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D. Kanun Yolları

VI- SARHOŞLUK

Como vimos apontando ao longo deste trabalho, as experiências vivenciadas pelos jovens que participaram desta pesquisa sinalizam duas hierarquias sob as quais eles estão submetidos na interação com diversos atores sociais. Para iniciarmos a discussão desta categoria de análise vejamos como os jovens que participam dos programas de aprendizagem profissional são apresentados pelas instituições em suas páginas da internet:

Jovens em situação de vulnerabilidade pessoal e social. Menores carentes. Adolescentes em situação de risco bio-psico-social. Adolescentes oriundos de famílias vulnerabilizadas. Jovens sem perspectivas de vida. Jovens pertencentes a famílias de baixa renda. Jovens em situação de exclusão social. Jovens oriundos de comunidades de baixa renda. Jovens carentes. Jovens que pertencem a famílias com renda per capita de até ½ salário mínimo. Jovens deficitários financeiramente e emocionalmente. Jovens e adolescentes excluídos das políticas públicas. Jovens com comportamentos arriscados. (Informações retiradas das fichas de identificação das instituições)

Mais do que a definição de um público atendido, alguns dos termos empregados podem ser entendidos como noções socialmente construídas em relação a esses jovens. Estas noções, entendidas como uma construção simbólica de significados e sentidos formados em relação a um determinado objeto, sem pretender ser uma realidade independente, vão nortear focos de atuação no trabalho desenvolvido pelas instituições, o que acaba por definir determinados lugares sociais para os jovens. Como discutimos no Capítulo 1, algumas concepções relacionadas à juventude pobre pautam-se meramente em critérios econômicos, como no caso da renda per capita; ou em critérios socioespaciais, como no caso de pertencer a uma comunidade de baixa renda ou estar excluído das políticas públicas. Observamos que

encontra-se ausente, também, por parte das instituições de aprendizagem profissional uma leitura crítica pautada em uma análise que leve em conta a dimensão “construída” das condições vivenciadas pelos jovens atendidos pelos programas de aprendizagem. O fetichismo da economia, conforme aponta Souza (2006), prevalece, neste sentido, na compreensão do público atendido pelas instituições, onde a problemática social aparece subordinada ao economicismo.

O que queremos apontar com isso é que não encontramos por parte das instituições um esforço de contextualização e historicização em relação às condições sociais vivenciadas pelos jovens que fazem parte dos programas. Nem nas páginas instituicionais disponíveis na internet, nem nos diversos diálogos e apresentações presenciadas durante o trabalho de campo foi possível perceber reflexões que apontassem para o nosso contexto social pugentemente marcado pelas questões da desigualdade social. Séculos de exclusão dos setores mais pobres da sociedade ao acesso aos direitos sociais parecia não ser um elemento importante no momento de nomear as dificuldades e constrangimentos vivenciados pelos jovens. Neste sentido, entendemos que não fazer um resgate histórico de uma dívida social do Estado com os setores populares da nossa sociedade pode levar a equivocada interpretação de que vivemos em uma sociedade de oportunidades iguais, e de que o sujeito que vivencia uma restrição econômica, social e cultural não se esforçou o suficiente para conquistar o que lhe é assegurado. Ao lançar mão da dimensão construída da nossa desigualdade social, levada a cabo por meio do esforço de contextualização e historização, as instituições podem atenuar a responsabilização que parece recair em cima do jovem e da sua família sobre as condições socioeconômicas que vivenciam, e que alguns momentos foi observada durante a pesquisa. A ausência de uma reflexão crítica e política na fala das instituições acerca de um produção secular da pobreza no Brasil parece tornar o jovem responsável por sua própria condição social.

