Dados de pesquisas realizadas junto à população jovem no Brasil (Abramo & Branco, 2005) apontam que o tema trabalho/profissionalização encontra-se em segundo lugar nas listas dos direitos mais importantes, das maiores preocupações e dos maiores interesses sinalizados pelos jovens pesquisados. Do ponto de vista das iniciativas públicas voltadas para jovens em municípios de regiões metropolitanas, Spósito, Silva e Souza (2006) apontam que o mundo do trabalho figura-se como a segunda área de maior atuação voltada para os adolescentes de 14 a 17 anos e como a terceira de maior atuação para a população de 14 a 29 anos. Percebemos, neste sentido, que o tema do trabalho encontra-se na pauta de interesses dos jovens, de suas famílias e dos atores sociais públicos e privados que desenvolvem programas voltados para esse público. Contudo, não é somente aos jovens que o tema do trabalho tem interessado e causado angústias atualmente, sendo possível considerar tal interesse dos jovens como um reflexo da importância deste tema para a sociedade contemporânea. A cada dia as pessoas têm gastado mais tempo e espaço de suas vidas
envolvendo-se em atividades de trabalho, seja ele remunerado ou não, formal ou informal, mas que, certamente, respondem às demandas pessoais e sociais dentro de um complexo contexto social que estamos vivenciando.
Na vida cotidiana, lugar em que as pessoas interagem, estabelecem laços de proximidade e de afastamento, e produzem diversos sentidos para suas existências, o trabalho é investido das visões de obrigação social (é preciso trabalhar para contribuir para o desenvolvimento da sociedade), de dever moral (é preciso trabalhar para ser considerado “bom”, pois o ócio é sinônimo do “mau”), de satisfação pessoal (é preciso trabalhar para satisfazer-se tanto materialmente quanto existencialmente) e de caminho para a integração social (ao lado da família e da escola, no mundo trabalho você aprende regras e valores sociais dominantes que dizem respeito à coletividade). No âmbito acadêmico muito tem se discutido sobre a centralidade do trabalho na vida dos indivíduos, desde perspectivas que apontam para o fim da sociedade do trabalho, até outras que sinalizam transformações dentro desta sociedade, recusando seu fim. Entendendo os jovens e o campo das políticas públicas de trabalho e emprego para a juventude inseridos nesse debate, consideramos importante apontar as discussões que têm sido produzidas em torno da centralidade do trabalho na nossa sociedade.
Em momento anterior deste trabalho vimos como o protestantismo ascético configurou-se como o parteiro do racionalismo ocidental, ou seja, da noção moderna de sujeito racional, produtivo e digno de reconhecimento social. De modo peculiar, podemos afirmar que a ética protestante, conforme aponta Weber (2003), contribuiu com sua associação ao espírito do capitalismo para transformar o significado do trabalho. No protestantismo ascético o indivíduo se vê liberto das amarras da tradição, das autoridades tradicionais e do privilégio dado pela honra militar. Ele passa a ser visto como igual a todos os outros, sendo que o lugar de destaque no meio social é algo que deve ser conquistado por meio do esforço individual e da afirmação de sua utilidade para a sociedade. Na ética protestante encontramos de modo basilar a crítica à ascese espiritual por meio da vida monástica, como era proposto pelo catolicismo. Assim, a maneira aceitável de viver para Deus passa a ser definida não pelo “orai e fazei o bem”, mas pelo cumprimento das tarefas do século, ou seja, o cumprimento do dever de cada indivíduo dentro das profissões seculares. Nesse sentido, a vocação para o trabalho representa a expressão de amor ao próximo e o caminho para satisfazer a Deus. A idéia de vocação surge como um ponto central no protestantismo ascético, uma vez que todo trabalho é considerado como digno perante Deus, sendo a profissão concreta do indivíduo interpretada como um dom especial na realização da
vontade divina. Assim, conforme aponta Weber (2003), era por meio da intensa prática profissional e da observação dos resultados colhidos que o indivíduo poderia assegurar a certeza da sua própria predestinação.
