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D. Kanun Yolları

XI- GÜRÜLTÜ

Nosso problema de pesquisa aborda os posicionamentos construídos por jovens em relação às políticas públicas de trabalho e emprego das quais eles participam. Para produção de um pensamento crítico, pretendido por esta pesquisa, optamos por contextualizá-lo através da discussão de diversas questões relacionadas aos temas da juventude pobre, do trabalho e das políticas públicas juvenis de trabalho e emprego. Contextualizar e apontar desenvolvimentos sociohistóricos que conformam lugares sociais, interesses e objetivos específicos, foram os objetivos dos dois primeiros capítulos. A relação entre juventude pobre e trabalho foi desnaturalizada ao tomarmos esta parcela da juventude como um campo de intervenção social, dentro do qual o trabalho tem sido usado em uma relação de ambiguidade entre garantia de direitos sociais e oportunidades de salvação da juventude pobre. O problema social da juventude pobre passa a ser administrado pelo Estado, e por outros atores da sociedade, tendo o trabalho como seu mediador, com vistas a preparar os jovens pobres para ocupar o lugar dos adultos e resguardar a reprodução dos valores hegemônicos da nossa sociedade. A noção de campo de intervenção social é defendida, portanto, não como uma novidade, mas como uma ambígua permanência em um contexto social em que outros valores dizem orientar as intervenções sociais voltadas para o público juvenil.

Apresentamos ao longo desta dissertação nossas preocupações em lidar com um problema de pesquisa complexo e que envolvia diversos atores: o Estado, as instituições de aprendizagem profissional, os representantes das instituições e os jovens que participam dos programas. Levantar conclusões sem levar em conta esta complexidade e o contexto que marca a realização desta pesquisa nos parece, portanto, arriscado. Como apontamos nos Capítulos 3 e 4, a produção de conhecimentos nesta pesquisa deu-se numa perspectiva de interação dialógica entre pesquisador e pesquisado, sendo que as análises construídas devem ser tomadas levando-se em consideração a localização desse saber. As conclusões deste trabalho são, neste sentido, parciais e localizadas dentro de um determinado contexto de produção do conhecimento.

A seguir apresentamos como o exercício de fazer conexões entre as informações retiradas das fichas de identificação das instituições e os conhecimentos produzidos através dos procedimentos metodológicos empregados nos permitiu responder aos objetivos pretendidos nesta pesquisa.

As instituições de aprendizagem profissional propõem como objetivo dos seus programas a qualificação profissional do jovem e sua inserção no mercado de trabalho. Elas lidam, portanto, com o trabalho como um direito social do jovem e como uma medida para o combate ao desemprego juvenil. No entanto, a partir da noção naturalizada de jovem carente compartilhada pelas instituições, os programas de aprendizagem têm sido tomados pelos jovens como uma oportunidade oferecida pelas instituições para sua salvação. Configura-se, neste sentido, uma lógica da oportunidade de salvação da carência dos jovens pobres, em que a qualificação profissional torna-se sinônimo de formação humana dos jovens, a despeito de uma formação profissional-técnica. Contudo, como ressaltado em momentos anteriores, não se trata de uma cobrança tecnicista. Na configuração do trabalho da carência dos jovens, além da noção de jovem carente, é preciso, também, levar em consideração a influência de fatores históricos, estruturais e conjunturais. O lugar de carentes dos jovens dentro das instituições exige destas um trabalho de acompanhamento dos aprendizes, contudo, sem construir com eles espaços e canais de participação política no desenvolvimento dos programas.

A maioria das instituições lida com jovens que, por compartilharem de um habitus de classe precário, enfrentam restrições no acesso aos direitos sociais e o capital cultural acumulado pela humanidade. No entanto, as instituições parecem não dialogar criticamente com a nossa desigualdade social, que se reproduz de modo opaco e intransparente à consciência cotidiana. Talvez seja por isso que elas vêm como problemas individuais questões que estão ligadas à origem social dos indivíduos. Contudo, estas instituições se encontram imersas em um contexto de pressões externas do mercado de trabalho, o que torna mais complexa a construção de saídas que rompam com perpetuação da pobreza e a reprodução da desigualdade social.

Os jovens posicionam-se identificando – na relação com as instituições, no ambiente do trabalho e no contato com outros atores da sociedade – os lugares de subordinação ligados à hierarquia geracional e de classe social. Apontam o discurso da salvação compartilhado pelas instituições, proclamado através do “se não fosse a gente”. Nas empresas, eles reconhecem o lugar de exploração por serem aprendizes, e, na cidade, sofrem o preconceito por pertencerem a um habitus de classe socialmente considerado como pobre. No entanto, eles não passivos diante desse quadro de produção de lugares subordinados, pois constroem rotas de fuga dentro da cidade para viverem o tempo da juventude. Ao contrário das instituições, eles identificam de modo crítico que as privações sociais das quais eles compartilham relacionam-se com a herança familiar e cultural dos privilégios sociais.