A despeito de uma abordagem socialmente e historicamente localizada, as visões de risco, vulnerabilidade social e carência aparecem em destaque nas apresentações realizadas pelas instituições. Fica em evidência a concepção de jovens dotados de uma espécie de

natureza vulnerável e facilmente influenciáveis pelo meio social ao qual pertencem, e que

apresentam comportamentos de risco e uma deficiência emocional, além da financeira. Como discute Iñiguez (2001), a idéia de natureza faz referência a núcleo duro, fixo e universal constituinte do sujeito, o que localiza no interior da pessoa as origens da sua experiência como sujeito, orientando seus comportamentos e experiência individuais. É a noção de carência que

aparece em destaque nesta referência à idéia de natureza, como podemos perceber na fala de uma das representantes das instituições:

O público que eu recebo hoje, por eu ficar também muito em sala, até para ter uma idéia do projeto como um todo e ver as modificações que eu tenho que fazer, acho que é um público extremamente deficitário, não só com relação a conhecimento, principalmente o português, a linguagem, a organização lógica, a organização pessoal, como também com relação ao próprio mercado de trabalho, a valores, a uma postura profissional que eles não têm, e até com relação a direitos e deveres seguindo a CLT. (...) E, além, também, da parte emocional do jovem. (Sandra, Grupo de discussão com os representantes

das instituições)

A representante anuncia o lugar da carência, a ser ocupado pelos jovens, relacionando- o tanto a aspectos educacionais quanto às questões emocionais, de valores e de organização pessoal. Em uma das reuniões do FECTIPA, esta representante já havia exposto este mesmo posicionamento em relação aos jovens que compõem o público atendido por sua instituição:

Atendemos um público com deficiências financeiras, emocionais e de situação familiar. Alguns jovens que atendemos não sabem nem onde estão as teclas do computador. Infelizmente, alguns deles nem faxineiros vão conseguir ser, tamanha as deficiências. (Sandra, Notas do diário de campo)

No contato com o campo de pesquisa, observamos que esta visão de jovens carentes ou deficitários se sobressai, sendo compartilhada pelas instituições e relacionadas, principalmente, à ausência nos jovens de certos atributos: maturidade, valores e princípios, responsabilidade, estrutura emocional, preparo, segurança e falta de perspectivas. O que se verifica é que as condições vivenciadas pelos jovens são vistas como não legítimas dentro daquilo colocado ideologicamente como ideal, ao mesmo tempo em que são naturalizadas, ou seja, nega-se a historicidade das relações sociais e das relações de poder que as constituem (Mayorga & Prado, 2010), pois justifica como individual uma questão relacionada aos privilégios sociais herdados pelo indivíduo. É esta reflexão que consideramos importante as instituições levarem em consideração, e que anteriormente discutimos sob o argumento da ausência de uma leitura crítica que abarque a dimensão construída da nossa desigualdade social na leitura e compreensão da condição social dos jovens que fazem parte dos programas. Sem investir nesta reflexão crítica o que sobressai é a responsabilização do sujeito, como fruto de uma perspectiva neoliberal de sociedade e relação entre indivíduo e Estado.

A construção dos lugares de incompetência e de pobreza subjetiva para os jovens leva em consideração as visões socialmente construídas em relação às suas famílias e aos seus lugares de origem. Como a maioria das instituições possui um recorte econômico, e às vezes geográfico, para a seleção do público a ser atendido, o fato de ser um jovem oriundo de uma

comunidade popular e/ou de uma família pobre parece ser compreendido sob o prisma das noções negativas e estigmatizantes associadas ao que entendemos como o habitus de classe precário (Souza, 2006) a que estes jovens pertencem. A precariedade econômica dos jovens passa a ser compreendida linearmente como carências naturalizadas, inventando-se um outro inferior ao se naturalizar sua subalternidade (Mayorga & Prado, 2010), surgindo no discurso das instituições sem nenhum questionamento crítico associado aos aspectos sociais e históricos do nosso contexto social (re)produtor de desigualdades sociais. Assim, os jovens passam a ser vistos como limitados, por influência da família e do meio social:

Agora, de qualquer forma, as expectativas deles são muito limitadas. Acho que a questão das possibilidades é da própria condição de formação da família e do meio. Porque ele, quando se pergunta para os meninos o que eles querem ser: “é pedreiro, é servente”. Normalmente ele está limitado àquele mundo dele. (Carlos, Grupo de discussão com os representantes das instituições)

