C. Hukuka Uygunluk Sebepler
3. Meşru Savunma
Entendendo os jovens pobres dentro desse complexo sistema social que produz representações sociais negativas articuladas em torno dos seus locais de origem e do habitus de classe a que pertencem, nos questionamos a respeito dos objetivos das intervenções sociais realizadas pelo Estado e por outros atores da sociedade no que se refere a essa parcela da
população juvenil. As noções de jovens de origem popular calcadas na violência, na carência e na ausência de objetivação da economia racional do sujeito considerado digno e cidadão, têm orientado que tipo de práticas sobre esses jovens? E, como essas práticas têm contribuído para a produção e reprodução dessas concepções compartilhadas socialmente? O discurso da “salvação da pobreza” por meio das políticas públicas tem gerado intervenções que buscam manter os privilégios sociais e o status quo? Ou estas intervenções têm permitido a esses jovens pobres interpelar o sistema em que se encontram inseridos e construir trajetórias de vida não anunciadas? Estas são perguntas que nos orientam na discussão da juventude pobre como um campo de intervenção social, no qual ONG’s e instituições do terceiro setor têm atuado como uma ramificação do Estado na execução de programas governamentais que visam combater a pobreza, por meio de estratégias de incitamento do indivíduo na resolução dos seus próprios problemas (Tommasi, 2010). A idéia de campo é tomada como “um território delimitado, habitado por pessoas, instituições, dispositivos; um campo de relações, de práticas e interesses em disputa” (Bourdieu, 1992 citado por Tommasi, 2010, p. 03). Neste campo, a juventude pobre pode ser governada, regulada, conduzida e agenciada em suas condutas, conforme aponta a autora.
Algo que temos apontado ao longo desse capítulo é a imensa valorização da juventude como alvo de diversas políticas públicas (Belluzo & Victorino, 2004; Castro & Abramovay, 2002; Corrochano & Sposito, 2005; Kerbauy, 2005; Tommasi, 2005; Tommasi & Bezerra, 2010). A maioria dessas ações tem como foco responder a uma determinada demanda ou problema social vivenciado pelos jovens, ou definido por outros atores da sociedade como um problema dos jovens9. Abad (2003) aponta o Estado como a expressão político-institucional por excelência das relações dominantes de uma sociedade, delegando a ele a autoridade para unificá-la e articulá-la, sendo as políticas públicas um instrumento privilegiado de dominação. Para o autor, a política pública representa aquilo que o governo opta por fazer ou não fazer, frente a uma situação. C. Souza (2006) apresenta outras concepções de política pública a partir de distintos autores: A) um campo dentro do estudo da política que analisa o governo à luz de grandes questões públicas, B) um conjunto de ações do governo que irão produzir efeitos específicos, C) a soma de atividades dos governos que agem diretamente ou por meio de delegação, e que influencia a vida dos cidadãos, e D) decisões e análises sobre política
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Queremos dizer com isso que em alguns casos o foco da intervenção pode ser definido por um outro, como no caso das políticas que focam a sexualidade dos jovens e adolescentes. O outro interpreta a sexualidade dos jovens, principalmente os de origem popular, como exacerbada e de risco, e, assim, transforma-a em uma demanda a ser trabalhada por meio de uma intervenção social. Caso diferente pode se dá com as demandas por trabalho e escolarização, onde os próprios jovens nomeiam-nas como um problema social.
implica responder às seguintes questões: quem ganha o quê, por quê e que diferença faz. Iremos compreender neste trabalho as políticas públicas como “decisões governamentais projetadas para atacar problemas que atingem a vida em comum” (Rocha, 2001, p. 8, citado por Saadallah, 2007, p. 161), diferenciando-as das políticas sociais que “podem ser definidas como uma modalidade das políticas públicas destinadas a garantir as condições básicas de sobrevivência à população, ou seja, os mínimos sociais” (Saadallah, 2007, p. 161). As políticas públicas de juventude podem ser entendidas nesse contexto, portanto, como políticas sociais que visam diminuir as desigualdades sociais vivenciadas por determinadas parcelas de jovens. Essas políticas de juventude não se destinam a todos os jovens, mas apenas àqueles que vivenciam algum tipo de restrição no acesso ao conjunto de direitos sociais disponíveis na sociedade, ou que vivenciam problemas sociais identificados pelo outro como parte de suas experiências.