Em relação aos programas de aprendizagem profissional, os jovens apontam que esperam “algo mais”, que pode ser compreendido como mais formação técnica-profissional, diante do privilégio da formação humana assumida dentro dos programas. O trabalho é significado por eles, principalmente, como capaz de garantir independência e aprendizado. Isso garante que eles percebam determinadas contribuições dos programas de aprendizagem no tempo presente, o que não pode ser dito em relação ao futuro profissional. Este é vivido com insegurança diante das cobranças pessoais e familiares, e parece ser pouco motivado pelas experiências vividas dentro do programa ao não aprenderem de fato uma profissão, não poder construir uma carreira dentro da empresa em que se encontram inseridos, não atuarem no ramo profissional que os interessa pessoalmente e por estarem inseridos em profissões com pouco reconhecimento e prestígio social. Nesta construção dos significados do trabalho encontra-se presente, também, o sofrimento no trabalho. As situações enfrentadas pelos jovens fazem com que eles também sofram subjetivamente, produzindo uma desvinculação com a própria atividade que executam.

Consideramos que algumas discussões podem ser aprofundadas em outras pesquisas, como a questão da avaliação dos impactos e resultados produzidos, qualitativamente e quantitativamente, pela Lei da Aprendizagem sobre as experiências juvenis e sobre o mercado de trabalho para os jovens no Brasil. Acreditamos que esta pesquisa oferece elementos para se pensar o desenvolvimento desta política pública, mas não consideramos que ela seja um estudo sobre a referida lei. Outra questão que nos parece importante aprofundar é a construção da hierarquia moral do trabalho nas modernidades periféricas, como no caso da brasileira, pois de nada parece adiantar produzir trabalhadores mais qualificados profissionalmente, se estamos diante de uma hierarquia valorativa moral das profissões que considera algumas mais dignas que outras. O que precisa ser feito, então? Qual é o esforço a ser realizado para que o trabalho se torne fonte de prestígio social e proteção infra-jurídica da cidadania para um maior número de cidadãos? A solução encontra-se no mundo do trabalho ou em outra esfera da sociedade?

Queremos encerrar este trabalho refletindo um pouco mais sobre este último dilema. Defendemos no final da terceira categoria de análise a importância que os programas de aprendizagem profissional podem ter para os jovens de origem popular, como possibilidade de viverem a independência, o aprendizado pessoal e profissional, e a construção de carreiras profissionais emancipatórias em relação ao habitus de classe que eles pertencem. É a possibilidade de que, de dentro do mercado de trabalho os jovens de origem popular possam construir o lugar de cidadãos dignos de reconhecimento social, uma vez que não herdaram de

suas famílias o capital simbólico permitido pelos capitais cultural, econômico e social. Contudo, isso não altera as lógicas que regulam o mundo do trabalho, pois representa uma saída individual, a da mobilidade social dentro desse sistema. É preciso, neste sentido, interpelar este sistema social que reproduz a hierarquia moral do trabalho, pois ela contribui para a diferenciação entre os cidadãos e subcidadãos nas sociedades modernas periféricas, como a brasileira. Não se trata de romper apenas com as hierarquias presentes no mercado de trabalho entre profissões manuais e intelectuais, mas, principalmente, com as subordinações que elas criam, tidas como inevitáveis, a partir de critérios morais de dignidade/indignidade e utilidade/inutilidade.

Estamos diante, portanto, de um problema que exige o esforço de vários atores. Faz-se necessário reconhecer que a hierarquia moral do trabalho colabora para construção do lugar de carente do jovem pobre, que as instituições envolvidas nesta pesquisa parecem reproduzir. Quem irá assumir o risco de questionar este sistema e produzir respostas emancipatórias? A construção, portanto, de uma qualificação profissional que dialogue com a questão da nossa desigualdade social não pode ser um compromisso apenas das instituições que lidam com a temática do trabalho e emprego para a juventude, mas de toda a sociedade. Saídas mágicas e decretos que mudam o mundo com uma penada (Souza, 2009) não são possíveis. Enquanto não for dado início a uma mudança no pensamento social dominante correremos o risco de continuar a perpetuar a desigualdade social e os lugares sociais produzidos para os jovens pobres.

E qual a parte que nos cabe nesse compromisso? Acreditamos que esta dissertação pode contribuir para produção de conhecimento na interseção entre psicologia e pobreza no Brasil. Como aponta Dantas, Oliveira e Yamamoto (2010), os estudos em psicologia sobre a pobreza no Brasil enfrentam sérias lacunas: a pobreza é estudada apenas em suas consequências, ou seja, ela não é tomada como um fenômeno da sociedade brasileira. O que tem sido produzido é a descrição da população pobre ou a pobreza sendo entendida como geradora de outros problemas sociais. Nosso trabalho rompe, portanto, com esta tendência, pois a pobreza é tomada por nós como um fenômeno histórico e estruturador da sociedade brasileira. Compreendê-la de forma crítica e desnaturalizada a retira do lugar de complemento assumido em outros trabalhos, e a coloca como uma das colunas que sustentam nossa compreensão do problema estudado. Confiamos que, dessa forma, esta dissertação pode contribuir para a produção de teorias e práticas sociais em psicologia social não assistencialistas no que se refere à pobreza no Brasil.

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