O que se repõe, nesta perspectiva da carência, são os pressupostos higienistas da determinação do comportamento humano pelo meio social (Cruz, 2007a) e da patologização da família pobre (Patto, 1992), ao apontar esta e o meio popular como possíveis responsáveis pelas limitações vivenciadas pelos jovens, tornadas, neste sentido, parte da sua natureza. Como conseqüência desta naturalização o que se pode produzir é a cristalização dos lugares sociais destinados a esses jovens, impedindo a construção de práticas emancipatórias e a percepção destes não como “menos”, mas como produto de diferenciações sociais numa ideologia do gosto. A naturalização, neste sentido, pode servir para oferecer “menos” a estes jovens, como aponta um dos representantes das instituições: “Que é justamente isso, entendeu: não adianta você querer ir fazer pesquisa com as mulheres que lavam roupa na beira do rio e colocar tanque para elas lá, porque elas não vão usar” (Gustavo, Grupo de discussão

com os representantes das instituições).

Outro discurso invocado na noção de carentes, associada pelas instituições aos jovens pobres, é o da favela como lugar da falta e da carência (Cruz, 2007a), a partir do qual os seus moradores são vistos como subjetivamente pobres. Como discutimos anteriormente, a valorização negativa associada aos espaços populares e à periferia é transposta aos jovens, configurando-se como um preconceito contra a origem (Albuquerque Júnior, 2007), onde os estereótipos simplificam uma complexidade e dão origem a um esboço rápido e negativo do diferente.

A visão de aderência dos jovens à realidade pobre aparece para os representantes das instituições como um empecilho até mesmo para estes desejarem e sonharem em suas vidas, o

que torna necessário que alguém motive, crie desejos e gere demandas na vida destes jovens. Ora, nos questionamos se estes jovens de fato não sonham e desejam ou se seus sonhos e desejos estão sendo desconsiderados como válidos. Como aponta Santos (2004), em nome de experiências ditas hegemônicas o que se encontra em processo não é o desperdício da

experiência destes jovens? Os sonhos e desejos destes jovens estão inseridos em uma relação

de comparação com o que hegemonicamente deveriam ser, e, por isso, são desconsiderados. O distanciamento dos modos hegemônicos de sonhar e desejar esperado para estes jovens não parece ser percebido pelas instituições como, socialmente e historicamente, construído dentro de um habitus de classe específico, mas como produto de uma imanência. A natureza carente dos jovens, limitadora de sonhos e desejos, abre caminhos, portanto, para o trabalho das instituições de

Promover o menor carente. Salvar os meninos da situação de criminalidade, recuperando-os para a sociedade. Transformar o jovem em um cidadão bem sucedido. Contribuir e atuar para a formação de valores éticos e morais. (Informações retiradas das fichas de identificação das instituições)

O que vemos aqui é serem condicionadas formas específicas de intervenção sobre os jovens, visando adaptá-los aos valores ideologicamente criados pelas classes dominantes, indicando que o problema é dos indivíduos e não da sociedade. Neste sentido, a condição vivenciada pelos jovens parece fruto de suas escolhas, como se eles fossem os únicos responsáveis pela mesma. Desimplica-se o Estado para implicar o jovem neste processo.

Em parceria com o Estado, no desenvolvimento de uma política pública de trabalho e emprego para juventude, as instituições e as ONG’s envolvidas nessa pesquisa fazem da juventude pobre um campo de intervenção social (Tommasi, 2010), ao tomar os jovens pobres como matéria prima a ser moldada e salva de sua natureza carente. Como apontamos acima, os aspectos econômicos têm sido sobrevalorizados nos estudos acadêmicos para explicar a pobreza dos jovens, associando a ela diversas noções socialmente construídas, como a de carência. Em resposta a este viés interpretativo da pobreza, apresentamos os aspectos socioculturais e morais que sustentam a desigualdade social, como uma gramática complementar para entendermos os lugares ocupados pelos pobres na nossa sociedade, a partir da noção de habitus de classe. Nosso intuito foi o de romper com explicações e soluções que se ancoram no individualismo do sujeito, ao fazermos o convite para um debate crítico que leve em consideração a dimensão estrutural da sociedade. Contudo, percebemos que na relação estabelecida entre as instituições de aprendizagem profissional e os jovens desta pesquisa parecem ser privilegiadas as explicações e as soluções pautadas no indivíduo, ao

oferecer a eles oportunidades de serem salvos de suas carências. Isto é, se a explicação do problema é individual, a solução também será.

