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Genel Kanun Niteliği

Compreender as formas como têm sido estabelecida a relação entre as discussões sobre a juventude pobre, as políticas de trabalho e emprego dirigidas a ela e o debate sobre a questão da desigualdade social brasileira, tudo isso atravessado pelos posicionamentos e experiências vivenciadas pelos jovens nos programas de formação profissional, é o que buscamos contribuir com a realização deste trabalho para o nosso campo de estudos em psicologia social. Indagamos, nesse sentido, em que medida os dois primeiros temas encontram-se articulados ou não com o terceiro, e o que tem surgido como respostas/saídas a partir disso.

Sinalizamos no tópico anterior que o debate sobre a juventude pobre tem levado em consideração apenas aspectos econômicos em sua tematização, não avançando para outras dimensões de análise. Essa prevalência da dimensão econômica tem sido reforçada pela influência de determinadas perspectivas compartilhadas na contemporaneidade, como o liberalismo, que prima pelo econômico no desenvolvimento das sociedades. Isto nos mostra a sobrevalorização da dimensão econômica presente nas leituras sobre a realidade social brasileira, o que torna invisíveis dimensões que podem ampliar o entendimento do que representa pertencer a um grupo em situação de opressão econômica e sociocultural, e que pode conduzir de maneira insidiosa ao entendimento de que resolver as deficiências econômicas é o suficiente para solucionar o lugar social de deslegitimação ocupado por determinados grupos sociais no Brasil. Verificamos, nesse sentido, que a ênfase da discussão sobre a desigualdade social tem recaído na sua dimensão econômica, e é sobre ela que discutiremos, primeiramente, antes de apontarmos um segundo viés interpretativo.

2.2.1 A desigualdade social brasileira: aspectos econômicos

Se a produção de periferias pode ser considerada um dos mais pungentes produtos da desigualdade social no Brasil, a má distribuição da renda no país tem sido o aspecto privilegiado para a explicação desse fenômeno. A distribuição desigual da renda é efeito da concentração da maior parte do montante de capital disponível nas mãos de uma parcela privilegiada da população, que goza das vantagens e oportunidades dadas a ela, enquanto outros grupos da sociedade vivenciam situações de exclusão e condições mínimas de dignidade e exercício da sua cidadania. Como apontam Barros, Henriques e Mendonça (2000) esse quadro social se dá em um país que não é pobre, mas que tem um grande número de pobres e que mantém um dos maiores índices mundiais de desigualdade na distribuição de renda entre os cidadãos. O problema da pobreza não é, portanto, da escassez de recursos e sim da sua (má) distribuição entre os indivíduos. Para esses autores a pobreza é analisada na sua dimensão de insuficiência de renda, podendo ser compreendida como uma situação em que encontram-se ausentes recursos econômicos necessários para satisfazer as necessidades básicas, como alimentação, vestuário, habitação e transporte. A linha da pobreza corresponde, nesse modelo de entendimento, à medida econômica per capita necessária para satisfazer

essas necessidades, sendo considerados pobres, portanto, aqueles que possuem o per capita inferior ao limite para a sua satisfação.

Qual é a magnitude da pobreza e da desigualdade de renda que fazem parte da história do nosso país e que, por isso, tomam status de coisa natural (Barros, Henriques & Mendonça, 2000)? Do ponto de vista econômico, como ela tem se apresentado e quais os principais pontos levantados para o seu enfrentamento?

Em artigo datado do ano 2000, estes autores apontam o seguinte quadro de injustiça social no Brasil: a) nosso país – naquele momento – só perdia para a Malawi e África do Sul no índice Gini de desigualdade da distribuição da renda (índice que mede a distância entre a renda média dos mais ricos e a renda média dos mais pobres); b) a renda média dos 10% mais ricos representava vinte oito vezes a renda média dos 40% mais pobres; c) os 10% mais ricos do país se apropriavam de 50% da renda nacional e, de modo especular, os 50% mais pobres detinham 10% da renda disponível; d) e o 1% mais ricos da sociedade retinham a renda superior equivalente aos 50% mais pobres da população. Naquele contexto, os autores apontavam o incômodo com o grau de estabilidade da desigualdade de renda no Brasil nas últimas décadas, indicando como superação para esse quadro a combinação de políticas de crescimento econômico – até então privilegiadas – com políticas de distribuição mais igualitária da renda, mostrando a magnitude da pobreza ser mais sensível a essas políticas.