Apontamos com isso se não é possível reconhecer a maior parte dessas políticas públicas de/para/com a juventude como sendo orientadas à juventude pobre, uma vez que a juventude bem nascida – que herda por meio do seu habitus de classe diversos privilégios sociais – não precisou ou precisa contar, na maior parte das vezes, com o apoio do Estado e de outros atores para viver a sua condição de sujeito jovem. Deste modo, se as políticas públicas visam responder a demandas e problemas sociais específicos que permitem a vida comum, é possível perceber que no campo da juventude o alvo delas tem sido os jovens pobres, pois são eles os mais afetados pela dinâmica da desigualdade social no Brasil e, também, aqueles representados como problema social. É difícil visualizar no contexto brasileiro uma política pública juvenil ou intervenções não-governamentais nessa área em que o recorte principal não recaia sobre os jovens pobres. Neste contexto, tomamos, assim, o histórico das políticas públicas de juventude como a história de intervenções sobre a juventude de origem popular na sociedade brasileira.
Em 1927 foi criado o Código de Menores do Brasil que orientou a formulação de políticas públicas direcionadas aos jovens até o fim da década de 1970, pautando-se em medidas de enquadramento moral e social de crianças e adolescentes, assumindo um caráter desenvolvimentista de formação de adultos aptos ao mundo do trabalho (Castro & Abramovay, 2002). Na década de 1940, conforme as autoras, esta ênfase na formação e qualificação da força de trabalho permitiu a criação de instituições voltadas para a profissionalização desses jovens: em 1942 foram criados o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI, e em 1946 o Serviço Social da Indústria – SESI e o Serviço Nacional de Aprendizado Comercial – SENAC. Porém, a tônica da tutela –
assistência e amparo aos abandonados e infratores – não foi abandonada por parte do Estado, por meio da criação em 1941 do Serviço de Assistência ao Menor- SAM.
Na década de 1950 as autoras analisam que as políticas públicas continuavam direcionadas à profissionalização e ocupação do tempo livre do jovem, atendendo ao espírito desenvolvimentista do crescimento econômico brasileiro daquele período. Assim, o jovem era visto como aquele que deveria ser preparado para servir à sociedade por meio do trabalho. A década de 1960 foi marcada pelos efeitos da ditadura militar e deu origem à visão do jovem como um “infrator em potencial”, especialmente o jovem pobre, que deveria ser reconduzido às malhas do sistema, quanto daqueles que se engajaram em lutas políticas contra o sistema de repressão política (Kerbauy, 2005). É neste contexto que a autora analisa a substituição do Serviço de Atendimento ao Menor - SAM pela Política Nacional de Bem-Estar do Menor – PNBEM, gerida pela Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor – FUNABEM; sustentando a visão do controle e da normatização do comportamento juvenil.
A segunda metade da década de 1970 e os anos 1980 são marcados pelo surgimento de novas representações juvenis em setores populares, nos movimentos populares e nos agrupamentos políticos de esquerda, fazendo com que o controle exercido pelo Estado sofra alterações em seus mecanismos, expandindo-se, sobretudo, para os jovens de setores populares classificados como marginais organizados ou grupos violentos (Castro & Abramovay, 2002). Surge neste período, de acordo com as autoras, a preocupação com as vulnerabilidades máximas de nosso tempo: as drogas, a violência e o desemprego; originado- se proposições normativas de disciplinar tais relações. A década de 1990, marcada pelos ideais da redemocratização, surge com novas propostas para o campo da juventude: a contestação das práticas da Política Nacional de Bem-Estar do Menor – PNBEM e a aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA em 1990. No escopo deste estatuto encontra-se um elemento que irá nortear parte das políticas públicas voltadas à juventude para as décadas seguintes: o conceito de cidadania, visando a sua construção e afirmação por parte do jovem no seio da sociedade brasileira.