Consideramos esta oferta de oportunidades como uma proposta que segue a “lógica da oportunidade”, que pode ser entendida como um tipo de relação característica do Estado liberal, onde o sujeito para ser um “igual” deve saber aproveitar das oportunidades oferecidas igualmente a todos, devendo correr atrás, se esforçar, fazer a diferença na própria vida. Como aponta Souza (2009), o liberalismo pinta o mundo moderno como um palco de escolhas individuais ilimitadas. Oferecer oportunidades, ao invés de garantir direitos sociais, parece ser o papel desempenhado por estas instituições de aprendizagem dentro de um contexto social marcado pelo individualismo do sujeito e pela psicologização da vida, lugar em que os problemas sociais são cada vez mais tornados problemas pessoais (Crespo, 2009). Neste sentido, no campo de intervenção social da juventude pobre as instituições de aprendizagem profissional oferecem oportunidades aos jovens pobres para que estes possam ser salvos, e, com isso, integrados e adaptados à sociedade segundo os valores sociais hegemônicos, estabelecidos por outras gerações e que compartilham de habitus de classes distintos dos seus. Sendo a liberdade, aquilo de que os liberais proclamam-se arautos (Bobbio, Matteucci & Pasquino, 2004), e a igualdade de tratamento entre os indivíduos os princípios mais importantes do liberalismo, será, portanto, através do mérito individual que o indivíduo deverá alcançar a sua recompensa. A lógica da oportunidade sustenta-se na ideologia meritocrática, que defende a seleção dos mais aptos, tratando de modo igual aqueles indivíduos que são diferentes por origem social (Jesus, Arruda, Avelino, Cardoso, Costa & Lima, 2006).

Contudo, a lógica da oportunidade estabelecida com os jovens e a psicologização do seu habitus de classe, o que estamos compreendendo como a naturalização da carência, podem ser tomadas aqui como uma tendência e não uma unanimidade por parte das instituições, pois a crítica a esta forma de compreender os jovens que participam dos programas de formação profissional também se encontra presente:

(...) a gente trata e recebe esse jovem como um pobre coitado, como um miserável, isso não existe. A gente tem que mudar. A gente fala, às vezes, em quantos documentos a gente escreve ‘em situação de vulnerabilidade social’, essas coisas, quando se falava em menor. A gente tem que sair disso daí para encarar, e o educador tem muito desse papel. Você tem que receber numa situação de normalidade. É claro que financeiramente e sobre todos os aspectos, intelectualmente, em termos de educação ele tem um desnível extraordinário, mas como pessoa, como alguém que quer realizar um projeto, que quer uma oportunidade, ele é como qualquer outro. (Carlos, Grupo de discussão com os representantes das

Como no caso, também, em que os jovens são entendidos como vítimas do sistema social: “Agora, é um público que realmente chega com dificuldades de escrita, de leitura e de interpretação muito grande, mas que é fruto do sistema educacional. É uma vítima de um sistema educacional” (Francisco, Grupo de discussão com os representantes das instituições).