Seis anos depois, em 2006, Barros, Carvalho, Franco e Mendonça (2006) anunciam que desde 2001 o nível de desigualdade caiu consideravelmente, mesmo que não representasse a maior e mais prolongada redução das últimas três décadas. Apesar do declínio identificado, o nível de desigualdade ainda persistia elevado, porém, com um aumento verificado nos rendimentos recebidos pelos pobres, vindo estes avaliar que estavam vivendo em um país de alto nível de desenvolvimento econômico, enquanto os ricos percebiam que estavam vivendo em um país que enfrentava uma grave crise. Essa maior apropriação da renda nacional por parte dos pobres também é apresentada por Hoffmann (2006). De acordo com o autor, a renda apropriada pelos 10% mais ricos da sociedade passa de 47,2% em 2001 para 45% em 2005. Se em 2001, o 1% mais ricos acumulavam 13,8% da renda nacional e os 50% mais pobres o equivalente a 12,7%, em 2005 esses valores alternam para 12,9% (1% mais ricos) e 14,2% (50% mais pobres). Verifica-se, assim, que os mais pobres no Brasil ficaram menos pobres e os mais ricos ficaram menos ricos, sendo possível dizer sobre a existência de menos pobres e menos ricos no nosso país. Para complementar esse ciclo de mudanças, Pochmann (2009) aponta que de abril de 2004 a março de 2009 o número de pobres no Brasil diminui em 4,8 milhões de pessoas.

Diante de um quadro de redução da desigualdade econômica – mesmo que ainda elevada – os autores consultados têm procurado identificar os determinantes que explicam esta queda. Barros e et al. (2006) enfatizam que na redução da pobreza a diminuição da desigualdade na distribuição dos recursos apresentou um impacto maior do que o crescimento econômico do país, e sugerem que o crescimento econômico desassociado da diminuição do nível de desigualdade na distribuição da renda levaria infindáveis anos, se comparados à potencialidade dessa segunda medida, para eliminar a pobreza no Brasil. Na análise da contribuição dos determinantes da renda per capita da família na redução do nível de desigualdade econômica, os autores indicam que a distribuição da renda por trabalho do trabalhador foi a contribuição mais relevante para explicar a queda da desigualdade per capita do período. Conforme sinaliza Hoffmann (2005), apesar da importância dos programas oficiais de transferência de renda no combate à pobreza, estes participaram com cerca de 10 a 20% na redução da desigualdade social. Nesse sentido, fica a observação de que o declínio no nível de desigualdade econômica foi o resultado de esforços que conjugaram maior distribuição das remunerações, evolução da renda não-derivada do trabalho, melhor qualificação dos trabalhadores e melhor distribuição da qualidade dos postos de trabalho, o que coloca o mercado de trabalho na linha de frente como um agente importante no enfrentamento da pobreza no Brasil.

Ainda sobre a produção da desigualdade social, Ferreira e Litchfield (2000) discutem que esta não tem um determinante único, mas que a educação continua sendo a variável de maior poder explicativo. Para eles o mercado de trabalho cumpre o papel de amplificar a desigualdade educacional, ao transformá-la em desigualdade de renda. Diante disso, os esforços deveriam se voltar para uma melhor distribuição das oportunidades educacionais, que se dá dentro de um campo de lutas de classes, a fim de gerar maior poder político para intervenção desse quadro.

