Um olhar abrangente sobre a história do pensamento permite perceber-se que as questões relacionadas com o agir do homem sempre tiveram grande
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“A pretensa distinção entre ética e moral é intrinsecamente confusa e não tem nenhuma utilidade. A pretensa distinção corresponde ao seguinte: a ética seria uma reflexão filosófica sobre a moral. A moral refere-se aos costumes, os hábitos, os comportamentos dos seres humanos, as regras de
comportamento adotadas pelas comunidades”. (MURCHO, D. Ética e moral: uma distinção
indistinta). No mesmo sentido se pronuncia Lima Vaz (1993, p. 14): “a evolução semântica paralela
de moral e ética a partir de sua origem etimológica não denuncia nenhuma diferença entre esses
dois termos, ambos designando fundamentalmente o mesmo objeto, ou seja, o hábito do indivíduo
importância na reflexão dos filósofos. No entanto, na Filosofia clássica, o problema central fixou-se no “ser” (Ontologia) e, na Filosofia moderna, no “conhecer” (Epistemologia).
Abbagnano (2000, p. 989 e ss.) assinala que valor significa “o que deve ser objeto de preferência ou de escolha” e Mora (1991, p. 410) adverte que:
[...] enquanto uns, seguindo inconscientemente certas tendências que podem classificar-se de nominalismo ético, consideram que o valor depende dos sentimentos de agrado ou desagrado, do fato de serem ou não desejados, da subjetividade humana individual ou coletiva, outros admitiram que a única coisa que o homem faz, frente ao valor, é reconhecê-lo como tal e, ainda, considerar as coisas valiosas como coisas que participam, num sentido platônico, do valor.
Desde a Antigüidade, a palavra valor foi usada para indicar a utilidade ou o preço dos bens materiais e a dignidade ou o mérito das pessoas. O uso filosófico do termo só começa quando seu significado é generalizado para “indicar qualquer objeto de preferência ou de escolha”, por volta da segunda metade do século IV a.C., quando os estóicos e epicuristas2, introduzem o termo no domínio da Ética, atribuindo valor aos objetos de escolha moral. Isso porque “eles entendiam o Bem em sentido subjetivo, podendo, assim, considerar os bens e suas relações hierárquicas como objetos de preferência ou de escolha”.
Antes deles, Sócrates, procurando definir as virtudes, desenvolve um intelectualismo ético que identifica o sábio e o homem virtuoso, pois, para ele, conhecer o bem e praticá-lo são a mesma coisa, assim como a maldade provém da ignorância. A noção de valor só suplantou a de bem nas discussões morais do século XIX e, mesmo nessa época, isso aconteceu porque o significado do termo, que ainda era específico do âmbito das atividades econômicas, foi expandido para outras áreas da atividade humana.
Os valores devem, então, ser compreendidos como um ponto de partida e
2 De acordo com Chauí (2003), o estoicismo e o epicurismo são maneiras de pensar que deslocaram
o centro das reflexões filosóficas da metafísica e da política para as questões éticas, sobretudo no que diz respeito à realização subjetiva e pessoal. Essas novas maneiras de pensar se verificaram, principalmente, no período helenístico, em que os tempos, na Grécia Antiga, se tornaram conturbados em virtude das guerras decorrentes da expansão do Império Alexandrino e a conseqüente perda da autonomia das cidades gregas. Diante dos acontecimentos e incapazes de
controlar o que se achava fora de si, certos intelectuais buscaram a serenidade interior, por meio da
rigidez moral, de certo modo, também, por terem sido influenciados pelas filosofias orientais, com as quais entraram em contato.
não, um ponto de chegada. É o ponto do qual se parte para entrar em ação no mundo. Sob esse ponto de vista, um quadro de valores passa a ser o grande filtro de que o ser humano se utiliza, conscientemente, para a construção da realidade. Inoue (1999, p. 31), explicando o sentido de valores, posiciona-se:
[...] E eu passo a modificar todo um quadro de realidade, passo a ver o mundo de uma outra forma a partir de um determinado quadro de valores, que é uma construção integrada. É, principalmente, uma expressão não só dos meus desejos e da minha vontade, mas da minha capacidade de construir a realidade. [...] Esses modelos [esse quadro] que direcionam a minha percepção são modelos sociais, culturais, familiares, pedagógicos, organizacionais, entre tantos outros.
Um quadro de valores constitui-se em uma forma de ver ou entender algo, um modelo de interpretação, um padrão de referência. Quando o ser humano se depara com alguma situação, problema ou qualquer coisa que requeira uma opinião, um ponto de vista, uma decisão, recorre aos quadros de valores que construiu ao longo de sua vivência, de acordo com sua visão de mundo, para interpretar essa situação. Esses quadros são mapas construídos para interpretar e guiar o indivíduo na realidade da vida. No entanto, os valores não são, no sentido em que se diz que as coisas são. O filósofo Garcia Morente (2000, p. 296), embasando-se em Kant, ressalta:
Os valores não são, mas valem. Uma coisa é valor e outra coisa é ser.
Quando se diz de algo que vale, não se diz nada do seu ser, mas diz-se que não é indiferente. A não-indiferença constitui essa variedade ontológica que
contrapõe o valor ao ser. A não-indiferença é a essência do valer (grifos do
autor).
Embora os filósofos e cientistas contemporâneos ainda estejam preocupados em saber mais e melhor sobre as coisas, o mundo, a natureza, o homem e sobre como é que se pode conhecer, sem dúvida o problema fundamental da contemporaneidade é saber quais são os critérios de nossa ação, é saber como se deve “agir”, ou seja, qual a melhor maneira de agir enquanto homens. Por isso, a Filosofia continua buscando fundamentar não só os “juízos de realidade”, mas também os “juízos de valor”.
Assim, juízos de fato (ou de realidade) são aqueles que dizem o que as coisas são, como são e por que são. Eles são proferidos não só na vida cotidiana,
mas também na metafísica e nas ciências. Os juízos de valor se constituem em avaliações sobre coisas, pessoas, ações, experiências, acontecimentos, situações, sentimentos, estados de espírito, intenções e decisões, atribuindo-lhes qualificativos bons ou maus, desejáveis ou indesejáveis.
Eles são proferidos na moral, nas artes, na política, na religião. Os juízos éticos de valor são também normativos, isto é, enunciam normas que determinam como se deve sentir e agir, segundo o critério do que se entende por correto ou incorreto; dizem também o que são o bem e o mal, a felicidade, a liberdade, a solidariedade etc.. (CHAUI, 2003).
Os juízos de fato dizem respeito à dominação da physis (natureza), enquanto espaço da necessidade; os juízos de valor relacionam-se com o ethos (constância no agir que se contrapõe ao impulso do desejo ou oréxis). O ethos eleva o homem sobre a physis, pois se trata de seguir a ordem ética por ele instituída. Assim,
[...] a ética representa a luta do homem pela liberdade, o que implica escolha de ação. A liberdade não é um fato da natureza, não existiu desde tempos imemoriais e está relacionada com uma construção penosa, uma luta contra as paixões mais impulsivas. O homem dá a si mesmo a liberdade, através de um longo processo de formação, que instaura limite, moderação. Somos julgados bons ou maus, conforme regulamos as paixões, uma vez que não temos como cancelá-las. A escolha incide sobre nosso modo de agir diante das paixões (HERMANN, 2001, p. 19).
Essa escolha passa pelo tipo de educação vigente em cada comunidade social e variou através dos tempos, conforme se explicita nos próximos itens.