Iniciar a discussão acerca da centralidade da categoria trabalho no mundo contemporâneo nos fazendo valer de Weber tem relação com o percurso realizado no primeiro capítulo, no qual focamos nossas análises na compreensão da construção da dimensão simbólica da nossa desigualdade social. Aqui, também, queremos nos deter neste mesmo nível de compreensão, ao apontarmos como uma determinada produção ideológica e simbólica do trabalho sofreu contribuições das ideologias do protestantismo ascético. Com isso não queremos ingenuamente afirmar que toda a ideologia do trabalho sob o capitalismo decorreu do protestantismo, como pode ser erroneamente interpretado a partir do nosso ponto de inicial para abordar o tema do trabalho.
No mundo contemporâneo somos herdeiros desta concepção, inaugurada pela reforma protestante, de que “todo trabalho é digno”, de que “o trabalho dignifica o homem”. O discurso religioso protestante imbuiu o trabalho de uma função de “antídoto contra as tentações”, do trabalho como “a finalidade da vida humana”. Trabalhar e ser rico para Deus, não usar o dinheiro para o luxo ou o pecado, e evitar a vadiagem como fruto da riqueza ou do não cumprimento dos desígnios divinos foram princípios que favoreceram em grande medida o desenvolvimento de uma vida racional econômica e burguesa em determinadas regiões da Europa, de acordo com Weber (2003). Este é, portanto, o nexo apontado pelo autor entre a moral religiosa protestantista e o desenvolvimento do capitalismo em larga escala em determinadas regiões da Europa.
Esta noção do trabalho como um dever moral é, nesse sentido, um dos fundamentos que confere centralidade do trabalho na vida do homem, e que parte de nós compartilhamos, em alguma medida, hoje no mundo contemporâneo.
No contexto de pleno desenvolvimento do capitalismo e da formação de uma sociedade industrial durante o século XVIII, as contribuições da teoria marxista foram assaz importantes para o pensamento sociológico no sentido de transformar o trabalho em uma posição-chave. A estruturação da sociedade em torno do trabalho dava margem, portanto, para se pensar em uma sociedade do trabalho. A teoria marxista, contudo, além de contribuir para a idéia de centralidade do trabalho para a vida do ser humano, passou também a tecer duras críticas a essa sociedade e à apropriação do trabalho pelo capital. Antunes (1995) apresenta a distinção marxista entre trabalho concreto e trabalho abstrato que consideramos importante neste argumento da centralidade do trabalho:
“Todo trabalho é, de um lado, dispêndio de força humana de trabalho, no sentido fisiológico, e, nessa qualidade de trabalho humano igual ou abstrato, cria o valor das mercadorias. Todo trabalho, por outro lado, é dispêndio de força humana de trabalho, sob forma especial, para um determinado fim, e, nessa qualidade de trabalho útil e concreto, produz valores-de-uso”(Marx, 1971: 54). (p. 76)
Neste sentido, tem-se que o trabalho concreto é aquele que produz o intercâmbio entre o indivíduo e a natureza, que permite a criação de coisas socialmente úteis e necessárias. É o trabalho em que o indivíduo transforma a natureza transformando a si próprio. Este é o trabalho que produz o ser, que gera e mantém a vida humana, em que o ser humano se realiza em um ato criativo de transformar a natureza em algo útil em que ele se reconheça. O trabalho abstrato é aquele do “dispêndio da força humana produtiva, física ou intelectual, socialmente determinada” (Antunes, 1995, p. 76). É o trabalho da vida cotidiana, o trabalho alienado e despojado de criatividade, o trabalho colonizado pelo capital e pela produção da mais-valia. Ao lado da afirmação da centralidade do trabalho como produtor do ser humano, a crítica de Marx encontra-se justamente nessa colonização do trabalho pelo capital, onde a dimensão do trabalho concreto perde espaço para a dimensão do trabalho abstrato (Navarro & Padilha, 2008). Como afirmam os autores, apoiados nas críticas apresentadas por Marx, a sociedade capitalista transforma o homem em consumidor de mercadorias e não mais de coisas úteis. Neste processo ele se reifica, degrada-se, produz mais miséria humana à medida que produz mais riqueza, se estranha ao afastar-se da sua essência humana e fetichiza-se ao fazer o produto do seu trabalho perder em essência e ganhar em aparência. É neste contexto que a luta operária torna-se importante na teoria marxista, no sentido de se contrapor “à lógica da acumulação do capital e do sistema produtor de mercadorias” (Antunes, 1995, p. 86). Deste modo, o trabalho que produz vida e humaniza o homem seria incompatível com a sociedade capitalista, sendo necessário construir outro modelo social para a sua afirmação.