Esta é a dimensão econômica da desigualdade social brasileira. Ela não pode ser desconsiderada e nem reduzida em sua importância, contudo, também não pode ser usada como a chave explicativa para solucionar o cotidiano de privação material e exclusão social enfrentado por determinadas parcelas da população brasileira. É necessário fazer uso de outras chaves explicativas que nos permitam entender o fato de inúmeras pessoas ultrapassarem a linha da pobreza ou entrarem para a dita classe média (onde o poder de consumo é maior) e mesmo assim continuarem sendo vistas como cidadãos de segunda categoria; ou até mesmo porque em muitos países da Europa o fato de trabalhar em serviços braçais e ter baixos rendimentos não é transformado em critério de exclusão do direito à cidadania e à dignidade

como gente, como cidadãos europeus. Isso nos indica que na nossa sociedade ser cidadão de primeira categoria não é uma condição com alcance para toda a sociedade, e que isso se encontra articulado a um sistema de disposições culturais que ultrapassam a dimensão econômica, sendo esta apenas um dos seus elementos.

Compreendemos, nesse sentido, que as desigualdades entre pobres e ricos, e os privilégios e restrições vivenciadas por esses grupos, são produzidos e reproduzidos dentro de um sistema social de relações que separa os indivíduos por habitus de classe compartilhados, dando origem a lugares sociais, visões de mundo e possibilidades de ação socialmente determinados. Reorientamos, assim, o epicentro da análise da desigualdade social dos fatores econômicos para a compreensão de um sistema sociocultural que separa de modo hierárquico os indivíduos em diversos estratos sociais, sendo o mais baixo de todos o de uma ralé de pessoas sem valor (Souza, 2009). Ser jovem pobre não se trata, portanto, de partilhar apenas de uma condição econômica específica, mas de um não-lugar socialmente determinado também por disposições morais e formas de agir no mundo.

2.2.2 A desigualdade social brasileira: aspectos socioculturais e morais

Souza (2005) examina que só é possível compreendermos a singular produção da desigualdade social brasileira se levarmos em conta um quadro de referência teórico amplo, inclusivo e totalizador, no qual seja explicitado a especificidade do nosso processo de modernização que gera o quadro de naturalização da desigualdade social. O autor faz uma crítica às abordagens sociológicas que analisam o nosso contexto social a partir da lógica de resíduos pré-modernos onde se articulam personalismo, familismo e patrimonialismo numa perspectiva essencialista culturalista, que se ampara no binarismo favor/proteção e no

fetichismo da economia, a partir do qual o crescimento econômico é visto como capaz de

resolver todos os problemas sociais (Souza, 2006). Ao contrário das heranças pré-moderna e personalista, ele analisa a constituição da nossa modernidade como periférica, produto de um processo de modernização que se implanta no país desde o início do século dezenove e que se vincula a um processo de importação, do centro para a periferia, das instituições fundamentais do racionalismo ocidental, enquanto artefatos prontos: o mercado capitalista com seu arcabouço técnico e material, e o Estado racional centralizado com seu monopólio da violência e do poder disciplinador. Nesse sentido, mercado e Estado legitimam a ordem social

vigente e são perpassados por hierarquias valorativas implícitas e opacas à vida cotidiana que tornam natural a desigualdade social. Para explicar a produção da desigualdade social brasileira como opaca, invisível e intransparente à consciência cotidiana, o autor vai articular as teorias de Charles Taylor e Pierre Bourdieu de modo complementar: unir a noção de uma hierarquia moral subjacente ao racionalismo ocidental – que se ancora de modo opaco à eficácia das duas mais importantes instituições do mundo moderno (mercado e Estado), com uma noção de estratificação social que combina aspectos econômicos e socioculturais, e vincula a situação de classe a uma condução de vida específica (Souza, 2005, 2006).

Por ser uma noção importante neste trabalho a idéia de classe, a partir do autor citado, não será compreendida em sua concepção exclusivamente econômica – que tem enfrentado diversas críticas diante do seu reducionismo – mas enquanto uma concepção sociocultural, ao vincular-se a fatores extraeconômicos, existenciais e políticos, subliminares e subconscientes, que orientam a essa condução de vida específica, em que os indivíduos apresentam modos de vida, valores, gostos, interesses e formas semelhantes de agir no mundo, sem que a renda seja o elemento definidor dessas escolhas determinadas socialmente. A classe refere-se ao que o autor chama de uma construção afetiva, uma natureza construída socialmente que faz com que uma mesma visão de mundo seja compartilhada.