Queremos marcar, portanto, as diferenças de interpretação que encontramos para as realidades vivenciadas pelos jovens. Uma toma o que entendemos como o habitus de classe precário vivenciado pela juventude pobre como parte da natureza do indivíduo, em que os problemas sociais são tornados problemas do indivíduo. A outra lança mão de uma compreensão mais crítica, vendo os jovens como vítimas de um sistema social que se reproduz de modo desigual. Contudo, o que aparece de modo mais marcante é a primeira visão, a que patologiza e psicologiza a carência, onde as diferenças sociais e estruturais são tornadas diferenças pessoais, e que vai ser usada para justificar, dentro do modelo de parceria assumido pelo Estado brasileiro com as organizações governamentais e não-governamentais, a lógica das oportunidades e a ideologia meritocrática no campo de intervenção social da juventude pobre. Como um dos produtos deste processo, vemos configurar-se a defesa de uma ideologia do êxito e um trabalho da moral, em que a moral do indivíduo é trabalhada para que ele alcance o êxito (Crespo, 2009). Mas, para isso acontecer, faz-se necessário o interesse e o esforço do indivíduo em “agarrar” as oportunidades oferecidas a ele. Neste sentido, se o problema do jovem pobre é entendido como o de uma natureza carente, a solução possível para administrá-lo é oferecer oportunidades de salvação destes de suas deficiências, o que revela uma alternativa de resolver o problema focando-se no jovem como sujeito das oportunidades e deixando o sistema social desimplicado na construção de respostas. Ao Estado liberal, por meio de suas ramificações, cabe, nesta perspectiva, ativar, incentivar e apresentar oportunidades para que através do mérito individual o sujeito alcance o sucesso dentro de uma dinâmica em que se defende a igualdade de direitos para desiguais de fato (Valle & Ruschel, 2009). A ideologia meritocrática é mistificadora, dissimula a realidade, faz com que as diferenças sociais sejam percebidas como diferenças naturais, e justifica as posições sociais no esforço pessoal e não nos privilégios sociais herdados.

Nos capítulos 1 e 2 apresentamos como as políticas públicas de juventude e as políticas públicas de trabalho e emprego para a juventude têm sido, historicamente, desenvolvidas na perspectiva da salvação dos jovens pobres. Os riscos trazidos pelo tempo ocioso e a marginalidade em potencial tornam a juventude pobre um campo de intervenção social, fazendo dela um problema social a ser administrado e controlado pelo Estado e por outros grupos da sociedade. Na nossa pesquisa a perspectiva da salvação parece ser reforçada pelas

instituições, e seus efeitos e conseqüências são compreendidos pelos jovens que participam dos seus programas de aprendizagem profissional. Entretanto, consideramos que não se trata, nesta situação, de uma salvação da criminalidade e da violência, como aparece em outros contextos e estudos sobre a juventude pobre, mas da carência, que faz parte da natureza dos jovens pobres. O risco da pobreza, neste caso, não é o da criminalidade, mas o da carência. Neste sentido, a partir da visão que se tem do jovem pobre como carente, as instituições de aprendizagem oferecem a eles oportunidades de profissionalização e de inserção no mercado de trabalho, sob a justificativa do direito da juventude ao trabalho e do combate ao desemprego juvenil; vindo a contribuir, também, para a salvação do jovem pobre de uma natureza carente e para a sua integração e adaptação aos valores hegemônicos da sociedade. À frente, veremos como se articulam classe social e geração para a adaptação do jovem pobre a um determinado modelo de sociedade. Vale reforçar que o objetivo das instituições de aprendizagem que participaram da nossa pesquisa é o de garantir direitos, especialmente, o direito ao trabalho para o jovem e o adolescente, visando qualificá-lo e inseri-lo no mercado de trabalho. No entanto, identificamos que são configuradas práticas com o objetivo de trabalhar a carência dos jovens pobres, como caminho possível para integrá-lo ao mundo do trabalho e à sociedade. O trabalho da carência, como veremos mais detidamente nas próximas categorias, revela-se no privilégio da formação humana a despeito de uma formação técnica- profissional dos jovens, focando-se em um ensino aos jovens de conteúdos mais genéricos e, também, de formas de se comportar, agir, refletir e se relacionar de modo certo, digno e aceitável na vida profissional, e, sobretudo, na vida pessoal. O trabalho da carência é focado numa formação técnica precária e associada a uma formação humana que não visa apenas o ensino de comportamentos profissionais, mas, principalmente, de comportamentos pessoais e formas de agir que os jovens devem assumir em suas vidas. Neste sentido, o trabalho da carência é revestido de aspectos do trabalho da moral (Crespo, 2009), em que os valores pessoais e as habilidades sociais tornam-se partes da formação do trabalhador para o mundo do trabalho. Nas próximas categorias, discutiremos os contornos desta forma encontrada pelas