É, portanto, a partir dos argumentos apresentados acima que diversos autores têm apontado as contribuições das teorias marxista e webberiana para se pensar a centralidade do trabalho no contexto do desenvolvimento do capitalismo10, e a noção de uma sociedade do
trabalho. Contudo, como vimos na teoria marxista que o trabalho como ato criativo se
deteriora, torna-se alienado. Com isso, a noção de uma sociedade do trabalho que teria o
10
Apesar das teorias de ambos os autores contribuírem para noção de centralidade do trabalho na vida humana, é preciso ressaltar que os mesmos propuseram interpretações sobre o desenvolvimento do capitalismo na Europa que, como aponta Giddens (1998), alguns teóricos irão dizer que o pensamento de Weber consiste em uma refutação do pensamento de Marx e outros argumentarão que Weber se encaixaria no pensamento marxiano. Giddens, neste sentido, afirma que a relação dos pensamentos de Weber com relação a Marx não pode ser taxada apenas como de confirmação ou de refutação, pois as idéias webberianas tanto destroem quanto resgatam o pensamento marxista.
trabalho como um dos princípios organizativos das estruturas sociais (Offe, 1989) passou a sofrer diversas críticas a partir de meados do século XX. Essas críticas dirigiram-se, sobretudo, à idéia do trabalho enquanto uma categoria social estruturante nas sociedades contemporâneas, pois não seria possível a todos terem um trabalho enriquecido em seus sentidos e significados (Borges & Yamamoto, 2010).
Autores como Offe (1989) e Gorz (1982) foram enfáticos em afirmar a perda da centralidade do trabalho para vida humana, colocando em xeque a sociedade do trabalho e apontando dúvidas se o trabalho ainda poderia ser considerado uma categoria apropriada para descrever uma determinada sociedade. Offe (1989), por exemplo, aponta que do ponto de vista sociológico os dois mecanismos que garantem ao trabalho o papel principal na organização da existência pessoal, a saber – “no nível da integração social, o trabalho pode ser normativamente sancionado como um dever, ou no nível da integração sistêmica, pode ser colocado como uma necessidade” – passaram a ser contestados pelas novas evidências do mundo do trabalho. Segundo o autor, o primeiro mecanismo foi questionado pela desintegração do dever humano ético diante de três fatores: a erosão das tradições culturais e religiosas; o crescimento do hedonismo centrado no consumo; e a impossibilidade da ética do trabalho sustentar-se no pressuposto de pessoas reconhecidas e moralmente atuantes, algo difícil de ser satisfeito no contexto contemporâneo. O segundo mecanismo, que aborda a condição de sobrevivência física dos indivíduos, o autor argumenta que o aumento da renda dos trabalhadores não tem levado necessariamente a efeitos positivos motivadores, incentivando, ao contrário do que se esperava, limitadamente na quantidade e na qualidade dos esforços no trabalho. No caso do sentimento de não-utilidade do trabalho, ele identifica que o aumento deste está associado ao declínio da satisfação do trabalhador. É neste contexto, portanto, que Offe (1989) vai apontar o trabalho como objetivamente disforme e subjetivamente periférico na sociedade contemporânea. As fraturas sofridas pelo trabalho assalariado, o trabalho massivo em serviços e a destituição da classe trabalhadora, levaram, deste modo, a destituir do trabalho o poder irradiador da vida humana.
Antunes (1995) analisa que as transformações sofridas pelo mundo do trabalho no interior das sociedades capitalistas durante os séculos XVIII, XIX e XX levaram a essas críticas que, associadas a outras, previam o adeus ao trabalho. Este tem sido um autor expoente no contexto brasileiro no questionamento da apregoada perda da centralidade do trabalho como estruturador da sociedade. Ele tem defendido, ao contrário da idéia de perda, um processo intenso de transformações ocorrido no universo do mundo do trabalho contemporâneo, o que não elimina do trabalho a sua centralidade na vida dos indivíduos.
Antunes (1995) e outros autores (Antunes & Alves, 2004; Borges & Yamamoto, 2010; Morin, Tonelli & Pliopas, 2007; Navarro & Padilha, 2007; Tolfo & Piccinini, 2007) vêm apontando, portanto, que mesmo diante das transformações sofridas pelo capitalismo globalizado o trabalho continua a ser um categoria que estrutura e dá sentido à vida dos indivíduos.