Como sinalizado anteriormente, o conceito de habitus de classe, também, pode ser considerado uma referência importante na compreensão da nossa desigualdade social, em seu fundamento extraeconômico. O conceito de habitus do sociólogo Pierre Bourdieu (2007) é parte integrante do seu arcabouço teórico que tenta evidenciar a presença de uma estrutura subjacente ao social, em que a vontade e as escolhas dos agentes são determinadas socialmente por estruturas objetivas. Os agentes, nesse sentido, constituem a realidade social dentro de uma estrutura socialmente constituída, o que evidencia um processo em que as estruturas sociais e as práticas dos agentes constituem e são constituídas continuamente. Isso marca o lugar de Bourdieu entre as posições mais radicais do subjetivismo – onde os sentidos da ação do sujeito não dizem respeito ao contexto social, e do estruturalismo – no qual as estruturas sociais são estáveis e determinantes da conduta, eliminando com isso a história do indivíduo. A noção de habitus permite pensar esse meio termo entre as estruturas que são construídas socialmente e que ao mesmo tempo constituem as práticas dos agentes. O habitus, portanto, é entendido como um conjunto de disposições ou uma matriz determinada pela posição social do agente, que conforma estilos de vida, escolhas e oportunidades, modos de ver o mundo e de pensar sobre ele, seus julgamentos morais e políticos, suas afinidades

estéticas e seus gostos, e as formas de agir dos agentes em determinadas situações (Bourdieu, 2007).

É no livro A distinção: crítica social do julgamento que Bourdieu (2007) busca mostrar a forma como as práticas culturais dos agentes são compartilhadas dentro de uma estrutura de classes, dentro da qual o gosto une e separa, classifica como erudito ou popular, fazendo-se depender da transmissão do capital disponibilizado pelo sistema escolar e pela herança familiar aos agentes. Estas duas instâncias – instituição escolar e família – estão na base, portanto, da distinção, pois fornecem as competências que sinalizam o lugar social dos agentes no mundo. Esse lugar ocupado pelo agente no espaço social vai depender do montante de capital manipulado nas práticas culturais. Além do capital econômico, Bourdieu aponta outros três: capital cultural – corresponde aos conhecimentos intelectuais produzidos e transmitidos pela família e pela instituição escolar; capital social – diz respeito à rede social de contatos e relacionamentos do agente; e capital simbólico – corresponde ao prestígio e à honra como resultantes dos demais capitais. Estes capitais encontram-se desigualmente distribuídos na sociedade e dão origem às lutas entre os agentes, que intentam impor sobre os outros seu habitus como mais legítimo socioculturalmente. Dá-se, deste modo, o processo de dominação simbólica entre as classes, em que determinados sistemas de habitus são considerados mais cultos/eruditos e representantes das classes dominantes, em contraposição a sistemas de habitus vulgares, partilhados pelas classes populares da sociedade.

Um aspecto importante a ser apontado por Bourdieu em relação ao habitus é o fato deste ser aprendido socialmente na relação entre os agentes, ou seja, sua internalização se dá em meio ao processo de socialização. O habitus é, neste sentido, história individual e história social no agente, permitindo a este um nível de liberdade, mesmo que dentro de um sistema socialmente determinado, em que é possível mudar o destino pessoal, mas não o da sua classe como um todo. Essa possibilidade de negar o futuro do seu habitus de classe vai se dar em um campo de disputas com outras classes, na luta pelo domínio dos privilégios e dos capitais que conferem honra e prestígio a determinados grupos, e a outros o lugar de desclassificados de acordo com suas práticas culturais e gostos partilhados.

A esta noção de que já nascemos inseridos em um determinado sistema de gostos e preferências socialmente compartilhadas, que nos classifica como mais ou menos eruditos, mais dignos ou não de prestígio social – e, neste sentido, nosso corpo e nossa mente são ao mesmo tempo sujeito e objeto de práticas sociais orientadas por esta condução da vida específica, e que nos permite constituir laços de solidariedade e de preconceito (Souza, 2005) – este autor vai associar a idéia [apoiado nos argumentos do filósofo Charles Taylor] de que,

no ocidente, a noção de reconhecimento social tem fundamentado-se na possibilidade do compartilhamento de uma determinada estrutura psicossocial (Souza, 2006). O mesmo vai buscar em Taylor, então, os fundamentos da expansão de um tipo humano ideal e homogêneo, e da configuração de uma hierarquia valorativa implícita ao racionalismo ocidental, cuja importação do centro para a periferia dá origem a classificação entre cidadãos e subcidadãos em sociedades como a brasileira.