Percebemos neste breve histórico que a tônica presente nas intervenções orientadas aos jovens de classe popular foi de cunho assistencialista, controlador e normatizador do comportamento juvenil, seja pelo investimento na profissionalização como uma tentativa de evitar a vadiagem e as práticas violentas, seja pela limpeza urbana daqueles considerados violentos e inaptos para a convivência em sociedade. Neste sentido, é a perspectiva da regulação que prevaleceu implicitamente – pois nenhum ator social assume isso
explicitamente – na criação do Código de Menores, passando pela luta contra as gangues de rua na década de 1990, e que é reatualizada hoje contra a criminalidade nas favelas.
As mudanças introduzidas pelo ECA e pela redemocratização do país exigiram um novo olhar sobre o campo da juventude e dos principais problemas que passaram a afligi-la. Assim, nas últimas décadas o tema da juventude ganhou espaço nas discussões políticas, nos estudos acadêmicos e nas tentativas de resolução das suas demandas. Nestas, os próprios jovens têm sido convidados a participar, a serem protagonistas juvenis, jovens-solução (Tommasi, 2010) na sua comunidade de origem, empobrecida e carente de serviços e recursos suficientes para torná-los cidadãos. A perspectiva em voga, deste modo, nos discursos atuais dos diversos atores sociais é o da emancipação desse jovem, proporcionada pelo desenvolvimento de diversas pedagogias direcionadas ao campo da escolarização, do trabalho, da sexualidade, da participação política, do esporte, da cultura, do lazer, da tecnologia, etc.
É preciso emancipar o jovem pobre, torná-lo liberto de suas escolhas e das condições impostas pelo seu lugar de origem e do seu habitus de classe, ativá-lo para intervir nos problemas sociais dos quais ele compartilha a produção (a violência, a criminalidade, a gravidez precoce). Contudo, nos questionamos a respeito desse discurso atual sobre os jovens pobres, e, especialmente, no que tange às possibilidades de transformação social e emancipação que têm sido colocadas por essas políticas. Não tem sido o protagonismo juvenil um produtor da despolitização dos jovens pobres e da manutenção do status quo (Mayorga & et al., 2010) ao incentivar práticas tuteladas por um outro e que não interpelam a realidade social cotidiana? Não estariam as ações governamentais e não-governamentais contribuindo para o que Santos (2002) denomina como o processo contínuo de sobreposição do pilar da
regulação sobre a tão apregoada emancipação na sociedade moderna? Essas ações permitem
aos jovens pobres em suas práticas cotidianas encontrar fissuras no seu habitus de classe e construir trajetórias individuais que colocam em xeque o nosso sistema social?
O contato com os diversos atores que participaram dessa pesquisa possibilitou pensarmos essas questões direcionadas às políticas de trabalho e emprego hoje direcionadas aos jovens pobres. Como tem sido pensado o trabalho na vida desses jovens? Quais discursos sobre esses jovens e sobre o trabalho têm orientado as atividades das instituições não- governamentais em Belo Horizonte? Como os jovens têm avaliado a experiência de participar de programas de formação profissional? E que respostas esses programas oferecem para o nosso quadro de desigualdade social? A fim de ampliarmos as possibilidades de entendimento dessas questões, no Capítulo 2 iremos abordar como foi se construindo no Brasil o pacto entre
o Estado e as ONG’s no desenvolvimento das políticas públicas de juventude, especialmente no campo das políticas de trabalho. Cabe questionar até que ponto essas instituições do terceiro setor têm sido ramificações do Estado que tem tentado pela via das políticas de trabalho responder aos dilemas da integração social e da continuidade da sociedade no caso dos jovens pobres, seguindo uma lógica de manutenção dos privilégios e das hierarquias sociais.
3. TRABALHO E POLÍTICAS PÚBLICAS DE TRABALHO E EMPREGO PARA