Antunes (1995) examina que o erro dos críticos à centralidade do trabalho foi o de desconsiderar a dupla dimensão do trabalho – abstrato e concreto – e identificar a crise vivida pela sociedade do trabalho abstrato como a crise da sociedade do trabalho concreto. Para entendermos melhor essa afirmação do autor faz-se necessário, portanto, apontar os principais elementos dessa crise do trabalho abstrato (Antunes, 1995; Antunes & Alves, 2004):
- redução do proletariado industrial, fabril, tradicional, manual, estável e especializado; o que aponta para a mudança de configuração da classe trabalhadora na atualidade;
- aumento do novo proletariado fabril e de serviços, com modalidades de trabalho precarizado: são os terceirizados, subcontratados, informalizados, temporários, etc;
- aumento significativo do trabalho feminino, porém com uma inserção feminina realizada ainda de forma desigual em relação aos homens;
- expansão dos assalariados médios nos setor de serviços; - exclusão dos jovens do mercado de trabalho;
- exclusão dos trabalhadores considerados idosos;
- crescente expansão do trabalho no chamado terceiro setor; - expansão do trabalho em domicílio;
- a configuração do mundo do trabalho de modo transnacional.
Voltemos ao que defende o autor. Ele examina, neste sentido, que é um grande equívoco identificar na transformação da classe trabalhadora, das relações de trabalho, dos modelos de gestão (a passagem da fase taylorista-fordista para a fase do toyotismo) e no fato do trabalho vir se transformando em alienado, fetichizado e estranhado; o fim da sociedade do trabalho abstrato e, em conseqüência disso, o fim da sociedade do trabalho concreto. Para ele, o fim do trabalho abstrato só é possível com o fim do capitalismo, mas nem com o fim desse modelo de sistema econômico o trabalho concreto é eliminado. Para o autor, o trabalho concreto permanece “como momento primeiro de efetivação de uma individualidade omnilateral, condição sem a qual não se realiza a dimensão do gênero-para-si” (p. 80). Em artigo mais recente, Antunes (2009) volta a defender a centralidade do trabalho em meio à fase toyotista-flexibilizada, que mescla informatização com informalização do trabalho. Contudo, seu discurso apresenta um tom pessimista perante as transformações vivenciadas nessa fase:
As consequências são fortes: nesta fase de desmanche, estamos presenciando o derretimento dos poucos laços de sociabilidade que foram vigentes na era taylorista e fordista, sem presenciarmos uma ampliação da vida dotada de sentido, nem “dentro” e nem “fora” do trabalho. A vida se consolida, cada vez mais, como sendo desprovida de sentido no trabalho e, por outro lado, estranhada e fetichizada também “fora” do trabalho, exaurindo-se no mundo sublimado do consumo (virtual ou real), ou na labuta incansável pelas qualificações de todo tipo, que são incentivadas como antídoto (falacioso, por certo) para não perder o emprego daqueles que o tem.
É por isso que estamos presenciando uma desconstrução do trabalho sem precedentes em toda era moderna, ampliando os diversos modos de ser da precarização e do desemprego estrutural. Resta para a “classe-que-vive-do-trabalho” oscilar, ao modo dos pêndulos, entre a busca de qualquer “labor” ou a vivência do desemprego. (p. 132)
Reconstruímos aqui três argumentos: o da centralidade do trabalho que pode ser pensado a partir das teorias marxista e webberiana sobre o papel do trabalho no desenvolvimento do capitalismo, o da perda da centralidade do trabalho no contexto de desenvolvimento do capitalismo, e, por fim, o da reafirmação da centralidade do trabalho em uma fase de mundialização do capital. Compreendemos que este debate tem se dado em um campo marcado pela multiplicidade acadêmica, onde diversos intelectuais têm buscado dar sentido às inseguranças vivenciadas pelos indivíduos em um mundo contemporâneo marcado pela modificação radical do modelo industrial (Crespo, Prieto & Serrano, 2009). Fim da sociedade do trabalho, sociedade de risco e sociedade fluida são, segundo estes autores, marcos metafóricos que permitem dar sentido a essa insegurança. É neste contexto que eles afirmam que tem se processado importantes transformações no sentido do trabalho, na noção de cidadania e na subjetividade mesma dos sujeitos trabalhadores. Angústia, incerteza e insegurança são os sentimentos, portanto, vivenciados pelo sujeito contemporâneo quando este reflete sobre seu futuro ocupacional, sobre a sua própria existência. O contexto contemporâneo torna-se signatário de diversos discursos e ideologias em torno da afirmação do trabalho como estruturador da vida e das relações humanas, e, também, daqueles que propõem o deslocamento da importância do trabalho para a comunicação, por exemplo, como o fundamento das interações humanas. Em se tratando de discursos e perspectivas em disputa na interpretação da realidade, o que presenciamos é a centralidade do trabalho fortemente arraigada no pensamento contemporâneo, fazendo os sujeitos e as relações sociais tomarem o trabalho como preocupação que molda as consciências e as práticas sociais.