Souza (2003) apreende de Taylor o que ele considera que falta em Bourdieu: uma compreensão dos processos coletivos de aprendizado moral que ultrapassam as barreiras de classe. A partir de Taylor8, o referido autor apresenta a singularidade no mundo moderno das questões culturais, morais e simbólicas, que pode ser traduzida em uma genealogia da hierarquia moral subjacente ao racionalismo ocidental (Souza, 2005). Na apresentação do novo sujeito moral – self pontual – forjado no ocidente, Taylor aponta as contribuições de Platão, Santo Agostinho, Descartes e Locke na construção de uma noção de razão calculadora e distanciada, e da vontade como auto-responsabilidade (Souza, 2006), que passou a dominar a vida prática dos homens a partir da reforma protestante. Segundo Souza (2005), a nova noção ocidental hegemônica de virtude que passa a orientar a vida cotidiana pode ser assim resumida: “controle da razão sobre as emoções e pulsões irracionais, interiorização progressiva de todas as fontes de moralidade e significado e entronização concomitante das virtudes do autocontrole, auto-responsabilidade, vontade livre e descontextualizada e liberdade concedida como auto-remodelação em relação a fins heterônomos” (p. 65). Para o autor, está em jogo uma revolucionária hierarquia social – não mais baseada na sacralidade de certas funções – pautada na noção tayloriana de self pontual: “uma concepção contingente e historicamente específica de ser humano, presidido pela noção de calculabilidade, raciocínio prospectivo, auto-controle e trabalho produtivo como os fundamentos implícitos tanto da sua auto-estima quanto do seu reconhecimento social” (Souza, 2006, p. 30).

A partir da teoria tayloriana, Souza (2009) examina que as duas questões mais centrais do mundo moderno, a partir das quais os indivíduos podem obter autoestima, reconhecimento e distinção social são: o princípio da dignidade – o mundo do trabalho cotidiano torna-se “condição moderna de vida disciplinada e pacificada, na dimensão em que se trava toda a luta por respeito, reconhecimento social e distinção e prestígio social diferencial de todos os indivíduos e de todas as classes sociais” (p.394); e o princípio do

8

O livro referência de Taylor utilizado por Souza em suas reflexões é As fontes do self: a construção da

expressivismo – “a possibilidade de perceber, compreender e viver a vida de acordo com nossas inclinações emotivas e sentimentais mais íntimas” (p.394). De acordo com o autor, constituir-se como indivíduo no mundo moderno passa, portanto, pelas possibilidades de ter um trabalho produtivo e útil que proporciona o sentimento de dignidade, e expressar as próprias inclinações emotivas, o que permite o sentimento de felicidade. Assim, são essas as virtudes que aquilatam o valor diferencial dos seres humanos, da posse delas depende o reconhecimento social. Contudo, tais virtudes não foram homogeneizadas para todas as classes sociais de todas as sociedades do mundo ocidental, muito menos para a sociedade brasileira onde nunca houve um esforço para a sua equalização entre as classes. Porém, sempre esteve presente o discurso de entender a não aquisição dessas virtudes como uma

segunda natureza, como óbvia e dada, e não como um processo socialmente construído.

Para aprofundar a idéia de que a desigualdade social brasileira tem em seus pilares a importação de um modelo universal e hegemônico de economia emocional – o ser humano racional, digno e produtivo – que não foi homogeneizado em todas as sociedades ocidentais, especialmente a brasileira, mas que serve de parâmetro para a distinção entre as classes sociais, Souza (1999) nos apresenta as proximidades entre os argumentos dos sociólogos Norbert Elias – a partir do seu estudo sobre o processo civilizador ocidental e de Max Weber – com base na construção do racionalismo ocidental. Para o autor, o mais importante paralelo que pode ser feito entre as obras desses pensadores está no lugar ocupado pelo controle dos