativa dos Produtores de Coco de Paraipaba (COOPROCOP), atual organização cooperativa do projeto, não consegue ter como associado sequer um terço dos colonos, pois apenas 23.37% destes pertencem à entidade.
Atualmente todos os colonos são, obrigatoriamente, associados ao Distrito (ADICP), como parte de uma diretriz do DNOCS, visando à emancipação dos Perímetros Irrigados. Quando as famílias se defrontam em comparações entre passado
e presente, se ouve com frequência que nos “dias de hoje”75
, quem mais remexe com a
vida dos colonos “é o Distrito e as políticas do Governo”, a exemplo do Fundo de
Assistência e Previdência do Trabalhador Rural (FUNRURAL), Bolsa Família, etc. Quando se tratam das políticas, as opiniões se dividem. Os pais que têm filhos em idade escolar, acham que este é um benefício indipensável. Os mais velhos, especialmente, os pensionistas, se de um lado, acham que os benefícios aumentam os
ingressos das famílias do projeto, de outro, se ressentem por incentivar “uma malandragem”, com repercussões negativas nos hábitos dos jovens, tendo, na
apropriação indevida do dinheiro dos mais velhos para gastar nos vícios”76, o exemplo mais referido.
75A expressão “dias de hoje” é recorrentemente usada pelos colonos para dar sentido ao tempo presente.
Quanto ao Distrito, muito embora haja um reconhecimento de benefícios decorrentes do trabalho de sua equipe, percebe-se, nas conversas soltas, a convergência de opiniões desfavoráveis, principalmente, porque “as assembléias
realizadas pela diretoria, têm como que um efeito anestésico” que conduz o colono a
aceitar as várias taxas que lhes são impostas para recompensa financeira de seus dirigentes.77