Identificamos que tais mudanças vêm acompanhadas da produção de novos sentidos sobre o trabalho, sendo este um dos elementos que tem incentivado diversos pesquisadores a se debruçarem sobre os significados do trabalho para os indivíduos (Borges & Yamamoto, 2010). Neste sentido, iremos apresentar a seguir nosso entendimento no que se refere aos significados atribuídos pelos indivíduos ao trabalho no mundo contemporâneo. Nossa pesquisa não é sobre significados do trabalho, mas dialoga diretamente com este tema – como
iremos apresentar no capítulo de análises, e, por isso, nossa revisão teórica sobre este assunto será bastante sucinta.
Um dos nossos interesses nesta pesquisa volta-se para a compreensão dos significados que os atores – jovens e representantes das instituições de aprendizagem profissional, possuem acerca do trabalho. Por meio de perguntas que giram em torno dos “objetivos do trabalho” visto pelos representantes das instituições para a vida dos jovens, e por estes em suas próprias vidas, foi possível identificar valores, idéias e noções que nos remetem a esse contexto macrossocial de análise – o trabalho como dever, obrigação, integração social e satisfação pessoal, que foi discutido anteriormente. De modo complementar, também estiveram presentes concepções que se referem a um contexto microssocial, onde há a incorporação de noções coletivas e a construção de significados individuais sobre o trabalho relacionadas a um determinado contexto.
Borges e Yamamoto (2010) apontam que o afloramento dos estudos sobre o significado do trabalho foi incentivado
(1) pelas polêmicas em torno do papel estruturante do trabalho; (2) pelo surgimento de novos modelos de gestão e de organização do trabalho, pondo ênfase em cognições e em competências complexas, bem como nas emoções; (3) pelas mudanças nas relações de trabalho principalmente no que concerne ao desmantelamento da organização trabalhista (sindical); (4) pelo crescimento do setor de serviços e (5) pelas mudanças epistêmicas na Psicologia, que ampliaram a atenção à construção de significados ou sentidos. (p. 250)
Neste campo de estudos, os autores distinguem dois níveis distintos de análise: um societal (ou macro) – neste “focaliza-se a construção sócio-histórica do trabalho enquanto uma categoria social. Exemplos são análises sobre a ideologia do trabalho e sobre o papel do trabalho na estrutura social” (Borges & Yamamoto, p. 250); e outro que segue do nível pessoal ao ocupacional. Os autores chamam atenção para o fato da Psicologia, historicamente, ter desenvolvido seus estudos focando o segundo nível de análise. Neste sentido, eles apontam a necessidade dos estudos produzidos por esta área do conhecimento articularem os diferentes níveis de análise, uma vez que eles são dialeticamente inseparáveis, sendo que o societal pode estar presente nos níveis pessoal, interpessoal e ocupacional. As ideologias do trabalho representam o pensamento elaborado e articulado coletivamente, no nível societal, e oferecem definições para todas as facetas do significado do trabalho. Este, portanto, para os autores pode ser compreendido como “uma cognição subjetiva e social. Varia individualmente, na medida em que deriva do processo de atribuir significados e, simultaneamente, apresenta aspectos socialmente compartilhados, associados às condições
históricas da sociedade. É, portanto, construto sempre inacabado.” (Borges & Tamayo, 2001, p. 13). Assim, a centralidade do trabalho pode ser apreendida em um nível macro